Boiar

Toda a vida apenas boiou.
Saiu do grupo iniciático com as ferramentas básicas que permitiriam deslocar-se em ambiente aquático. Ondear ao sabor da corrente seria a mais básica das suas competências. Tinha tantas esperanças. Iria mostrar aos seus pares como se nadava. Melhor. Como ninguém tinha nadado até aí.
Os anos foram passando. Na realidade a sua capacidade de boiar era notável. Excelente mesmo. Desculpava-se afirmando que sem ser capaz de boiar nunca atingiria a excelência na natação. E era para isso que o seu destino estava marcado. As águas foram mudando e sempre foi capaz de se manter à tona. Boiava. As contingências afundavam-na. Mas ela sobrevivia. Boiava. Via à sua volta e até mais distante, outros que não o mereciam mas que, na verdade, nadavam.
Eles vão ver. Tenho perdido tempo porque sem boiar nunca conseguirei os desígnios da natação para que nasci, dizia.
E via-os afastar. Alguns, em momentos de maior ondulação tentavam fugir à intempérie mas eram afundados porque não se afastavam a tempo da excelência da sua flutuação. Em momentos de crise boiar é indispensável, nem que os outros se afundem à minha volta, justificava. E hei-de nadar, após esta tempestade, cogitava.
Apenas boiava.
Avistava nadar de costas. De bruços. Mariposa, até. Hei-de ser melhor do que eles, porque mereço, remoía. Alguns tentavam levá-la no rasto da sua natação mas quais tubarões, incapazes de sobreviverem sem nadar, acabavam por se afundar, impelidos pela excelência do seu boiar. Tinha-se tornado mestre no boiar. Nada a afundaria.
Pouco a pouco o inicial anseio de se movimentar para outras águas abalou. Tenho que me ir mantendo à tona. Boiar. Porque sem boiar nunca conseguirei nadar como quero, mentia-se. E boiava.
Os anos foram passando. Apenas boiava. Dizia que nadar já não era tão importante. Que boiar era indispensável. Que assim nunca se afundaria. Como tinha ocorrido a outros que circularam nas suas águas.
Que ridículos lhe pareciam agora. A nadarem!
O mais afortunados tinham-se afastado, nadando.
Os desastrados que mergulhavam devido à energia da água, não tinham voltado à tona. Porque não eram boiadores como ela. Como se aprazia que aqueles nadadores se afundassem. Era mestre no boiar e vinham agora aqueles nadadores para as suas águas. Tinha perdido tanto para dominar as técnicas que lhe abriam o caminho para a superfície. Queriam nadar? Então que pagassem o preço! Nunca se iria afundar porque apenas boiava e era excelente.
Boiava.
Para quê nadar?
E via-os passar, mais ou menos distantes. A nadar.
O importante é boiar, resmungava.
Boiar, apenas.

Discussão - 4 comentários

  1. Carlos Hotta disse:

    Pior são os que boiam e proibem os outros de nadar.

  2. Vasco Pontes disse:

    Texto bom, bem escrito. Não posso, também, concordar mais com a mensagem.

  3. Caro Carlos Hotta,Não pode ter mais razão. Foi por esses mesmos que escrevi o que escrevi.AbraçoLuís Azevedo Rodrigues

  4. Caro Vasco Pontes,Obrigado pelo comentário.E vindo de quem vem mais agradado fico.Só queria não o ter escrito como resposta concreta a boiadores próximos mas antes apenas como ideia.AbraçoLuís Azevedo Rodrigues

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