{"id":26,"date":"2009-06-04T14:52:37","date_gmt":"2009-06-04T17:52:37","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2009\/06\/megafauna_brasileira_dificil_d\/"},"modified":"2009-06-04T14:52:37","modified_gmt":"2009-06-04T17:52:37","slug":"megafauna_brasileira_dificil_d","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2009\/06\/04\/megafauna_brasileira_dificil_d\/","title":{"rendered":"Megafauna brasileira: dif\u00edcil de ca\u00e7ar ou dura de de mastigar?"},"content":{"rendered":"<p>O registro f\u00f3ssil e arqueol\u00f3gico da Am\u00e9rica do Sul, e em especial o brasileiro, abriga um enigma capaz de deixar qualquer um at\u00f4nito. Os primeiros seres humanos a botarem os p\u00e9s aqui conviveram por ao menos um mil\u00eanio (e provavelmente por bem mais tempo) com mastodontes, pregui\u00e7as gigantes, cavalos, ursos, lhamas. O Cerrado de 10 mil anos atr\u00e1s era o Serengeti 2.0. Essa montanha de prote\u00edna animal n\u00e3o est\u00e1 mais entre n\u00f3s, mas n\u00e3o existe NENHUMA evid\u00eancia firme de que os primeiros brasileiros tenham se aproveitado desse banquete m\u00f3vel. NENHUM ind\u00edcio de ca\u00e7a \u00e0 megafauna. Algu\u00e9m pode me explicar o porqu\u00ea?<br \/>\n<span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"mastodonte500.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/mastodonte5001.jpg\" width=\"500\" height=\"281\" class=\"mt-image-none\" \/><\/span><br \/>\nEsse velho mist\u00e9rio me veio \u00e0 cabe\u00e7a novamente depois de entrevistar o paleont\u00f3logo Leonardo Santos Avilla, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/Noticias\/Ciencia\/0,,MUL1159922-5603,00-PESQUISADORES+FAZEM+CSI+DA+MORTE+DE+MASTODONTES+BRASILEIROS.html\"><strong>sobre seu interessante trabalho com os mastodontes de Arax\u00e1 <\/strong><\/a>(MG). Ele me contou que tomografias feitas no que sobrou de um desses primos extintos dos elefantes revelaram um corpo estranho que pode ser uma ponta de lan\u00e7a. A ferida cicatrizou, o que significa que o paquiderme (tamb\u00e9m conhecido como gonfot\u00e9rio) n\u00e3o morreu daquilo.<br \/>\nA identifica\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 definitiva, mas seria o PRIMEIRO caso indiscut\u00edvel de ataque de seres humanos aos monstros do Pleistoceno no Brasil. Isso quer dizer que a gente tem dados mais seguros sobre LARVAS DE BESOURO comendo mastodontes (a v\u00e9rtebra acima \u00e9 um ind\u00edcio da a\u00e7\u00e3o desses carniceiros nas carca\u00e7as) do que sobre gente comendo mastodontes.<br \/>\nPara colocar tudo isso em contexto, \u00e9 bom lembrar que existem alguns dados sobre o uso da megafauna como recurso alimentar e mat\u00e9ria-prima em Monte Verde, no Chile, h\u00e1 12.500 anos (de novo, s\u00e3o mastodontes) e um ou outro exemplo na Argentina e nos pa\u00edses andinos. De resto, a Am\u00e9rica do Sul conta com pouqu\u00edssimos ind\u00edcios de que os primeiros habitantes do continente (tamb\u00e9m conhecidos como paleo\u00edndios) tenham ca\u00e7ado esses grandes mam\u00edferos.<br \/>\n<strong>Clovis? Que Clovis?<\/strong><br \/>\nA coisa \u00e9 ainda mais estranha porque, na Am\u00e9rica do Norte, a chamada cultura Clovis (aparentemente a mais antiga, e certamente a mais bem conhecida, dessa fase inicial do povoamento) parece ter subsistido quase exclusivamente \u00e0 base de picanha de mamute. A famosa ponta de lan\u00e7a Clovis, lindamente trabalhada e com uma ranhura especial para ser presa ao cabo de madeira, parece ser uma tecnologia especialmente projetada para a ca\u00e7a de grandes mam\u00edferos (e muitas foram encontradas em meio \u00e0s costelas de probosc\u00eddeos).<br \/>\nE por aqui&#8230; bem, por aqui existe s\u00f3 um punhado de pontas de lan\u00e7a paleo\u00edndias. A imensa maioria dos artefatos \u00e9 bem tosca, de feitura &#8220;expedita&#8221;, como se diz (lindo jeito t\u00e9cnico de indicar que o tro\u00e7o foi feito nas coxas). Mais importante ainda, os padr\u00f5es de subsist\u00eancia em lugares como Lagoa Santa (MG), mais famoso centro de ocupa\u00e7\u00e3o paleo\u00edndia do Brasil, mostram foco bem maior na coleta e na captura de animais pequenos, como tatus, pre\u00e1s e lagartos. Quem diabos ia preferir tei\u00fa no espeto a um filez\u00e3o de pregui\u00e7a gigante?<br \/>\nAcho dif\u00edcil que os paleo\u00edndios brazucas simplesmente n\u00e3o tivessem habilidade t\u00e9cnica para produzir sua pr\u00f3pria vers\u00e3o de Clovis. Ser\u00e1 que lhes parecia mais vantajoso investir numa estrat\u00e9gia do tipo &#8220;menos riscos, retornos mais seguros&#8221;, dedicando-se a ca\u00e7as menores? Finalmente, h\u00e1 at\u00e9 quem sugira a exist\u00eancia de alguma forma de tabu alimentar (tot\u00eamico? Religioso? Higi\u00eanico?) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes feras. (Foi o que Walter Neves, bioantrop\u00f3logo da USP, sugeriu-me certa vez.)<br \/>\n\u00c9 claro que novos achados, como os do pr\u00f3prio Avilla, podem modificar esse quadro, embora eu duvide. Ser\u00e1 que estamos falando s\u00f3 de um problema de tafonomia, ou seja, de preserva\u00e7\u00e3o dos restos ca\u00e7ados, que teriam sumido ou se decomposto? T\u00e1, mas para o continente inteiro? Improv\u00e1vel. Se algu\u00e9m tiver uma luz por a\u00ed, pelamordeDeus me avise &#8212; ou um escreva um paper.<br \/>\n&#8212;&#8212;<br \/>\nPS &#8211; Pois \u00e9, depois de um hiato vergonhoso, estou de volta. Pra valer, espero.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O registro f\u00f3ssil e arqueol\u00f3gico da Am\u00e9rica do Sul, e em especial o brasileiro, abriga um enigma capaz de deixar qualquer um at\u00f4nito. 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