{"id":81,"date":"2021-12-14T16:30:25","date_gmt":"2021-12-14T19:30:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cediciencias\/?p=81"},"modified":"2021-12-14T16:30:25","modified_gmt":"2021-12-14T19:30:25","slug":"divulgacao-cientifica-da-esfera-individual-para-a-institucional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cediciencias\/2021\/12\/14\/divulgacao-cientifica-da-esfera-individual-para-a-institucional\/","title":{"rendered":"Divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: da esfera individual para a institucional"},"content":{"rendered":"\n<p>A defesa de que cientistas devem sair de seus laborat\u00f3rios para dialogarem com a sociedade ganhou um car\u00e1ter de urg\u00eancia nos c\u00edrculos acad\u00eamicos nos \u00faltimos anos. Os argumentos v\u00e3o desde os mais nobres, como aproximar a sociedade da ci\u00eancia para que tomadas de decis\u00e3o sejam feitas a partir do que se considera como o melhor conhecimento at\u00e9 o momento, at\u00e9 os mais \u201ccombativos\u201d, de defender a ci\u00eancia e as universidades de ataques negacionistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Fico me perguntando se esse consenso em torno da import\u00e2ncia da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (DC) se reflete na sua valoriza\u00e7\u00e3o pelas universidades brasileiras. Na sua universidade, existem pol\u00edticas de comunica\u00e7\u00e3o bem definidas e compartilhadas pela comunidade acad\u00eamica? Editais e outras possibilidades de financiamento, como contrata\u00e7\u00e3o de equipe, s\u00e3o ofertadas a pesquisadores que queiram divulgar ci\u00eancia? Existem treinamentos em comunica\u00e7\u00e3o para cientistas? Essas perguntas s\u00e3o muito pertinentes de se fazer e d\u00e3o pano pra manga para v\u00e1rios projetos de pesquisa que queiram investigar o grau de institucionaliza\u00e7\u00e3o da DC nas universidades Brasil afora (eu me foquei em estudar as universidades p\u00fablicas paulistas).<\/p>\n\n\n\n<p>Se as institui\u00e7\u00f5es querem mostrar \u00e0 sociedade o que fazem, nada mais justo do que investir em estrutura para divulgar seus estudos. Isso envolve desde criar uma pol\u00edtica institucional de comunica\u00e7\u00e3o que inclua a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como estrat\u00e9gia at\u00e9 mecanismos que valorizem a atividade dentro dos departamentos e incentivem o pesquisador a divulgar ci\u00eancia. Como dizem por a\u00ed, nem todo pesquisador precisa se tornar divulgador de ci\u00eancias, mas, se ele quiser, a institui\u00e7\u00e3o deve fornecer essa possibilidade(1).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ressoo a fala de muitos pesquisadores da \u00e1rea quando digo que tratar da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nas universidades implica olhar para as estruturas institucionais que favorecem ou n\u00e3o essas pr\u00e1ticas. Afinal, segundo eles, a cultura organizacional das comunidades acad\u00eamicas e institui\u00e7\u00f5es de pesquisa pode encorajar ou desencorajar iniciativas individuais dos cientistas que querem divulgar ci\u00eancia (2). A partir disso \u00e9 que se constr\u00f3i uma cultura acad\u00eamica capaz de transformar iniciativas de DC individuais e isoladas em projetos de longa dura\u00e7\u00e3o &#8212; e, consequentemente, mais impacto.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegar a um n\u00edvel em que a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica passa a estar no cerne da identidade da universidade n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil. As pr\u00f3prias universidades p\u00fablicas paulistas que se destacam em termos de produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e internacionaliza\u00e7\u00e3o (a USP, Unicamp e Unesp s\u00e3o respons\u00e1veis por publicar 35% da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional (3) e est\u00e3o em 1\u00ba(USP), 2\u00ba(Unicamp) e 6\u00ba (Unesp) lugar no <a href=\"https:\/\/ruf.folha.uol.com.br\/2019\/ranking-de-universidades\/principal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ranking de universidades da Folha de S.Paulo<\/a> 2019) ainda est\u00e3o construindo seus mecanismos para fomentar a DC de forma mais perspicaz e consistente. Neste processo, os gestores podem assumir protagonismo, propondo mudan\u00e7as estruturais em diferentes inst\u00e2ncias da institui\u00e7\u00e3o, em conselhos superiores e colegiados.