{"id":79,"date":"2006-06-03T20:15:00","date_gmt":"2006-06-03T23:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/chivononpo\/2006\/06\/um-texto-de-carlos-castaneda\/"},"modified":"2006-06-03T20:15:00","modified_gmt":"2006-06-03T23:15:00","slug":"um-texto-de-carlos-castaneda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chivononpo\/2006\/06\/03\/um-texto-de-carlos-castaneda\/","title":{"rendered":"Um Texto de Carlos Casta\u00f1eda"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: arial\">Relendo o primeiro (e, dizem, o \u00fanico verdadeiro) livro de Carlos Casta\u00f1eda, &#8220;A Erva do Diabo&#8221;, eu me deparei com um trecho particularmente interessante. O livro j\u00e1 \u00e9 interessante por apresentar um estudante universit\u00e1rio, de origem sulamericana, tentando estudar o comportamento de um feiticeiro \u00edndio mexicano, enquanto o feiticeiro tenta transformar o universit\u00e1rio em um feiticeiro \u00edndio.<br \/>\nO trecho em quest\u00e3o, trata das dificuldades do aprendizado da magia. Mas, se transportarmos as id\u00e9ias para qualquer tipo de conhecimento, elas permanecem surpreendentemente v\u00e1lidas. Eu tomei o cuidado de omitir uma s\u00e9rie de passagens que nada acrescentam \u00e0 id\u00e9ia b\u00e1sica do texto (ou, dito de outra forma, eu tirei toda a baboseira com a qual o Casta\u00f1eda &#8220;enche lingui\u00e7a&#8221;).<br \/>\nL\u00e1 vai:<\/p>\n<blockquote><p>\u2013 &#8220;Quando um homem come\u00e7a a aprender, ele nunca sabe muito claramente quais s\u00e3o seus objetivos. Seu prop\u00f3sito \u00e9 falho; sua inten\u00e7\u00e3o, vaga. Espera recompensas que nunca se materializar\u00e3o, pois n\u00e3o conhece nada das dificuldades da aprendizagem.&#8221;<br \/>\n&#8220;Devagar, ele come\u00e7a a aprender&#8230; a princ\u00edpio, pouco a pouco, e depois em por\u00e7\u00f5es grandes. E logo seus pensamentos entram em choque. O que aprende nunca \u00e9 o que ele imaginava, de modo que come\u00e7a a ter medo. Aprender nunca \u00e9 o que se espera. Cada passo da aprendizagem \u00e9 uma nova tarefa, e o medo que o homem sente come\u00e7a a crescer impiedosamente, sem ceder. Seu prop\u00f3sito toma-se um campo de batalha.&#8221;<br \/>\n&#8220;E assim ele se depara com o primeiro de seus inimigos naturais: o medo! Um inimigo terr\u00edvel, trai\u00e7oeiro, e dif\u00edcil de vencer. Permanece oculto em todas as voltas do caminho, rondando, \u00e0 espreita. E se o homem, apavorado com sua presen\u00e7a, foge, seu inimigo ter\u00e1 posto um fim \u00e0 sua busca.&#8221;<br \/>\n(&#8230;)<br \/>\n\u2013 &#8220;E o que pode ele fazer para vencer o medo?&#8221;<br \/>\n\u2013 &#8220;A resposta \u00e9 muito simples. N\u00e3o deve fugir. Deve desafiar o medo, e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte na aprendizagem, e o seguinte, e o seguinte. Deve ter medo, plenamente, e no entanto n\u00e3o deve parar. \u00c9 esta a regra! E o momento chegar\u00e1 em que seu primeiro inimigo recua. O homem come\u00e7a a se sentir seguro de si. Seu prop\u00f3sito toma-se mais forte. Aprender n\u00e3o \u00e9 mais uma tarefa aterradora. Quando chega esse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimigo natural.&#8221;<br \/>\n(&#8230;)<br \/>\n\u2013 &#8220;Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque, em vez do medo, ele adquiriu a clareza&#8230; uma clareza de esp\u00edrito que apaga o medo. Ent\u00e3o, o homem j\u00e1 conhece seus desejos; sabe como satisfaz\u00ea-los. Pode antecipar os novos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada se lhe oculta.&#8221;<br \/>\n&#8220;E assim ele encontra seu segundo inimigo: a clareza! Essa clareza de esp\u00edrito, que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil de obter, elimina o medo, mas tamb\u00e9m cega.&#8221;<br \/>\n&#8220;Obriga o homem a nunca duvidar de si. D\u00e1-lhe a seguran\u00e7a de que ele pode fazer o que bem entender, pois ele v\u00ea tudo claramente. E ele \u00e9 corajoso porque \u00e9 claro; e n\u00e3o para diante de nada, porque \u00e9 claro. Mas tudo isso \u00e9 um engano; \u00e9 como uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder de faz-de-conta, ter\u00e1 sucumbido a seu segundo inimigo e tatear\u00e1 com a aprendizagem. Vai precipitar-se quando devia ser paciente, ou vai ser paciente quando devia precipitar-se. E tatear\u00e1 com a aprendizagem at\u00e9 acabar incapaz de aprender qualquer coisa mais.