{"id":124,"date":"2010-03-10T08:00:00","date_gmt":"2010-03-10T11:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2010\/03\/jesus_existiu_parte_2_responde\/"},"modified":"2010-03-10T08:00:00","modified_gmt":"2010-03-10T11:00:00","slug":"jesus_existiu_parte_2_responde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2010\/03\/10\/jesus_existiu_parte_2_responde\/","title":{"rendered":"Jesus existiu? Parte 2: Respondendo as d\u00favidas"},"content":{"rendered":"<p>Audi\u00eancia qualificada \u00e9 outra coisa. Mal dei o pontap\u00e9 inicial na minha <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2010\/03\/jesus_existiu_parte_1_as_fonte.php\"><strong>s\u00e9rie sobre o Jesus hist\u00f3rico<\/strong><\/a> e j\u00e1 recebi um caminh\u00e3o de coment\u00e1rios e d\u00favidas interessant\u00edssimos sobre a primeira postagem e os desdobramentos do tema. Como seria um pecado (s\u00f3 pra manter o clima crist\u00e3o) relegar debate t\u00e3o legal \u00e0 caixa de coment\u00e1rios, resolvi transformar a coisa num novo post enquanto n\u00e3o consigo dar prosseguimento \u00e0 s\u00e9rie.<br \/>\nSem mais delongas, vamos nessa.<br \/>\nO grande<strong> Lu\u00eds Brudna<\/strong> questiona: <em>O que ser\u00e1 que os historiadores do futuro pensar\u00e3o sobre as &#8220;Apari\u00e7\u00f5es da Virgem Maria&#8221;? Considerar\u00e3o elas como hist\u00f3ricas?<\/em><br \/>\nDependendo das fontes dispon\u00edveis, eles certamente v\u00e3o consider\u00e1-las hist\u00f3ricas no sentido de que um grupo de pessoas do s\u00e9culo XXI ACREDITAVA mesmo ter visto Nossa Senhora. As evid\u00eancias de que muita gente acredita nisso s\u00e3o abundantes. Agora, as apari\u00e7\u00f5es s\u00e3o reais? S\u00e3o realmente um evento sobrenatural, ou s\u00e3o alucina\u00e7\u00e3o coletiva? Isso n\u00e3o cabe aos historiadores responder, at\u00e9 por uma quest\u00e3o metodol\u00f3gica, embora possa ser investigado por cientistas que disponham, por exemplo, de um v\u00eddeo da suposta apari\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>Rafael Machado<\/strong> indaga: <em>1)Em rela\u00e7\u00e3o ao document\u00e1rio &#8220;Zeitgeist&#8221;, voc\u00ea j\u00e1 o comentou seja aqui seja no outro blog que tinha? Porque \u00e9 o t\u00edpo do document\u00e1rio que fala o que voc\u00ea quer ouvir ou n\u00e3o, citando refer\u00eancias que s\u00e3o muito dif\u00edceis de se procurar. <\/em><br \/>\nN\u00e3o estava nos meus planos abordar detalhadamente as afirma\u00e7\u00f5es em &#8220;Zeitgeist&#8221;, mas vou considerar a ideia \ud83d\ude09<br \/>\n<em><br \/>\n2)Em rela\u00e7\u00e3o aos escritos do Mar Morto, h\u00e1 muita teoria da conspira\u00e7\u00e3o em cima dele, por acaso voc\u00ea vai tratar dele?<\/em><br \/>\nSobre os manuscritos do mar Morto: rapaz, o surpreendente, na verdade, \u00e9 que h\u00e1 pouqu\u00edssima informa\u00e7\u00e3o sobre Jesus e os primeiros crist\u00e3os neles. Tais textos parecem ter sido, em sua maioria, escritos por uma seita judaica extremamente fechada e com pouco interesse direto em movimentos mais &#8220;plurais&#8221;, como o de Jesus. Mas, claro, \u00e9 um tema fascinante a ser abordado no futuro.<br \/>\nO amigo <strong>Vin\u00edcius Policarpo Quint\u00e3o<\/strong> manda a real:<br \/>\n<em>1) Se Jesus, e n\u00e3o jesus, de fato existiu, seus feitos causariam um enorme alvoro\u00e7o, e seriam lembrados atrav\u00e9s de registros de outros indiv\u00edduos, acredito. Imagino que, mesmo com a escassez de inidiv\u00edduos letrados, boa parte deles se postaria a relatar o fato. Inclusive seus agressores, amaldi\u00e7oando-o ou tratando-ou tal qual um &#8220;dem\u00f4nio do mundo antigo&#8221; ou qualquer outra entidade do imagin\u00e1rio coletivo.