{"id":38,"date":"2009-07-27T17:05:49","date_gmt":"2009-07-27T20:05:49","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2009\/07\/por_uma_arqueologia_menos_antr\/"},"modified":"2009-07-27T17:05:49","modified_gmt":"2009-07-27T20:05:49","slug":"por_uma_arqueologia_menos_antr","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2009\/07\/27\/por_uma_arqueologia_menos_antr\/","title":{"rendered":"Por uma arqueologia menos antropoc\u00eantrica"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/rb2_large_gray8.png\" style=\"border:0\" \/><\/a><\/span>Quando, nos idos de 2003, uma pesquisa revelou que chimpanz\u00e9s tamb\u00e9m deixavam para tr\u00e1s sua pr\u00f3pria vers\u00e3o de registro arqueol\u00f3gico, ningu\u00e9m imaginava que a descoberta fosse gerar uma nova \u00e1rea de pesquisa multidisciplinar, a arqueologia de primatas (ou, sendo mais amplo, a arqueologia animal). Um artigo de revis\u00e3o interessant\u00edssimo, recentemente publicado, esmiu\u00e7ou as potencialidades desse novo campo, e eu abordei o tema na minha pen\u00faltima coluna para o <strong>G1<\/strong>. Confiram o texto na \u00edntegra abaixo.<br \/>\n&#8212;&#8212;-<br \/>\n<span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"macacoprego.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/macacoprego.jpg\" width=\"350\" height=\"220\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" \/><\/span>Que atire a primeira pedra quem n\u00e3o come\u00e7ou a se interessar por arqueologia, ao menos em parte, por causa do indefect\u00edvel Henry &#8220;Indiana&#8221; Jones Jr. (Mulheres! Chicotes! Glamour! Cora\u00e7\u00f5es fumegantes palpitando fora do corpo!) A\u00ed o sujeito logo descobre que esse mundo de lux\u00faria e fantasia ocupa um limbo entre o &#8220;muito raro&#8221; e o &#8220;inexistente&#8221;. N\u00e3o foi por falta de aviso. O pr\u00f3prio Indy j\u00e1 advertia que 90% do trabalho arqueol\u00f3gico \u00e9 feito na biblioteca. Tudo bem, \u00e9 a vida. Mas ficar vendo macaco-prego quebrar coquinho? A\u00ed j\u00e1 \u00e9 demais.<br \/>\nOu melhor, pode at\u00e9 ser demais, mas cuidadosas observa\u00e7\u00f5es do comportamento de macacos-pregos (e de outros primatas, e at\u00e9 de outros animais) podem ser justamente a fronteira final da arqueologia, uma ferramenta \u00edmpar para entender com quantas pedras se faz uma esp\u00e9cie tecnol\u00f3gica e construtora de civiliza\u00e7\u00f5es como a nossa. Uma argumenta\u00e7\u00e3o fascinante em favor dessa ideia est\u00e1 numa edi\u00e7\u00e3o recente da revista cient\u00edfica brit\u00e2nica &#8220;Nature&#8221;. O artigo, capitaneado por Michael Haslam, do Centro Leverhulme para Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de Cambridge, prop\u00f5e nada menos que a funda\u00e7\u00e3o de um novo campo de estudos, a arqueologia de primatas &#8211; e, de forma mais gen\u00e9rica, a arqueologia animal.<br \/>\nAcredite, Haslam e companhia n\u00e3o est\u00e3o delirando. \u00c9 verdade que macacos e outros bichos n\u00e3o constroem pir\u00e2mides nem sacrificam outros bichos ao Deus Sol (ao menos pelo que a gente sabe), mas in\u00fameros animais satisfazem a condi\u00e7\u00e3o fundamental dos estudos arqueol\u00f3gicos &#8211; eles produzem cultura material. Ou, em linguagem menos empolada: animais tamb\u00e9m usam ferramentas, \u00e0s vezes fabricadas por eles pr\u00f3prios, com relativo grau de sofistica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA lista desses comportamentos se tornou t\u00e3o vasta que nem vale a pena tentar colocar aqui uma vers\u00e3o exaustiva dela. Uma amostra representativa inclui bichos t\u00e3o diferentes quanto chimpanz\u00e9s, macacos-pregos, macacos-resos, golfinhos, lontras-do-mar, araras e v\u00e1rias esp\u00e9cies de corvos e assemelhados. Grande parte, se n\u00e3o a totalidade desses casos, encaixa-se nas defini\u00e7\u00f5es tradicionais de cultura humana: s\u00e3o comportamentos aprendidos num contexto social, que variam entre as diferentes popula\u00e7\u00f5es de cada esp\u00e9cie e parecem formar &#8220;tradi\u00e7\u00f5es&#8221;. Mas \u00e9 claro que a produ\u00e7\u00e3o de cultura material satisfaz apenas uma das condi\u00e7\u00f5es para o estudo arqueol\u00f3gico de um fen\u00f4meno. A outra \u00e9 o fen\u00f4meno em quest\u00e3o ser detect\u00e1vel no passado &#8211; de prefer\u00eancia no passado distante.