Se a outra gosta…bonito lhe parece!

O provérbio não é este mas foi a adaptação que me ocorreu para os comportamentos sexuais seguintes.
Investigadores escoceses do Instituto de Investigação Facial reconhecem como motivação feminina na escolha de rostos masculinos a “aprovação” das suas correligionárias
O estudo envolveu a avaliação do “sex-appeal” de homens jovens (fotografias), em pose neutra e parecidos entre si – os mais atraentes recebiam melhor pontuação; os menos atraentes…
Um verdadeiro festival, não da canção, mas da beleza masculina.
Em seguida as participantes neste estudo viram um vídeo em que ao lado da imagem do homem, desta vez, estava uma de mulher -a sorrir, em pose neutra ou com cara de “poucas-amigas”.
O processo de avaliação voltou à primeira fase tendo os investigadores concluído que as mulheres pontuavam melhor os homens que estivessem ao lado de mulheres sorridentes.
Gerava-se um efeito de cobiça por empatia – “se ela sorri, é porque deve ser bonito”.
Para os psicólogos que conduziram o estudo, o processo de transmissão social das preferências (imitação) da atractividade facial é interessante porque se pensava, habitualmente, que estas escolhas eram um processo individual.
Afinal parece que as escolhas, neste caso afectivas, e que assumíamos como intrínsecas à nossa individualidade são condicionadas igualmente pelos nossos pares.

Mas as mulheres que não se preocupem; este comportamento de cobiça não é único da espécie humana, existindo diversos casos no mundo animal -a codorniz do Japão (Coturnix japonica), o galo-lira (Tetrao tetrix), entre muito outros exemplos.
As fêmeas de gamo (Dama dama) são animadas pelas escolhas das suas “irmãs”, verificando-se, experimentalmente, que preferem haréns a machos solitários. Ainda por explicar está o facto de não evidenciarem preferência entre haréns de tamanho semelhante.

Mas quais as vantagens para uma fêmea copiar a escolha de outra fêmea?
Para espécies nas quais os machos não contribuem no desenvolvimento das crias a imitação na escolha de parceiro pode ser vantajosa pois a imitação poupa “tempo e trabalho” na escolha dos machos mais bonitos. Essa propagação comportamental ajuda em situações em que a selecção de um parceiro deva ser feita de forma rápida – condições de aridez ou falta de alimento. Estas condições extremas conduzem ao carácter esporádico do acasalamento tendo o comportamento de imitação na escolha de parceiro um importante papel evolutivo.
Em espécies em que o macho ajuda a fêmea na alimentação das crias as vantagens da imitação da escolha de parceiro não são tão evidentes e claras, pois, por exemplo, a fêmea corre o risco do macho que escolheu dividir as tarefas com…outra fêmea.

Comportamentos de imitação deste tipo levantam especulações evolutivas pois surge a possibilidade de uma real transmissão cultural, neste caso na escolha de parceiros.
Abre-se, assim, caminho à especulação teórica de que a evolução e a propagação das características dessas espécies não se faz meramente a nível genético mas pode estar condicionada por mecanismo cultural ligado à selecção do parceiro.
Esta transmissão social afectaria a frequência dos genes individuais que estariam representados nas gerações futuras contribuindo, desta forma, para um caminho evolutivo diferente.

Voltando à experiência da selecção de homens bonitos, curiosamente, a atitude masculina é oposta à das mulheres.
Homens (fotos) acompanhados de sorrisos femininos foram os que receberam menor pontuação por parte dos seus camaradas.
Ou seja, os homens pontuaram melhor os seus pares que não tinham recebido sorrisos das participantes da experiência.
Nada como a competição masculina para baralhar os critérios estéticos, infere-se dos resultados. É a questão de ir a um bar com amigo muito bonito – corremos o risco de as mulheres não olharem para nós.
Com base nestes resultados há que ir bares com amigos feios…
A nós, homens, resta-nos fazer marketing – comecemos por uma amiga (que nos sorria muito, de preferência) para ver se desperta a cobiça feminina.
Ou talvez não…

Artigos científicos consultados
“Social transmission of face preferences among humans.” Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 16 Jan 2007, Page FirstCite, DOI 10.1098/rspb.2006.0205
“Evidence of social effects on mate choice in vertebrates.” Behavioural Processes 51 (2000) 167-175

Pintura – “Parnassus or Apollo and the Muses” de Simon VOUET (1640)
(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 01/2/2007)

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