{"id":40,"date":"2009-08-02T11:12:30","date_gmt":"2009-08-02T14:12:30","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2009\/08\/sobre_neandertais_e_despedidas\/"},"modified":"2009-08-02T11:12:30","modified_gmt":"2009-08-02T14:12:30","slug":"sobre_neandertais_e_despedidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2009\/08\/02\/sobre_neandertais_e_despedidas\/","title":{"rendered":"Sobre neandertais e despedidas"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"Neanderthal_child.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/Neanderthal_child1.jpg\" width=\"300\" height=\"377\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" \/><\/span>Dizer adeus nunca \u00e9 f\u00e1cil. Publiquei ontem a \u00faltima coluna no meu blog de biologia evolutiva, o Vis\u00f5es da Vida, do <strong>G1<\/strong>. Para combinar com o clima eleg\u00edaco da coisa toda, decidi abordar a mais intrigante de todas as extin\u00e7\u00f5es de homin\u00eddeos (ou homininos, como prefere o grande Roberto Takata): o sumi\u00e7o dos neandertais. Confiram o texto abaixo. Com um pouquinho de paci\u00eancia, juro que vir\u00e1 muito material in\u00e9dito por a\u00ed.<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br \/>\nNum dia de despedidas como este, \u00e9 no m\u00ednimo adequado abordar o maior de todos os adeuses, a m\u00e3e de todas as despedidas. Ela aconteceu em algum lugar da Europa Ocidental, h\u00e1 menos de 30 mil anos. Esse \u00e9 o momento aproximado em que os seres humanos anatomicamente modernos se tornaram a \u00fanica esp\u00e9cie de homin\u00eddeo da Terra (h\u00e1 controv\u00e9rsias; um evento parecido pode ter se dado um pouco mais tarde no Sudeste Asi\u00e1tico, mas deixemos isso para l\u00e1 por enquanto). Quem nos deixou para sempre foram os neandertais, provavelmente as criaturas mais parecidas com o homem que j\u00e1 existiram. O sumi\u00e7o desses primos t\u00e3o pr\u00f3ximos \u00e9 indiscut\u00edvel; dif\u00edcil mesmo \u00e9 explicar por que ele aconteceu.<br \/>\nE, antes que voc\u00ea pergunte, sim, o desaparecimento dos neandertais &#8211; e o dos outros homin\u00eddeos que chegaram a conviver com a nossa linhagem &#8211; exige uma explica\u00e7\u00e3o especial por uma raz\u00e3o bem simples: \u00e9 algo totalmente fora da s\u00e9rie. Durante os \u00faltimos 6 milh\u00f5es de anos, a conviv\u00eancia entre m\u00faltiplas esp\u00e9cies mais ou menos &#8220;humanas&#8221; na Terra foi a regra, e n\u00e3o a exce\u00e7\u00e3o. Por raz\u00f5es completamente pessoais, costumo dizer que a situa\u00e7\u00e3o-padr\u00e3o durante a trajet\u00f3ria evolutiva humana n\u00e3o era muito diferente da que se v\u00ea em &#8220;O Senhor dos An\u00e9is&#8221; ou em outras obras da literatura de fantasia. V\u00e1rias esp\u00e9cies humanoides inteligentes conviviam no mesmo mundo &#8211; como neandertais, <em>Homo erectus <\/em>e <em>Homo sapiens<\/em> nos pap\u00e9is de elfos, an\u00f5es, hobbits e quejandos.<br \/>\nO caso dos neandertais \u00e9 especialmente chocante porque, em plena Era do Gelo, os seres humanos anatomicamente modernos oriundos da \u00c1frica invadiram uma Europa que era dominada por nossos primos havia 150 mil anos &#8211; e no fim do processo s\u00f3 restaram os africanos rec\u00e9m-chegados. As vis\u00f5es mais \u00e9picas desse processo tra\u00e7am um quadro de combate e genoc\u00eddio, no qual os humanos modernos &#8220;superiores&#8221; fizeram picadinho dos &#8220;primitivos&#8221; neandertais e, assim, herdaram a Terra. An\u00e1lises do DNA de pessoas de hoje e do material gen\u00e9tico obtido de ossos neandertais parecem favorecer a ideia de que uma popula\u00e7\u00e3o substituiu a outra (sem especificar bem como, \u00e9 bom ressaltar), porque at\u00e9 hoje n\u00e3o foram encontrados exemplos inequ\u00edvocos de genes neandertais no organismo de gente moderna.