{"id":154,"date":"2010-07-27T20:54:41","date_gmt":"2010-07-27T23:54:41","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2010\/07\/um_jardim_murado\/"},"modified":"2010-07-27T20:54:41","modified_gmt":"2010-07-27T23:54:41","slug":"um_jardim_murado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2010\/07\/27\/um_jardim_murado\/","title":{"rendered":"Um jardim murado"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto continuo brigando pra voltar a publicar com frequ\u00eancia por aqui, eis algo que vos pode divertir e\/ou interessar minimalmente: um conto que publiquei na revista Pesquisa Fapesp em 2006, que se inspira nos famigerados hobbits da ilha de Flores.<br \/>\n&#8212;&#8212;-<br \/>\n&#8220;Droga de GPS&#8221;, xingou Sean.<br \/>\nEm retrospecto, tinha sido uma p\u00e9ssima id\u00e9ia desde o come\u00e7o. Todo mundo estava de folga no fim de semana, e boa parte do pessoal tinha corrido para pegar o primeiro v\u00f4o para Jacarta, ou mesmo para Bali (apesar dos alertas de bomba). Mas ele tinha decidido &#8220;conhecer a floresta um pouquinho melhor&#8221;.<br \/>\n&#8220;A gente passa dia e noite curvado dentro desses muros de calc\u00e1rio. Eu adoro esse trabalho, mas tem um monte de esp\u00e9cies por a\u00ed que a gente deveria conhecer antes que elas entrem para o registro f\u00f3ssil, mo\u00e7ada&#8221;, dissera ent\u00e3o.<br \/>\nEle se lembrava de que Pete, o paleoantrop\u00f3logo-chefe, tinha rido e sacudido a cabe\u00e7a.<br \/>\n&#8220;Companheiro, agora eu sei por que voc\u00ea entrou nesse neg\u00f3cio de ca\u00e7ar homin\u00eddeo. Voc\u00ea \u00e9 uma droga de sonhador, isso sim.&#8221;<br \/>\nE agora j\u00e1 passava das tr\u00eas e, depois do que tinha parecido um cochilo inocente encostado a um tronco, ele estava inegavelmente perdido. Nem adiantava tentar achar o leste pela posi\u00e7\u00e3o do Sol debaixo de um dossel daqueles. &#8220;Tenho de encontrar uma clareira. N\u00e3o deve ser t\u00e3o dif\u00edcil com tanta madeireira por a\u00ed hoje em dia&#8221;, pensou.<br \/>\nSean escolheu uma dire\u00e7\u00e3o qualquer e foi em frente. Os p\u00e1ssaros ficaram estranhamente quietos depois de um tempo, at\u00e9 que ele viu um trecho de c\u00e9u aberto e escutou o que parecia ser uma voz de crian\u00e7a a algumas dezenas de metros de dist\u00e2ncia. Talvez fosse uma fam\u00edlia de lavradores, levando a vida dura da floresta tropical.<br \/>\nEle ent\u00e3o entrou na clareira e olhou para baixo &#8211; havia uma depress\u00e3o n\u00e3o muito funda, cheia de grama baixa, moitas e pequenas flores. &#8220;Eles n\u00e3o chamam esse lugar de Flores \u00e0 toa&#8221;, sorriu Sean consigo mesmo.<br \/>\nO antrop\u00f3logo viu os meninos cujos gritos escutara: tinham uns cinco ou seis anos, pelo jeito. Estavam de costas para ele e andavam nus pela grama, com bast\u00f5es na m\u00e3o. Ele os saudou em indon\u00e9sio (usando as poucas palavras que conhecia) e, por alguma raz\u00e3o, aquilo pareceu assust\u00e1-los. Correram e gritaram de novo, e tr\u00eas garotos ligeiramente mais velhos, tamb\u00e9m com algum tipo de bast\u00e3o, sa\u00edram de tr\u00e1s de uma moita mais alta, caminhando r\u00e1pido na dire\u00e7\u00e3o de Sean. N\u00e3o pareciam l\u00e1 muito contentes.<br \/>\nE ent\u00e3o, quando chegaram perto o suficiente para que ele visse o rosto deles, o mundo de Sean virou p\u00f3.<br \/>\nSean n\u00e3o precisava medir suas mand\u00edbulas nem plot\u00e1-las ao lado de uma amostra de povos do resto do mundo para saber, para sentir nos pr\u00f3prios ossos que eles ficavam de fora da varia\u00e7\u00e3o normal do Homo sapiens &#8212; que, literalmente, eles n\u00e3o eram humanos modernos. As cabe\u00e7as eram t\u00e3o pequenas &#8212; Sean, um australiano grandalh\u00e3o, quase seria capaz de cobri-las inteiras com as duas m\u00e3os. E os &#8220;garotos mais velhos&#8221; tinham tanto p\u00ealo no corpo &#8212; tanto quanto um europeu adulto &#8212; que s\u00f3 podiam ser &#8220;gente grande&#8221;.<br \/>\nO antrop\u00f3logo estava t\u00e3o atordoado que precisou de um tempo para perceber que um tri\u00e2ngulo de bast\u00f5es com pontas de pedra acabara de cerc\u00e1-lo. Sons (aquilo eram palavras?) sa\u00edam das bocas nervosas dos ilh\u00e9us. Sean respirou fundo. &#8220;Pelamordedeus, n\u00e3o me v\u00e1 estragar tudo, companheiro&#8221;, resmungou. Limitou-se a levantar as m\u00e3os, palmas viradas para fora, e a sorrir, tentando n\u00e3o olhar os lanceiros direto nos olhos.<br \/>\nPor alguma raz\u00e3o, isso pareceu acalmar os ilh\u00e9us. Um deles veio at\u00e9 Sean, uma figura min\u00fascula, de ar digno, e olhou fundo nos olhos cinzentos do antrop\u00f3logo. Ele tamb\u00e9m sorria.