{"id":78,"date":"2009-11-16T14:54:07","date_gmt":"2009-11-16T17:54:07","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2009\/11\/ceticismo_biblico_parte_2_jo\/"},"modified":"2009-11-16T14:54:07","modified_gmt":"2009-11-16T17:54:07","slug":"ceticismo_biblico_parte_2_jo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/carbono14\/2009\/11\/16\/ceticismo_biblico_parte_2_jo\/","title":{"rendered":"Ceticismo b\u00edblico, parte 2: J\u00f3"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"j\u00f3.jpg\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/files\/2011\/08\/j%C3%B31.jpg\" width=\"270\" height=\"213\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" \/><\/span>Demorei tanto para continuar esta s\u00e9rie aqui no blog que talvez voc\u00eas tenham at\u00e9 se esquecido do primeiro cap\u00edtulo. (Para quem quiser refrescar a mem\u00f3ria, <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/carbono14\/2009\/09\/ceticismo_biblico_parte_1_ecle.php\"><strong>eis o post sobre o Eclesiastes.<\/strong><\/a>) Grosso modo, minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 demonstrar como a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica n\u00e3o \u00e9 monol\u00edtica: alguns textos fascinantes do Antigo Testamento apresentam uma veia questionadora poderosa, que lan\u00e7a d\u00favidas sobre alguns dos pressupostos mais caros \u00e0 antiga religi\u00e3o israelita. Dessas obras, o livro de J\u00f3 provavelmente \u00e9 a mais bela e desafiadora.<br \/>\nO livro de J\u00f3 \u00e9 uma explora\u00e7\u00e3o desesperada (e \u00e0s vezes desesperadora) da natureza do Mal em forma po\u00e9tica. Ou, para tomar emprestado o t\u00edtulo de uma obra moderna sobre o mesmo tema, a pergunta central do livro \u00e9 &#8220;por que coisas ruins acontecem com pessoas boas&#8221;.<br \/>\nEm certo sentido, a mera pergunta j\u00e1 \u00e9 radical para a forma &#8220;ortodoxa&#8221; da antiga religi\u00e3o de Israel, ou do Levante antigo como um todo. Era generalizada a cren\u00e7a num sistema de retribui\u00e7\u00e3o moral simples, na base do um-para-um, no qual Deus ou os deuses recompensavam os bons e puniam os culpados. Ponto final.<br \/>\nNo m\u00e1ximo, admitia-se que os descendentes dos justos (ou dos pecadores) poderiam ser &#8220;colocados na mesma conta&#8221; que os ancestrais, por assim dizer, o que se explica pela vis\u00e3o altamente coletiva das responsabilidades em sociedades tribais antigas. Al\u00e9m do mais, isso era visto como ind\u00edcio da benevol\u00eancia divina: Deus &#8220;espalhava&#8221; sua ben\u00e7\u00e3o por muitas gera\u00e7\u00f5es, o que comprovava sua generosidade, ou &#8220;dilu\u00eda&#8221; sua raiva entre pais, filhos e netos, o que indicava sua leni\u00eancia (afinal, mesmo os culpados n\u00e3o levavam na cabe\u00e7a todo o peso da puni\u00e7\u00e3o).<br \/>\n<strong>Arbitrariedade<\/strong><br \/>\nE se algu\u00e9m t\u00e3o justo e correto quanto \u00e9 poss\u00edvel ser humanamente passar por sofrimentos indescrit\u00edveis? Essa \u00e9 a pergunta que o livro de J\u00f3 coloca. Como no caso de tantos livros b\u00edblicos, n\u00e3o sabemos quem escreveu o texto hebraico que temos hoje, nem quando ele foi composto. Afinidades conceituais como obras prof\u00e9ticas tardias (como a presen\u00e7a da figura chamada de <em>ha-satan<\/em>, &#8220;o Advers\u00e1rio&#8221; &#8212; que pelo visto n\u00e3o \u00e9 Sat\u00e3 ou o Capeta tal como o conhecemos, como explicarei melhor a seguir) sugerem uma vers\u00e3o final no per\u00edodo da domina\u00e7\u00e3o persa na Palestina, quem sabe entre 500 a.C. e 400 a.C.