{"id":69,"date":"2009-08-23T18:06:12","date_gmt":"2009-08-23T21:06:12","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/2009\/08\/arquivo_z_-_mustela_africana_a\/"},"modified":"2009-08-23T18:06:12","modified_gmt":"2009-08-23T21:06:12","slug":"arquivo_z_-_mustela_africana_a","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/2009\/08\/23\/arquivo_z_-_mustela_africana_a\/","title":{"rendered":"Arquivo Z &#8211; Mustela africana, a doninha-amaz\u00f4nica"},"content":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s alguns meses de sil\u00eancio for\u00e7ado por conta de trabalho quase escravo &#8211; espero que meu chefe n\u00e3o leia isso -, o Caapora volta a ativa.<br \/>\nDesde que migramos para o ScienceBlogs, estava pretendendo iniciar uma s\u00e9rie de postagens sobre animais brasileiros desconhecidos do p\u00fablico em geral, criaturas ofuscadas pela fama dos mico-le\u00f5es, araras-azuis, tartarugas marinhas e demais integrantes da chamada  &#8220;fauna carism\u00e1tica&#8221;. Pois bem, nada melhor que retomar as coisas cumprindo promessas do passado. Para inaugurar a s\u00e9rie apresento a voc\u00eas uma doninha que poderia muito bem sofrer de crise de identidade.<br \/>\nEm 1735, o bot\u00e2nico sueco Carl Linn\u00e9 criou um novo sistema de classifica\u00e7\u00e3o e nomenclatura dos seres vivos, o qual agrupava as esp\u00e9cies em ordem hier\u00e1rquica e dava a cada uma delas um bin\u00f4mio exclusivo. Este engenhoso sistema foi capaz de colocar ordem no verdadeiro pandem\u00f4nio que era a taxonomia e a sistem\u00e1tica at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9c. XVIII e acabou sendo t\u00e3o bem aceito por zo\u00f3logos, bot\u00e2nicos e demais estudiosos de tudo o que \u00e9 vivo, que mais de 200 anos ap\u00f3s sua cria\u00e7\u00e3o continua em uso praticamente sem altera\u00e7\u00f5es, uma impressionante fa\u00e7anha dentro da &#8220;metamorfose ambulante&#8221; que \u00e9 a ci\u00eancia.<br \/>\nEmbora muitos pesquisadores estudiosos da biodiversidade, especialmente os n\u00e3o ligados diretamente a taxonomia, reclamem das mudan\u00e7as ocasionais na nomenclatura  e classifica\u00e7\u00e3o de algumas esp\u00e9cies, um dos pilares do sistema criado por Linn\u00e9 \u00e9 justamente a imutabilidade. De acordo com o &#8220;Principio da Prioridade&#8221; (artigo 23 do C\u00f3digo Internacional de Nomenclatura Zool\u00f3gica), o nome v\u00e1lido de um t\u00e1xon \u00e9 o nome mais antigo dispon\u00edvel atribu\u00eddo ao mesmo, ou seja, uma vez batizada uma esp\u00e9cie seu nome jamais poder\u00e1 ser alterado. Os casos de mudan\u00e7as mencionados acima geralmente se referem a mudan\u00e7as ao n\u00edvel de g\u00eanero e refletem avan\u00e7os no conhecimento sobre o relacionamento entre diferentes t\u00e1xons. Jamais s\u00e3o permitidas altera\u00e7\u00f5es no nome cient\u00edfico de uma esp\u00e9cie por motivos outros que n\u00e3o a mudan\u00e7a de g\u00eanero por conta de novos arranjos sistem\u00e1ticos ou a aplica\u00e7\u00e3o direta de alguma das regras do ICZN.<br \/>\nImagine voc\u00ea, um taxonomista do s\u00e9culo XIX, funcion\u00e1rio de um museu europeu e que recebe de uma das col\u00f4nias de seu pa\u00eds um carregamento de esp\u00e9cimes incluindo algumas esp\u00e9cies at\u00e9 ent\u00e3o novas para ci\u00eancia. A maioria dos exemplares n\u00e3o possui qualquer etiqueta com informa\u00e7\u00f5es m\u00ednimas como local e data de coleta, e ao ver a palavra &#8220;\u00c1frica&#8221;escrita do lado de fora da caixa, voc\u00ea \u00e9 tentado a acreditar que os animais provavelmente foram coletados em algum lugar do continente Africano, quando na verdade parte deles \u00e9 provenientes da Am\u00e9rica do Sul. Situa\u00e7\u00f5es aparentemente inusitadas como esta, ocorriam com certa freq\u00fc\u00eancia em muitos museus europeus at\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX e foram respons\u00e1veis por in\u00fameras injusti\u00e7as nomenclaturais, como \u00e9 o caso do animal que inaugura a s\u00e9rie de postagens sobre animais brasileiros pouco conhecidos.