{"id":122,"date":"2010-03-08T08:00:24","date_gmt":"2010-03-08T11:00:24","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2010\/03\/jesus_existiu_parte_1_as_fonte\/"},"modified":"2010-03-08T08:00:24","modified_gmt":"2010-03-08T11:00:24","slug":"jesus_existiu_parte_1_as_fonte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2010\/03\/08\/jesus_existiu_parte_1_as_fonte\/","title":{"rendered":"Jesus existiu? Parte 1: As fontes, sempre as fontes"},"content":{"rendered":"<p>Este \u00e9 o primeiro de, quem sabe, uma s\u00e9rie consideravelmente longa de posts sobre as pesquisas envolvendo o &#8220;Jesus hist\u00f3rico&#8221;, como \u00e9 conhecida a reconstru\u00e7\u00e3o acad\u00eamica da vida e da mensagem de Cristo baseada \u00fanica e exclusivamente no que se pode extrair de historicamente confi\u00e1vel das fontes do s\u00e9culo I a.C.<br \/>\n<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"bompastor.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/bompastor2.jpg\" width=\"500\" height=\"357\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" \/><br \/>\nParadoxalmente, no entanto, sinto-me compelido a come\u00e7ar respondendo a indaga\u00e7\u00e3o que virou moda nos \u00faltimos tempos: afinal, quem garante que Jesus existiu mesmo? Na esteira do document\u00e1rio-cascata &#8220;Zeitgeist&#8221;, e na \u00e2nsia de arrumar mais uma arma contra as religi\u00f5es, a ideia de que Jesus nem teria existido, sendo apenas uma lenda meio Frankenstein montada a partir dos peda\u00e7os de todas as mitologias do Mediterr\u00e2neo pelo espert\u00edssimo ap\u00f3stolo Paulo (por exemplo), tornou-se relativamente popular nos meios c\u00e9ticos.<br \/>\nCome\u00e7arei defendendo aqui que, na verdade, de longe o mais prov\u00e1vel \u00e9 que Jesus tenha de fato vivido e caminhado na Palestina do s\u00e9culo I a.C. &#8220;Numdiga, Reynolds&#8221;, brincar\u00e3o alguns. &#8220;Claro, voc\u00ea \u00e9 cat\u00f3lico, TEM de acreditar que Jesus existiu.&#8221; Pode ser. Mas ser crist\u00e3o n\u00e3o me impede de tentar usar o m\u00e9todo cient\u00edfico de maneira desapaixonada, seguindo os passos dos principais historiadores do cristianismo mundo afora, os quais, quase sem exce\u00e7\u00e3o, n\u00e3o duvidam que Jesus tenha sido uma pessoa real. Claro, ci\u00eancia n\u00e3o se faz por maioria de votos, e consensos cient\u00edficos podem estar enganados. Mas o que pretendo demonstrar \u00e9 que, usando o velho e confi\u00e1vel princ\u00edpio da navalha de Occam, segundo o qual a explica\u00e7\u00e3o mais simples que consegue dar conta dos dados \u00e9 a verdadeira, \u00e9 que a hip\u00f3tese do &#8220;mito forjado&#8221; simplesmente n\u00e3o funciona.<br \/>\nClaro, nada disso significa que, do ponto de vista estritamente hist\u00f3rico e cient\u00edfico, as pessoas s\u00e3o obrigadas a aceitar que os aspectos sobrenaturais do minist\u00e9rio de Jesus, como os milagres e a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, aconteceram tal como narrados nos Evangelhos can\u00f4nicos do Novo Testamento &#8212; ainda que, pela f\u00e9, eu aceite a realidade essencial deles. (At\u00e9 porque cada um dos Evangelhos narra esses fatos de maneira substancialmente diferente da dos demais.) Meu prop\u00f3sito, at\u00e9 por uma quest\u00e3o de naturalismo metodol\u00f3gico, \u00e9 mais modesto: mostrar que h\u00e1 fatos n\u00e3o-sobrenaturais, empiricamente verific\u00e1veis, que fornecem ao menos um esqueleto de fatos concretos sobre a vida de Jesus.<br \/>\n<strong>Evid\u00eancia direta? Vai sonhando<\/strong><br \/>\nIndo finalmente ao que interessa, vamos relativizar um ponto no qual muita gente insiste sem entender o contexto da Galileia e da Judeia do s\u00e9culo I a.C. \u00c9 aquele neg\u00f3cio de exigir evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas diretas da exist\u00eancia de Jesus. Enquanto n\u00e3o acharem uma t\u00e1bua de passar com o logotipo &#8220;Carpintaria Jos\u00e9 &amp; Jesus &#8211; made in Nazareth&#8221;, n\u00e3o acreditar\u00e3o, e ponto.<br \/>\nO que esses S\u00e3o Tom\u00e9s modernos esquecem \u00e9, em primeiro lugar, o meio social e cultural de onde Jesus, com quase 100% de probabilidade, veio. O mundo mediterr\u00e2neo antigo, como ocorria com a imensa maioria das culturas pr\u00e9-modernas, era povoado por gente que n\u00e3o sabia escrever, que dependia de materiais perec\u00edveis para quase todos os momentos da vida e que tinha t\u00e3o poucos direitos pol\u00edticos que dificilmente seria mencionado pelo nome em qualquer documento governamental (os quais, ali\u00e1s, tamb\u00e9m podiam ser perec\u00edveis).