{"id":143,"date":"2010-05-25T13:34:05","date_gmt":"2010-05-25T16:34:05","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2010\/05\/guia_arqueologicamente_incorre_1\/"},"modified":"2010-05-25T13:34:05","modified_gmt":"2010-05-25T16:34:05","slug":"guia_arqueologicamente_incorre_1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2010\/05\/25\/guia_arqueologicamente_incorre_1\/","title":{"rendered":"Guia arqueologicamente incorreto da hist\u00f3ria do Brasil: a r\u00e9plica"},"content":{"rendered":"<p><em>And so it begins<\/em>. Meu amigo Leandro Narloch leu a cr\u00edtica sobre seu livro, o best-seller &#8220;Guia politicamente incorreto da hist\u00f3ria do Brasil&#8221;, aqui mesmo no Carbono-14, e replicou no texto abaixo, que tenho o prazer de reproduzir aqui. O debate est\u00e1 ficando interessante. J\u00e1 aviso ao Narloch que vem tr\u00e9plica por a\u00ed \ud83d\ude09 Leiam abaixo a resposta dele.<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;<br \/>\nQuando o Reinaldo Jos\u00e9 Lopes me contou que preparava uma cr\u00edtica metendo o cacete no cap\u00edtulo do Guia sobre os \u00edndios, eu tremi. O cara \u00e9 um dos melhores rep\u00f3rteres de ci\u00eancia do Brasil &#8211; domina de supercordas a sele\u00e7\u00e3o natural, tem um texto alegre e livre de clich\u00eas de ci\u00eancia, o que \u00e9 bem raro nessa \u00e1rea. A cr\u00edtica que ele postou semana passada tem observa\u00e7\u00f5es interessantes, mas, para meu al\u00edvio, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o devastadora quanto ele prometeu. Abaixo acato alguns pontos e ataco outros.<br \/>\nO Reinaldo me acusa principalmente de ter feito uma &#8220;mistureba de per\u00edodos e situa\u00e7\u00f5es coloniais&#8221;, omitindo o fato de os portugueses, depois de bem instalados no Brasil, promoverem ca\u00e7adas, guerras e escravizarem os \u00edndios. Isso \u00e9 injusto. Tr\u00eas ou quatro vezes o cap\u00edtulo deixa claro que houve ca\u00e7adas, escravid\u00e3o ind\u00edgena e exterm\u00ednio deliberado de \u00edndios por europeus. Passei longe de negar isso tudo. Por que n\u00e3o dei detalhes? Porque o livro n\u00e3o \u00e9 um guia neutro sobre a hist\u00f3ria do Brasil: \u00e9 um guia politicamente incorreto. Como diz o t\u00edtulo e a apresenta\u00e7\u00e3o, trata-se de uma obra parcial, que mostra s\u00f3 um lado. Se eu me dedicasse a chutar cachorro morto e repetir o que as pessoas j\u00e1 sabem, trairia o projeto e teria talvez duas d\u00fazias de leitores.<br \/>\nRevelar esse outro lado n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um exerc\u00edcio de pol\u00eamica. A maior novidade da hist\u00f3ria do Brasil hoje \u00e9 mostrar que nem sempre os indiv\u00edduos se enquadram em grandes esquemas sociol\u00f3gicos ou modelos de domina\u00e7\u00e3o. Mesmo diante de um n\u00famero menor de possibilidades, os \u00edndios faziam escolhas diversas, como qualquer ser racional. Os \u00edndios coloniais, mesmo sem ser maioria (n\u00e3o digo no livro que s\u00e3o maioria, como o Reinaldo sugere) mostram que \u00e9 preciso contar uma hist\u00f3ria com pessoas, n\u00e3o com rob\u00f4s movidos por interesses de classe.