<\/em><br \/>\nTem uma s\u00e9rie de problemas nessa quest\u00e3o. Primeiro, quem garante que o alvoro\u00e7o seria t\u00e3o grande? O mundo mediterr\u00e2neo antigo estava COALHADO de milagreiros e mestres itinerantes. A Palestina do s\u00e9culo I a.C. conheceu uma loooonga lista de candidatos a profetas e Messias. E, claro, a transmiss\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o que desembocaria nos Evangelhos pode muito bem ter transformado os 100 espectadores originais do Serm\u00e3o da Montanha em 5.000.<br \/>\nIsso explicaria, em parte, a discrep\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m temos boas raz\u00f5es para acreditar que alguns dos historiadores n\u00e3o-crist\u00e3os da \u00e9poca realmente ficaram sabendo do minist\u00e9rio de Jesus e o abordaram &#8212; brevemente &#8211;, em seus escritos. Mas \u00e9 preciso lembrar que Jesus, tendo restringido sua miss\u00e3o aos judeus palestinos, n\u00e3o teve contato com nenhuma das grandes personalidades da Antiguidade. Ali\u00e1s, sabe quantos historiadores judeus estiveram ativos ao longo dos s\u00e9culos I e II inteirinhos? Um s\u00f3 &#8211; Fl\u00e1vio Josefo (do qual falarei no pr\u00f3ximo post). A historiografia n\u00e3o era um g\u00eanero comum entre judeus, letrados ou n\u00e3o-letrados. Havia pouca gente dispon\u00edvel para fazer um relato &#8220;secular&#8221; sobre o minist\u00e9rio de Jesus.<br \/>\n<em>2) A exist\u00eancia de figuras como Alexandre, H\u00e9rcules, Ptolomeu, Perseu e outros, pode ser vista como mera idealiza\u00e7\u00e3o de senhores gloriosos e \u00edcones de outras virtudes, n\u00e3o concorda? Uma vez que as provas de sua real exist\u00eancia ou se perderam ou s\u00e3o insubst\u00e2nciais (dadas as condi\u00e7\u00f5es temporais dos relatos, mas n\u00e3o s\u00f3 por isto).<\/em><br \/>\nCuidado para n\u00e3o misturar alhos com bugalhos. H\u00e9rcules e Perseu s\u00e3o MUITO diferentes de Alexandre e Ptolomeu, a come\u00e7ar pelo fato de que os dois primeiros, se \u00e9 que existiram, datam de um passado t\u00e3o remoto e sem continuidade com o presente que n\u00e3o d\u00e1 nem para comprovar sua simples exist\u00eancia. Jesus est\u00e1 muito mais para Alexandre e Ptolomeu do que para H\u00e9rcules e Perseu.<br \/>\nO poderoso<strong> Roberto Takata<\/strong> afirma:<br \/>\n<em>H\u00e1 extensa iconografia de Alexandre, o Grande, contempor\u00e2nea ao imperador maced\u00f4nio. Os di\u00e1rios astron\u00f4micos babil\u00f4nios mencionam a morte de Alexandre. Mas digamos que fossem apenas as tais moedas. Sim, elas seriam \u00fateis para estabelecer que provavelemente Alexandre existiu. Elas servem como confirma\u00e7\u00e3o independente de que as narrativas de Xenofon e Plutarco n\u00e3o s\u00e3o totalmente fantasiosas.<\/em><br \/>\nA iconografia que chegou at\u00e9 n\u00f3s na verdade \u00e9 um pouco posterior \u00e0 morte do homem, j\u00e1 heroicizando um pouco a figura. Esqueci-me dos di\u00e1rios babil\u00f4nicos. Mas o ponto central \u00e9 que, s\u00f3 com esses dados, n\u00f3s s\u00f3 saber\u00edamos que Alexandre existiu &#8211; e ponto. N\u00e3o seria poss\u00edvel sequer dizer que ele era maced\u00f4nio e n\u00e3o, sei l\u00e1, tess\u00e1lio (outro lugar da Gr\u00e9cia onde a monarquia ainda existia). E, s\u00f3 pra takatizar voc\u00ea um pouquinho, \u00e9 ARRIANO e Plutarco &#8211; Xenofonte morreu quando Alexandre tinha dois anos de idade \ud83d\ude09<br \/>\n<em><br \/>\nA melhor compara\u00e7\u00e3o seria em rela\u00e7\u00e3o a Arthur, Beowulf e cia. p.e. Ou a Siddhartha Gautama, Noah, Mosh\u00ea&#8230;<\/em><br \/>\nNope, n\u00e3o seria. Definitivamente n\u00e3o seria. A melhor compara\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo com Tem\u00edstocles ou Le\u00f4nidas. Exceto no caso de Buda, que eu confesso n\u00e3o conhecer muito bem, os demais personagens s\u00f3 s\u00e3o mencionados pela primeira vez em textos escritos tr\u00eas s\u00e9culos ou muitos s\u00e9culos mais DEPOIS de sua suposta exist\u00eancia hist\u00f3rica. De fato, \u00e9 tempo demais para um nome ficar rodando na tradi\u00e7\u00e3o oral, e tudo vira saga mesmo.