{"id":16,"date":"2009-04-29T23:10:23","date_gmt":"2009-04-30T02:10:23","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2009\/04\/gripe_suina_armas_germes_e_aco\/"},"modified":"2009-04-29T23:10:23","modified_gmt":"2009-04-30T02:10:23","slug":"gripe_suina_armas_germes_e_aco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2009\/04\/29\/gripe_suina_armas_germes_e_aco\/","title":{"rendered":"Gripe su\u00edna: armas, germes e a\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"javali.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/javali1.jpg\" width=\"500\" height=\"323\" class=\"mt-image-none\" \/><\/span><br \/>\nEst\u00e1 dif\u00edcil pensar em qualquer outra coisa que n\u00e3o seja o apocalipse porcino nesta semana (ainda mais trabalhando com jornalismo em tempo real. *Suspiro*.) Portanto, melhor usar a histeria (?) em favor de uma li\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica important\u00edssima: como a domestica\u00e7\u00e3o de porcos e outros animais transformou a sa\u00fade das sociedades humanas. Em muitos casos, para pior &#8212; muito pior.<br \/>\nColocando a coisa de forma um tanto resumida e simplificada, \u00e9 quase certo que a nossa esp\u00e9cie s\u00f3 enfrenta doen\u00e7as infecciosas de avan\u00e7o r\u00e1pido e potencialmente letais porque aprendeu a criar outros bichos em larga escala. Gripe (claro!), var\u00edola, coqueluche, sarampo, c\u00f3lera, difteria, tifo, tuberculose &#8212; antes do desenvolvimento de antibi\u00f3ticos e da medicina moderna em geral, d\u00e1 para imaginar como essa listinha matava gente. Acontece que todas essas doen\u00e7as come\u00e7aram sua &#8220;carreira&#8221; como zoonoses, a julgar pela proximidade gen\u00e9tica dos pat\u00f3genos respons\u00e1veis por elas com v\u00edrus ou microrganismos carregados por animais dom\u00e9sticos.<br \/>\nA tese \u00e9 um dos elementos proeminentes do j\u00e1 cl\u00e1ssico livro &#8220;Armas, Germes e A\u00e7o&#8221;, do bioge\u00f3grafo americano Jared Diamond, da Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles &#8212; da\u00ed o t\u00edtulo deste post. \u00c9 s\u00f3 olhar para o processo que transformou javalis (como o simp\u00e1tico bicho da foto acima) em porquinhos dom\u00e9sticos para se dar conta de que a din\u00e2mica epidemiol\u00f3gica virou do avesso por causa da domestica\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>Densidades, densidades<\/strong><br \/>\nPrimeiro, mal d\u00e1 para comparar as densidades populacionais de humanos e bichos antes dos eventos de domestica\u00e7\u00e3o e depois dos eventos de domestica\u00e7\u00e3o. \u00c9 verdade que mam\u00edferos de grande porte como cavalos, javalis, ovinos e bovinos selvagens j\u00e1 viviam em bandos antes de virar criaturas de fazenda, mas raramente tantos bichos eram confinados em espa\u00e7os t\u00e3o pequenos quanto por obra e gra\u00e7a da a\u00e7\u00e3o humana.<br \/>\nE, claro, houve um feedback positivo entre popula\u00e7\u00e3o de animais dom\u00e9sticos e popula\u00e7\u00e3o humana. A quantidade de prote\u00edna animal (carne e leite), combust\u00edvel (fezes), adubo (fezes <em>again<\/em>), mat\u00e9ria-prima (ossos) e agasalho (peles) dispon\u00edvel para criadores de grandes mam\u00edferos \u00e9 exponencialmente superior \u00e0 que podia ser adquirida pelo melhor dos ca\u00e7adores-coletores. Junte a isso a agricultura e voc\u00ea tem, claro, a possibilidade de sustentar muito mais gente no mesmo espa\u00e7o de terra. Com sorte, esse excedente de gente, tamb\u00e9m gra\u00e7as aos bichos, fica at\u00e9 mais m\u00f3vel, podendo se deslocar e colonizar novas terras no lombo de cavalos, bois, jumentos e b\u00fafalos.