<br \/>\nSeja como for, h\u00e1 sinais de que o autor an\u00f4nimo reaproveitou personagens e motivos muito antigos para criar sua obra filos\u00f3fica. &#8220;J\u00f3&#8221; \u00e9 o nome de uma figura tradicionalmente conhecida por sua sabedoria e piedade, citada pelo profeta Ezequiel (s\u00e9culo VI a.C.). O pr\u00f3logo narrativo do livro, em prosa, tenta dar um clima arcaico, tipo &#8220;era uma vez&#8221;, \u00e0 hist\u00f3ria, retratando J\u00f3 como uma esp\u00e9cie de s\u00f3sia do patriarca Abra\u00e3o: um magnata n\u00f4made, dono de uma imensa fortuna em ovelhas e camelos, vivendo na terra de Uz (nome po\u00e9tico para Edom, regi\u00e3o do sul da Transjord\u00e2nia).<br \/>\nJ\u00f3, portanto, n\u00e3o \u00e9 um israelita, mas adora o verdadeiro Deus (muitas vezes chamado pelo ep\u00edteto arcaico de &#8220;Shaddai&#8221; no texto) e \u00e9, acima de tudo, extremamente \u00e9tico, caridoso e religioso. Costuma oferecer sacrif\u00edcios a Deus em nome de seus filhos e filhas, tentando antecipar qualquer pecado que eles possam ter cometido sem que o pai soubesse. N\u00e3o \u00e9 de estranhar, portanto, que Deus o cubra de ben\u00e7\u00e3os, dando-lhe todo tipo de riquezas e muita sa\u00fade.<br \/>\nE \u00e9 aqui que a porca torce o rabo. Deus recebe regularmente em sua corte divina os relat\u00f3rios dos &#8220;filhos de Deus&#8221; ou &#8220;seres divinos&#8221; (figuras equivalentes a anjos) sobre o estado das coisas aqui na Terra. E entre esses seres divinos est\u00e1 <em>ha-satan<\/em>, &#8220;o Advers\u00e1rio&#8221; &#8212; uma figura que atua como uma esp\u00e9cie de promotor p\u00fablico, ou chefe do FBI celestial. Deus elogia J\u00f3 para o Advers\u00e1rio e este responde que J\u00f3 s\u00f3 faz o bem porque \u00e9 cumulado de vantagens pela bondade divina. Deus, ent\u00e3o, permite que o Advers\u00e1rio retire de J\u00f3 tudo o que ele tem &#8211; primeiro os bens e a fam\u00edlia e, num segundo ciclo de &#8220;aposta&#8221; entre <em>ha-satan <\/em>e o Senhor, tamb\u00e9m a sa\u00fade, deixando J\u00f3 coberto de chagas purulentas.<br \/>\n<strong>Poesia no meio<\/strong><br \/>\nO engra\u00e7ado \u00e9 que poder\u00edamos ter saltado diretamente desse pr\u00f3logo em prosa para o ep\u00edlogo, tamb\u00e9m em prosa, no qual J\u00f3 recebe de volta de Deus, em dobro, tudo o que havia perdido. A mensagem, nesse caso, seria simplesmente a de que Deus \u00e0s vezes nos testa para saber se realmente praticamos o bem de forma desinteressada, mas sempre acabar\u00e1 nos recompensando se fizermos tudo direitinho.<br \/>\nO que estraga essa moral da hist\u00f3ria banal \u00e9 a inser\u00e7\u00e3o, entre esses dois textos em prosa, de dezenas de cap\u00edtulos formados por di\u00e1logos po\u00e9ticos rebuscados e cheios de paix\u00e3o. Esses di\u00e1logos correspondem aos debates entre o pobre J\u00f3, arranhando suas feridas e desejando a morte, e tr\u00eas amigos que v\u00eam visit\u00e1-lo e inicialmente querem consolar o coitado, Eliphaz, Zophar e Bildad. (Mais tarde aparece um quarto amigo, Elihu.) A conversa \u00e9 encerrada com a apari\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Deus, que tamb\u00e9m fala, de maneira exaltada e at\u00e9 violenta.