Um pólo de Contato Improvisação em Campinas – ano 2013 – n.3

Nos Estados Unidos com Nancy Stark Smith

Dois mil e treze provavelmente é um dos anos mais incríveis que já vivi em termos de Dança. Começou com a ida de ônibus para Nova Iorque, atravessando a fronteira entre Canadá e Estados Unidos, para uma semana de visitas a museus, especialmente o MoMA, e a estúdios de dança onde aconteciam Jams sessions de Contact Improvisation.

Inclui também a ida ao Central Park, espaço público onde grupos se encontram para dançar o Ci, atraindo novos praticantes. Por último, mas não menos importante, fui ao bairro Greenwich Village, uma visita de caráter histórico para quem é de Dança (Bannes, 1999).

Toda esta movimentação fez parte do meu estágio de pesquisa no exterior e consta do relatórios de pesquisa (Carneiro, 2013) que escrevi para a FAPESP e para o programa de pós em Educação da FE/Unicamp no retorno ao país, antes de embarcar para Moçambique.

Terminada a semana, apanhei o ônibus para o Estado de Massachusetts até alcançar EarthDance, conhecida como “Meca do Contato Improvisação”. O próximo mês seria de estudos com a figura mais emblemática deste métier: Nancy Stark Smith, minha professora.

Solicitei inscrição e fui aceita para participar do January Workshop de Nancy, de caráter imersivo, para dançarinas de nível intermediário e avançado. Estava em busca do conhecimento tácito (Polanyi, 2008) da abordagem de Smith (2008).

Nancy Stark Smith demonstrando comigo o próximo exercício.

A influência que os estudos com Nancy têm em minha abordagem em desdobramento em Campinas é fundante. Já tinha estudado e dançado com Nancy antes, em 2005, por ocasião de sua passagem pelo Brasil, primeiro por Porto Alegre, com produção de Fernanda Carvalho Leite (2018) e depois por São Paulo, no extinto Estúdio Nova Dança.

Desde essa época, 2005, o UnderScore (Smith, 2008), sua teoria a respeito de sessões coletivas de Improvisação de Dança que comportam Contact Improvisation, já figurava entre meus conteúdos de aulas como um eixo estruturante (Carneiro, 2018) e meu foco de observação principal era a prática pedagógica da professora. 

Para adentrar nesta esfera do workshop, adotei a perspectiva etnográfica que chamo de participação observadora (Carneiro, 2016) e escrevi notas enriquecidas, recolhi documentos e fiz entrevistas, compilando um volume inicial com textos e desenhos, fotos e vídeos (Carneiro, 2013b).

De volta à Casa do Lago da Unicamp

Essa experiência de pesquisa foi a base para a oficina oferecida na Casa do Lago/Unicamp a partir de Abril de 2013: “Experiência Somática no Contato Improvisação a partir do material de Nancy Stark Smith” (Carneiro, 2013c), que já solicitava o compromisso dos participantes para o ciclo completo de aulas, e incluía também as Jam sessions mensais abertas ao público em geral.

Print da postagem de dvulgação.

O projeto de Jams sessions continua

A prática da observação como tópico no processo de ensino aprendizagem

A divulgação das Jams desta vez abre o convite à prática da observação, um dos tópicos que será amplamente estudado na comunidade de prática que vai se reunindo em torno das minhas aulas ao longo dos anos.

A última atividade que realizei em 2013 em Campinas foi uma BIG JAM, para a qual convidei 10 pessoas para entrarem como anfitriões, para que o público fosse grande, BIG JAM. Deu certo. Ao final dela, a pergunta sobre a continuidade é feita, e, no período em que estarei em Moçambique, para o trabalho de campo do meu doutorado, a oficina vai acontecer na Casa do Lago, com dois alunos responsáveis, Dolores Assiriti e Arthur Pacheco, e um núcleo central interessado em continuar se encontrando. 

Flyer de divulgação. BIG JAM, Casa do Lago/UNICAMP, 06/8/2013.

Moçambique e uma breve passagem pela África do Sul

Passei o restante do ano de 2013 em trabalho de campo de pesquisa na capital de Moçambique, Maputo, com um intervalo de 3 semanas na Cidade do Cabo, no país vizinho, África do Sul.

O Contato Improvisação fazia parte do meu desenho metodológico de entrada no terreno. Como parte deste meu trabalho eu participaria (e de fato participei) de workshops de Dança Contemporânea que estivesse em acontecimento na cidade, e também ofereceria, se houvesse a oportunidade, um workshop de CI.