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, as institui\u00e7\u00f5es ainda derrapam muito quando o assunto \u00e9 divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Um dos problemas que mapeei na minha pesquisa consiste em colocar a atividade apenas nas costas do pesquisador, sem recompens\u00e1-lo por isso. Encarada como miss\u00e3o individual, divulgar ci\u00eancia seria um \u201ca mais\u201d do pesquisador, feito nas horas vagas, de forma volunt\u00e1ria, quando sobra tempo entre um projeto e outro de pesquisa. Esta l\u00f3gica, que se repete em comunidades acad\u00eamicas estrangeiras (4), faz com que a DC acabe virando atividade secund\u00e1ria, quando muito! Ela dificilmente conta como atividade para fins de progress\u00e3o de carreira nos departamentos e, muitas vezes, \u00e9 desprezada pelos docentes comprometidos com carreiras mais \u201ccient\u00edficas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O grande desafio da DC nas universidades \u00e9 o de sair dessa esfera do individual, que depende da \u201cboa vontade\u201d do cientista, para entrar na esfera institucional, com planejamentos estrat\u00e9gicos de longo prazo, que engajem grupos maiores. Come\u00e7ar a falar sobre formas de dar sustentabilidade a esses projetos, em reuni\u00f5es de departamento e conselhos universit\u00e1rios, pode ser uma forma de estabelecermos um espa\u00e7o maior para o di\u00e1logo destas institui\u00e7\u00f5es com a sociedade, por meio da DC.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Esse \u00e9 o primeiro de uma s\u00e9rie de textos sobre reflex\u00f5es do projeto de pesquisa \u201c<\/em><em>O apoio institucional de universidades p\u00fablicas paulistas a pr\u00e1ticas de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/em><em>\u201d, que desenvolvi como pesquisadora colaboradora do Laborat\u00f3rio de Estudos Avan\u00e7ados em Jornalismo (Labjor\/Unicamp) nos \u00faltimos dois anos. A ideia \u00e9 discutir o espa\u00e7o da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nestas universidades e (por que n\u00e3o?) nas universidades brasileiras de forma geral.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>(1) e (2) Pesquisadores refletem sobre a dimens\u00e3o organizacional da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica:<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>HORST, M. A field of Expertise, the Organization or Science Itself? Scientists\u2019 Perception of Representing Research in Public Communication. <strong>Science Communication<\/strong>, v.35, n.6, p.758-779, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>NERESINI, F.; BUCCHI, M. Which indicators for the new public engagement activities? An exploratory study of European research institutions. <strong>Public Understanding of Science<\/strong>, v.20, n.1, p.64-79, 2011.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>(3) A produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica das universidades p\u00fablicas paulistas:<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Web of Science Group. (2019). \u2018Research in Brazil: Funding excellence\u2019 Analysis prepared on behalf of CAPES by the Web of Science Group.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>(4) Estudos mostram que cientistas norte-americanos e europeus tamb\u00e9m percebem a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como uma atividade subjacente a tarefas de pesquisa:<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Andrews E., Weaver A., Hanley D., Shamatha J. and Melton G. (2005). \u2018Scientists and the Public Outreach: Participation, Motivations and Impediments\u2019. Journal of Geoscience Education 53(3), pp.281-293 <a href=\"http:\/\/doi.org\/10.5408\/1089-9995-53.3.281\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/doi.org\/10.5408\/1089-9995-53.3.281<\/a>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Koivum\u00e4ki, K., Koivum\u00e4ki T. and Karvonen, E. (2021). \u2018Challenges in the collaboration between researchers and in-house communication professionals in the digital media landscape\u2019. <em>JCOM 20(3)<\/em>, pp.1-21. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.22323\/2.20030204\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/doi.org\/10.22323\/2.20030204<\/a>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Casini S. and Neresini F. (2012). \u2018Behind&nbsp; Closed&nbsp; Doors. Scientists\u2019&nbsp; and&nbsp; Science&nbsp; Communicators\u2019&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Discourses on Science in Society. A Study Across European Research Institutions\u2019. <em>Tecnoscienza<\/em> 3(2), pp.37-62.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A defesa de que cientistas devem sair de seus laborat\u00f3rios para dialogarem com a sociedade ganhou um car\u00e1ter de urg\u00eancia nos c\u00edrculos acad\u00eamicos nos \u00faltimos anos. 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