Relato de experiência do processo de formação no primeiro ano do Curso Extensivo de Treinamento e Pesquisa em Contact Improvisation na Mucíná – Aquela que dança: pesquisa em prática artística

Exercício “Uma boa pergunta para Steve Paxton”, foto de Marília Carneiro, módulo 7, Sede da Mucíná – Aquela que Dança, Campinas, SP, agosto 2019.

O primeiro ano letivo da Formação Contato aconteceu, para mim, de março a dezembro de 2019, sob a orientação de Marília Carneiro. Foram 10 módulos, dos quais participei de oito. Até então, quando da minha inscrição no curso, tinha pouquíssimos conhecimentos em Contato Improvisação (Paxton, 1972).

Por fazer teatro e ter participado de um grupo de teatro espontâneo, a improvisação que eu conhecia era outra. Em muitos momentos, me vi tentando comparar as duas formas de improvisação até conseguir realmente me desprender da forma do teatro. Precisei desconstrui-la para aprender a improvisação em dança do Contact Improvisation (CI), de Steve Paxton. 

A Formação Contato aconteceu em momentos de concentração (módulos presenciais) e de dispersão. Nesses últimos, houve a orientação de se realizar a exploração prática dos estudos do movimento em CI: 

“Solo training é uma prática de uma só pessoa, adentrando ao trio fundamental de CI (corpo-chão-gravidade, no espaço esférico). Envolve um ritual de preparação de um espaço-tempo para cultivar a relação com o estudo do movimento a partir de Contact Improvisation” (Carneiro, 2019b). 

Movimento e queda

O primeiro termo que me chamou a atenção foi a noção de “movimento”, no sentido de que é preciso ter consciência do espaço que se tem para mover-se em algum momento (quando), para algum lugar (onde), e de algum modo (como).

Parece uma situação simples de se ter consciência, entretanto foi um dos meus desafios no processo de Formação Contato. Penso que a tomada de consciência de meus próprios movimentos e improvisações foi uma das grandes aquisições que tive ao longo da formação.

A pergunta “como sobreviver a uma queda?” (PAXTON apud CARNEIRO, 2019b), lançada já no Módulo 1, ressoa até hoje em minhas investigações. Considero-a um dos pilares do Contact Improvisation e ela foi impulsionadora para dar início ao momento de dispersão do curso. Fiquei curiosa com as quedas (falls) ao saber que Paxton  partiu da Lei da Gravidade, do físico Isaac Newton, para se questionar “como sobreviver a uma queda?”.

“Um dia Newton estava sentado sob uma macieira em um jardim. Ele viu uma maçã caindo de uma árvore. Veio à sua mente um pensamento de que devia haver alguma razão para a maçã cair no chão e não ir para cima. Assim ele chegou à conclusão de que existe uma força exercida pela TERRA que puxa (atrai) todos os objetos para baixo em sua direção. Depois ele deu a essa força o nome de força da gravidade” (Commonwealth Secretariat, 1996, apud Martins, sd, p.168).


 No primeiro solo training (Carneiro, 2019b) comecei observando como objetos esféricos caem no espaço. A curiosidade por questionar: o que há nos objetos esféricos que os fazem sobreviver à queda? me levou à ideia de me colocar na condição de esfera.

 A noção do corpo como esfera fez começar a surgir movimentos circulares. Isso foi fundamental para que eu começasse a compreender o meu próprio espaço esférico, que em Contact Improvisation, refere-se ao campo de relação esférica entre corpo-chão-gravidade, trio fundamental para a prática de Contact Improvisation. 

Uma das primeiras atividades realizadas na Formação Contato foi “sentir o espaço”, ritual que se repetiu em todos os módulos e que acredito ser fundamental para a criação dessa conexão corpo-gravidade-chão.

Penso que o chão possa ser entendido como o sistema de sustentação para o corpo e a gravidade como a força que “puxa” o corpo ao chão. Nessa perspectiva, talvez o movimento aconteça quando o corpo conflita com a gravidade e busca novos sistemas de sustentação. 