Este era um momento importante no meu trabalho, pois seria o momento em que estaria no meu material. Bascular o ponto de vista entre as diversas facetas da prática artística era parte do método de pesquisa. E era no CI que estava a minha prática pedagógica. Um momento único em que poderia conversar com os bailarinos e bailarinas de dentro do meu material. Muito deste trabalho está descrito e analisado na minha tese (Carneiro, 2016) e extrapola o objetivo desta série Ci fora do eixo.

O que precisa ser dito é que o encontro com a Dança e com a Improvisação em Maputo transformou minha maneira de entender a Improvisação e minha abordagem metodológica ao Contact Improvisation, que mais tarde passei a chamar de “CI & outros métodos geniais”.

Em Moçambique ofereci, no Centro Cultural Franco Moçambicano, um workshop de 30h para bailarinos profissionais. Organizei o workshop a partir do que já tinha trabalhado na oficina anterior na Casa do Lago sobre o material de Nancy Stark Smith, num verdadeiro processo de entendimento de pedagogia em torno de CI. Como parte do workshop apresentei a teoria do UnderScore (Smith, 2008) e fizemos uma Jam UnderScore.

Teaser do workshop de Contact Improvisation em Maputo, CCFM, 2013.

Enquanto vivi em Maputo desta vez, fui brevemente à África do Sul, onde entrei em contato com uma bailarina que movia a cena do CI em Cape Town e que também veio a estudar com Nancy. Não chegamos a nos encontrar, mas um de meus alunos da Casa do Lago, anos mais tarde, foi viver e trabalhar em Cape Town e se integrou ao grupo, efetivando um intercâmbio de conhecimento em torno de CI.

Assim termina 2013. Eu finalizo a primeira parte do meu campo e retorno a Campinas para 1 ano de escrita do texto de qualificação do meu doutorado e novos movimentos em torno da consolidação do pólo de Contato Improvisação em Campinas.

Referências

Bannes, S. Greenwich village 1963: avant-garde, performance e o corpo efervescente. Tradução de Mauro Gama. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Carneiro, M.C.G. Estudos de etnografia das práticas artísticas e o campo de debates sobre metodologia d pesquisa em Arte e Dança. Relatório de pesquisa BEPE-FAPESP (Processo 2012/07344-4), FE-Unicamp, Campinas/SP, 2013a. Acesso restrito.

Carneiro, M.C.G. Notas etnográficas o January Open Workshop 2013 com Nancy Stark Smith. Plainfield, 2013b. Mimeo.

Carneiro, M.C.G. Experiência Somática no Contato Improvisação a partir do material de Nancy Stark Smith, oficina, Casa do Lago/UNICAMP, Campinas,  abr-jul 2013c.

Carneiro, MCGC. Mucíná wa Maputz *aquela que dança em Maputz* – um estudo do método etnográfico na pesquisa em prática artística em dança contemporânea, em Maputo. Tese de doutorado. Faculdade de Educação/UNICAMP, 2016.

Leite, F.C. Sul em Contato – Um Festival de Contato Improvisação em Porto Alegre. Chão de dança – blogs de ciência da Unicamp, 2018, disponível em https://www.blogs.unicamp.br/chao/sulemcontato/, acessado em 26mar2021.

Polanyi, M. Personal Knowledge. Extratos traduzidos por Eduardo Beira, Escola de Engenharia, Universidade do Minho, Portugal, 2008.

Smith, N.S. & Koteen, D. Caught Falling. The confluence of Contact Improvisation, Nancy Stark Smith, and other moving ideas. Northampton: Contact editions, 2008.


A próxima postagem traz o ano de 2014 – De volta a Campinas, início dos estudos dirigidos da obra de Steve Paxton e entrada no Laboratório de Ginástica da Faculdade de Educação Física da Unicamp. Veja a postagem n.4.

————– Projeto histórias e temporalidade do processo de consolidação de Campinas como um pólo de ensino e pesquisa em Contact Improvisation. Realização Mucíná – Aquela que Dança, produzido para o canal Cultura Abraça Campinas, com apoio de recursos da Secretaria Municipal de Cultura de Campinas ————— Inclui a série no blogs.unicamp.br/chao e o perfil na rede social instagram @ciforadoeixo