Não há nada mais contemporâneo do que o tradicional?

Entra ano e sai ano e o debate a respeito do lugar da tradição na Dança Contemporânea é figurinha carimbada nos fóruns de conversa África e Europa afora. Ontem e hoje, aqui em Maputo, se reuniram os artistas, estudantes e estudiosos no Centro Cultural de Portugal para tratar da problemática.

Percebo que a centralidade do debate reside na questão identitária africana (ou dos Estados nacionais do continente) que supostamente a tradição carrega, versus a liberdade criativa individual dos artistas. Datada da década de oitenta, a discussão mostra que ainda em 2017 está longe de ser superada. Para quem se interessar pelo assunto, escrevi em 2014 um texto a partir de uma revisão bibliográfica no Centre National de la Danse, onde consultei uma lista exaustiva de referências sobre o assunto dança contemporânea africana.

Um segundo aspecto que gostaria de trazer para o foco do debate (e que sem dúvida não é mais cotado do que a questão da “identidade”), é sobre os elementos técnicos das danças chamadas de tradicionais, que são amplamente aproveitados pelos artistas em seus processos de criação coreográficos e por aqueles e aquelas que dançam nas obras. Quero dizer, reconheço amplamente na cena do contemporâneo em Maputo, habilidades de intérpretes que os dançarinos trazem de suas passagens pelas danças tradicionais, mesmo que não utilizem as figuras de base (passos de dança) propriamente ditos. As capacidades improvisacionais dos bailarinos que estudaram as tradicionais é notadamente superior às de bailarinos ocidentais, por mais habilidosos que sejam, por exemplo.

Horácio Macuácua, na mesa de conversa proposta pelo Kinani, respondeu-me que o conhecimento do pulso musical, do ritmo e da improvisação, são os principais ingredientes que traz das danças tradicionais moçambicanas para seu trabalho enquanto bailarino, professor de dança e coreógrafo, misturando tudo em uma grande “feijoada”.

Pessoalmente acredito que são essas qualidades advindas do tradicional que mais impressionam o público de dança contemporânea. Assim, é certo afirmar que não há nada mais contemporâneo do que o tradicional. 😎