<br \/>\nAinda que a proposta seja mostrar s\u00f3 o outro lado, o Reinaldo est\u00e1 certo quando me acusa de omitir que, de acordo com o Retrato Molecular do Brasil, 0% dos brasileiros que se consideram brancos tem Cromossomo Y ind\u00edgena, ou seja: \u00edndios homens n\u00e3o deixaram descendentes entre os brancos do Brasil. Se eu cito os dados da pesquisa, ent\u00e3o deveria mostr\u00e1-la inteira &#8211; prometo acrescentar isso na pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o. Com devidas ressalvas. O estudo analisou o DNA de brasileiros que se consideram brancos. N\u00e3o os mesti\u00e7os, os negros, os cai\u00e7aras, os mamelucos ou os \u00edndios urbanos da Amaz\u00f4nia (regi\u00e3o com 20 milh\u00f5es de habitantes). Entre brancos, o mais esperado seria encontrar uma gen\u00e9tica&#8230; branca, e n\u00e3o ind\u00edgena. Por isso foi uma surpresa perceber que 30% dos brancos brasileiros v\u00eam de linhagens maternas amer\u00edndias. Apesar dessa limita\u00e7\u00e3o do estudo, o Reinaldo se baseia nele para dizer que &#8220;os homens ind\u00edgenas, de repente, pararam de se reproduzir&#8221;. Eis a\u00ed o que ele chama de maquiar e botar minissaia na evid\u00eancia.<br \/>\nMas a pergunta continua: por que os \u00edndios deixaram t\u00e3o menos descendentes que as \u00edndias? \u00c9 a\u00ed que a cr\u00edtica do Reinaldo desce uns dez degraus de qualidade e chega a um trecho constrangedor:<br \/>\nSer\u00e1 que os portugueses eram t\u00e3o mais gostosos (ui!) que os \u00edndios que as \u00edndias magicamente resolveram ter filhos s\u00f3 com europeus assim que Cabral p\u00f4s os p\u00e9s aqui? \u00c9 claro que n\u00e3o. Aconteceu o que acontece com todas as popula\u00e7\u00f5es conquistadas desde que o mundo \u00e9 mundo, das sagas b\u00edblicas \u00e0s guerras de Alexandre: os homens s\u00e3o mortos e as mulheres, emprenhadas.<br \/>\n\u00c9 sintom\u00e1tico falar de Alexandre para explicar por que os \u00edndios homens deixaram t\u00e3o poucos descendentes. Para a escravid\u00e3o negra, um exemplo equivalente seria o Remador de Ben-Hur: os escravos acorrentados, obrigados a remar enquanto levam um carrasco maldoso grita: &#8220;Reeeemem&#8221;! Estamos acostumados a pensar o passado brasileiro a partir desses modelos cl\u00e1ssicos, mas dever\u00edamos nos esfor\u00e7ar para deix\u00e1-los de lado. A nova hist\u00f3ria do Brasil mostra justamente que os modelos cl\u00e1ssicos n\u00e3o nos servem. Como costuma perguntar o historiador Jo\u00e3o Fragoso, como \u00e9 que se pode explicar, pelos modelos cl\u00e1ssicos de escravid\u00e3o, que uma parte dos escravos de um engenho ganhasse armas do pr\u00f3prio senhor para proteger a fazenda?<br \/>\n\u00c9 simplista e obsoleto olhar a hist\u00f3ria do Brasil como as guerras e conquistas cl\u00e1ssicas. \u00c9 melhor deix\u00e1-las aos filmes de Hollywood ou para o Cecil B. deMille.<br \/>\nA hist\u00f3ria sexual entre europeus e \u00edndias deixa isso evidente. No modo de pensar de muitas tribos, alian\u00e7as militares s\u00f3 existiam se fossem acompanhas de alian\u00e7as de sangue: s\u00f3 parentes eram aliados pol\u00edticos. Do mesmo modo, o casamento n\u00e3o era uma institui\u00e7\u00e3o privada, baseada no amor e na intimidade do casal, mas parte da estrutura social da tribo. &#8220;O casamento entre os guaranis determinava, ao mesmo tempo, todas as rela\u00e7\u00f5es que no Ocidente se conhecem como econ\u00f4micas e todas as rela\u00e7\u00f5es chamadas sociais&#8221;, diz o Jorge Caldeira no livro Mulheres a Caminho do Prata. Em S\u00e3o Paulo, em Pernambuco, no Paraguai, \u00edndios s\u00f3 se aliavam depois que suas filhas casassem com os europeus. Um exemplo de europeu que por influ\u00eancia ind\u00edgena teve v\u00e1rias esposas \u00edndias \u00e9 Jer\u00f4nimo de Albuquerque, cunhado de Duarte Coelho, o primeiro donat\u00e1rio de Pernambuco. Os dois precisavam do trabalho dos \u00edndios para mover os engenhos. Como os nativos preferiam derrubar pau-brasil, os portugueses tiveram que conquistar o apoio das tribos por meio de casamentos. Jer\u00f4nimo de Albuquerque teve tantos filhos com \u00edndias que ganhou o nome de &#8220;Ad\u00e3o Pernambucano&#8221;.