<br \/>\nApesar desse quadro aparentemente simples, por\u00e9m, as pesquisas mais recentes est\u00e3o mostrando que \u00e9 preciso cautela na hora de postular uma vit\u00f3ria de goleada dos humanos modernos sobre os neandertais. Os dados mais atualizados sobre essa controv\u00e9rsia est\u00e3o resumidos numa reportagem equilibrad\u00edssima, assinada por Kate Wong, na edi\u00e7\u00e3o deste m\u00eas da revista &#8220;Scientific American&#8221;. Os \u00faltimos estudos mostram que o suposto abismo comportamental e cultural entre &#8220;n\u00f3s&#8221; e &#8220;eles&#8221; \u00e9 muito menor do que nos acostumamos a imaginar. \u00c9 fato que n\u00f3s sobrevivemos e eles pereceram &#8211; mas a diferen\u00e7a entre uma coisa e outra foi decidida nos detalhes e talvez tenha envolvido uma boa dose de sorte.<br \/>\n<strong><br \/>\nGuerra e paz<\/strong><br \/>\nPrimeiro, \u00e9 bom tirar da cabe\u00e7a a imagem de uma guerra de conquista entre humanos modernos rec\u00e9m-chegados e neandertais na defensiva. Seria, para come\u00e7o de conversa, uma guerra absurdamente lerda: levando em conta apenas a Europa, o intervalo entre a chegada dos humanos anatomicamente modernos e o desaparecimento dos neandertais \u00e9 de uns 12 mil anos (entre 40 mil e 28 mil anos atr\u00e1s). Isso \u00e9 o DOBRO do tempo que separa o Brasil do s\u00e9culo XXI das primeiras civiliza\u00e7\u00f5es do Oriente M\u00e9dio, como os sum\u00e9rios. Portanto, \u00e9 MUITO tempo para uma suposta ofensiva-rel\u00e2mpago. Al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 sinais claros de conflito armado entre as duas esp\u00e9cies, assim como n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios indiscut\u00edveis de casamentos mistos, embora alguns f\u00f3sseis salpicados pela Europa (um deles o famoso &#8220;menino do Lapedo&#8221;, de Portugal) sugiram, para certos antrop\u00f3logos e arque\u00f3logos, que algum grau de hibridiza\u00e7\u00e3o ocorreu.<br \/>\nDurante muito tempo, diferen\u00e7as em tecnologia e em diversidade de h\u00e1bitos alimentares foram citadas como vantagens competitivas importantes em favor dos nossos ancestrais e contra os neandertais. A sofistica\u00e7\u00e3o das ferramentas produzidas pelo <em>Homo sapiens<\/em>, bem como a nossa maior versatilidade alimentar &#8211; obtendo mais alimentos de origem vegetal, pequenos animais, peixes, frutos do mar etc. &#8211; teria favorecido os humanos anatomicamente modernos na luta pela sobreviv\u00eancia.<br \/>\nMas trabalhos recentes, como o liderado por Chris Stringer, do Museu de Hist\u00f3ria Natural de Londres, sugerem que as diferen\u00e7as s\u00e3o menos importantes do que parecem. Stringer e companhia mostraram que os neandertais de Gibraltar, territ\u00f3rio brit\u00e2nico no sul da Espanha, tanto eram capazes de ca\u00e7ar grandes animais em terra como tamb\u00e9m capturavam focas e golfinhos, coletavam mariscos e abatiam coelhos e aves &#8211; uma variedade alimentar compar\u00e1vel \u00e0 dos primeiros europeus modernos.<br \/>\nJ\u00e1 o americano Bruce Hardy, do Kenyon College, teve a boa sorte de comparar os padr\u00f5es de ocupa\u00e7\u00e3o de uma caverna na Alemanha, onde primeiro neandertais e depois humanos modernos viveram. As diferen\u00e7as, diz ele, s\u00e3o m\u00ednimas, embora a variedade de ferramentas produzidas pelos humanos modernos seja um pouco maior. Os neandertais tamb\u00e9m produziam armas com cabo (grudado com resina vegetal) e faziam instrumentos de osso, capacidade normalmente vista como algo exclusivo dos modernos.<br \/>\n<strong>Simbolistas<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 as capacidades simb\u00f3licas dos neandertais &#8211; ou seja, a produ\u00e7\u00e3o de arte, adornos corporais e provavelmente linguagem falada &#8211; andaram ganhando mais probabilidade nos \u00faltimos tempos. Que alguns deles usavam colares de presas de animais no pesco\u00e7o &#8211; a chamada cultura Chatelperroniana &#8211; j\u00e1 se sabia h\u00e1 tempos. Alguns especialistas ainda defendem que a cultura Chatelperroniana surgiu apenas por acultura\u00e7\u00e3o, com os neandertais copiando os rec\u00e9m-chegados modernos sem saber muito bem o que fazer com os adornos. Outros, como o portugu\u00eas Jo\u00e3o Zilh\u00e3o, afirmam que as datas do Chatelperroniano antecedem o contato direto com os <em>Homo sapiens<\/em>, tendo surgido por uma din\u00e2mica pr\u00f3pria da sociedade neandertal.