{"id":56,"date":"2009-09-16T17:56:52","date_gmt":"2009-09-16T20:56:52","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2009\/09\/poluicao_inca\/"},"modified":"2009-09-16T17:56:52","modified_gmt":"2009-09-16T20:56:52","slug":"poluicao_inca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2009\/09\/16\/poluicao_inca\/","title":{"rendered":"Polui\u00e7\u00e3o inca"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/rb2_large_gray8.png\" style=\"border:0\" \/><\/a><\/span><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img decoding=\"async\" alt=\"coroa.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/coroa.jpg\" width=\"270\" height=\"140\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" \/><\/span>Depois que os espanh\u00f3is chegaram, Huancavelica, na regi\u00e3o central do Peru, ganhou o apelido de <em>mina de la muerte<\/em>. Mas bem que ela merecia ter o mesmo nome nas muitas l\u00ednguas ind\u00edgenas faladas nos Andes antes do Descobrimento. O motivo? Huancavelica, como mostra um estudo recente na revista cient\u00edfica &#8220;PNAS&#8221;, foi uma fonte consider\u00e1vel de polui\u00e7\u00e3o por merc\u00fario ao longo de mil\u00eanios de pr\u00e9-hist\u00f3ria andina.<br \/>\nOs dados foram levantados pela equipe cujo l\u00edder \u00e9 Colin Cooke, da Universidade de Alberta, no Canad\u00e1. Que Huancavelica tinha ajudado a poluir os Andes a partir do dom\u00ednio espanhol todo mundo j\u00e1 sabia, principalmente porque o merc\u00fario era o principal meio para se minerar prata durante a era colonial &#8212; o metal l\u00edquido era amalgado ao min\u00e9rio de prata. N\u00e3o se imaginava, contudo, que as civiliza\u00e7\u00f5es pr\u00e9-colombianas da regi\u00e3o tamb\u00e9m tivessem produzido tanta polui\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>Est\u00e1 tudo nos lagos<\/strong><br \/>\nFoi o que Cooke e companhiam descobriram ao examinar sedimentos depositados no fundo de lagos da regi\u00e3o. As camadas desses sedimentos formam um registro bastante completo do que andava acontecendo na superf\u00edcie vizinha, e elas podem ser datadas por meio de is\u00f3topos radioativos, entre eles o famigerado carbono-14.<br \/>\nO que essas fatias de sedimentos lacustres revelam \u00e9, primeiro, um longo per\u00edodo de ac\u00famulo lento, cont\u00ednuo e est\u00e1vel de merc\u00fario no fundo dos lagos. A partir de 1400 a.C., a propor\u00e7\u00e3o de merc\u00fario come\u00e7a a crescer, at\u00e9 atingir dez vezes o n\u00edvel original do elemento em torno de 600 a.C. Ap\u00f3s quase 2.000 anos de oscila\u00e7\u00f5es nesse patamar, com retornos ao padr\u00e3o original e algumas fases de aumento da propor\u00e7\u00e3o de merc\u00fario, a coisa dispara novamente por volta do ano 1400 da nossa era, com registros de n\u00edveis do metal entre 55 e 30 vezes o esperado pela deposi\u00e7\u00e3o natural de min\u00e9rios.<br \/>\nN\u00e3o parece muito dif\u00edcil entender o porqu\u00ea desses aumentos de polui\u00e7\u00e3o. Os dois grandes picos poluidores, de 600 a.C. e 1400-1500 d.C., batem com o apogeu dos imp\u00e9rios Chav\u00edn e Inca, respectivamente &#8212; dois dos principais Estados pr\u00e9-hist\u00f3ricos a dominar vastas \u00e1reas dos Andes.<br \/>\n<strong>Simplesmente um luxo<\/strong><br \/>\nAmbos os imp\u00e9rios tinham em comum o gosto por adornar seus artefatos de ouro (como a coroa Chav\u00edn vista acima) com o vermelh\u00e3o, corante vermelho (duh!) que \u00e9 a forma pulverizada do cinabre, ou sulfeto de merc\u00fario (HgS). O vermelh\u00e3o tamb\u00e9m era empregado como pintura corporal nos Andes pr\u00e9-hist\u00f3ricos.<br \/>\nOu seja: ao contr\u00e1rio do que se viu na era colonial, as antigas civiliza\u00e7\u00f5es andinas tinham como principal motor de sua atividade mineradora e poluidora a obten\u00e7\u00e3o de bens de prest\u00edgio, ou seja, de ferramentas de ostenta\u00e7\u00e3o social para a nobreza. Ta\u00ed mais uma prova de que os seres humanos do s\u00e9culo XXI n\u00e3o inventaram o conceito de fazer coisas est\u00fapidas com o ambiente s\u00f3 para aparecer.<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Proceedings+of+the+National+Academy+of+Sciences&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1073%2Fpnas.0900517106&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Over+three+millennia+of+mercury+pollution+in+the+Peruvian+Andes&amp;rft.issn=0027-8424&amp;rft.date=2009&amp;rft.volume=106&amp;rft.issue=22&amp;rft.spage=8830&amp;rft.epage=8834&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.pnas.org%2Fcgi%2Fdoi%2F10.1073%2Fpnas.0900517106&amp;rft.au=Cooke%2C+C.&amp;rft.au=Balcom%2C+P.&amp;rft.au=Biester%2C+H.&amp;rft.au=Wolfe%2C+A.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Other%2CArchaeology\">Cooke, C., Balcom, P., Biester, H., &amp; Wolfe, A. (2009). Over three millennia of mercury pollution in the Peruvian Andes <span style=\"font-style: italic\">Proceedings of the National Academy of Sciences, 106<\/span> (22), 8830-8834 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1073\/pnas.0900517106\">10.1073\/pnas.0900517106<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois que os espanh\u00f3is chegaram, Huancavelica, na regi\u00e3o central do Peru, ganhou o apelido de mina de la muerte. Mas bem que ela merecia ter o mesmo nome nas muitas l\u00ednguas ind\u00edgenas faladas nos Andes antes do Descobrimento. O motivo? 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