<br \/>\nA doninha-amaz\u00f4nica (<em>Mustela africana<\/em>) \u00e9 uma das sete esp\u00e9cies brasileiras da fam\u00edlia Mustelidae, a maior fam\u00edlia da Ordem Carn\u00edvora com cerca de 55 esp\u00e9cies, e que al\u00e9m das doninhas, inclui animais como os fur\u00f5es, a irara, a lontra e a ariranha. Como prova de qu\u00e3o interessante s\u00e3o esses animais transcrevo abaixo a frase da apresenta\u00e7\u00e3o de um amigo, que ter\u00e1 sua identidade preservada, retirada de um site de relacionamentos: &#8220;Meu nome \u00e9 X, sou um humano como todos voc\u00eas que est\u00e3o lendo este texto, mas o que eu queria mesmo era ser um mustel\u00eddeo&#8221;.<br \/>\nCom quase 50 cm da ponta da cauda, que corresponde a aproximadamente metade do tamanho do corpo, at\u00e9 a ponta do focinho a doninha-amaz\u00f4nica pode ser considerada relativamente grande quando comparada a outros representantes do g\u00eanero. Vista por cima, parece ser toda marrom-avermelhado escuro, mas o queixo, as partes inferiores da pata e a barriga s\u00e3o claras, esta \u00faltima com uma extensa mancha castanha no meio. As solas das patas s\u00e3o peladas e os dedos dos membros anteriores s\u00e3o parcialmente unidos por membranas interdigitais demonstrando que a esp\u00e9cie pode apresentar h\u00e1bitos semiaqu\u00e1ticos. At\u00e9 onde pude constatar, n\u00e3o s\u00e3o conhecidas imagens da doninha-amaz\u00f4nica em seu ambiente natural ou mesmo de animais em cativeiro, apenas fotos de peles de museus como a do esp\u00e9cime tipo exibido abaixo.<br \/>\n<span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"mustela africana.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2011\/08\/mustela20africana1.jpg\" width=\"500\" height=\"289\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><\/span><br \/>\nA doninha-amaz\u00f4nica foi descrita em 1838 pelo zo\u00f3logo franc\u00eas Anselm Ga\u00ebtan Desmarest, o exemplar tipo (foto acima) muito provavelmente deve ter sido coletado pelo famoso Alexandre Rodrigues Ferreira, o primeiro naturalista brasileiro, e foi um dos milhares de esp\u00e9cimes saqueados do Museu da Ajuda de Portugal e levado para o Museu de Hist\u00f3ria Natural de Paris durante a Invas\u00e3o Napole\u00f4nica. Sem saber a proced\u00eancia correta do exemplar que tinha em m\u00e3os, Desmarest se limitou a indicar a localidade tipo como &#8220;d&#8217;Afrique&#8221; e tratou de batizar a nova doninha como <em>Mustela africana<\/em>.<br \/>\nEm 1897, Em\u00edlio Goeldi, c\u00e9lebre zo\u00f3logo cujo nome foi imortalizado no Museu Paraense Em\u00edlio Goeldi, descreveu a partir de exemplares coletados no Par\u00e1 a doninha <em>Mustela brasiliensis<\/em>. Em 1913 Angel Cabrera demonstrou que a esp\u00e9cie descrita por Goeldi era a mesma que havia sido batizada por Desmarest em 1838, evidenciando assim o erro do zo\u00f3logo franc\u00eas. Regra existe para ser cumprida, <em>Mustela brasiliensis<\/em> passou a ser tratado como sin\u00f4nimo de uma esp\u00e9cie que j\u00e1 havia sido descrita anteriormente, e <em>Mustela africana<\/em> passou a ser o nome das doninhas amaz\u00f4nicas.<br \/>\nPassados mais de 150 anos de sua descri\u00e7\u00e3o, <em>Mustela africana<\/em> \u00e9, ainda hoje, considerado um dos mam\u00edferos mais enigm\u00e1ticos da Am\u00e9rica do Sul e sua distribui\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 conhecida em detalhes. Os poucos dados existentes apontam para uma ocorr\u00eancia restrita a Bacia Amaz\u00f4nica, com registros conhecidos para o Brasil, Equador e Peru. Injusti\u00e7as nomenclaturais a parte, o caso da doninha-amaz\u00f4nica nos mostra que n\u00e3o apenas as apar\u00eancias, mas tamb\u00e9m os nomes e os zo\u00f3logos enganam e se enganam. Assim sendo, s\u00f3 nos resta aceitar a tirania do C\u00f3digo Internacional de Nomenclatura Zool\u00f3gica e nos conformar que a mais brasileira das doninhas ser\u00e1 sempre &#8220;africana&#8221;!<br \/>\nRefer\u00eancias<br \/>\nDesmarest, A. G. (1818) Nouv. Diction. d&#8217;Hist. Nat., 19:376<br \/>\nGoeldi, E. (1897) Ein erstes authentisches Exemplar eines echten Wiesels<br \/>\naus Brasilien. Zool. Jahrb., Abt. f. systematik, geogr. u. Biol.,<br \/>\n10:556-562, pi. 21, September 15, 1897.<br \/>\nCabrera, A. (1913) Sobre algunas formas del g\u00e9nero &#8220;Mustela.&#8221; Bol. d. 1. Real Soc.<br \/>\nEspaiiol d. Hist. Nat., 13:429-435, November, 1913.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s alguns meses de sil\u00eancio for\u00e7ado por conta de trabalho quase escravo &#8211; espero que meu chefe n\u00e3o leia isso -, o Caapora volta a ativa. 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