{"id":139,"date":"2010-05-19T08:00:00","date_gmt":"2010-05-19T11:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2010\/05\/show_do_zilhao\/"},"modified":"2010-05-19T08:00:00","modified_gmt":"2010-05-19T11:00:00","slug":"show_do_zilhao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2010\/05\/19\/show_do_zilhao\/","title":{"rendered":"Show do Zilh\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" alt=\"zilhones.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/zilhones1.jpg\" width=\"169\" height=\"270\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" \/>Direto do t\u00fanel do tempo, e em tempos de genoma neandertal (quase) completo, achei que seria legal compartilhar com voc\u00eas uma entrevista que fiz na era G1 com o arque\u00f3logo portugu\u00eas Jo\u00e3o Zilh\u00e3o, da Universidade de Bristol. Presciente, Zilh\u00e3o falava h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada da hibridiza\u00e7\u00e3o entre neandertais e humanos, e levou muita incredulidade na cacunda at\u00e9 ser vingado pelos dados rec\u00e9m-publicados na &#8220;Science&#8221;.<br \/>\nConfira o papo ou, se preferir, ou\u00e7a diretamente a grava\u00e7\u00e3o dele <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/Noticias\/0,,IIF1583-5603,00.html\"><strong>clicando aqui <\/strong><\/a>(como eu fiquei contente que isso ainda existe!).<br \/>\n<strong>Como algu\u00e9m que estuda os artefatos, o registro arqueol\u00f3gico deixado pelos neandertais h\u00e1 muito tempo, professor, o que representa agora a possibilidade de ter nas m\u00e3os o genoma completo da esp\u00e9cie daqui a dois anos? E o sr. concorda com a id\u00e9ia de que esses dados v\u00e3o trazer informa\u00e7\u00f5es que o registro arqueol\u00f3gico apenas \u00e9 incapaz de revelar?<\/strong><br \/>\nJo\u00e3o Zilh\u00e3o &#8211; Bom, eu n\u00e3o sou especialista em gen\u00e9tica, e penso que o principal objetivo do estudo visando \u00e0 reconstitui\u00e7\u00e3o do genoma neandertal n\u00e3o \u00e9 tanto o conhecimento dos neandertais em si mesmos, porque obviamente quando se seq\u00fcencia o genoma de um indiv\u00edduo est\u00e1-se longe de poder estar seguro de at\u00e9 que ponto as varia\u00e7\u00f5es que encontramos s\u00e3o representativas de toda a popula\u00e7\u00e3o ou toda a esp\u00e9cie \u00e0 que ele pertence.<br \/>\nMas o objetivo fundamentalmente \u00e9 ter um termo de compara\u00e7\u00e3o que permita compreender melhor o genoma da humanidade atual. H\u00e1 problemas de representatividade estat\u00edstica, do material dispon\u00edvel das amostras, que fazem com que um estudo como este, pelo menos no horizonte tecnol\u00f3gico previs\u00edvel, tenha um alcance limitado para o conhecimento e o estudo dos neandertais em si mesmos. Em todo caso, evidentemente, a confirmar-se a possibilidade t\u00e9cnica de fazer esta reconstitui\u00e7\u00e3o, representa do ponto de vista tecnol\u00f3gico um feito impressionante, e dar\u00e1 seguramente informa\u00e7\u00f5es interessantes, importantes para o estudo da evolu\u00e7\u00e3o humana, e do sempre pol\u00eamico tema da rela\u00e7\u00e3o entre os neandertais e o homem moderno, digamos assim.