{"id":70,"date":"2009-10-24T13:09:58","date_gmt":"2009-10-24T16:09:58","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2009\/10\/a_queda_do_lemur_marqueteiro\/"},"modified":"2009-10-24T13:09:58","modified_gmt":"2009-10-24T16:09:58","slug":"a_queda_do_lemur_marqueteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2009\/10\/24\/a_queda_do_lemur_marqueteiro\/","title":{"rendered":"A queda do l\u00eamur marqueteiro?"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/rb2_large_gray8.png\" style=\"border:0\" \/><\/a><\/span><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"darwinius.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/wp-content\/uploads\/sites\/202\/2011\/08\/darwinius.jpg\" width=\"300\" height=\"459\" class=\"mt-image-right\" style=\"float: right;margin: 0 0 20px 20px\" \/><\/span>Esta semana pode ter marcado o fim de um dos cap\u00edtulos potencialmente mais constrangedores da intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e m\u00eddia dos \u00faltimos tempos. O pomo da disc\u00f3rdia est\u00e1 aqui do lado &#8212; \u00e9 Ida, ou <em>Darwinius masillae<\/em>, primatinha de 47 milh\u00f5es de anos que foi trombeteado como o mais primitivo membro da linhagem de mam\u00edferos que desembocou na gente.<br \/>\nEscrevi a respeito na Folha desta semana (reportagem original depois do break, pra quem se interessar). Ao que tudo indica, uma an\u00e1lise bem mais completa do que a feita pelos autores originais da descri\u00e7\u00e3o de Ida, publicada na &#8220;Nature&#8221;, mostrou que ela \u00e9 s\u00f3 um primo dos l\u00eamures. Nisso, por\u00e9m, o dano j\u00e1 estava feito: circo midi\u00e1tico, paleont\u00f3logos comparando o bicho ao Santo Graal, aparente relaxo na revis\u00e3o por pares do artigo, o diabo.<br \/>\nEu acho que o caso exp\u00f5e uma s\u00e9rie de problemas meio s\u00e9rios sobre a maneira como a paleontologia, e a \u00e1rea da evolu\u00e7\u00e3o humana em particular, tem funcionado nos \u00faltimos tempos. A saber:<br \/>\n1)<strong>&#8220;Veja o filme, leia o paper&#8221;<\/strong>: \u00e9 meio bizarro que um pacote completo de livro, document\u00e1rio e site interativo sobre um novo f\u00f3ssil esteja pronto antes de a descri\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do bicho seja publicada. Desse jeito, os autores do estudo tentam controlar fortemente o que a opini\u00e3o p\u00fablica vai pensar do seu achado antes de a comunidade cient\u00edfica avali\u00e1-lo.<br \/>\n2)<strong>As mazelas do embargo<\/strong>: supostamente, o sistema de embargo pra imprensa &#8212; eu, por exemplo, tive acesso ao novo artigo na &#8220;Nature&#8221; com uma semana de anteced\u00eancia &#8212; deveria ajudar no preparo de reportagens mais fundamentadas. N\u00e3o \u00e9 o que acontece. O efeito principal parece ser a publica\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea da descoberta no mundo inteiro, aumentando apenas o impacto midi\u00e1tico dela.<br \/>\n3)<strong>Peer-review que nem o seu nariz<\/strong>: \u00e9 dif\u00edcil evitar a desconfian\u00e7a de que alguns artigos s\u00e3o revisados com menos rigor que outros por causa do potencial de embasbacar o grande p\u00fablico.<br \/>\n4)<strong>Ci\u00eancia pobre em dados<\/strong>: o problema de lidar com f\u00f3sseis \u00e9 o car\u00e1ter fragment\u00e1rio dos dados, por defini\u00e7\u00e3o. Diante disso, n\u00e3o \u00e9 incomum que pesquisadores tentem ir al\u00e9m do que o material fossilizado est\u00e1 dizendo e se apeguem a suas interpreta\u00e7\u00f5es &#8220;de estima\u00e7\u00e3o&#8221; dele. E isso \u00e9 p\u00e9ssimo para a ci\u00eancia e para a educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, claro.