Ainda em relação às quedas, algo que ganhou compreensão teórica foi a busca pelo estado de vertigem (desequilíbrio), que se configura como a sensação física de cair enquanto condição necessária para a criação de movimentos de queda. Destaco aqui a descoberta de que partes do corpo podem produzir queda (lembro-me de experimentar a queda dos dedos das mãos).

Será a improvisação a trajetória entre a queda e a sobrevivência à queda? Ou uma sucessão de quedas-sobrevivências à queda. Nesse sentido, podemos entender a prática em Contact Improvisation com a contínua finalidade de “levantar-se para cair” (Carneiro, 2019a). Assim, a prática consiste em “usar o corpo do outro para o chão subir” (idem), ou melhor, usar o corpo do outro como sustentação para sair do nível baixo, e se levantar para uma nova queda. 

Na primeira proposta de solo training um dos objetivos era a investigação da sensação física de queda e vertigem.  Em minha exploração, fui levada a pensar no desequilíbrio dos bêbados. No segundo módulo, no momento da devolutiva dos solo training Carneiro (2019a) ampliou a noção desse estado de vertigem, pois enquanto os bêbados procuram o equilíbrio do corpo, o Contact Improvisation busca o desequilíbrio: produzi-lo, lançar-se nele, mantê-lo. Assim, pergunto: é a vertigem condição necessária para toda prática em CI?

Voltando à pergunta motriz – como sobreviver a uma queda? – a resposta pode ser: dar continuidade ao movimento após cair. E a pergunta que se segue: como fazer isso? A descoberta acontece na prática.

Ondulações e Rolamentos

Estudo dirigido das ondulações da coluna (Carneiro, 2019c), parte da obra Material for the spine (Paxton, 2008). Foto e Janaina Moraes Franco, Módulo 2, sede da Mucíná – Aquela que Dança, Campinas, SP, abril 2019.

Foram apresentadas quatro ondulações (Undulation) no módulo 2. Frontal com liderança da cabeça (frontal initiated by the head), frontal com liderança da pelvis (frontal initiated by the pelvis), lateral com liderança da cabeça (lateral initiated by the head) e lateral com liderança da pélvis (lateral initiated by the pelvis). As ondulações consistem em realizar movimentos repetitivos de uma extremidade a outra da coluna (movimentos de ida e volta, que dão a sensação de uma onda). 

Realizar os movimentos de ondulação, o conhecimento apresentado sobre a coluna vertebral, e a proposta do segundo solo training para a prática desses movimentos expandiram a consciência que eu tinha até então sobre a minha coluna, tanto em sensação física quanto em conhecimento anatômico e articulação das vértebras. Comecei a ganhar a percepção da coluna vertebral em sua tridimensionalidade e concebê-la, na prática, como eixo central para a criação do movimento, em Contact Improvisation

Estudo dirigido do Rolamento crescente com liderança da bacia (Carneiro, 2019c), parte de Material for the spine (Paxton, 2008). Foto de Janaina Moraes Franco, sede da Mucíná – Aquela que Dança, Campinas, SP, agosto 2019.


Já os rolamentos crescentes (crescent rolls) foram apresentados no Módulo 7. São eles: rolamento crescente com liderança de pés e mãos (crescent led by feet and hand), rolamento crescente com liderança da bacia (crescent led by center), rolamento crescente com a cabeça para cima (head up) e rolamento crescente com mãos e pés para cima (head and feet up).


Acredito que os rolamentos ampliaram a minha relação com o chão. Todos são executados no nível baixo e uma das características do movimento consiste em encostar o máximo de abdômen no chão, ou melhor, nas palavras de Carneiro (2019a): “carimbar o chão”. Para mim, o grande desafio desses exercícios foi manter a forma criada.

Uma das propostas do quarto (e último) solo training foi a prática dessas formas. Em um dos treinamentos que fiz, filmei a prática de cada um dos rolamentos e percebi que à medida que eu me deslocava pelo espaço a forma inicial era perdida, numa dificuldade mesmo de “congelar” a forma e me mover com ela.

UnderScore e Jam Sessions

Global UnderScore 2019, apresentação da teoria e sessão de dança com 7 horas de duração. Foto de Mariangela Andrade, sede da Mucíná – Aquela que Dança, Campinas, SP, Junho, 2019.

