{"id":221,"date":"2009-04-07T23:58:09","date_gmt":"2009-04-08T02:58:09","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2009\/04\/em_defesa_da_arqueologia\/"},"modified":"2009-04-07T23:58:09","modified_gmt":"2009-04-08T02:58:09","slug":"em_defesa_da_arqueologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2009\/04\/07\/em_defesa_da_arqueologia\/","title":{"rendered":"Em defesa da arqueologia"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;O passado \u00e9 um outro pa\u00eds; eles fazem as coisas de modo diferente por l\u00e1.&#8221; A frase \u00e9 do romancista brit\u00e2nico L.P. (Leslie Poles) Hartley (1895-1972) e, se \u00e9 que ela peca em algum ponto, \u00e9 por simplificar o problema. O passado s\u00e3o <em>muitos<\/em> pa\u00edses diferentes, com um espectro de varia\u00e7\u00e3o consideravelmente mais radical do que o que existe hoje entre Nova York e um vilarejo do Ir\u00e3. Este \u00e9 um blog sobre arqueologia e, portanto, um blog sobre esses in\u00fameros outros pa\u00edses. Sejam bem-vindos.<br \/>\nComo o t\u00edtulo do post indica, meu principal objetivo neste nosso primeiro contato \u00e9 fazer uma defesa da pesquisa arqueol\u00f3gica. Sou o tipo do sujeito que n\u00e3o se sente muito a vontade com variantes da pergunta &#8220;mas pra que serve isso?&#8221;. \u00c9 melhor gostar das coisas (e das pessoas, claro), por elas mesmas, sem justificativas de utilidade e praticidade. Mas devo dizer com a m\u00e1xima convic\u00e7\u00e3o que a arqueologia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 divers\u00e3o de &#8220;grande ca\u00e7adores brancos&#8221; com mentalidade do s\u00e9culo 19. N\u00e3o \u00e9 &#8220;cole\u00e7\u00e3o de selos&#8221;, como diz uma caricatura mal-ajambrada da superioridade da f\u00edsica sobre as demais ci\u00eancias.<br \/>\nBueno, o que ela \u00e9, ent\u00e3o? Acho que \u00e9 sempre produtivo colocar as coisas em termos evolutivos (ok, fellas, <a href=\"http:\/\/colunas.g1.com.br\/visoesdavida\"><strong>eu j\u00e1 tenho um blog de biologia evolutiva<\/strong><\/a>; podem imaginar o tamanho do meu v\u00edcio). A arqueologia \u00e9 a ci\u00eancia da hist\u00f3ria da adapta\u00e7\u00e3o das sociedades humanas. E \u00e9 especialmente adequada para entender as dimens\u00f5es da adapta\u00e7\u00e3o dos grupos humanos ao ambiente e entre si porque depende apenas secundariamente da evid\u00eancia escrita, que \u00e9 essencial para a pesquisa hist\u00f3rica.<br \/>\n<strong>Um vi\u00e9s a menos<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 importante porque, para colocar a coisa em termos simples, artefatos, constru\u00e7\u00f5es e restos mortais de pessoas e animais n\u00e3o t\u00eam interesses ideol\u00f3gicos e, portanto, n\u00e3o tentam te embromar quando voc\u00eas os desenterra. \u00c9 claro que isso n\u00e3o exime os arque\u00f3logos de enfrentar outros vieses e outras distor\u00e7\u00f5es &#8212; a come\u00e7ar pelos pr\u00f3prios pressupostos te\u00f3ricos que eles est\u00e3o usando para escavar e interpretar o que escavam &#8211;, mas ao menos for\u00e7a qualquer interpreta\u00e7\u00e3o a levar em conta a realidade f\u00edsica encontrada em cada s\u00edtio.<br \/>\nE, claro, a arqueologia \u00e9 a \u00fanica ferramenta para entender culturas desaparecidas que nunca deixaram uma linha escrita. Por coincid\u00eancia ou n\u00e3o, essas culturas &#8212; essencialmente todas as que habitaram a Terra antes do ano 4000 a.C., e muitas das que vieram depois &#8212; s\u00e3o cruciais para entender as mudan\u00e7as mais fundamentais das sociedades humanas, aquelas que deixaram as cicatrizes mais fundas no presente. A origem da agricultura e da cria\u00e7\u00e3o de animais; a g\u00eanese das cidades; o uso dos metais; as primeiras classes sociais; o nascimento das l\u00ednguas ancestrais das que falamos hoje &#8212; s\u00e3o todos eventos ou processos que s\u00f3 podem ser investigados com a ajuda da arqueologia.