<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Nature&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1038%2Fnature08429&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Convergent+evolution+of+anthropoid-like+adaptations+in+Eocene+adapiform+primates&amp;rft.issn=0028-0836&amp;rft.date=2009&amp;rft.volume=461&amp;rft.issue=7267&amp;rft.spage=1118&amp;rft.epage=1121&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.nature.com%2Fdoifinder%2F10.1038%2Fnature08429&amp;rft.au=Seiffert%2C+E.&amp;rft.au=Perry%2C+J.&amp;rft.au=Simons%2C+E.&amp;rft.au=Boyer%2C+D.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Other%2CPaleontology\">Seiffert, E., Perry, J., Simons, E., &amp; Boyer, D. (2009). Convergent evolution of anthropoid-like adaptations in Eocene adapiform primates <span style=\"font-style: italic\">Nature, 461<\/span> (7267), 1118-1121 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1038\/nature08429\">10.1038\/nature08429<\/a><\/span><br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=PloS+one&amp;rft_id=info%3Apmid%2F19492084&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Complete+primate+skeleton+from+the+Middle+Eocene+of+Messel+in+Germany%3A+morphology+and+paleobiology.&amp;rft.issn=&amp;rft.date=2009&amp;rft.volume=4&amp;rft.issue=5&amp;rft.spage=&amp;rft.epage=&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Franzen+JL&amp;rft.au=Gingerich+PD&amp;rft.au=Habersetzer+J&amp;rft.au=Hurum+JH&amp;rft.au=von+Koenigswald+W&amp;rft.au=Smith+BH&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Other%2CPaleontology\">Franzen JL, Gingerich PD, Habersetzer J, Hurum JH, von Koenigswald W, &amp; Smith BH (2009). Complete primate skeleton from the Middle Eocene of Messel in Germany: morphology and paleobiology. <span style=\"font-style: italic\">PloS one, 4<\/span> (5) PMID: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/19492084\">19492084<\/a><\/span><br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<br \/>\nSegue a minha mat\u00e9ria na Folha.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nUm grupo independente de cientistas analisou o f\u00f3ssil de primata propagandeado em maio deste ano como &#8220;o elo perdido&#8221; da evolu\u00e7\u00e3o humana e chegou a uma conclus\u00e3o n\u00e3o muito empolgante: o bicho \u00e9 provavelmente s\u00f3 um primo antigo e esquisito dos l\u00eamures.<br \/>\nSe eles estiverem corretos, o alarde midi\u00e1tico organizado em torno de &#8220;Ida, o elo perdido&#8221;, ou Darwinius masillae, como o animal foi batizado oficialmente, pode se tornar um dos casos cl\u00e1ssicos em que a vontade de chamar a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico atropelou a ci\u00eancia.<br \/>\nAfinal, a descri\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de Ida foi coreografada com o lan\u00e7amento de document\u00e1rios, sites, livros e de um evento para a imprensa no qual os pesquisadores respons\u00e1veis por estud\u00e1-la compararam o f\u00f3ssil com a Mona Lisa e com o Santo Graal, afirmando que ele mudava tudo o que se sabia sobre a evolu\u00e7\u00e3o humana.<br \/>\nDevagar com o andor<br \/>\n\u00c0 \u00e9poca, boa parte da comunidade cient\u00edfica concordou que se tratava de um exemplar bel\u00edssimo. Diferentemente dos outros primatas antigos, Ida, com quase 50 milh\u00f5es de anos de idade, teve seu esqueleto completo preservado &#8211;sem falar na presen\u00e7a de pelos e at\u00e9 do conte\u00fado digestivo do animal. Mas poucos concordaram com a sugest\u00e3o de que o f\u00f3ssil representava um ancestral direto dos antropoides, a linhagem de macacos que acabou desembocando no homem.<br \/>\nNo novo estudo, que est\u00e1 na revista cient\u00edfica &#8220;Nature&#8221; desta semana, a equipe coordenada por Erik Seiffert, da Universidade de Stony Brook (EUA), compara Ida a uma nova esp\u00e9cie de primata extinto descoberta por eles no Egito.