A definição e a estrutura do UnderScore foram apresentadas no módulo 3, sendo a descrição energética de uma improvisação coletiva composta de sub-partituras ou possibilidades de. Nesse momento da Formação Contato tive a oportunidade de compreender melhor o funcionamento de uma improvisação em dança pela ótica do Contact Improvisation.  

Já havíamos realizado uma jam session quando o UnderScore foi apresentado. A jam session é uma improvisação coletiva e pelo que pude entender as práticas de improvisação coletiva em CI começaram a ser estudadas por Nancy Stark Smith, que as estruturou com o nome de UnderScore (Smith, 2008 apud Carneiro, 2018).

“O UnderScore é um veículo para incorporar o Contact Improv em uma arena mais ampla de dança improvisada; desenvolver uma maior facilidade de dançar no espaço esférico – sozinho e com os outros; e integrar preocupações cinestésicas e de composição ao improvisar” (Smith, 2018 apud Carneiro, 2018).

Em muitos momentos, Carneiro chamou a atenção do grupo para aproveitar o momento da jam para experimentar e explorar todos os movimentos que havíamos conhecido nos módulos. Eram os momentos de praticar, avaliar a apropriação das formas e mais ainda, de realizar improvisações. Lembro-me muito de ela dizer “vá atrás da sua dança”. Foi nesses momentos que pude vivenciar a experiência de transformar o corpo do outro em chão, em transformar meu corpo em chão para sustentar o movimento do outro.

Global UnderScore 2019, apresentação da teoria e sessão de dança com 7 horas de duração. Foto de Mariangela Andrade, sede da Mucíná – Aquela que Dança, Campinas, SP, Junho, 2019.

Há mais de 20 fases energéticas e físicas descritas nas subpartituras do UnderScore, cada qual com nome, descrição e símbolo gráfico. Após ter adquirido esse conhecimento, uma das propostas para o momento de dispersão (terceiro solo training)  foi a de se pensar na relação do UnderScore com a Formação Contato. Outra proposta foi a de auto-organizar o estudo do movimento. 

Aproveitei esse terceiro solo training para estruturar a minha prática individual de Contact Improvisation de acordo com algumas subpartituras do UnderScore (chegada energética, chegada física, preambulação, pelesfera, kinesfera, engajamento). Na verdade, tentei criar nesse momento, um ritual para a prática individual e acredito que tenha sido o momento que mais me engajei na proposta do solo training e mesmo na Formação Contato.

Análise das Danças


Nos módulos 4&5 houve a proposta de se começar a análise das danças. Isso consiste em investigar os momentos, numa improvisação, que poderiam ter se transformado num movimento. Para além disso, a análise funciona como uma espécie de ferramenta para se pensar nas possibilidades de movimento em Contact Improvisation

Além disso, os momentos de análise são importantes para que a improvisadora de dança comece a ter noção de seu repertório de movimentos. Carneiro (2019a) ressalta a importância de se investigar “quais são as práticas que favorecem à criação de movimento”? e “qual é o seu conjunto de preparativos para uma improvisação em CI?”.

 Acredito que esse é um exercício bastante importante para a integração dos conceitos e das práticas de Contact Improvisation, que requer bastante observação e consciência do movimento. Para quem observa uma improvisação de fora, ao vivo ou em vídeo, é um momento de avaliar as possibilidades de movimento para que no momento da improvisação possa fazer uma escolha que produza uma ação no aqui-agora, aproveitando-a para a criação de um movimento. De qualquer forma, refere-se a “o que poderia ter sido, mas não foi porque você não sabia” (Carneiro, 2019a).

Além disso, para mim, foi fundamental saber que a dança em CI é feita de escolhas. Talvez uma primeira escolha: liberar o fluxo ou contê-lo. A improvisação é feita de escolhas (Carneiro, 2019a): o que eu faço? como eu faço? com quem eu faço? com que intenção eu faço? Lembrando que a intenção da criação do movimento, em CI, é explorar a máxima fisicalidade.