<br \/>\nSeja como for, os juvenis (ou crian\u00e7as?), depois daquele ol\u00e1 assustador em indon\u00e9sio, tinham se acalmado e estavam se aproximando de novo. Meninos s\u00e3o meninos em qualquer lugar: o menorzinho cutucou o traseiro de Sean com a lan\u00e7a e saiu correndo e rindo (sim, eles riam). Ele logo voltou para inspecionar o gigante de cabelo vermelho. Sean tocou o rosto dele e, devagarzinho, abriu a boca do menino. Havia linhas de crescimento nos dentes: o garoto claramente tinha passado por maus bocados, mas, no geral, parecia saud\u00e1vel.<br \/>\nO sol poente deu a Sean uma boa id\u00e9ia de onde diabos estava, afinal de contas, e ele sentiu um impulso esquisito para voltar para a base o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Passava das oito e uma chuva furiosa estava encharcando o mundo quando chegou. N\u00e3o conseguia ligar o telefone, ainda n\u00e3o. Sean secou o cabelo e decidiu que precisava de uma boa leitura. O terceiro chimpanz\u00e9 estava em cima da cama, e ele retomou o livro de onde tinha parado na noite anterior. Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, o tema era a Tasm\u00e2nia.<br \/>\n&#8220;Uma vez que os \u00fanicos barcos dos tasmanianos eram jangadas que s\u00f3 serviam para jornadas curtas, eles n\u00e3o tiveram nenhum contato com outros humanos desde que o aumento do n\u00edvel do mar separou a Tasm\u00e2nia da Austr\u00e1lia h\u00e1 10 mil anos. Confinados no seu universo particular por centenas de gera\u00e7\u00f5es, eles sobreviveram ao mais longo isolamento da hist\u00f3ria humana moderna &#8211; um isolamento que s\u00f3 foi retratado de forma parecida pela fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Quando os colonos brancos da Austr\u00e1lia finalmente encerraram esse isolamento, n\u00e3o havia na Terra dois povos menos equipados para entender um ao outro do que os tasmanianos e os brancos.&#8221;<br \/>\nSean leu sobre a ca\u00e7ada, o confinamento e o exterm\u00ednio lento e sistem\u00e1tico de cada homem, mulher e crian\u00e7a tasmaniana. Leu sobre os cientistas vitorianos enlouquecidos que mutilaram, enterraram, escavaram e voltaram a enterrar os restos daquela gente como se fossem trof\u00e9us, como curiosidades que s\u00f3 se prestavam aos shows de horrores ou aos museus. Leu sobre Truganini, que t\u00e3o horrorizada estava com tal destino que fez seus guardi\u00f5es brancos prometerem que seu corpo seria jogado em mar aberto. Uma promessa que, claro, eles n\u00e3o cumpriram.<br \/>\nSean estremeceu. N\u00e3o conseguia tirar os olhos e os dentes min\u00fasculos do menino da cabe\u00e7a. Seu O senhor dos an\u00e9is tamb\u00e9m estava l\u00e1 (\u00f3tima coisa para carregar quando se procura hobbits, pensou ele, embora n\u00e3o desse jeito t\u00e3o literal). Sabia exatamente onde abrir o livro: era t\u00e3o amargamente apropriado. Ele quase podia ouvir a voz de Gildor Inglorion falando com Frodo: &#8220;O vasto mundo est\u00e1 \u00e0 volta de voc\u00eas: podem se cercar por dentro, mas n\u00e3o podem cerc\u00e1-lo para fora para sempre&#8221;.<br \/>\n&#8220;Dane-se. Eu pelo menos posso tentar&#8221;, respondeu Sean.<br \/>\nQuando seus colegas voltaram, n\u00e3o ouviram nem uma palavra sobre o encontro na floresta. A equipe ficou desapontada ao saber, alguns anos mais tarde, que o governo indon\u00e9sio tinha declarado o s\u00edtio parte de um santu\u00e1rio inviol\u00e1vel de vida selvagem, proibindo futuras escava\u00e7\u00f5es. Aparentemente, havia uma esp\u00e9cie muito amea\u00e7ada de primata ali. \u00c0 boca pequena, as pessoas comentavam que Sean era muito amigo dos lobistas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto continuo brigando pra voltar a publicar com frequ\u00eancia por aqui, eis algo que vos pode divertir e\/ou interessar minimalmente: um conto que publiquei na revista Pesquisa Fapesp em 2006, que se inspira nos famigerados hobbits da ilha de Flores. &#8212;&#8212;- &#8220;Droga de GPS&#8221;, xingou Sean. Em retrospecto, tinha sido uma p\u00e9ssima id\u00e9ia desde o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":460,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[22,23,27],"tags":[],"class_list":["post-154","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-paleoantropologia","category-paleolitico","category-ta-muito-engracadinho-hein-robin"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/154","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/users\/460"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=154"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/154\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=154"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=154"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=154"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}