<br \/>\nTrata-se do Afradapis longicristatus, que \u00e9 10 milh\u00f5es de anos mais novo que o suposto elo perdido, mas, ao que tudo indica, \u00e9 um parente pr\u00f3ximo de Ida, a julgar pela an\u00e1lise detalhada da mand\u00edbula e dos dentes da esp\u00e9cie africana (ali\u00e1s, esses s\u00e3o os \u00fanicos materiais preservados do bicho).<br \/>\nSeiffert e companhia tamb\u00e9m compararam Ida, o novo primata e outras 117 esp\u00e9cies vivas e extintas de primatas, levando em conta uma lista de 360 caracter\u00edsticas do esqueleto. Essa compara\u00e7\u00e3o extensa, que n\u00e3o foi feita na descri\u00e7\u00e3o original de Ida, ajuda a estimar quais tra\u00e7os dos bichos realmente se devem ao parentesco e permite montar uma \u00e1rvore geneal\u00f3gica dessas esp\u00e9cies.<br \/>\nO veredicto: Ida seria apenas uma prima muito distante do grupo que inclui o homem, estando bem mais perto dos l\u00eamures atuais. As semelhan\u00e7as superficiais dela com o grupo dos antropoides seriam explicadas por evolu\u00e7\u00e3o convergente &#8211;ou seja, porque ambos os grupos adotaram estilos de sobreviv\u00eancia parecidos.<br \/>\nComedora de folhas<br \/>\n&#8220;S\u00e3o caracter\u00edsticas relacionadas ao encurtamento do focinho e ao processamento de alimentos relativamente duros, como folhas&#8221;, explica Seiffert. O pesquisador aponta o que, para ele, foi o principal erro da equipe que descreveu Ida.<br \/>\n&#8220;Acho que eles deveriam ter feito compara\u00e7\u00f5es mais detalhadas com os mais antigos antropoides indiscut\u00edveis. Eles teriam visto que tra\u00e7os como a fus\u00e3o das duas metades da mand\u00edbula, que n\u00e3o aparecem nesses antropoides [mas aparecem em Ida], n\u00e3o poderiam ser um elo entre Ida e eles.&#8221;<br \/>\nPhilip Gingerich, paleont\u00f3logo da Universidade de Michigan e um dos &#8220;pais&#8221; de Ida, n\u00e3o concorda. &#8220;Acho esquisito que o Afradapis seja muito parecido com os antropoides, mas acabe classificado em outro grupo. A ideia de converg\u00eancia parece implaus\u00edvel&#8221;, diz ele.<br \/>\nAli\u00e1s, argumenta Gingerich, &#8220;o Darwinius [Ida] conta com um esqueleto muito mais completo que o do Afradapis, e ele apresenta caracter\u00edsticas adicionais de primatas avan\u00e7ados que n\u00e3o aparecem na an\u00e1lise&#8221;.<br \/>\nEmbora os autores do estudo original sobre Ida estejam entre os mais exagerados ao ressaltar a import\u00e2ncia de seu achado, a ideia de casar a descoberta de f\u00f3sseis relevantes com um espet\u00e1culo midi\u00e1tico virou lugar-comum.<br \/>\nSe Ida foi ao ar num document\u00e1rio no History Channel, outra f\u00eamea, o homin\u00eddeo de 4,4 milh\u00f5es de anos conhecido como Ardi, virou a estrela do canal Discovery. A diferen\u00e7a \u00e9 que poucos contestaram a import\u00e2ncia de Ardi.<br \/>\nUm dos pesquisadores que assinam a descri\u00e7\u00e3o de Ida, Jorn Hurum, da Universidade de Oslo (Noruega), j\u00e1 era conhecido por tentar atrair a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico para seus achados antes de public\u00e1-los num peri\u00f3dico cient\u00edfico.<br \/>\nNo ano passado, com pouca verba, Hurum divulgou o achado de um r\u00e9ptil marinho gigante para tentar levantar fundos. Ele n\u00e3o respondeu \u00e0s mensagens enviadas pela Folha sobre o novo estudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana pode ter marcado o fim de um dos cap\u00edtulos potencialmente mais constrangedores da intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e m\u00eddia dos \u00faltimos tempos. 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