<br \/>\n<strong>Do tempo das pir\u00e2mides<\/strong><br \/>\nSe voc\u00ea apostou contra essa \u00faltima possibilidade, perdeu feio. Colegas de Haslam, como Julio Mercader, da Universidade de Calgary, no Canad\u00e1, passaram os \u00faltimos anos estudando em detalhes a hist\u00f3ria do uso de ferramentas entre os chimpanz\u00e9s do Parque Nacional Ta\u00ef, na Costa do Marfim. Os bichos de l\u00e1 desenvolveram uma tradi\u00e7\u00e3o de usar &#8220;bigornas&#8221; e &#8220;martelos&#8221; de pedra para quebrar coquinhos, extraindo a valiosa gordura da polpa e suplementando sua alimenta\u00e7\u00e3o. Essa atividade cria marcas caracter\u00edsticas nos martelos e bigornas, bem como um ac\u00famulo constante de restos de coquinhos.<br \/>\nOra, usando esses ind\u00edcios modernos, Mercader e companhia conseguem farejar inst\u00e2ncias mais antigas de quebra-nozes na floresta. Isso permitiu que eles datassem certos s\u00edtios de quebra de coquinhos, os quais remontam a pelo menos 4.300 anos atr\u00e1s &#8211; mais ou menos a \u00e9poca em que os eg\u00edpcios estavam colocando suas pir\u00e2mides de p\u00e9. A &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o&#8221; dos quebradores de cocos no Parque Nacional Ta\u00ef \u00e9, portanto, milenar.<br \/>\nAinda n\u00e3o temos datas compar\u00e1veis para os macacos-pregos (<em>Cebus libidinosus<\/em> &#8211; isso \u00e9 que \u00e9 nome cient\u00edfico) que habitam a Caatinga e o Cerrado, mas o comportamento dos bichos, conforme documentado por uma s\u00e9rie de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, \u00e9 incrivelmente parecido com o dos chimpanz\u00e9s. At\u00e9 o tamanho das pedras que eles utilizam como &#8220;martelo&#8221; para quebrar coquinhos \u00e9 similar, apesar do tamanho diminuto dos bichos quando comparado ao de seus primos distantes africanos. Estudos de longo prazo detectaram o transporte de pedras por longas dist\u00e2ncias at\u00e9 &#8220;bigornas&#8221; apropriadas (que podem tamb\u00e9m ser ra\u00edzes de \u00e1rvores, al\u00e9m de pedras maiores). De quebra, os macacos tupiniquins tamb\u00e9m s\u00e3o mestres em utilizar pedras para escavar tub\u00e9rculos suculentos.<br \/>\n<strong>Al\u00e9m da idade da pedra<\/strong><br \/>\nEntender esses comportamentos e a antiguidade deles tem uma s\u00e9rie de implica\u00e7\u00f5es importantes para a pr\u00e9-hist\u00f3ria do pr\u00f3prio homem. Primeiro, pode muito bem ser que esses dados nos ajudem a detectar os mais antigos rastros do uso de ferramentas entre ancestrais da humanidade.<br \/>\nA quest\u00e3o \u00e9 que, embora a linhagem humana tenha se separado da que desembocou nos chimpanz\u00e9s h\u00e1 cerca de 6 milh\u00f5es de anos, as primeiras ferramentas indiscut\u00edveis &#8211; lascas e &#8220;n\u00facleos&#8221; de pedra com bordas cortantes, bastante rudimentares &#8211; s\u00f3 aparecem no registro arqueol\u00f3gico h\u00e1 uns 2,5 milh\u00f5es de anos. Pior: n\u00e3o sabemos quem as produziu, embora o melhor chute poss\u00edvel aponte para o <em>Homo habilis<\/em>. Acredita-se que elas eram usadas para carnear as carca\u00e7as que os homin\u00eddeos roubavam de predadores maiores ou, bem mais raramente, obtinham por seus pr\u00f3prios meios.<br \/>\nNo entanto, se os s\u00edtios de quebra produzidos pelos chimpanz\u00e9s e macacos-pregos forem um bom modelo do que um usu\u00e1rio de ferramentas realmente primitivo deixava para tr\u00e1s, pode ser que a gente esteja procurando nos lugares errados, e que talvez o uso de instrumentos de pedra na nossa linhagem remonte a \u00e9poca bem mais recuadas do que imagin\u00e1vamos. Se for poss\u00edvel detectar an\u00e1logos antigos dos primatas quebradores de nozes atuais, esse mist\u00e9rio ser\u00e1 elucidado.