{"id":157,"date":"2011-08-19T12:46:06","date_gmt":"2011-08-19T15:46:06","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2011\/08\/sangue_novo_na_lapa_do_santo\/"},"modified":"2020-03-03T15:32:11","modified_gmt":"2020-03-03T18:32:11","slug":"sangue_novo_na_lapa_do_santo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2011\/08\/19\/sangue_novo_na_lapa_do_santo\/","title":{"rendered":"Sangue novo na Lapa do Santo"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"lapa.JPG\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/lapa1.jpg\" width=\"500\" height=\"332\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><br \/>\nUma das not\u00edcias mais legais da arqueologia brasileira dos \u00faltimos tempos \u00e9 que h\u00e1 uma equipe nova trabalhando na Lapa do Santo, um bel\u00edssimo anfiteatro natural de calc\u00e1rio na regi\u00e3o de Lagoa Santa (MG).<br \/>\nEm 2002, tive o privil\u00e9gio de visitar a lapa e v\u00e1rios outros abrigos calc\u00e1rios da regi\u00e3o na companhia do bioantrop\u00f3logo Walter Neves, da USP, e sua trupe. Agora, um ex-aluno do Walter, Andr\u00e9 Strauss, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, voltou a trabalhar no s\u00edtio.<br \/>\nO sedimento de l\u00e1 est\u00e1 coalhado de sepultamentos do povo de Luzia, os paleo\u00edndios de Lagoa Santa, gente que tinha uma morfologia craniana inusitada, mais parecida com a de abor\u00edgines australianos e africanos do que com a de ind\u00edgenas modernos. A idade dos sepultamentos gira em torno de 9.000 anos a 8.000 anos antes do presente. Tipo este aqui, \u00f3:<br \/>\n<img decoding=\"async\" alt=\"lapa santo.JPG\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/lapa20santo.jpg\" width=\"500\" height=\"409\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><br \/>\nAbaixo, um pouquinho do contexto desses sepultamentos em reportagem que fiz para a Folha tempos atr\u00e1s. Boa sorte para os novos desbravadores da Lapa do Santo!<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<br \/>\nBrasileiros pr\u00e9-hist\u00f3ricos faziam &#8220;arte&#8221; com mortos<br \/>\nEscava\u00e7\u00f5es em MG revelam pinturas, cortes e mistura de ossos de pessoas<br \/>\nRegras l\u00f3gicas parecem ter guiado rituais em gruta da regi\u00e3o de Belo Horizonte, entre 8.800 e 8.200 anos atr\u00e1s<br \/>\nREINALDO JOS\u00c9 LOPES<br \/>\nEDITOR DE CI\u00caNCIA<br \/>\nNa hora de lidar com a morte, criatividade \u00e9 o que n\u00e3o faltava \u00e0 misteriosa gente que vivia no cora\u00e7\u00e3o de Minas Gerais h\u00e1 quase 9.000 anos. Os sepultamentos ali parecem ter sido obras de arte, cuja principal mat\u00e9ria-prima era o corpo humano.<br \/>\nCortados com instrumentos de pedra, os ossos de diversos mortos podiam ser reunidos dentro do cr\u00e2nio de outra pessoa. Em outros casos, o uso de tinta ou fogo dava uma apar\u00eancia diferente ao cad\u00e1ver. E, \u00e0s vezes, dentes de um indiv\u00edduo eram arrancados para adornar os restos mortais de outro.<br \/>\nO invent\u00e1rio dessas estranhas pr\u00e1ticas est\u00e1 sendo feito pelo arque\u00f3logo Andr\u00e9 Strauss, cujo mestrado na USP versou sobre o tema. &#8220;Embora a regi\u00e3o seja escavada desde o s\u00e9culo 19, com centenas de esqueletos encontrados, todo mundo achava que os sepultamentos ali eram muito simples, muito sem gra\u00e7a&#8221;, diz ele.<br \/>\n<strong>DE OLHO NO CR\u00c2NIO<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 ent\u00e3o, lembra Strauss, o principal interesse dos cientistas era o formato do cr\u00e2nio dos chamados paleo\u00edndios, como s\u00e3o conhecidos os povos que habitavam as Am\u00e9ricas no per\u00edodo.