<br \/>\nO ponto central desses di\u00e1logos \u00e9 que o tempo todo os amigos de J\u00f3 defendem a vis\u00e3o tradicional sobre pecado, puni\u00e7\u00e3o e sofrimento &#8212; dizendo &#8220;J\u00f3, voc\u00ea e\/ou seus filhos devem ter pisado na bola, por isso eles morreram e voc\u00ea est\u00e1 a\u00ed todo detonado&#8221; &#8211;, enquanto J\u00f3 continua afirmando que n\u00e3o fez nada para merecer tudo aquilo. Mais importante ainda, ele bate na tecla de que Deus \u00e9 que est\u00e1 sendo injusto, de que Deus deixa que certas pessoas pratiquem o mal sem puni\u00e7\u00e3o enquanto os justos sofrem. E, ao menos nesse caso, n\u00f3s, como leitores, sabemos que J\u00f3 est\u00e1 certo, porque acompanhemos toda a aposta entre o Senhor e o Advers\u00e1rio no pr\u00f3logo.<br \/>\nE quando Deus entra em cena? Ser\u00e1 que explica tudo, finalmente? Nada disso. Numa extensa fala sobre as for\u00e7as da Natureza e sobre o imenso poder necess\u00e1rio para dom\u00e1-las exercido durante a cria\u00e7\u00e3o do mundo, Deus apenas diz que nenhum ser humano chega perto dessa pot\u00eancia e, por isso, n\u00e3o tem direito de exigir explica\u00e7\u00f5es sobre como o Universo funciona. Mas o mais maluco vem agora. Depois desse discurso, Deus diz que est\u00e1 enraivecido contra os amigos de J\u00f3 e exige que eles fa\u00e7am &#8212; por meio de J\u00f3 &#8212; um sacrif\u00edcio de expia\u00e7\u00e3o, &#8220;porque nenhum de voc\u00eas falou a verdade sobre mim, como fez meu servo J\u00f3&#8221;. Como \u00e9 que \u00e9??? Sim, \u00e9 isso mesmo que Deus diz.<br \/>\nO texto, portanto, n\u00e3o tem medo de deixar pontas soltas e coisas sem explica\u00e7\u00e3o. \u00c9 temer\u00e1rio tentar extrair uma moral da hist\u00f3ria de uma obra t\u00e3o complexa e cheia de nuances po\u00e9ticas, mas talvez o centro do que o livro de J\u00f3 quer dizer seja uma mensagem que mesmo um ateu n\u00e3o deveria desprezar. Sim, o Universo talvez n\u00e3o fa\u00e7a sentido; sim, talvez n\u00e3o haja justi\u00e7a neste e em nenhum outro mundo; mas isso n\u00e3o desobriga os seres humanos de tentar fazer o que \u00e9 certo. E a pr\u00f3pria incerteza sobre a recompensa de fazer o que \u00e9 certo \u00e9 que torna a escolha correta algo com sentido.<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;<br \/>\nE n\u00e3o percam, em breve (sabe-se l\u00e1 quando), o \u00faltimo cap\u00edtulo da nossa saga c\u00e9tico-b\u00edblica, com o livro de Ester!<br \/>\n<a href=\"http:\/\/livraria.folha.com.br\/catalogo\/1026370\/alem-de-darwin\"><strong>Conhe\u00e7a Al\u00e9m de Darwin, meu primeiro livro de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/strong><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/twitter.com\/reinaldojlopes\"><strong>Siga-me no Twitter<\/strong><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.jsp?id=K4757041Y9\"><strong>Para saber quem sou: meu Curr\u00edculo Lattes<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Demorei tanto para continuar esta s\u00e9rie aqui no blog que talvez voc\u00eas tenham at\u00e9 se esquecido do primeiro cap\u00edtulo. 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