{"id":30,"date":"2009-06-10T16:39:36","date_gmt":"2009-06-10T19:39:36","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2009\/06\/e_ou_nao_e_escrita\/"},"modified":"2009-06-10T16:39:36","modified_gmt":"2009-06-10T19:39:36","slug":"e_ou_nao_e_escrita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2009\/06\/10\/e_ou_nao_e_escrita\/","title":{"rendered":"\u00c9 ou n\u00e3o \u00e9 escrita?"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/rb2_large_gray8.png\" style=\"border:0\" \/><\/a><\/span>Os caracteres nos sinetes abaixo, usados pela misteriosa civiliza\u00e7\u00e3o do vale do Indo por volta de 2000 a.C., s\u00e3o inegavelmente estilosos. Mas s\u00e3o uma forma de escrita? Uma pesquisa recente na revista &#8220;Science&#8221; usou an\u00e1lises estat\u00edsticas para tentar dar uma resposta objetiva a esse dilema. (Veja a imagem em tamanho grande clicando <a href=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/3\/32\/IndusValleySeals.JPG\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><strong>aqui.<\/strong><\/a>)<br \/>\n<span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"indo500.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/indo500.jpg\" width=\"500\" height=\"347\" class=\"mt-image-none\" \/><\/span><br \/>\nCom essa abordagem, voc\u00ea provavelmente n\u00e3o vai se surpreender se eu disser que o primeiro autor do estudo \u00e9 do Departamento de Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o e Engenharia da Universidade de Washington. (Ainda menos surpreendente \u00e9 o fato de ele se chamar Rajesh Rao). Para enfrentar o mist\u00e9rio dos antigos sinais da \u00cdndia e do Paquist\u00e3o, Rao e seus colegas avaliaram a entropia condicional da sequ\u00eancia de sinais &#8212; em outras palavras, o grau de aleatoriedade do aparecimento de um sinal dada a presen\u00e7a de um sinal anterior na &#8220;linha de c\u00f3digo&#8221;.<br \/>\nA l\u00f3gica por tr\u00e1s disso \u00e9 simples, explicam eles. Em sistemas simb\u00f3licos n\u00e3o-lingu\u00edsticos, o mais comum \u00e9 que os sinais sigam ou uma sequ\u00eancia aleat\u00f3ria ou uma ordem sequencial r\u00edgida demais. Sistemas simb\u00f3licos de natureza lingu\u00edstica ficam entre esses dois extremos, apresentando uma combina\u00e7\u00e3o delicada entre ordem e caos &#8212; do contr\u00e1rio, em qualquer l\u00edngua humana, n\u00e3o d\u00e1 para seguir a sintaxe correta e ainda assim dizer o que se quer dizer.<br \/>\nCom isso na cabe\u00e7a, os pesquisadores computaram a entropia condicional em cinco tipos de sistemas lingu\u00edsticos escritos (sum\u00e9rio, t\u00e2mil antigo, s\u00e2nscrito do Rig Veda e ingl\u00eas) e sistemas n\u00e3o-lingu\u00edsticos (sequ\u00eancias de DNA humano e de amino\u00e1cidos em prote\u00ednas bacterianas), al\u00e9m de avaliar tamb\u00e9m a linguagem de programa\u00e7\u00e3o computacional Fortran. Isso feito, compararam esses valores de entropia condicional ao valor prevalente numa antologia de &#8220;textos&#8221; do vale do Indo.<br \/>\nE aconteceu o que esperar-se-ia que acontecesse caso os sinais de 2000 a.C. fossem mesmo uma forma de escrita: entropia condicional compat\u00edvel com a da linguagem humana. Para ser mais espec\u00edfico, e a\u00ed a coisa come\u00e7a a ficar interessante, a aparente escrita do Indo bate com o sum\u00e9rio e com o t\u00e2mil antigo nos n\u00edveis de entropia condicional.<br \/>\n<strong>Rebu do r\u00e9bus<\/strong><br \/>\nPrimeiro, isso pode indicar que, como o sum\u00e9rio, trata-se de um sistema logossil\u00e1bico, no qual os sinais podem corresponder a palavras inteiras, ou ent\u00e3o funcionar como r\u00e9bus. (O r\u00e9bus \u00e9 um jeito gambiarra de usar palavras n\u00e3o-relacionadas, cujo som \u00e9 parecido, para representar outra mais abstrata, combinando-as. Por exemplo, desenhar uma m\u00e3o e uma vaca para expressar o adjetivo &#8220;m\u00e3o-de-vaca&#8221;. As escritas primitivas faziam isso direto.)<br \/>\n<em>Adendo p\u00f3s-post: o grande Roberto Takata, nos coment\u00e1rios abaixo, deu um exemplo bem melhor de r\u00e9bus que o meu: desenhar um sol e um dado para expressar o conceito de &#8220;sol-dado&#8221;. (Pegou? Pegou?)<\/em><br \/>\nEm segundo lugar, a semelhan\u00e7a com o t\u00e2mil intriga porque ele pertence ao grupo das l\u00ednguas dravidianas, hoje faladas no sul da \u00cdndia, mas aparentemente presentes em todo o subcontinente indiano antes da chegada dos indo-europeus (falantes de idiomas distantemente aparentados ao nosso) s\u00e9culos depois. As l\u00ednguas dravidianas seriam as l\u00ednguas originais dos indianos e paquistaneses do vale do Indo.<br \/>\nPara ir al\u00e9m dessas indica\u00e7\u00f5es, s\u00f3 mesmo achando um jeito de decifrar a escrita, o que n\u00e3o vai ser f\u00e1cil. Mas pelo menos o trabalho indica que n\u00e3o \u00e9 perda de tempo fazer a tentativa.<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;<br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Science&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1126%2Fscience.1170391&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Entropic+Evidence+for+Linguistic+Structure+in+the+Indus+Script&amp;rft.issn=0036-8075&amp;rft.date=2009&amp;rft.volume=324&amp;rft.issue=5931&amp;rft.spage=1165&amp;rft.epage=1165&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.sciencemag.org%2Fcgi%2Fdoi%2F10.1126%2Fscience.1170391&amp;rft.au=Rao%2C+R.&amp;rft.au=Yadav%2C+N.&amp;rft.au=Vahia%2C+M.&amp;rft.au=Joglekar%2C+H.&amp;rft.au=Adhikari%2C+R.&amp;rft.au=Mahadevan%2C+I.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Other%2CArchaeology\">Rao, R., Yadav, N., Vahia, M., Joglekar, H., Adhikari, R., &amp; Mahadevan, I. (2009). Entropic Evidence for Linguistic Structure in the Indus Script <span style=\"font-style: italic\">Science, 324<\/span> (5931), 1165-1165 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1126\/science.1170391\">10.1126\/science.1170391<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os caracteres nos sinetes abaixo, usados pela misteriosa civiliza\u00e7\u00e3o do vale do Indo por volta de 2000 a.C., s\u00e3o inegavelmente estilosos. Mas s\u00e3o uma forma de escrita? Uma pesquisa recente na revista &#8220;Science&#8221; usou an\u00e1lises estat\u00edsticas para tentar dar uma resposta objetiva a esse dilema. (Veja a imagem em tamanho grande clicando aqui.) 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