Resenha: Contato, improvisação e a cura

 

Escrevo esta  resenha a partir da leitura da sessão “Cartas” (Letters) com o tema “Contact e Cura” (no original “Contact and Healing”) publicada no Volume 5 (1979-80) da revista Contact Quartely, reunida na coletânea de 1997, com publicações feitas entre 1975-1992 (Contact Quarterly’s Contact Improvisation Sourcebook).
A sessão Cartas encontrou ressonância com meu instinto curioso sobre o Contato Improvisação. A partir das reflexões sobre o que é saúde, doença e cura, os textos se desenvolvem abordando pontos vistas e ampliando ainda mais nossos horizontes quanto às possibilidades de vivenciar as transformações que esta dança possibilita. Este é um dos resultados dos meus estudos como participante da Formação Contato – Jornada de treinamento e pesquisa em Contact Improvisation, com coordenação pedagógica de Marília Carneiro.
 

           Contato, improvisação e a cura

Janaína Moraes Franco

 

Capa da publicação Contact Quarterly’s Contact Improvisation Sourcebook, de 1997.

O texto inicia com uma nota de Nancy Stark Smith, sobre a Queda (Fall), de 1979. Em seguida, são apresentadas algumas cartas de leitores da revista Contact Quartely.

Na nota inicial, Nancy fala sobre quando ela “decidiu” cair. Quando ela aceitou a queda foi percebendo que havia “pontos-cegos”, momentos de perda de consciência, instantes em que ela não tinha a devida percepção do que acontecia. Nancy notou que esses instantes se localizavam depois de iniciar a queda e antes da mesma acabar. Ela chame estes momentos de escuridão. Nancy exemplifica comparando com dormir ao volante em uma estrada, que por milésimos de segundos há uma “escuridão”, uma perda de consciência e rapidamente se retorna à consciência, sem saber exatamente quanto tempo se passou.

Ilustração acima da nota de editora de Nancy Stark Smith na sessão Letters, pg.50 Sourcebook 1975-1992.

Nancy notou o ponto-cego da queda e depois da queda percebeu que sempre se seguia um movimento, normalmente um rolamento. Percebeu que também existe ponto cego no rolamento. Ela diz que quanto mais habitual se tornou a queda e o rolamento, mais consciente ela foi se tornando nestes momentos que antes eram “cegos”. O prazer tomou o lugar ao medo e à desorientação. Ela fala do lugar da desorientação, da confusão e do incômodo físico (dis-ease) no mecanismo de equilíbrio. E então, lança o questionamento do que significa a saúde, a doença: como reconhecemos e mantemos isso. Tendo em vista a questão de como podemos nos manter conscientes durante a queda.

Na sequência, temos a carta de Ross Chapin, de Minnesota, na qual ela levanta indagações sobre a visão da sociedade atual quanto a noção de saúde ser apenas não estar doente, mas, de acordo com ela, saúde significar “Ser Íntegro”, expandindo a percepção para além dos aspectos físicos, ser íntegro, ou inteiro, significa “uma integração dinâmica entre corpo, mente, alma no processo criativo de auto expressão”.

Já a próxima carta, de Deborah Goldberg, levanta vários questionamentos sobre o lugar do Contact Improvisation, se seria ele o campo da educação ou da psicologia. Deborah faz um paralelo com algumas terapias, como a Gestalt terapia, terapia Jungiana, terapias de grupo e outras questões que sente que são trabalhadas através do Contact e que são questões abordadas em algumas terapias, como por exemplo a questão da rejeição.

Por fim, a última carta, de Peter Ryan, se refere a outro artigo, intitulado “A anatomia do homem e da mulher”, no qual a autora Beth Goren faz uma citação que ele não compreende bem e pede uma explicação, vindo uma resposta da C.Q. que contatou com a autora para responder.

A frase que ele não compreende é a seguinte: “Quando a perna e os pés estão paralelos, o corpo e a cabeça do fêmur direcionam a energia para cima em direção ao encaixe (da articulação coxo-femural) numa orientação de posterior para anterior”. Assim, Beth explica que acredita como fundamental o suporte da relação glúteos-sacro-cóccix e que percebe uma ausência deste apoio nos dançarinos. Ela faz uma analogia do suporte físico através desta tríade à mudanças de velhos hábitos (psicológicos), através do fortalecimento desta parte fundamental. Ao mesmo tempo em que enfatiza a falta de apoio no centro do corpo, ela fala sobre a necessidade de soltar, distensionar a base da coluna. Ela indica a posição correta de fortalecimento do quadril “encaixado”, para que a força peso desça para a terra e volte como uma contra força dando a sustentação ao próprio quadril.