Estética do Rascunho


A Estética do Rascunho, proposta de Carneiro (2019a) para ser apresentada pelo grupo de Formação Contato no Módulo 10, foi apresentada no Módulo 7 com o intuito de construir uma cena em Contact Improvisation. O que mais me chamou a atenção foi descobrir que a intenção dessa proposta é “permitir ao público testemunhar você vivendo uma experiência (de verdade)” (Carneiro, 2019a). Ou seja, não se trata de apresentar uma cena pronta, mas sim o processo de construção dos movimentos em CI.

No Módulo 9, compreendi melhor que a proposta era realizar uma performance coletiva em CI, que incluiu a escolha do espaço, a escolha da ação, a hipótese e o teste da hipótese. Nesse momento, compreendi que o teste da hipótese seria a cena em si.

Agora, refletindo, compreendo que a Estética do Rascunho tem a ver com a prática de Contact Improvisation porque a forma dançada do CI é rascunho, experimentação. É a possibilidade contínua de criação em dança. A apreciação ou fruição do CI é a exploração da criação do movimento, sem fixar numa forma que se apresente como obra-prima.

Conclusão

Quando a seguinte ideia do “DanceAbility” (Alessi, s/d apud Carneiro, 2019a) foi apresentada: “todo corpo pode dançar”, no Módulo 2, recordo que complementei: mas não é qualquer corpo que dança.  Desse modo, acredito que improvisar em CI requer a desabituação dos movimentos perpendiculares do cotidiano para criar alguma circularidade que faça o corpo se mover em forma dançada. E penso que as práticas em CI tenham essa contribuição de promover a consciência e/ou a aquisição da circularidade no movimento.

Acredito que os elementos do CI tratados aqui foram os que consegui me apropriar melhor para criar uma tradução possível, em linguagem verbal, para o primeiro ano da Formação Contato. Talvez isso seja um rascunho.

Referências

CARNEIRO, M. (2018). UnderScore, uma teoria para improvisar. Disponível em <www.blogs.unicamp.br/chao/2018/06/04/underscore/>. Acesso em 03 set. 2020.

CARNEIRO, M. (2019a). Anotações pessoais feitas durante o 1° ano letivo da Formação Contato. Curso Extensivo de Treinamento e Pesquisa em Contact Improvisation. Muciná Aquela que Dança: pesquisa em prática artística. Março a Dezembro. 

CARNEIRO, M. (2019b). Solo training 1 – exploração para o período de dispersão entre os módulos 1 e 2. Formação Contato – Curso Extensivo de Treinamento e Pesquisa em Contact Improvisation. Muciná Aquela que Dança: pesquisa em prática artística. Março.

CARNEIRO, M (2019c). Estudo dirigido teórico prático da obra Material for the spine: a mouvement study, de Steve Paxton. Formação Contato: curso extensivo de treinamento e pesquisa em Contact Improvisation (Paxton). Mucíná – Aquela que Dança, Campinas, março a dezembro.

GLOBAL UNDERSCORE. Disponível em <https://globalunderscore.com/about/>. Site. Acesso em 03 set. 2020.

MARTINS, Roberto de Andrade (s.d.) A maçã de Newton: histórias, lendas e tolices. IN: Estudos de História e Filosofia das Ciências.  Disponível em: http://www.ghtc.usp.br/server/pdf/RAM-livro-Cibelle-Newton.pdf

PAXTON, S. (2008). Material for the spine. A movement study. Contredanse, Paris, DVD interativo.

Chris Moura (1982) entrou para o Curso de Teatro na UFU (1/2020), participou do 1​° ano letivo da FORMAÇÃO CONTATO – Curso extensivo de treinamento e pesquisa em ​Contact Improvisation da Mucíná Plataforma de Dança (2019), cursou seis meses do Curso de Dramaturgia da SP Escola de Teatro (2/2016). Atua, escreve e performa.  Também fez  mestrado em Psicologia Aplicada pela UFU (2011) e atua como psicóloga clínica, com referencial teórico e técnico da Psicanálise. Descobriu a escrita no teatro. É mineira, de Uberlândia. E-mail: chris.moura.nas@gmail.com.
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