<br \/>\nA regi\u00e3o central de Minas \u00e9 famosa por ter abrigado uma gente cujas fei\u00e7\u00f5es lembravam os atuais africanos e abor\u00edgines da Austr\u00e1lia, bem diferente do tipo f\u00edsico dos \u00edndios atuais. \u00c9 l\u00e1 que foi achada a c\u00e9lebre Luzia, mulher mais antiga do continente, com mais de 11 mil anos.<br \/>\nAo longo desta d\u00e9cada, uma equipe da USP liderada pelo bioantrop\u00f3logo Walter Neves (que orientou o mestrado de Strauss) e pelo arque\u00f3logo Renato Kipnis voltou \u00e0 regi\u00e3o e fez uma explora\u00e7\u00e3o detalhada da gruta conhecida como Lapa do Santo. O resultado: 26 sepultamentos que enterram a ideia de que os funerais ali padeciam de falta de imagina\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil saber o que se passava na cabe\u00e7a das pessoas. Mas d\u00e1 para perceber, por exemplo, regras l\u00f3gicas na maneira como esses ossos eram cortados&#8221;, diz Strauss, que hoje faz seu doutorado no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva (Alemanha).<br \/>\nH\u00e1, por exemplo, uma estranha simetria: nos enterros &#8220;compostos&#8221;, quando o cr\u00e2nio \u00e9 de um adulto, o resto do esqueleto \u00e9 de crian\u00e7as, enquanto ossos de pessoas maduras acompanham cr\u00e2nios infantis. Uma mand\u00edbula perfurada parece n\u00e3o ter sido um mero colar: ossos foram arrumados em cima dela, como se fosse uma cesta.<br \/>\n&#8220;Muita gente me pergunta se n\u00e3o h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o disso tudo com canibalismo. Mas um dos sinais de antropofagia \u00e9 quando os ossos humanos encontrados num s\u00edtio [arqueol\u00f3gico] s\u00e3o tratados da mesma maneira que os ossos de animais, e isso a gente n\u00e3o v\u00ea&#8221;, pondera ele.<br \/>\nOutra possibilidade, a de sacrif\u00edcio humano e posterior ritual com os mortos, tamb\u00e9m n\u00e3o parece muito prov\u00e1vel, argumenta Strauss. N\u00e3o h\u00e1 sinais de viol\u00eancia -fraturas na cabe\u00e7a, por exemplo- entre os mortos da gruta. Os ossos parecem ter sido manipulados (e descarnados) logo depois da morte.<br \/>\n\u00c9 tentador pensar na Lapa do Santo como uma Cidade dos Mortos, um local onde as tribos da regi\u00e3o se reuniam para celebrar a ida de seus membros para o al\u00e9m.<br \/>\nPor\u00e9m, diz o arque\u00f3logo, cole\u00e7\u00f5es antigas de esqueletos de outros s\u00edtios tamb\u00e9m andam revelando marcas de corte, agora que foram reanalisadas. &#8220;Antes n\u00e3o se prestava aten\u00e7\u00e3o a isso.&#8221;<br \/>\nA pesquisa recebeu apoio financeiro da Fapesp (Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo).<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<br \/>\n<a href=\"http:\/\/livraria.folha.com.br\/catalogo\/1026370\/alem-de-darwin\"><strong>Conhe\u00e7a Al\u00e9m de Darwin, meu primeiro livro de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/strong><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/twitter.com\/reinaldojlopes\"><strong>Siga-me no Twitter<\/strong><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.jsp?id=K4757041Y9\"><strong>Para saber quem sou: meu Curr\u00edculo Lattes<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das not\u00edcias mais legais da arqueologia brasileira dos \u00faltimos tempos \u00e9 que h\u00e1 uma equipe nova trabalhando na Lapa do Santo, um bel\u00edssimo anfiteatro natural de calc\u00e1rio na regi\u00e3o de Lagoa Santa (MG). 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