{"id":191,"date":"2007-07-19T21:37:00","date_gmt":"2007-07-20T00:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/chivononpo\/2007\/07\/um-novo-humanismo\/"},"modified":"2007-07-19T21:37:00","modified_gmt":"2007-07-20T00:37:00","slug":"um-novo-humanismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chivononpo\/2007\/07\/19\/um-novo-humanismo\/","title":{"rendered":"Um novo humanismo"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\"><strong>Por um novo humanismo<\/strong><br \/>\npor Salvador P\u00e1niker (fil\u00f3sofo e escritor espannhol<br \/>\nEm 1959,  C. P. Snow proferiu sua famosa confer\u00eancia em Cambridge, intitulada \u201cAs duas culturas e a revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica&#8221;, lamentando o cisma acad\u00eamico e profissional entre os campos da ci\u00eancia e das letras. Em 1991, o agente liter\u00e1rio John Brockman popularizou o conceito da Terceira cultura, se referindo ao nascimento do escritor-cientista e, desta formas, se referindo ao nascimento de um novo humanismo, n\u00e3o mais ligado ao sentido cl\u00e1ssico do termo, mas, em seu lugar, a uma nova hibridiza\u00e7\u00e3o entre as ci\u00eancias exatas e as humanas.<br \/>\nEm tanto quanto concerne \u00e0 filosofia, este novo humanismo deveria estar ciente, n\u00e3o s\u00f3 das novidades cient\u00edficas, mas, tamb\u00e9m, de tantas novas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo quanto fosse poss\u00edvel. Isso significava que a filosofia n\u00e3o poderia permanecer trancada em um departamento acad\u00eamico Professional, ao contr\u00e1rio, deveria participar de uma interse\u00e7\u00e3o interdisciplinar, &#8220;em di\u00e1logo \u2014como diria o recentemente extinto Richard Rorty \u2014\u201ccom todas as outras ci\u00eancias\u201d. A Filosofia precisa tra\u00e7ar os mapas da realidade. O Fil\u00f3sofo \u00e9, nas palavras de Plat\u00e3o, &#8220;aquele que possui uma vis\u00e3o do todo (synoptikos),&#8221; como tal, ele organiza o que \u00e9 a \u201cinforma\u00e7\u00e3o armazenada\u201d mais relevante (cultura) e rascunha as novas vis\u00f5es mundiais (provis\u00f3rias, por\u00e9m coerentes). Mais do que isso, a intui\u00e7\u00e3o inicial dos fil\u00f3sofos anal\u00edticos \u2014 que foram os primeiros a real\u00e7ar as armadilhas colocadas pelas linguagens \u2014 n\u00e3o deve ser descartada.<br \/>\nEu, portanto, acredito que um novo humanismo deve adotar certas reformas ling\u00fc\u00edsticas. Tomemos, como exemplo, a extens\u00e3o em que n\u00f3s ainda estamos hoje condicionados pela constru\u00e7\u00e3o aristoteliana de sujeito, verbo e predicado, que tamb\u00e9m forma o modelo cartesiano de cogni\u00e7\u00e3o sujeito &#8211; objeto. Estas conven\u00e7\u00f5es s\u00e3o respons\u00e1veis \u2014 e foram denunciadas tanto por Buddha, como por David Hume \u2014 pela fal\u00e1cia de acreditar que a \u00fanica coisa de que e pode ter certeza \u00e9 da exist\u00eancia de atos mentais.<br \/>\nDe fato, o que ocorre no g\u00eanero filos\u00f3fico, \u00e9 que palavras devem transmitir conceitos, deixando uma pequena margem para os floreios da ret\u00f3rica. Na filosofia, \u00e9 muito dif\u00edcil escapar a um determinado modo gramatical. Martin Heidegger j\u00e1 tinha explicado que havia desistido de escrever a segunda parte de \u201cBeing and Time\u201d por causa da inadequa\u00e7\u00e3o da linguagem da metaf\u00edsica que sempre identifica um ser com o evento do \u201cser\u201d, esquecendo a diferen\u00e7a ontol\u00f3gica. Hoje, quando a filosofia tende a se misturar com a literatura, de que outro recurso dispomos? Gregory Bateson costumava dizer que devemos nos adaptar a uma nova maneira de pensar que substitua objetos por relacionamentos. Mas substituir objetos por relacionamentos \u00e9 contra est\u00f3rias. Assim, Bateson nos convida a contra est\u00f3rias.