<br \/>\nEsse N\u00c3O \u00e9 o caso de Jesus, como pretendo demonstrar aqui. Ao longo dos 60, 70 anos ap\u00f3s sua morte, h\u00e1 cerca de uma dezena de fontes liter\u00e1rias independentes &#8212; a maioria crist\u00e3s, mas algumas judaicas e romanas tamb\u00e9m &#8212; concordando nos elementos b\u00e1sicos: prega\u00e7\u00e3o, crucifica\u00e7\u00e3o, movimento religioso que se propaga depois. S\u00f3 isso j\u00e1 \u00e9 suficiente para mostrar, no m\u00ednimo, a exist\u00eancia hist\u00f3rica do personagem. Mas n\u00e3o coloquemos os carros na frente dos bois (embora voc\u00ea tenha me for\u00e7ado a fazer precisamente isso, hehehe&#8230;)<br \/>\nO perspicaz <strong>Henrique<\/strong> afirma:<br \/>\n<em>No caso das figuras hist\u00f3ricas, eles realizaram grandes feitos, mas coisas que, desculpem se ofender algu\u00e9m com isso mas n\u00e3o encontrei outro modo de falar, s\u00e3o poss\u00edveis e fazem algum sentido, contr\u00e1rio do caso de Jesus onde os relatos s\u00e3o de coisas que se por exemplo eu chegar e contar pra um amigo meu hoje que eu vi um cara andando sobre a \u00e1gua ele vai rir de mim.<\/em><br \/>\nConcordo, claro. Acho que os aspectos sobrenaturais do minist\u00e9rio de Jesus t\u00eam de ser colocados, metodologicamente, na categoria do inverific\u00e1vel (ainda que, pela f\u00e9, eu pessoalmente acredite neles). Agora, numa sociedade pr\u00e9-moderna, quase todo mundo n\u00e3o tinha problema nenhum em aceitar milagres como parte da vida. No caso das curas &#8212; fa\u00e7anha que de longe \u00e9 a mais comum nos Evangelhos &#8211;, algu\u00e9m com mentalidade completamente secularizada s\u00f3 precisa lembrar das situa\u00e7\u00f5es atuais de &#8220;curas pela f\u00e9&#8221; e perceber que estar\u00edamos falando de fen\u00f4menos psicossom\u00e1ticos (efeito placebo, basicamente) afetando doen\u00e7as com um componente emocional forte, por exemplo. O importante n\u00e3o \u00e9 Jesus ter mesmo feito um parapl\u00e9gico andar; \u00e9, sim, ALGUMAS pessoas da \u00e9poca terem ACREDITADO que ele fez um parapl\u00e9gico andar.<br \/>\n<strong>Weiner Assis Gon\u00e7alves<\/strong> citou:<br \/>\n<em>Papa Le\u00e3o X: &#8220;A f\u00e1bula de Cristo \u00e9 de tal modo lucrativa que seria loucura advertir os ignorantes de seu erro&#8221;.<\/em><br \/>\nVoc\u00ea poderia me mostrar onde achou a cita\u00e7\u00e3o, Weiner? De qualquer maneira, \u00e9 totalmente esperado um papa corrupto do Renascimento ter essa atitude c\u00ednica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o \ud83d\ude09 Jo\u00e3o Paulo II e Bento XVI podem ter in\u00fameros defeitos, mas n\u00e3o me parece que cinismo esteja entre eles.<br \/>\nE chega! Dai-me tempo para um novo post, Senhor! :oP<br \/>\n<a href=\"http:\/\/livraria.folha.com.br\/catalogo\/1026370\/alem-de-darwin\"><strong>Conhe\u00e7a Al\u00e9m de Darwin, meu primeiro livro de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/strong><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/twitter.com\/reinaldojlopes\"><strong>Siga-me no Twitter<\/strong><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.jsp?id=K4757041Y9\"><strong>Para saber quem sou: meu Curr\u00edculo Lattes<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Audi\u00eancia qualificada \u00e9 outra coisa. 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