<br \/>\n<strong><br \/>\nAinda em rela\u00e7\u00e3o ao genoma, os primeiros dados parecem sugerir uma coisa que me pareceu muito intrigante, que \u00e9 a suposta entrada de genes de humanos anatomicamente modernos no DNA neandertal, e ali\u00e1s se arriscam at\u00e9 a dizer que haveria uma assimetria, no sentido de homens, do sexo masculino, anatomicamente modernos para mulheres neandertais. Eu gostaria de saber como o sr. v\u00ea essa possibilidade, porque parece o tipo de coisa que n\u00f3s vemos acontecer em situa\u00e7\u00f5es de contato entre povos diferentes, quando um desses povos leva a pior, digamos, como aconteceu na chegada dos europeus \u00e0 Am\u00e9rica.<\/strong><br \/>\nZilh\u00e3o &#8211; Bom, j\u00e1 como um primeiro ponto, registro com muito agrado que tenha apanhado esse pormenor, um par\u00e1grafo importante do artigo da &#8220;Nature&#8221;, que passou quase silenciado nos coment\u00e1rios que a respeito dele foram feitos na imprensa internacional. E \u00e9, do meu ponto de vista, a \u00fanica coisa inovadora que h\u00e1 nesse artigo, porque, de resto, o que eles apresentam \u00e9 uma estimativa do per\u00edodo de diverg\u00eancia que eram coisa j\u00e1 conhecida, j\u00e1 sabida.<br \/>\nDo ponto de vista dos resultados concretos o mais interessante \u00e9 essa passagem. Que embora apresentada a t\u00edtulo de especula\u00e7\u00e3o, \u00e9 aparentemente suficientemente forte para que eles tenham arriscado a publicar nesse artigo. E \u00e9 um resultado muito interessante porque vai ao encontro do que, com base no registro f\u00f3ssil e no material arqueol\u00f3gico, e tamb\u00e9m com base no estudo do ADN [DNA] nuclear da humanidade atual, vem ganhando cada vez mais peso de uns cinco anos para c\u00e1, a no\u00e7\u00e3o de que, no momento do contato entre neandertais e modernos, como n\u00e3o podia deixar de ser, houve processos de miscigena\u00e7\u00e3o entre as duas popula\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA especula\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada pela equipe do P\u00e4abo \u00e9 que, nesse processo de miscigena\u00e7\u00e3o, ter\u00e3o sido mais freq\u00fcentes os casos de acasalamento entre homens, entre aspas, modernos, e mulheres neandertais do que o inverso, ou seja, o acasalamento entre homens neandertais e mulheres modernas. Bom, h\u00e1 que esperar pela confirma\u00e7\u00e3o. Se se confirmar que essa foi a regra geral, \u00e9 interessante do ponto de vista da modeliza\u00e7\u00e3o da forma como o processo de miscigena\u00e7\u00e3o se deu, explicaria em particular por que \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 ADN mitocondrial [que s\u00f3 \u00e9 transmitido de m\u00e3e para filho] dos neandertais nas popula\u00e7\u00f5es atuais.<br \/>\nEm todo caso, independentemente da dire\u00e7\u00e3o predominante da troca, o importante \u00e9 o facto do interc\u00e2mbio gen\u00e9tico, independentemente do facto de ele ter sido sexualmente desequilibrado. Uma vez que estamos a falar da reprodu\u00e7\u00e3o sexual, a partir do momento em que h\u00e1 cruzamento e h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o de descend\u00eancia, significa que h\u00e1 recombina\u00e7\u00e3o do genoma dos dois lados, independentemente do que diz respeito \u00e0 componente moderna ter sido predominantemente de origem masculina e a componente neandertal de origem feminina. O que \u00e9 importante \u00e9 que a descend\u00eancia \u00e9 necessariamente mista.