<br \/>\nGrande coisa, dir\u00e1 voc\u00ea &#8212; essas coisas j\u00e1 ficaram milhares de anos para atr\u00e1s. Pe\u00e7o licen\u00e7a para discordar. A m\u00e3o da hist\u00f3ria jaz sobre todos n\u00f3s com peso avassalador, e foram esses eventos aparentemente insignificantes do passado remoto que influenciaram (fico tentado a dizer &#8220;determinaram&#8221;, mas nada no passado \u00e9 t\u00e3o simples) cada detalhe do mundo moderno. Mais importante ainda, e voltando ao tema da adapta\u00e7\u00e3o, podemos pensar em cada sociedade do passado como um experimento natural que carrega li\u00e7\u00f5es valiosas.<br \/>\n<strong>Manual de sobreviv\u00eancia<\/strong><br \/>\nPara dar alguns exemplos r\u00e1pidos: quais sociedades sobrevivem e quais perecem em momentos de mudan\u00e7a clim\u00e1tica extrema? O que acontece com civiliza\u00e7\u00f5es que detonam seu pr\u00f3prio ecossistema? Como os imp\u00e9rios nascem e morrem? Por que alguns povos caminharam na dire\u00e7\u00e3o da complexidade pol\u00edtica e outros permaneceram como bandos de ca\u00e7adores-coletores? O que tudo isso significa para o nosso futuro como esp\u00e9cie (eu apostaria que muito)?<br \/>\nAcho que n\u00e3o \u00e9 exagero dizer que estamos passando por uma \u00e9poca em que essas perguntas, e poss\u00edveis respostas cient\u00edficas a elas, est\u00e3o florescendo como nunca. O mais legal \u00e9 que, para enfrentar esse desafio, os arque\u00f3logos s\u00e3o for\u00e7ados a trabalharem da maneira mais transdisciplinar poss\u00edvel. Bons dados e boas ideias surgem das encruzilhadas da lingu\u00edstica com a biologia evolutiva, da modelagem matem\u00e1tica com a geof\u00edsica, da sociologia com a antropologia biol\u00f3gica. \u00c9 preciso ser ecl\u00e9tico sem ser superficial, enxergar os padr\u00f5es mas evitar que elas sejam inventados pela sua pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o hiperativa.<br \/>\nEm resumo, \u00e9, sim, uma aventura. No melhor sentido da palavra. Voc\u00eas me acompanham?<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;<br \/>\nUma nota r\u00e1pida sobre o nome e o visual do blog, antes de nos despedirmos. Eu sei, estou careca de saber, que o bom e velho Henry &#8220;Indiana&#8221; Jones Jr. n\u00e3o \u00e9 exatamente o sujeito adequado para refletir como \u00e9 a arqueologia na vida real. PelamordeDeus, o cara \u00e9 praticamente um ladr\u00e3o de tumbas. Contexto arqueol\u00f3gico? N\u00e3o trabalhamos. (Tamb\u00e9m nem dava. Toda vez que o principal artefato era tocado, o s\u00edtio inteiro desabava&#8230;)<br \/>\nE, no entanto, pataquadas \u00e0 parte, Indy e companhia bela conseguiram inculcar em jovens mentes impression\u00e1veis (tipo a minha aos nove anos de idade) o essencial: o passado pode ser uma aventura. E o passado <em>importa<\/em>. Portanto, \u00e9 uma honra colocar a surrada fedora na cabe\u00e7a, nem que seja metaforicamente. Vamos em frente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O passado \u00e9 um outro pa\u00eds; eles fazem as coisas de modo diferente por l\u00e1.&#8221; A frase \u00e9 do romancista brit\u00e2nico L.P. (Leslie Poles) Hartley (1895-1972) e, se \u00e9 que ela peca em algum ponto, \u00e9 por simplificar o problema. O passado s\u00e3o muitos pa\u00edses diferentes, com um espectro de varia\u00e7\u00e3o consideravelmente mais radical do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":460,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-221","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-apresentacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/221","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/users\/460"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=221"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/221\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=221"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=221"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=221"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}