{"id":1175,"date":"2012-09-12T16:59:38","date_gmt":"2012-09-12T19:59:38","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/chivononpo\/?p=1175"},"modified":"2012-09-12T16:59:38","modified_gmt":"2012-09-12T19:59:38","slug":"monteiro-lobato-e-racista-pior-e-obsoleto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chivononpo\/2012\/09\/12\/monteiro-lobato-e-racista-pior-e-obsoleto\/","title":{"rendered":"Monteiro Lobato \u00e9 racista? Pior: \u00e9 obsoleto"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">O que motiva este post \u00e9 <a href=\"http:\/\/diariodoprofessor.com\/2012\/09\/12\/obra-de-monteiro-lobato-cacadas-de-pedrinho-e-racismo\/\">outro post do meu\u00a0querido\u00a0Declev no Di\u00e1rio de um Professor<\/a>, a respeito da discuss\u00e3o (que chegou ao Supremo) sobre supostos conte\u00fados racistas na obra de Monteiro Lobato, mais exatamente no livro &#8220;Ca\u00e7adas de Pedrinho&#8221;, livro este proposto como livro-texto para estudantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A primeira constata\u00e7\u00e3o que se deve fazer \u00e9 que Lobato \u2013 como, de resto, a elite intelectual brasileira de sua \u00e9poca \u2013 \u00e9 racista, sim. \u00c9 racista e eurocentrista como todos os &#8220;bem-pensantes&#8221; da primeira metade do s\u00e9culo passado. Antes de sair me xingando de iconoclasta, burro, ou qualquer outro epiteto, \u00e9 sempre bom lembrar que &#8220;preconceito&#8221; \u00e9 exatamente o que a origem\u00a0etimol\u00f3gica sugere: um &#8220;conceito&#8221; (uma ideia) que uma pessoa absorve de uma cultura existente, sem que essa ideia passe pelo crivo de uma an\u00e1lise l\u00f3gica. E eu me confesso racista: a todo momento tenho que fazer minha raz\u00e3o protestar contra os preconceitos que eu adquiri quando era crian\u00e7a e que eram tidos como &#8220;verdades\u00a0por si s\u00f3 evidentes&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ser\u00e1, ent\u00e3o, que o livro &#8220;Ca\u00e7adas de Pedrinho&#8221; deve ser banido da bibliografia escolar?&#8230; Eu opino que sim. N\u00e3o s\u00f3 pelas duas ou tr\u00eas refer\u00eancias\u00a0derris\u00f3rias \u00e0 personagem &#8220;Tia Nast\u00e1cia&#8221; por ser negra, mas, principalmente, por deixar subentendido que ca\u00e7ar animais silvestres (especialmente a on\u00e7a-pintada &#8211; esp\u00e9cie amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o) \u00e9 algo digno de louvor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na \u00e9poca em que Lobato escreveu o livro, nada disso era tido como pernicioso. Nenhum negro iria se manifestar ofendido pela caracteriza\u00e7\u00e3o de Tia Nast\u00e1cia como analfabeta, ignorante, supersticiosa, porque isso n\u00e3o era fic\u00e7\u00e3o; era a realidade para a esmagadora maioria dos negros no Brasil, rec\u00e9m sa\u00eddos da escravid\u00e3o e sem a menor chance de progresso social. Para ser mais enf\u00e1tico, quando eu era crian\u00e7a, quase metade dos brasileiros eram analfabetos e dava para contar nos dedos quantos dos alfabetizados eram negros ou mesti\u00e7os de negro (e, para apresentar a exce\u00e7\u00e3o que confirma a regra, um dos meus colegas de inf\u00e2ncia era filho de um desses negros, um deputado federal e soci\u00f3logo de boa cepa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Igualmente, uma das oportunidades que um menino tinha de &#8220;se mostrar homem-feito&#8221;, era exatamente participar de ca\u00e7adas \u2013 coisa que grande parte daqueles que moravam no interior faziam at\u00e9 mesmo por quest\u00e3o de subsist\u00eancia. On\u00e7a, ainda tinha muita&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O caso \u00e9 que a sociedade que Lobato descreve e onde ambienta suas obras \u00e9 coisa do passado. As crian\u00e7as de hoje n\u00e3o vivem mais em um mundo onde o meio de comunica\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pido \u00e9 o telegrama. As fazendas das Vov\u00f3s &#8220;Benta Encerrabodes de Oliveira&#8221; n\u00e3o s\u00e3o mais vizinhas de matas onde se encontre um m\u00edsero cachorro-vinagre; estes e outros animais silvestres s\u00e3o, cada vez com mais frequ\u00eancia, encontrados vagando at\u00f4nitos por bairros de cidades que invadiram seu habitat.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eu cresci lendo Lobato e meus filhos ainda curtiram Lobato adaptado para a televis\u00e3o. E a pr\u00f3pria vers\u00e3o para televis\u00e3o j\u00e1 fazia algumas concess\u00f5es. Por exemplo, &#8220;pirlimpimpim&#8221; tinha deixado de ser um p\u00f3 (com conota\u00e7\u00f5es \u00f3bvias) e passado a ser uma palavra-m\u00e1gica&#8230; Ah!&#8230; Sim&#8230; Na primeira metade do s\u00e9culo passado, coca\u00edna era algo que se comprava na farm\u00e1cia para dor de dentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje, eu n\u00e3o consigo fazer meu neto largar os &#8220;animes&#8221; e &#8220;mangas&#8221; e se interessar por um sabugo de milho com ares de fidalgo e fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se \u00e9 com esses textos de (nas palavras de Lobato) uma sensaboria relamb\u00f3ria que pretendem ensinar o portugu\u00eas a nossas crian\u00e7as de hoje, boa sorte!&#8230; Talvez seja poss\u00edvel cativar ainda algum futuro (sempre nas palavras de Lobato) &#8220;Sr. Coisado Pereira, intelectual de Pil\u00e3o Arcado, onde vive t\u00edsico e todo caspas&#8221; que venha a escrever outra obra como &#8220;A Mulatinha do Caro\u00e7o no Pesco\u00e7o&#8221; (obra e autor fict\u00edcios, extra\u00eddos de um texto de Lobato defendendo a tradu\u00e7\u00e3o dos cl\u00e1ssicos estrangeiros).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Fica para o Supremo descascar este abacaxi&#8230; E, para os que s\u00e3o incapazes de reconhecer as limita\u00e7\u00f5es de uma &#8220;vaca-sagrada&#8221;, acreditar na m\u00e1xima: &#8220;O que foi bom para meu av\u00f4 e meu pai, foi tamb\u00e9m bom para mim e ser\u00e1 bom para meus filhos e netos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Lobato estaria corado de vergonha&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que motiva este post \u00e9 outro post do meu\u00a0querido\u00a0Declev no Di\u00e1rio de um Professor, a respeito da discuss\u00e3o (que chegou ao Supremo) sobre supostos conte\u00fados racistas na obra de Monteiro Lobato, mais exatamente no livro &#8220;Ca\u00e7adas de Pedrinho&#8221;, livro este proposto como livro-texto para estudantes. 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