<br \/>\nA n\u00e3o ser que n\u00f3s especulemos que os mesti\u00e7os resultantes desses cruzamentos n\u00e3o deixavam descend\u00eancia f\u00e9rtil ou eles pr\u00f3prios s\u00f3 se cruzavam com neandertais puros, ou consigo mesmos, com outros mesti\u00e7os, e que portanto nunca chegou a entrar um contributo gen\u00e9tico neandertal nas popula\u00e7\u00f5es modernas &#8211; o que \u00e9 uma especula\u00e7\u00e3o que eu penso, enfim, desprovida de fundamento, completamente irrealista &#8211; a implica\u00e7\u00e3o \u00e9 de que h\u00e1 genes neandertais que passaram para a humanidade moderna, e existe a possibilidade, ou \u00e9 leg\u00edtimo supor, que no presente sobreviveram alguns desses genes.<br \/>\n<strong>Mudando um pouco de assunto para o lado realmente arqueol\u00f3gico, parece ter havido muitas idas e vindas recentemente no debate sobre a conviv\u00eancia entre humanos anatomicamente modernos e neandertais na Europa, principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escala de tempo dessa conviv\u00eancia. Na sua opini\u00e3o, com base nos dados que n\u00f3s temos hoje, qual teria sido a ordem de grandeza temporal dessa conviv\u00eancia?<\/strong><br \/>\nZilh\u00e3o &#8211; O que os dados parecem demonstrar cada vez mais \u00e9 que esse per\u00edodo de conviv\u00eancia, na escala regional, ter\u00e1 sido muito curto. Eu sou da opini\u00e3o que n\u00e3o pode ter demorado, dada a forma de funcionamento das sociedades de ca\u00e7adores-coletores, e num quadro em que aceitamos a miscigena\u00e7\u00e3o como normal, n\u00e3o parece razo\u00e1vel esperar que as duas popula\u00e7\u00f5es tenham convivido na mesma regi\u00e3o sem se misturar. Portanto, a miscigena\u00e7\u00e3o, o acasalamento transformaria aquilo que era inicialmente duas popula\u00e7\u00f5es separadas numa \u00fanica popula\u00e7\u00e3o, herdando em propor\u00e7\u00f5es que h\u00e1 que estudar e podem ter variado, de lugar para lugar, percentagens diferentes de cada popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE quando olhamos para as data\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis, criticadas como deve ser e lidas como deve ser, rejeitando aquelas que por diversas raz\u00f5es n\u00e3o podem ser aceitas, o quadro que obtemos \u00e9 bastante claro. \u00c9 bastante claro at\u00e9 certo ponto porque a data\u00e7\u00e3o por radiocarbono tem uma margem de incerteza, e essa margem de incerteza \u00e9 maior do que o per\u00edodo de coexist\u00eancia, na escala regional, entre as duas popula\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEnt\u00e3o, o que acontece? Vemos que os \u00faltimos neandertais e os primeiros modernos numa mesma regi\u00e3o datam todos, por exemplo, da volta de 36.500 anos antes do presente, em anos de radiocarbono [que n\u00e3o correspondem exatamente aos anos de calend\u00e1rio]. Mas quando a gente diz &#8220;\u00e0 volta de&#8221; queremos dizer um intervalo de tempo de mil anos. Ora, em mil anos, passa-se muita coisa. E quando se diz que \u00e9 muito curto estamos a dizer que \u00e9 da volta de mil anos. Mas, na verdade, utilizar &#8220;curto&#8221; para qualificar um intervalo de tempo dessa dura\u00e7\u00e3o \u00e9 um bocado for\u00e7ar o sentido das palavras, mas \u00e9 isso que quer dizer efetivamente.<br \/>\nIsso na escala regional. N\u00e3o quer dizer que na escala continental n\u00e3o tenha havido regi\u00f5es da Europa onde o processo do contacto foi, digamos assim, mais tardio, onde a chegada de grupos de homens modernos se deu significativamente mais tarde, t\u00e3o mais tarde que o radiocarbono detecta a diferen\u00e7a, do que em outras regi\u00f5es da Europa. \u00c9 o caso, nomeadamente, da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica.<br \/>\nO ponto de vista consensual da comunidade arqueol\u00f3gica de que houve uma sobreviv\u00eancia, no conjunto da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, ao sul da depress\u00e3o do rio Ebro, ou ao sul, mais ou menos, dos Pirineus &#8211; na prov\u00edncia de Val\u00eancia, Andaluzia, a Meseta, e portanto Portugal &#8211; at\u00e9 cerca de 30 mil, 32 mil anos de radiocarbono. O que \u00e9 uma sobreviv\u00eancia de pelo menos 5.000 anos a mais em compara\u00e7\u00e3o com o que se passa ao norte dos Pirineus, em Fran\u00e7a, na Rom\u00eania, na It\u00e1lia ou na Europa Oriental.<br \/>\n<strong>Voltando \u00e0 quest\u00e3o do contato e do sinal arqueol\u00f3gico que ele pode deixar, um dos fen\u00f4menos mais intrigantes do fim da Era do Gelo na Europa \u00e9 o aparecimento da cultura chatelperroniana entre os neandertais, que parece mostrar o mesmo tipo de adornos, colares, cultura simb\u00f3lica complexa que os humanos modernos mostravam. Muita gente v\u00ea isso como prova do contato entre os povos, at\u00e9 como uma forma de acultura\u00e7\u00e3o dos neandertais pelos modernos, mas at\u00e9 onde sei o sr. discorda. Qual seria ent\u00e3o a melhor forma de explicar o fen\u00f4meno do chatelperroniano entre os neandertais?<\/strong><br \/>\nZilh\u00e3o &#8211; Mais uma vez, \u00e9 um problema emp\u00edrico. \u00c9 conceb\u00edvel, \u00e9 leg\u00edtimo supor que o aparecimento de objetos de adorno e de uma cultura simb\u00f3lica entre os neandertais \u00e9 o resultado de um processo de acultura\u00e7\u00e3o, mas para que isso acontecesse, n\u00f3s temos de ter modernos, com sua pr\u00f3pria cultura simb\u00f3lica, nas imedia\u00e7\u00f5es, no tempo em que come\u00e7a esse fen\u00f4meno entre os neandertais. Por que do contr\u00e1rio n\u00e3o h\u00e1 acultura\u00e7\u00e3o &#8211; para haver acultura\u00e7\u00e3o, tem de estar situado ali, ao lado, na mesma \u00e9poca, grosso modo.<br \/>\nNa minha opini\u00e3o, o que os dados arqueol\u00f3gicos mostram de forma absolutamente convincente \u00e9 que a emerg\u00eancia desse comportamento simb\u00f3lico entre os neandertais \u00e9 anterior &#8211; e \u00e9 anterior de v\u00e1rios milhares de anos &#8211; \u00e0 mais antiga evid\u00eancia f\u00f3ssil ou arqueol\u00f3gica da presen\u00e7a de homens modernos na Europa, e portanto a explica\u00e7\u00e3o de acultura\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode funcionar, tem de se arranjar outra.<br \/>\nE sobretudo, se tivermos em conta que esses objetos de adorno que aparecem no castelperronense, ou chatelperroniano, de Fran\u00e7a s\u00e3o completamente diferentes daqueles que caracterizam as mais antigas culturas simb\u00f3licas em \u00c1frica ou no Pr\u00f3ximo Oriente. Em \u00c1frica, os mais antigos objetos de adorno que se conhecem s\u00e3o conchas marinhas, de caracol marinho, que existe nas costas da \u00c1frica do Sul e que aparece perfurado, como de um colar ou de um adorno de outro tipo, numa gruta chamada Blombos, na \u00c1frica do Sul, com uma cronologia de uns 75 mil anos.<br \/>\nVamos a encontrar depois, no Pr\u00f3ximo Oriente, num abrigo ou gruta do L\u00edbano e outro no sudeste da Turquia, muito pr\u00f3ximo, em n\u00edveis com 40 mil, 45 mil anos de idade. O mesmo tipo de adorno, exatamente o mesmo. Uma esp\u00e9cie diferente, um caracol mediterr\u00e2neo, mas o mesmo tipo de concha. A diferen\u00e7a s\u00f3 \u00e9 apreciativa para um especialista na classifica\u00e7\u00e3o de moluscos marinhos.