<br \/>\nVejam como esse caso vai al\u00e9m das batalhas gregas e da l\u00f3gica &#8220;os homens s\u00e3o mortos e as mulheres, emprenhadas&#8221;. Vejam como a hist\u00f3ria perde se nos limitarmos a aqueles modelos simpl\u00f3rios. \u00c9 isso que eu tentei dizer no livro &#8211; e n\u00e3o negar ca\u00e7adas e exterm\u00ednios.<br \/>\n&#8211;<br \/>\nOutra cr\u00edtica \u00e9 sobre o Domingos Jorge Velho, bandeirante paulista que destruiu o Quilombo de Palmares. O Reinaldo se baseia nos estudos do fil\u00f3logo Heitor Megale para mostrar que, ao contr\u00e1rio do que defendo no livro, o bandeirante falava, sim, portugu\u00eas. Eu n\u00e3o conhecia essas pesquisas, agrade\u00e7o o Reinaldo pela dica. Mas pera\u00ed. O estudo do Heitor Megale \u00e9 sobre a l\u00edngua escrita no s\u00e9culo 17, n\u00e3o a l\u00edngua falada. Est\u00e1 baseada em documentos de cart\u00f3rio e cartas oficiais. Em mensagens assim, \u00e9 \u00f3bvio que os textos n\u00e3o seriam em tupi-guarani. Certamente se usava o portugu\u00eas, e um portugu\u00eas formal, puxado para tr\u00e1s. Numa \u00e9poca em que poucos sabiam escrever e raros tinham naturalidade com a escrita, era muito comum esbanjar eruditismo nos textos. Escrever em tupi-guarani? Jamais.<br \/>\nOk, talvez o Jorge Velho falasse algum portugu\u00eas, mas de que qualidade? O bispo de Olinda, que encontrou Jorge Velho no fim do s\u00e9culo 17, diz que ele usava um tradutor: &#8220;Este homem \u00e9 um dos maiores selvagens com que tenho topado: quando se avistou comigo trouxe consigo l\u00edngua, porque nem falar sabe nem se diferencia do mais b\u00e1rbaro tapuia; [&#8230;] lhe assistem sete \u00edndias concubinas&#8221;. Deve haver muita opini\u00e3o nesse testemunho, mas \u00e9 apressado descart\u00e1-lo como &#8220;preconceito de classe&#8221;, como diz o Reinaldo (o que, ali\u00e1s, \u00e9 um tipo de coment\u00e1rio meio velho, comum no Brasil uns 60 anos atr\u00e1s, quando se criticava o St\u00e1lin). Eu n\u00e3o descartaria t\u00e3o rapidamente o depoimento do bispo, j\u00e1 que encaixa no que se sabe hoje sobre estilo de vida de S\u00e3o Paulo nos s\u00e9culos 16 e 17. Ser\u00e1 que o &#8220;l\u00edngua&#8221; servia para traduzir dois tipos de portugu\u00eas? Dif\u00edcil acreditar nisso. No s\u00e9culo 17, entre tupis, j\u00eas, franceses, holandeses, espanh\u00f3is, angolanos, falar outro portugu\u00eas deveria ser o menor dos problemas.<br \/>\n&#8211;<br \/>\nO Reinaldo termina o texto dizendo que &#8220;h\u00e1 picaretas suficientes na hist\u00f3ria do Brasil pra tese do livro ficar em p\u00e9, sem mudan\u00e7a nenhuma, caso esse cap\u00edtulo n\u00e3o existisse&#8221;. N\u00e3o sei sobre quem ele est\u00e1 falando. A nossa hist\u00f3ria est\u00e1 sendo muito bem contada nos \u00faltimos dez, vinte anos. O Guia est\u00e1 baseado em trabalhos de pesquisadores excelentes: Francisco Doratioto, Manolo Florentino, Alberto da Costa e Silva, Guiomar de Grammont, Maria Regina Celestino de Almeida, Elio Gaspari. Se o Reinaldo prefere fechar os olhos \u00e0 nova hist\u00f3ria do Brasil e ficar com os manifestos de esquerda que predominavam at\u00e9 os 80, tudo bem. \u00c9 uma decis\u00e3o pessoal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>And so it begins. Meu amigo Leandro Narloch leu a cr\u00edtica sobre seu livro, o best-seller &#8220;Guia politicamente incorreto da hist\u00f3ria do Brasil&#8221;, aqui mesmo no Carbono-14, e replicou no texto abaixo, que tenho o prazer de reproduzir aqui. O debate est\u00e1 ficando interessante. 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