{"id":110,"date":"2010-02-26T16:03:41","date_gmt":"2010-02-26T19:03:41","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2010\/02\/artefatos_que_importam_a_estel_1\/"},"modified":"2010-02-26T16:03:41","modified_gmt":"2010-02-26T19:03:41","slug":"artefatos_que_importam_a_estel_1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2010\/02\/26\/artefatos_que_importam_a_estel_1\/","title":{"rendered":"Artefatos que importam: a estela de Merneptah"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"merneptah1.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/merneptah11.jpg\" width=\"192\" height=\"290\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" \/>Nossa s\u00e9rie sobre os artefatos mais importantes do registro arqueol\u00f3gico mundial continua com mais uma estela (pra quem n\u00e3o sabe, nome afrescalhado para postes de pedra), desta vez do antigo Egito. Erigida a mando do B\u00e1teman, digo, do fara\u00f3 Merneptah (1213 a.C. &#8211; 1203 a.C.), o consenso entre os estudiosos \u00e9 que ela representa a mais antiga evid\u00eancia arqueol\u00f3gica da exist\u00eancia do povo de Israel, ainda que n\u00e3o de uma entidade pol\u00edtica que possamos chamar de reino de Israel.<br \/>\nNo Egito fara\u00f4nico, entre os maias e num sem-n\u00famero de povos antigos, estelas desempenham mais ou menos a mesma fun\u00e7\u00e3o social das plaquinhas comemorativas de aeroportos e est\u00e1dios: permitir que o governante da vez conte vantagem. Com Merneptah n\u00e3o \u00e9 diferente. O soberano botou esse tro\u00e7o de p\u00e9 em Tebas, cidade real eg\u00edpcia a 800 km do Mediterr\u00e2neo, como forma de celebrar suas (supostas) vit\u00f3rias militares.<br \/>\nA maior parte do texto fala das bordoadas que ele teria distribu\u00eddo em batalhas contra os l\u00edbios, mas uma se\u00e7\u00e3o menor fala das campanhas guerreiras na terra de Cana\u00e3 &#8212; a regi\u00e3o que hoje conhecemos como Israel e territ\u00f3rios palestinos. Ao que parece, a \u00e1rea estava dividida em cidades-Estado, como Gezer e Ashkelon &#8212; as quais, desde o terceiro mil\u00eanio antes de Cristo, j\u00e1 eram consideradas vassalas do Egito. S\u00f3 que a\u00ed vem a passagem abaixo:<br \/>\n<img decoding=\"async\" alt=\"merneptah2.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/merneptah2.jpg\" width=\"500\" height=\"139\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><br \/>\nN\u00e3o l\u00ea hier\u00f3glifos? T\u00e1, vou relevar essa lacuna imperdo\u00e1vel na sua forma\u00e7\u00e3o cultural e traduzir pra voc\u00ea: &#8220;Israel est\u00e1 destru\u00eddo, sua semente n\u00e3o existe mais&#8221;. N\u00e3o se sabe se &#8220;semente&#8221; \u00e9 usada no sentido metaf\u00f3rico de &#8220;descend\u00eancia&#8221; ou se o fara\u00f3 quer dizer que destruiu as reservas de comida de seus inimigos. Se o sentido empregado \u00e9 o metaf\u00f3rico, a primeira conclus\u00e3o \u00e9 que Merneptah era um pusta de um mentiroso, como qualquer judeu vivo ainda hoje poder\u00e1 atestar para voc\u00ea.<br \/>\n<strong>\u00caxodo? Que \u00caxodo?<\/strong><br \/>\nMas \u00e9 claro que as implica\u00e7\u00f5es da estela v\u00e3o al\u00e9m disso. A escrita hierogl\u00edfica empregava determinativos, sinais que n\u00e3o tinham valor de som, mas serviam para determinar (d\u00e3!) categorias conceituais. O usado para &#8220;Israel&#8221; \u00e9 o de &#8220;povo&#8221;, n\u00e3o o de &#8220;cidade-Estado&#8221; ou unidade pol\u00edtica. Costuma ser usado pelos eg\u00edpcios para designar tribos n\u00f4mades.<br \/>\nOK, isso significa que os eg\u00edpcios, nessa \u00e9poca, n\u00e3o viam os israelitas como unidade pol\u00edtica organizada. O mais curioso, no entanto, \u00e9 Israel aparecer &#8220;pronto&#8221; na cena da terra de Cana\u00e3 sem men\u00e7\u00e3o alguma ao epis\u00f3dio que teria iniciado o conflito israelitas x eg\u00edpcios: o \u00caxodo b\u00edblico.<br \/>\nClaro que um imp\u00e9rio do naipe do eg\u00edpcio n\u00e3o teria l\u00e1 muito interesse para anunciar uma derrota fragorosa como teria sido a do \u00caxodo. No entanto, o fato de n\u00e3o haver pelo menos uma pista da morada israelita de s\u00e9culos em terras eg\u00edpcias, mais uma s\u00e9rie de pistas &#8212; lingu\u00edsticas, sociais e arqueol\u00f3gicas &#8212; indicam que, pelo visto, o \u00caxodo N\u00c3O aconteceu, ou ao menos se deu numa escala min\u00fascula, bem menor do que o mito fundador israelita nos sugere. Voltarei a esse assunto fascinante em breve.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/livraria.folha.com.br\/catalogo\/1026370\/alem-de-darwin\"><strong>Conhe\u00e7a Al\u00e9m de Darwin, meu primeiro livro de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/strong><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/twitter.com\/reinaldojlopes\"><strong>Siga-me no Twitter<\/strong><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.jsp?id=K4757041Y9\"><strong>Para saber quem sou: meu Curr\u00edculo Lattes<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossa s\u00e9rie sobre os artefatos mais importantes do registro arqueol\u00f3gico mundial continua com mais uma estela (pra quem n\u00e3o sabe, nome afrescalhado para postes de pedra), desta vez do antigo Egito. 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