<br \/>\nOu seja, durante 30 mil ou 40 mil anos, n\u00e3o h\u00e1, em \u00c1frica ou no Pr\u00f3ximo Oriente, em associa\u00e7\u00e3o com o homem moderno, nenhum outro objeto de adorno que n\u00e3o sejam conchas marinhas, ou, em algumas zonas do interior da \u00c1frica, contas pequeninas, pequenos discos com alguns mil\u00edmetros de di\u00e2metro, feitos a partir de casca do ovo da avestruz. \u00c9 tudo o que h\u00e1.<br \/>\nOra, na Europa, os adornos que aparecem entre os neandertais s\u00e3o completamente diferentes, s\u00e3o dentes de animais perfurados. S\u00e3o caninos de raposa, incisivos de bisonte [bis\u00e3o] ou de bov\u00eddeos selvagens, s\u00e3o falanges de rena, s\u00e3o f\u00f3sseis &#8211; ou ent\u00e3o, quando s\u00e3o conchas marinhas, como no caso de culturas neandertalenses da It\u00e1lia e da Gr\u00e9cia, s\u00e3o tubos de uma concha alongada, que eles cortavam nas duas extremidades e faziam uma esp\u00e9cie de tubo, que s\u00e3o muito diferentes de tudo que \u00e9 conhecido entre as culturas simb\u00f3licas do homem moderno.<br \/>\nEssa diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um problema de que uns faziam adornos com o que tinham \u00e0 m\u00e3o, e o que tinham \u00e0 m\u00e3o eram conchas marinhas, e outros tinham dentes de animais&#8230;<br \/>\n<strong>N\u00e3o \u00e9 mera quest\u00e3o de mat\u00e9ria-prima.<br \/>\n<\/strong>Zilh\u00e3o &#8211; N\u00e3o, todos eram ca\u00e7adores, todos tinham a op\u00e7\u00e3o de fazer pendentes com dentes de animais, mas os homens modernos n\u00e3o o fizeram. E n\u00e3o o fizeram at\u00e9 chegarem \u00e0 Europa. Os primeiros objetos de adorno desse tipo que se conhecem s\u00e3o posteriores ao contato com os neandertais, e pertencem \u00e0 chamada cultura aurignacense. Essa cultura aurignacense representa precisamente a combina\u00e7\u00e3o, a jun\u00e7\u00e3o de adornos que anteriormente s\u00f3 se conhecem entre os neandertais e adornos que anteriormente s\u00f3 se conhecem entre homens modernos. E ela data exatamente do momento do contacto, \u00e9 a cultura que aparece a seguir ao momento do contacto.<br \/>\nPor isso, eu penso que a explica\u00e7\u00e3o mais l\u00f3gica, em qualquer outro contexto que n\u00e3o estivesse t\u00e3o viciado pelos preconceitos que no passado houve contra os neandertais, em qualquer outro contexto que se fosse falar do contacto entre duas culturas abor\u00edgenes da Am\u00e9rica do Sul, do Brasil, por exemplo, ou da Am\u00e9rica do Norte numa situa\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica desse tipo, a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia. A cultura aurignacense representa a fus\u00e3o de duas culturas, na qual uma delas contribuiu com seu componente.<br \/>\nPortanto, vejo que, em vez de acultura\u00e7\u00e3o &#8211; a acultura\u00e7\u00e3o \u00e9 cronologicamente imposs\u00edvel &#8211; o que h\u00e1 que explicar \u00e9 o padr\u00e3o que vemos no aurignacense como mais uma prova, juntamente com a prova gen\u00e9tica e a prova dos f\u00f3sseis, de que do contato resultou uma miscigena\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ao n\u00edvel da cultura, n\u00e3o s\u00f3 da biologia.