            No artigo foram levantados vários questionamentos e visões sobre o que significa saúde, saúde mental, física e também espiritual. Para mim, Janaína, soam particularmente interessante alguns questionamentos, como a reflexão proposta por Nancy, na qual eu compreendo a ideia de saúde estar ligada à consciência, ao estar “desperto” aos acontecimentos. Compreendendo a saúde de forma integral, como belamente dito por Ross Chapin em: “Estar saudável envolve uma integração dinâmica do corpo, mente e alma em um processo de auto expressão criativa”, o que também significa, na minha compreensão, que uma pessoa saudável é uma pessoa que está íntegra, e a “inteireza” significa o mecanismo do equilíbrio dito por Nancy, que abrange a desorientação/orientação, confusão/clareza, saúde/doença. Ela também diz: “A queda é em si mesma o estado de graça”.

Observando a dança e a prática física como um micro mundo para o macro mundo das relações, podemos aprender infinitamente. Da mesma forma, observando-a podemos fazer a analogia da queda e do equilíbrio físico para associar à busca do equilíbrio de ser um “Ser íntegro”. O “Ser Íntegro”, dito por Ross, não pode ser analisado desde um ponto de vista estático, porque, como diz Nancy, “estamos sempre em queda e seguindo a queda existe sempre um movimento, normalmente um rolamento”. Da mesma forma, é possível associar à percepção da vida desde o ponto de vista do Budismo do Sutra de Lótus, como belamente dito por Daisaku Ikeda no livro “A Sabedoria do Sutra do Lótus” (2013): ” A vida é uma atividade vital e de vibrante dinamismo”

O estado de integridade, ao qual Ross se refere em algum momento como o estado “Santo” (holy), pode ser analisado desde o ponto de vista desta linha de Budismo, o qual compreende o estado de Buda (O Ser Íntegro) como um eterno dançar pelos dez estados de vida, o qual todos os seres humanos dançam eternamente.  Esses dez estados contém também o estado de Buda e o estado de Inferno, no qual todos nós (até mesmo o ser conhecido como Sidarta Gautama, O Buda) transitamos. Ou seja, o Buda  são todos os Seres existentes que percebem a dinâmica do equilíbrio e manifestam sua inteireza através da consciência da dança da vida e compartilham com os outros esta sabedoria. O Ser Íntegro ou Ser saudável, é aquele que está disposto a tomar consciência de seus pontos cegos, é o que está jogando com os mecanismos do equilíbrio mental e físico.

Deste ponto de vista, se compreende o ser humano com seus diversos corpos, como de acordo com a autora Bárbara Ann (BRENNA, 1999), de “Mãos de Luz”, possuímos corpos que ela categorizou como: corpo físico, etérico, emocional, mental, astral, etérico padrão, celestial e o corpo ketérico, cada qual ela associa a um chacra. Em seu livro ela fala sobre a doença como um bloqueio energético ou uma alteração de vibração, que primeiro se manifesta nos corpos mais sutis, para então, chegar ao corpo físico e aos órgãos e enfim ser diagnosticado.

Através desta visão da manifestação da doença nos corpos sutis ao corpo físico, a ideia de uma pessoa saudável ser uma pessoa que está íntegra na sua busca e na auto expressão, na expressão de sua essência.

Para uma boa saúde, é considerado crucial um corpo físico saudável. O caminho é de via dupla, o corpo físico, é o mais denso dos corpos, condessado em matéria, este que se expressa no mundo, cria relações, culturas e hábitos; é também por onde o Ser Íntegro pode se manifestar. Um corpo físico saudável corresponde a seu bom funcionamento, diminuindo o impacto do desgaste natural do tempo e, fundamentalmente, um bom fluxo de energia. O fluxo é primordial, a vida é o próprio movimento. Fluxo de sangue, funcionamento dos órgãos, anatomia em harmonia com as leis da física. Quando há bloqueio nos fluxos pode haver a manifestação da doença.