<br \/>\nUm ponto ainda mais importante \u00e9 que a arqueologia de primatas pode acabar com a nossa tara por pedras. Instrumentos de pedra s\u00e3o importantes, l\u00f3gico, porque s\u00e3o imperec\u00edveis, mas as ferramentas mais sofisticadas produzidas por outros bichos em geral s\u00e3o feitas com mat\u00e9ria vegetal. Os chimpanz\u00e9s do Congo oferecem um exemplo um bocado interessante. Para capturar cupins, eles primeiro pegam um galho, retiram todas as folhas dele e depois desbastam a ponta do dito cujo, de maneira a criar algo como as cerdas de uma escova. Para obter mel, os primatas se valem de uma combina\u00e7\u00e3o de ferramentas: um &#8220;pil\u00e3o&#8221; para quebrar a colmeia, um galho mais delicado para abrir espa\u00e7o na abertura inicial, como alavanca, e finalmente uma &#8220;colher&#8221; para recolher a guloseima.<br \/>\nTudo isso pode significar que a mais antiga das &#8220;Idades da Pedra&#8221; talvez estivesse mais para &#8220;Idade do Galhinho&#8221;, e ajuda a tra\u00e7ar um retrato completamente diferente da cultura material dos nossos ancestrais mais remotos, com foco bem menor numa quebra intermin\u00e1vel de pedra, pedra e mais pedra.<br \/>\n<strong>Inevit\u00e1vel?<\/strong><br \/>\nFinalmente, a quest\u00e3o mais interessante e especulativa de todas: como a tecnologia se fixa numa esp\u00e9cie. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, o fato de que tanto os chimpanz\u00e9s quanto n\u00f3s utilizam instrumentos parecia indicar que o nosso ancestral comum tamb\u00e9m era um bicho (moderadamente, ou qui\u00e7\u00e1 toscamente) tecnol\u00f3gico.<br \/>\nMas pense de novo: e os macacos-pregos? E os resos? Esses primatas est\u00e3o t\u00e3o distantes de n\u00f3s (com separa\u00e7\u00e3o evolutiva h\u00e1 cerca de 40 milh\u00f5es, no caso dos primeiros) que o mais prov\u00e1vel \u00e9 que o uso de ferramentas seja um cl\u00e1ssico caso de evolu\u00e7\u00e3o convergente de um comportamento, ou seja, de uma caracter\u00edstica que apareceu de forma independente, por raz\u00f5es diferentes, nas v\u00e1rias esp\u00e9cies.<br \/>\nIsso levanta uma quest\u00e3o intrigante: a de que a capacidade tecnol\u00f3gica, ao longo da nossa linhagem, pode ter aparecido e desaparecido in\u00fameras vezes antes de se fixar. A arqueologia animal, portanto, talvez seja uma faca de dois gumes. Sim, ela usa outras esp\u00e9cies como espelho para ajudar no entendimento da nossa pr\u00f3pria trajet\u00f3ria tecnol\u00f3gica. Mas tamb\u00e9m mostra que produzir ferramentas n\u00e3o \u00e9 garantia nenhuma de sucesso evolutivo &#8211; do contr\u00e1rio, a tecnologia seria mais central na vida de muito mais esp\u00e9cies planeta afora. Eis a\u00ed um fato que deveria fazer o bicho homem cal\u00e7ar as sand\u00e1lias da humildade, s\u00f3 pra variar.<br \/>\n&#8212;-<br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Nature&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1038%2Fnature08188&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Primate+archaeology&amp;rft.issn=0028-0836&amp;rft.date=2009&amp;rft.volume=460&amp;rft.issue=7253&amp;rft.spage=339&amp;rft.epage=344&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.nature.com%2Fdoifinder%2F10.1038%2Fnature08188&amp;rft.au=Haslam%2C+M.&amp;rft.au=Hernandez-Aguilar%2C+A.&amp;rft.au=Ling%2C+V.&amp;rft.au=Carvalho%2C+S.&amp;rft.au=de+la+Torre%2C+I.&amp;rft.au=DeStefano%2C+A.&amp;rft.au=Du%2C+A.&amp;rft.au=Hardy%2C+B.&amp;rft.au=Harris%2C+J.&amp;rft.au=Marchant%2C+L.&amp;rft.au=Matsuzawa%2C+T.&amp;rft.au=McGrew%2C+W.&amp;rft.au=Mercader%2C+J.&amp;rft.au=Mora%2C+R.&amp;rft.au=Petraglia%2C+M.&amp;rft.au=Roche%2C+H.&amp;rft.au=Visalberghi%2C+E.&amp;rft.au=Warren%2C+R.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Other%2CArchaeology\">Haslam, M., Hernandez-Aguilar, A., Ling, V., Carvalho, S., de la Torre, I., DeStefano, A., Du, A., Hardy, B., Harris, J., Marchant, L., Matsuzawa, T., McGrew, W., Mercader, J., Mora, R., Petraglia, M., Roche, H., Visalberghi, E., &amp; Warren, R. 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