<br \/>\nE da\u00ed? Da\u00ed que Jesus era muito provavelmente invis\u00edvel do ponto de vista arqueol\u00f3gico. Ele e quase toda a primeira gera\u00e7\u00e3o de seus seguidores. Nem o famoso sepulcro onde teria ocorrido a Ressurrei\u00e7\u00e3o escapa &#8212; n\u00e3o \u00e9 improv\u00e1vel que a narrativa de um sepultamento honroso seja um acr\u00e9scimo posterior, e que o corpo crucificado tenha ido parar numa vala comum, o que seria mais ou menos a pr\u00e1tica padr\u00e3o dos executores da Roma imperial.<br \/>\n<strong>Os invis\u00edveis<\/strong><br \/>\nO que vale para o carpinteiro r\u00fastico de um vilarejo insignificante da Baixa Galileia, no entanto, vale tamb\u00e9m para algum dos nomes mais importantes da Antiguidade Cl\u00e1ssica. O fato surpreendente \u00e9 que, tanto em evid\u00eancia material direta quanto em evid\u00eancias textuais, o que chegou at\u00e9 n\u00f3s do mundo antigo \u00e9 ridiculamente pouco. Em largu\u00edssima medida, dependemos de relatos de segunda ou terceira m\u00e3o, e os que parecem melhores e mais detalhados muitas vezes vieram s\u00e9culos depois dos eventos que narram.<br \/>\nUm exemplo extremo? Ningu\u00e9m menos que Alexandre, o Grande. Sim, temos moedas cunhadas com as fu\u00e7as dele que datam do fim de sua vida ou de pouco depois &#8212; aleluia, evid\u00eancia arqueol\u00f3gica direta, afinal! &#8211;, mas s\u00f3 com isso o m\u00e1ximo que saber\u00edamos \u00e9 que houve um rei poderoso de origem grega chamado Alexandre no s\u00e9culo IV a.C. Super\u00fatil. Para qualquer detalhe que preste sobre a vida do sujeito, temos de nos basear no que escreveram Arriano e Plutarco &#8212; em pleno per\u00edodo romano, uns QUINHENTOS anos depois da \u00e9poca de Alexandre. Arriano e Plutarco teriam se baseado nas mem\u00f3rias de sujeitos como Ptolomeu, um dos generais do jovem rei. S\u00f3 que essas fontes contempor\u00e2neas se perderam. Em tese, os escritores poderiam simplesmente ter inventado essas fontes &#8212; n\u00e3o que qualquer estudioso de Alexandre aposte nisso.<br \/>\nSegundo exemplo: Tem\u00edstocles, o homem que salvou Atenas das m\u00e3os dos persas em 480 a.C. Escava\u00e7\u00f5es em Atenas acharam &#8220;c\u00e9dulas&#8221; de ostracismo &#8212; a vota\u00e7\u00e3o para exilar pessoas institu\u00edda pelos atenienses &#8212; com o nome &#8220;Tem\u00edstocles, filho de N\u00e9ocles&#8221;. De novo, seria apenas um nome &#8212; se n\u00e3o fosse pelo pitoresco relato das aventuras de Tem\u00edstocles feito por Her\u00f3doto uns 40 anos depois da guerra com os persas (ali\u00e1s, o mesmo per\u00edodo de tempo que separa a morte de Jesus do Evangelho de Marcos, o mais antigo). Her\u00f3doto \u00e9 a \u00fanica fonte mais ou menos contempor\u00e2nea sobre Tem\u00edstocles a sobreviver at\u00e9 hoje.<br \/>\nTerceiro exemplo, desta vez duplo: Le\u00f4nidas e S\u00f3crates. A\u00ed a coisa fica REALMENTE feira. Her\u00f3doto tamb\u00e9m escreveu sobre Le\u00f4nidas, com a mesma dist\u00e2ncia temporal de Tem\u00edstocles. Uma \u00fanica fonte liter\u00e1ria \u00e9 s\u00f3 o que sugere que o rei casca-grossa e cabra-macho de Esparta sequer existiu &#8212; nenhuma inscri\u00e7\u00e3o com seu nome chegou at\u00e9 n\u00f3s. S\u00f3crates deu mais sorte: s\u00e3o basicamente seus disc\u00edpulos Plat\u00e3o e Xenofonte, escrevendo d\u00e9cadas depois de sua morte, que nos informam sobre sua vida (de maneira um bocado contradit\u00f3ria, ali\u00e1s).<br \/>\nA conclus\u00e3o me parece inescap\u00e1vel: se aplicarmos os mesmos crit\u00e9rios que os c\u00e9ticos mais extremados usam para falar de Jesus ao resto da Antiguidade, ou vamos concluir que Atenas e Esparta mal chegaram a existir, ou ficaremos eternamente presos a um agnosticismo paralisante. O caso de Jesus est\u00e1 longe de ser excepcional em termos de falta de dados: \u00e9, na verdade, um caso t\u00edpico.<br \/>\nA s\u00e9rie continua em breve com uma velha quest\u00e3o: existem fontes n\u00e3o-crist\u00e3s independentes que comprovem a exist\u00eancia de Jesus?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este \u00e9 o primeiro de, quem sabe, uma s\u00e9rie consideravelmente longa de posts sobre as pesquisas envolvendo o &#8220;Jesus hist\u00f3rico&#8221;, como \u00e9 conhecida a reconstru\u00e7\u00e3o acad\u00eamica da vida e da mensagem de Cristo baseada \u00fanica e exclusivamente no que se pode extrair de historicamente confi\u00e1vel das fontes do s\u00e9culo I a.C. 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