<br \/>\nE no n\u00edvel dos utens\u00edlios de pedra n\u00e3o h\u00e1 vest\u00edgios, aparentemente n\u00e3o se v\u00ea nenhuma contribui\u00e7\u00e3o neandertal, o aurignacense \u00e9 muito diferente do castelperronense. Da fus\u00e3o resultou uma cultura em que a tecnologia da pedra \u00e9 aquela trazida pelos homens modernos, mas em que a simbologia da representa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo ou do grupo social resulta de uma fus\u00e3o de duas tradi\u00e7\u00f5es diferentes, a dos modernos, remontando a 30 mil, 40 mil anos e a dos neandertais, mais recente, mas com toda a probabilidade, tendo emergida a neandertal de forma independente.<br \/>\n<strong>Mas fala-se muito de uma &#8220;Grande Explos\u00e3o Criativa&#8221; na fabrica\u00e7\u00e3o de artefatos, surgimento da arte e do comportamento simb\u00f3lico etc. na Europa desse per\u00edodo. Diante desses dados o sr. diria ent\u00e3o que h\u00e1 uma aura de mito em torno dessa explos\u00e3o? Ela teria sido muito menos repentina do que se diz?<\/strong><br \/>\nZilh\u00e3o &#8211; O problema com esse conceito da explos\u00e3o criativa \u00e9 que ele amalgamava processos que, vistos com a cronologia mais refinada, mais precisa que temos hoje em dia, n\u00f3s sabemos que ocorreram de forma escalonada, e n\u00e3o simult\u00e2nea.<br \/>\nH\u00e1 um elemento novo, que se tenta amalgamar com essa hist\u00f3ria dos objetos de adorno, que \u00e9 a arte figurativa. Mas ela, ao contr\u00e1rio do que muitas vezes se diz, n\u00e3o aparece ao mesmo tempo. Ela data do final do per\u00edodo aurignacense, mais de 5.000 anos ap\u00f3s o contacto. S\u00e3o as estatuetas de marfim das jazidas do sul da Alemanha e a arte parietal [pintada ou gravada em paredes de caverna] da gruta de Chauvet, em Fran\u00e7a, da ordem dos 31 mil, 32 mil anos. N\u00e3o h\u00e1 nada mais antigo do que isso. Parece ser algo que surge relativamente tarde e relativamente de repente. E h\u00e1 que ter uma explica\u00e7\u00e3o para isso.<br \/>\nMas, dada a cronologia do processo, a arte figurativa n\u00e3o \u00e9 algo que possa ser considerado uma propriedade dos humanos modernos que chegavam \u00e0 Europa, que era um sintoma do que eles tinham e os outros n\u00e3o tinham, e por isso acabaram por predominar. Utilizar a arte figurativa para raciocinar sobre o que aconteceu no momento do contacto \u00e9 a mesma coisa que n\u00f3s estarmos a utilizar a inven\u00e7\u00e3o dos computadores, ou das apresenta\u00e7\u00f5es Powerpoint, para explicar o que aconteceu na Babil\u00f4nia h\u00e1 5.000 anos.<br \/>\n<strong>Isso \u00e9 o mais intrigante, e o mais dif\u00edcil de explicar: qual o gatilho desses eventos, desse aparecimento da capacidade simb\u00f3lica que surge &#8220;de repente&#8221;.<\/strong><br \/>\nZilh\u00e3o &#8211; Penso que a explica\u00e7\u00e3o vir\u00e1 a ser encontrada no interior de uma fam\u00edlia de explica\u00e7\u00f5es que t\u00eam que ver com a demografia e a organiza\u00e7\u00e3o social. Neste caso, eu penso que essas coisas aparecem quando se tornam necess\u00e1rias. Ora, o que s\u00e3o os objetos de adorno? S\u00e3o formas de identifica\u00e7\u00e3o da pessoa como pessoa, do grupo et\u00e1rio a que pertence, o estatuto social que tem, ou a etnia com a qual tem a lealdade.<br \/>\nOra, esse tipo de necessidade s\u00f3 existe em sociedades onde, por um lado, existe a probabilidade de no cotidiano virmos a encontrar outra pessoas que nunca conhecemos, nunca vimos, nem sequer falam a mesma l\u00edngua que n\u00f3s.