<br \/>\nPare para pensar um instante em qu\u00e3o antinatural (do ponto de vista dos 6 milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o humana) \u00e9 essa situa\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos dez mil\u00eanios. A chance de contato pr\u00f3ximo com grandes mam\u00edferos ou mesmo bandos de aves que os ca\u00e7adores-coletores tinham era min\u00fascula. Neguinho dava gra\u00e7as a todos os deuses se abatesse um bis\u00e3o por m\u00eas. S\u00f3 que agora voc\u00ea tem um monte de gente e um monte de bicho amontoado no mesmo assentamento &#8212; pessoas mexendo com esterco, carne, sangue, banha e sabe-se l\u00e1 o que mais de vaquinhas, porquinhos e cabrinhas. (O &#8220;sabe-se l\u00e1 o que mais&#8221; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pra efeito dram\u00e1tico. Em Papua-Nova Guin\u00e9, mulheres de certos tribos amamentam leit\u00f5es \u00f3rf\u00e3os. \u00c9, <em>amamentam leit\u00f5es<\/em>.)<br \/>\nEsse cen\u00e1rio in\u00e9dito n\u00e3o s\u00f3 facilitou a transmiss\u00e3o de doen\u00e7as entre humanos e animais como tamb\u00e9m fez com que doen\u00e7as infecciosas epid\u00eamicas se tornassem autossustent\u00e1veis pela primeira vez. Se voc\u00ea \u00e9 um ca\u00e7ador-coletor e tem o desprazer de ser infectado por um pat\u00f3geno assassino oriundo, digamos, de macacos, tem o grande consolo de saber que sua tribo de 50 pessoas vai morrer inteirinha, ou ficar inteirinha imune, rapid\u00e3o. E a doen\u00e7a muito provavelmente vai ficar por ali mesmo, porque aqueles 50 coitados raramente t\u00eam contato com outros grupos.<br \/>\nA coisa muda completamente de figura quando temos densas popula\u00e7\u00f5es de criadores de animais e agricultores interligadas por rotas de com\u00e9rcio e intera\u00e7\u00e3o extratribal constante. Agora at\u00e9 pat\u00f3genos assassinos podem se beneficiar da massa cr\u00edtica populacional para se espalhar por um ou mais continentes inteiros e fazer muito, muito estrago, coisa um bocado improv\u00e1vel de acontecer na era pr\u00e9-domestica\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>Vencedores e vencidos<\/strong><br \/>\nDiamond extrai uma conclus\u00e3o interessante desse racioc\u00ednio todo. (Confira, ali\u00e1s, o trecho da adapta\u00e7\u00e3o em document\u00e1rio do livro dele no v\u00eddeo abaixo, o qual trata desse tema.) Quando invasores europeus pisaram nas Am\u00e9ricas, na Polin\u00e9sia e na Austr\u00e1lia pela primeira vez, quem morreu dizimado por var\u00edola, gripe, sarampo e outros flagelos eurasi\u00e1ticos foram os nativos. N\u00e3o h\u00e1 nenhum caso de doen\u00e7a oriunda desses locais que tenha detonado os europeus.<\/p>\n<p>Ora, nenhum desses povos domesticou animais em grande escala, com exce\u00e7\u00e3o das lhamas incas (as quais, ali\u00e1s, s\u00e3o o <strong>\u00fanico grande<\/strong>* mam\u00edfero domesticado das Am\u00e9ricas). Diamond aponta que, junto com a menor densidade populacional, a falta de animais dom\u00e9sticos \u00e9 a chave. Os europeus eram os herdeiros de um caldeir\u00e3o de microrganismos transferidos por bichos, o qual matou tanta gente na Eur\u00e1sia que acabou levando ao surgimento de imunidade entre os conquistadores &#8212; mas n\u00e3o entre os nativos.<br \/>\nN\u00e3o d\u00e1 para negar que a conclus\u00e3o que a gente tira de tudo isso \u00e9 um tanto sombria. Medidas modernas de higiene e monitoramento cont\u00ednuo podem ajudar. Mas, se a hist\u00f3ria serve de guia, a cria\u00e7\u00e3o intensiva de animais e o contato de seres humanos com eles ainda vai nos dar muitos sustos ligados a epidemias no futuro.<br \/>\n&#8212;&#8212;<br \/>\n* Como bem apontou um comentarista abaixo, os povos andinos tamb\u00e9m domesticaram o porquinho-da-\u00edndia. Al\u00e9m disso, quase todas as tribos americanas tinham c\u00e3es, assim como muitas das polin\u00e9sias. Nada, no entanto, que se compare em escala ou variedade aos mam\u00edferos domesticados da Eur\u00e1sia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1 dif\u00edcil pensar em qualquer outra coisa que n\u00e3o seja o apocalipse porcino nesta semana (ainda mais trabalhando com jornalismo em tempo real. *Suspiro*.) Portanto, melhor usar a histeria (?) em favor de uma li\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica important\u00edssima: como a domestica\u00e7\u00e3o de porcos e outros animais transformou a sa\u00fade das sociedades humanas. 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