<br \/>\nMesmo que uma \u201cvirada ling\u00fc\u00edstica\u201d tenha ocorrido, nossos h\u00e1bitos de sintaxe mudaram muito pouco. Em seu Segundo per\u00edodo, clamava que a poesia \u2014 cujo exemplo supremo seria H\u00f6lderlin \u2014 como um modelo de uma linguagem n\u00e3o-objetificante, irredut\u00edvel a um simples instrumento de informa\u00e7\u00e3o. Infelizmente, Heidegger conseguiu se inebriar tanto na \u201cescurid\u00e3o po\u00e9tica\u201d que se tornou dif\u00edcil de acompanhar. Com respeitos linguagens formais usadas para as ci\u00eancias exatas, estas s\u00e3o, no fim, acess\u00edveis apenas a um pequeno grupo de especialistas. E, assim, para dar um exemplo, enquanto as pessoas cultas, em seus dias, ainda podiam digerir a teoria da gravidade de Newton e at\u00e9 a teoria da relatividade de Einstein (embora com menos facilidade \u2014 a const\u00e2ncia da velocidade da luz \u00e9 estritamente contra-intuitiva); quem, nos dias de hoje, \u00e9 capaz de seguir a demon\u00edaca complexidade matem\u00e1tica da teoria das supercordas?<br \/>\nDito isto, n\u00f3s estamos na dire\u00e7\u00e3o de um caminho que eu acredito seja inevit\u00e1vel. Aqui, nas margens da linguagem que se usa, n\u00f3s somos chamados a nos liberar da tirania da intui\u00e7\u00e3o, senso comum e outras armadilhas desta natureza.Por outro lado, por que a realidade tem que ser completamente inintelig\u00edvel? Para come\u00e7ar, o teorema de G\u00f6del&#8217;s impugna a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de uma teoria completa na natureza: qualquer sistema axiom\u00e1tico que sejam at\u00e9, de alguma forma, complexos, levanta quest\u00f5es que os pr\u00f3prios axiomas n\u00e3o podem resolver. Por outro lado, a teoria da evolu\u00e7\u00e3o confirma nossa obscuridade. Nada nos obriga a pensar que o mundo possa ser completamente intelig\u00edvel. Pelo menos, para n\u00f3s s\u00edmios pensantes. Ao menos em rela\u00e7\u00e3o ao que n\u00f3s s\u00edmios pensantes compreendemos por inteligibilidade.<br \/>\nEm resumo. Um novo humanismo deveria come\u00e7ar com um tratamento de mod\u00e9stia, talvez abjurando o extremamente arrogante conceito de humanismo, que coloca o animal humano como o ponto central de refer\u00eancia para toda a exist\u00eancia. Um novo humanismo, compat\u00edvel com a sensibilidade da metaf\u00edsica, n\u00e3o pode virar as costas \u00e0 ci\u00eancia. Naturalmente, n\u00e3o se trata de cair no obscurantismo pseudocient\u00edfico que Alan Sokal e Jean Bricmont denunciaram em seu conhecido livro, <em>Intellectual Imposters<\/em>. N\u00e3o h\u00e1 necessidade de usar jarg\u00e3o cient\u00edfico quando n\u00e3o for pertinente. Nem h\u00e1 motivo para cair no relativismo epistemol\u00f3gico radical (que pode resultar de uma m\u00e1 digest\u00e3o dos trabalhos de Kuhn e Feyerabend), nem acreditar que a ci\u00eancia \u00e9 uma mera narrativa, ou nada al\u00e9m de um artefato social. Tamb\u00e9m n\u00e3o devemos procurar por uma absurda s\u00edntese entre Ci\u00eancia e Misticismo. A tarefa atribu\u00edda ao Humanismo \u00e9 mais diferenciada no sentido da autonomia da ci\u00eancia: compreender, verdadeiramente, nossos condicionamentos mais fundamentais; e assegurar que os paradigmas cient\u00edficos realmente fertilizem o discurso filos\u00f3fico e at\u00e9 o liter\u00e1rio.