<br \/>\nQuando isso acontece, a exist\u00eancia de adornos que transmitem instantaneamente uma informa\u00e7\u00e3o sobre a pessoa se tornam um passaporte ou um documento de identidade. Esses elementos, ent\u00e3o, traduzem a emerg\u00eancia de patamares de densidade populacional que criam situa\u00e7\u00f5es em que a identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante.<br \/>\nA explica\u00e7\u00e3o da arte tem a ver com o mesmo tipo de fen\u00f4menos, mas num patamar ainda mais elevado, em que aparecem quest\u00f5es ligadas \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, na qual o territ\u00f3rio, por meio dos antepassados m\u00edticos ou tot\u00eamicos, pertencem a esta gente e n\u00e3o \u00e0quela. E se n\u00e3o apareceu antes, \u00e9 porque n\u00e3o fazia falta (risos).<br \/>\nA explica\u00e7\u00e3o alternativa \u00e9 que essas coisas n\u00e3o apareciam porque a humanidade n\u00e3o tinha a capacidade cognitiva para isso. Mas se vamos por esse caminho diremos que os computadores tamb\u00e9m s\u00f3 apareceram no s\u00e9culo 20 porque antes a humanidade n\u00e3o tinha a capacidade cognitiva &#8211; pelo contr\u00e1rio, a prova de que o inventou \u00e9 que tinha a capacidade cognitiva para o fazer anteriormente.<br \/>\n<strong>Deixei a quest\u00e3o mais complicada para o final. Na opini\u00e3o do sr., que tipo de mente tinham os neandertais? Era uma mente fundamentalmente igual \u00e0 nossa?<\/strong><br \/>\nZilh\u00e3o &#8211; (Suspiro) Como arque\u00f3logo, s\u00f3 posso dizer que os dados n\u00e3o suportam o ponto de vista de que a mente neandertal e a dos humanos modernos funcionassem de maneira diferente. N\u00e3o h\u00e1 qualquer prova de que isso fosse assim. Agora, a gente n\u00e3o pode viajar no tempo, s\u00f3 podemos raciocinar com base no que chegou at\u00e9 n\u00f3s, ent\u00e3o certeza absoluta nunca vamos ter.<br \/>\nA especula\u00e7\u00e3o sobre poss\u00edveis diferen\u00e7as \u00e9 leg\u00edtima, at\u00e9 interessante. Agora, como tudo que tem a ver com o conhecimento, h\u00e1 que distinguir entre o que \u00e9 ci\u00eancia e o que \u00e9 especula\u00e7\u00e3o. Se eu for escrever um artigo cient\u00edfico, s\u00f3 posso dizer que n\u00e3o h\u00e1 qualquer diferen\u00e7a vis\u00edvel. Mas, se eu tiver a intui\u00e7\u00e3o de que uma diferen\u00e7a existe, \u00e9 inteiramente leg\u00edtimo que defenda esse ponto de vista, mas devo faz\u00ea-lo num romance, numa novela, ou num filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, ou de fic\u00e7\u00e3o pr\u00e9-hist\u00f3rica (risos).<br \/>\n<a href=\"http:\/\/livraria.folha.com.br\/catalogo\/1026370\/alem-de-darwin\"><strong>Conhe\u00e7a Al\u00e9m de Darwin, meu primeiro livro de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/strong><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/twitter.com\/reinaldojlopes\"><strong>Siga-me no Twitter<\/strong><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.jsp?id=K4757041Y9\"><strong>Para saber quem sou: meu Curr\u00edculo Lattes<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direto do t\u00fanel do tempo, e em tempos de genoma neandertal (quase) completo, achei que seria legal compartilhar com voc\u00eas uma entrevista que fiz na era G1 com o arque\u00f3logo portugu\u00eas Jo\u00e3o Zilh\u00e3o, da Universidade de Bristol. 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