&#8221;<br \/>\n(&#8230;)<br \/>\n\u2013 &#8220;Mas o que tem de fazer para n\u00e3o ser vencido?&#8221;<br \/>\n\u2013 &#8220;Tem de fazer o que fez com o medo: tem de desafiar sua clareza e us\u00e1-la s\u00f3 para ver, e esperar com paci\u00eancia e medir com cuidado antes de dar novos passos; deve pensar, acima de tudo, que sua clareza \u00e9 quase um erro. E vir\u00e1 um momento em que ele compreender\u00e1 que sua clareza era apenas um ponto diante de sua vista. E assim ele ter\u00e1 vencido seu segundo inimigo, e estar\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o em que nada mais poder\u00e1 prejudic\u00e1-lo. Isso n\u00e3o ser\u00e1 um engano. N\u00e3o ser\u00e1 um ponto diante da vista. Ser\u00e1 o verdadeiro poder.&#8221;<br \/>\n&#8220;Ele saber\u00e1 a essa altura que o poder que vem buscando h\u00e1 tanto tempo \u00e9 seu, por fim. Pode fazer o que quiser com ele. Seu aliado est\u00e1 \u00e0s suas ordens. Seu desejo \u00e9 ordem. V\u00ea tudo o que est\u00e1 em volta. Mas tamb\u00e9m encontra seu terceiro inimigo: o poder!&#8221;<br \/>\n&#8220;O poder \u00e9 o mais forte de todos os inimigos. E, naturalmente, a coisa mais f\u00e1cil \u00e9 ceder; afinal de contas, o homem \u00e9 realmente invenc\u00edvel. Ele comanda; come\u00e7a correndo riscos calculados e termina estabelecendo regras, porque \u00e9 um senhor.&#8221;<br \/>\n&#8220;Um homem nesse est\u00e1gio quase nem nota que seu terceiro inimigo se aproxima. E de repente, sem saber, certamente ter\u00e1 perdido a batalha. Seu inimigo o ter\u00e1 transformado num homem cruel e caprichoso.&#8221;<br \/>\n(&#8230;)<br \/>\n\u2013 &#8220;E como o homem pode vencer seu terceiro inimigo, Dom Juan?&#8221;<br \/>\n\u2013 &#8220;Tamb\u00e9m tem de desafi\u00e1-lo, propositadamente. Tem de vir a compreender que o poder que parece ter adquirido na verdade nunca \u00e9 seu. Deve controlar-se em todas as ocasi\u00f5es, tratando com cuidado e lealdade tudo o que aprendeu. Se conseguir ver que a clareza e o poder, sem controle, s\u00e3o piores do que os erros, ele chegar\u00e1 a um ponto em que tudo est\u00e1 controlado. Ent\u00e3o, saber\u00e1 quando e como usar seu poder. E assim ter\u00e1 derrotado seu terceiro inimigo.&#8221;<br \/>\n&#8220;O homem estar\u00e1, ent\u00e3o, no fim de sua jornada do saber, e quase sem perceber encontrar\u00e1 seu \u00faltimo inimigo: a velhice! Este inimigo \u00e9 o mais cruel de todos, o \u00fanico que ele n\u00e3o conseguir\u00e1 derrotar completamente, mas apenas afastar.&#8221;<br \/>\n&#8220;\u00c9 o momento em que o homem n\u00e3o tem mais receios, n\u00e3o tem mais impaci\u00eancias de clareza de esp\u00edrito&#8230; um momento em que todo o seu poder est\u00e1 controlado, mas tamb\u00e9m o momento em que ele sente um desejo irresist\u00edvel de descansar. Se ele ceder completamente a seu desejo de se deitar e esquecer, se ele se afundar na fadiga, ter\u00e1 perdido a \u00faltima batalha, e seu inimigo o reduzir\u00e1 a uma criatura velha e d\u00e9bil. Seu desejo de se retirar dominar\u00e1 toda a sua clareza, seu poder e sabedoria.&#8221;<br \/>\n&#8220;Mas se o homem sacode sua fadiga e vive seu destino completamente, ent\u00e3o poder\u00e1 ser chamado de um homem de conhecimento, nem que seja no breve momento em que ele consegue lutar contra o seu \u00faltimo inimigo invenc\u00edvel. Esse momento de clareza, poder e conhecimento \u00e9 o suficiente.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p><\/span><\/div>\n<div class=\"blogger-post-footer\">http:\/\/chivononpo.blogspot.com\/atom.xml<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relendo o primeiro (e, dizem, o \u00fanico verdadeiro) livro de Carlos Casta\u00f1eda, &#8220;A Erva do Diabo&#8221;, eu me deparei com um trecho particularmente interessante. 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