Sobre a falta de apoio da tríade relação “glúteos- sacro-cóccix”, descrita por Beth Goren, está relacionado ao chacra base e sexual, região de fundamental importância para os seres humanos, já que em diversas culturas originárias se referem a esta região como onde mora nossa energia vital. É também no corpo e na mente humana, um lugar que atualmente a humanidade manifesta muitas doenças relacionados aos órgãos e à coluna nesta área. Além de quê a sexualidade se manifesta como um grande tabu, por vezes reprimida ou por vezes manifestada sem consciência.

Fotografia Janaína Moraes Franco
Ray Chung em aula sobre Tensegridade.

A ideia de que através do trabalho corporal/físico, podemos acessar mudanças de padrões mentais, sociais e em níveis espirituais dos corpos sutis, trata de reativar o fluxo e circulações energéticas e físicas. Através de uma “correta” relação do corpo humano com a Terra (entende-se por equilíbrio), sua força gravitacional e sem interromper a circulação energética dos corpos em relações. O corpo físico funciona no seu melhor estado possível, acessando e transformando todos os outros corpos mais sutis, ocasionando transformações também mentais e comportamentais. Desta forma compreendo a afirmação de Beth Goren, no qual ela diz: “Experiencie a sensação de apoio colocando os polegares atrás do trocanter maior com os dedos envolvendo ao redor da pélvis e pressionando os polegares pra cima, pra dentro e pra frente. Nesta ação, deve direcionar seu peso para a perna para cima para encaixe coxo femural, levantando o sacro. Você não só irá sentir o peso fluindo para baixo através dos ossos, mas também irá sentir uma contra força viajando para cima, para suas pernas e pélvis.” Este movimento de diversas forças, ativa o centro do corpo, trabalhando músculos como glúteos e abdominais e liberando a base da coluna, o sacro, de tensões. Mais uma vez, utilizo o termo de Nancy, o mecanismo do equilíbrio, para fazer referência às diversas forças contraditórias que se encontram na busca do equilíbrio e, novamente fazendo referência, às diversas forças como a busca da integridade do Ser a partir do trabalho corporal.

Compreendendo a importante relação da saúde em todos os níveis e corpos, vejo o trabalho corporal e espiritual como bases da boa saúde, ou ao menos de um bom fluxo, um bem estar físico com si próprio e consequentemente melhores relações sociais. Assim, finalizo este apanhado sobre os questionamentos e reflexões propostos no artigo acerca do Contato Improvisação relacionado à saúde/cura e sigo com a observação e investigação na vida, no corpo, nos corpos e nas relações. Agradeço à vida pelo compartilhar.

Fotografia Janaína Moraes Franco
Material sobre Tensegridade

 

 

BIBLIOGRAFIA

BRENNAN, Barbara Ann. Mãos de Luz: Um guia para a cura através do campo de energia humano. 17ª edição. São Paulo: Editora Pensamento, 1999.

CHAPIN, Ross. Letters: Contact and Healing. Contact Quarterly’s Contact Improvisation Sourcebook 1975-1992. Contact Editions: Northampton, Massachussets, EUA, 1997, p.50.

GOLDBERG, Deborah. Letters: Contact and Healing. Contact Quarterly’s Contact Improvisation Sourcebook 1975-1992. Contact Editions: Northampton, Massachussets, EUA, 1997, p.50.

IKEDA, Daisaku; ASITO, Katsuji; ENDO, Takanori; SUDA, Haruo. A Sabedoria do Sutra de Lótus: Uma discussão sobre a religião no século XXI. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, fevereiro de 2013.

IKEDA, Daisaku; ASITO, Katsuji; ENDO, Takanori; SUDA, Haruo. Felicidade. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, abril de 2016.

RYAN, Peter. Letters: Contact and Healing – More information. Contact Quarterly’s Contact Improvisation Sourcebook 1975-1992. Contact Editions: Northampton, Massachussets, EUA, 1997, p.51.

SMITH, Nancy Stark. Editor note for the healing issue. Contact Quarterly’s Contact Improvisation Sourcebook 1975-1992. Contact Editions: Northampton, Massachussets, EUA, 1997, p.50.

 

São Paulo, Lua Cheia. 02 de fevereiro de 2018 .