<br \/>\nSeja como for, an\u00e1lises do DNA neandertal feitas em 2007 mostraram que eles carregavam uma vers\u00e3o id\u00eantica \u00e0 humana do gene FOXP2, considerado essencial para o desenvolvimento da fala articulada. \u00c9 claro que outros genes s\u00e3o importantes para a linguagem, e ainda sabemos muito pouco sobre eles, mas a descoberta, no m\u00ednimo, sugere que temos poucas raz\u00f5es para crer que os neandertais n\u00e3o tivessem capacidade lingu\u00edstica como a nossa. \u00c9 quase um empate em capacidades simb\u00f3licas, digamos.<br \/>\nTodos esses dados nos ajudam a encarar com um novo respeito nossos primos extintos, mas tamb\u00e9m nos deixam numa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o muito confort\u00e1vel do ponto de vista cient\u00edfico. Por que diabos eles se foram e n\u00f3s ficamos, ent\u00e3o?<br \/>\nNessa altura do campeonato, s\u00f3 temos hip\u00f3teses a esse respeito &#8211; algumas delas melhores que outras, claro. Uma das ideias, defendidas por Clive Finlayson, do Museu de Gibraltar, indica que a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ficar feia para os neandertais muito antes do contato com humanos modernos na Europa, por volta de 55 mil anos atr\u00e1s. Novos dados paleoclim\u00e1ticos indicam que o continente passou a sofrer com oscila\u00e7\u00f5es bruscas de condi\u00e7\u00f5es ambientais, do frio intenso para o mais temperado e de volta para o frio intenso. O resultado \u00e9 que, no tempo de vida de um indiv\u00edduo, um ambiente florestal poderia se transformar totalmente em estepe &#8211; e voltar a virar floresta ao longo da vida do filho dele. N\u00e3o \u00e9 brincadeira se adaptar a mudan\u00e7as t\u00e3o radicais.<br \/>\nTalvez seja por isso que outro estudo recente, publicado por Virginie Fabre e seus colegas da Universidade do Mediterr\u00e2neo em Marselha (Fran\u00e7a), tenha detectado sinais de fragmenta\u00e7\u00e3o populacional no DNA de neandertais de v\u00e1rias regi\u00f5es da Eur\u00e1sia. Tudo indica que as mudan\u00e7as ambientais estavam reduzindo e isolando as popula\u00e7\u00f5es do homin\u00eddeo umas das outras, dificultando cada vez mais a chance de encontrar parceiros saud\u00e1veis e ter beb\u00eas tamb\u00e9m com sa\u00fade.<br \/>\nMais dois pequenos detalhes, desta vez relativos ao estilo de vida neandertal, podem ter sido importantes para o sumi\u00e7o. Outras pesquisas indicam que menos neandertais conseguiam chegar \u00e0 idade de ser av\u00f3s do que ocorria entre humanos modernos no fim da Era do Gelo. Isso diminu\u00eda o sucesso reprodutivo de um grupo como um todo e talvez dificultasse a transmiss\u00e3o cultural de conhecimentos para sobreviver num mundo dif\u00edcil. E o corpo musculoso e atarracado dos neandertais provavelmente exigia um aporte extra de alimentos &#8211; entre 100 e 350 calorias a mais por dia &#8211; para sobreviver quando comparado ao nosso.<br \/>\nPois \u00e9 &#8211; entre 100 e 350 calorias por dia. D\u00e1 algo entre uma e tr\u00eas e meia barrinhas de cereais di\u00e1rias. Talvez essa tenha sido a diferen\u00e7a entre a extin\u00e7\u00e3o deles e a nossa sobreviv\u00eancia h\u00e1 28 mil anos. Podia ter sido bem diferente, e as posi\u00e7\u00f5es poderiam estar invertidas. T\u00eanue \u00e9 o cord\u00e3o umbilical que nos prendeu \u00e0 Terra. Parece um bom motivo para sermos gratos por ainda estarmos aqui &#8211; e honrar a chance de vida que nossos primos n\u00e3o tiveram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizer adeus nunca \u00e9 f\u00e1cil. Publiquei ontem a \u00faltima coluna no meu blog de biologia evolutiva, o Vis\u00f5es da Vida, do G1. Para combinar com o clima eleg\u00edaco da coisa toda, decidi abordar a mais intrigante de todas as extin\u00e7\u00f5es de homin\u00eddeos (ou homininos, como prefere o grande Roberto Takata): o sumi\u00e7o dos neandertais. 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