<br \/>\nO fato, nesta material, \u00e9 que a cultura, em sua totalidade, existe em um permanente estado de fluxo e renova\u00e7\u00e3o. Sua renova\u00e7\u00e3o nasceu da inter-fertiliza\u00e7\u00e3o das disciplinas individuais. Hoje se pode at\u00e9 elaborar sobre uma teoria nova, retirada de um \u201ctexto sagrado\u201d, evitando um retorno \u00e0s velhas fontes exauridas. Por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel que, um dia, sua Santidade o Papa da Igreja Cat\u00f3lica escreva algo realmente inspirado, algo rela, sem os detest\u00e1veis maneirismos dos documentos oficiais? N\u00e3o parece prov\u00e1vel, nem \u00e9 necess\u00e1rio. Os verdadeiros \u201ctextos sagrados\u201d da tradi\u00e7\u00e3o ocidental t\u00eam sido, por s\u00e9culos, os dos grandes autores. Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, Dante e Shakespeare. Mas tamb\u00e9m Victoria, Bach, Handel, Beethoven. E Giotto, Fra Angelico, Rembrandt. E Arquimedes, Pascal, Newton, Darwin, Einstein, Heisenberg. E Paul Celan e Bela Bartok. Etcetera. Todos eles s\u00e3o \u201cautores sagrados\u201d. Can\u00f4nicos. A F\u00edsica Qu\u00e2ntica n\u00e3o \u00e9 um monumento menos inspirado do que a B\u00edblia. Nem menos amb\u00edgua, O cientista Arthur I. Miller escreve: &#8220;Tal como uma grande obra de literatura, a teoria qu\u00e2ntica est\u00e1 aberta a m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es\u201d.Em verdade, aqueles que op\u00f5em a ci\u00eancia aos textos sagrados ou ci\u00eancia \u00e0 arte, cometem um erro. Pondo de lado as respectivas fronteiras de autonomia, tudo forma uma parte da mesma luta prodigiosa. A busca do real que, em certo sentido, tamb\u00e9m \u00e9 a busca pelo absoluto. O absoluto que \u00e9 intu\u00eddo, embora permane\u00e7a inacess\u00edvel. Uma fus\u00e3o de campos, como foi vista na Renascen\u00e7a, certamente n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel; a montanha da especializa\u00e7\u00e3o se tornou alta demais. Entretanto, se pode exigir que os campos do conhecimentos se comuniquem entre si e sem solaparem entre si. Isto \u00e9, em ess\u00eancia, o que Edgar Morin chamou de \u201ctransdiciplinaridade\u201d, isso que, sem tentar criar um campo principal para todos os campos do conhecimento (o que seria, tamb\u00e9m, reducionismo), aspira a uma comunica\u00e7\u00e3o entre as disciplinas baseadas no pensamento complexo. N\u00e3o \u00e9 toda a f\u00edsica, nem toda a biologia, nem toda a sociologia, nem toda a antropologia; mas vale a pena conectar essas campos ciberneticamente.<br \/>\nEnciclopedismo? Em termos modernos, um sistema realiment\u00e1vel f\u00edsico \/ biol\u00f3gico \/ social \/ antropol\u00f3gico, encarregado de trazer as grandes quest\u00f5es sobre a condi\u00e7\u00e3o humana \u00e0 velocidade necess\u00e1ria, enquanto insiste na permeabilidade entre as ci\u00eancias, artes e letras se torna um emblema de nossos tempos.<br \/>\n[Publicado originalmente em <em>El Pais<\/em>, 18 de fevereiro de 2007]<\/div>\n<div class=\"blogger-post-footer\">http:\/\/chivononpo.blogspot.com\/atom.xml<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por um novo humanismo por Salvador P\u00e1niker (fil\u00f3sofo e escritor espannhol Em 1959, C. P. Snow proferiu sua famosa confer\u00eancia em Cambridge, intitulada \u201cAs duas culturas e a revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica&#8221;, lamentando o cisma acad\u00eamico e profissional entre os campos da ci\u00eancia e das letras. 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