Escuva terras, ou o drama de se chamar toupeira

toupeira1.jpgNa terra do meu pai havia vários montes que sempre me intrigaram. Quando digo na terra, é mesmo na terra, essa que se lavra e suja os pés.
A outra, o sítio onde se cresce ou apenas se nasce, não importa para a história, apenas que era vizinha da de Aquilino.
Os montes de terra apareciam sem eu perceber como nem porquê. Surgiam nos lameiros, terrenos junto a cursos água, bons para erva fresca e sestas olhando vacas pastar.
Nos lameiros, aqui e ali, o verde era manchado de castanho, quais pintas em cara sardenta. O caos de cores alterava-me a ordem que tentava pôr em tudo: o lameiro era verde, ladeado pelo ribeiro, escuro pela sombra das árvores que aí se encostavam e, do outro lado, um outro verde, rasteiro, de um batatal.
E depois os montes castanhos.
Essas construções desordenadas, pequenos altos de terra, moeram-me o juízo durante os verões que passava nas Terras do Demo.
Um dos dias de Agosto, em brincadeiras com o Luciano, perguntei-lhe que raio era aquilo feito de terra, no meio dos lameiros.
“Escuva terras”, largou-me ele, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
“Ah…que era terra já eu sabia…”, avancei, tentando ver se o outro se explicava melhor.
“São uns ratos danados, esses bichos. Sempre a fuçar, a fuçar na terra. Depois dá nisto.”
“A maneira de dar cabo deles é cortar um bocado de plástico, enterrá-lo nesses montes com o gargalo para cima que o assobio do vento na garrafa dá logo cabo deles!”.
Toma e embrulha, faltou-lhe dizer.
Toupeiras.
E não deviam gostar que lhes assobiassem nas varandas, pensei eu.
Esta história foi assim mesmo, na sua maioria, e já lá vão mais de 30 anos.
Não tenho a certeza se seriam toupeiras europeias (Talpa europaea) as escuva terras que partilhavam o lameiro do meu pai, mas é bem provável.
toupeira.jpg
As toupeiras são mamíferos que pertencem à ordem Talpidae sendo mais facilmente observáveis as suas construções do que elas próprias. Vivem a maioria da sua vida debaixo do solo, escavando e construindo túneis de forma solitária, e defendendo agressivamente o seu território à excepção da época de acasalamento. Nessa altura, os machos tentam literalmente interceptar os túneis construídos pelas fêmeas, iniciando-se então o acasalamento.
As patas anteriores, com grandes garras, permitem-lhes o seu modo de vida subterrâneo, alimentando-se sobretudo de insectos ou minhocas, o seu manjar predilecto.
A anatomia especial deste animal, nomeadamente a capacidade de articulação do úmero e o grande desenvolvimento muscular nesta zona, associado às enormes garras e um osso semelhante a um polegar, colocam este animal entre os grandes construtores zoológicos. A maioria da força das patas anteriores é exercida a partir do antebraço, rádio e cúbito, sendo também necessária a colaboração das patas posteriores para empurrarem a terra que vai sendo escavada.
As construções das toupeiras garantem-lhes alguma inimizade por parte dos agricultores que se esquecem que os túneis construídos pelas toupeiras aumentam não só o arejamento dos terrenos, como contribuem para uma melhor fertilização dos mesmos.
A capacidade física destes animais é extraordinária, tendo sido observado uma toupeira, com cerca de 80 gramas, construir quatro montes de terra com cerca de 15 quilos em apenas 90 minutos. Se fizéssemos a comparação para a nossa espécie, seria o equivalente a um ser humano de 70 quilos escavar 10000 quilos numa hora.
Não consigo deixar de imaginar estas bichezas a trabalharem para o Metro de Lisboa…
Imagens:
ARKive – http://www.arkive.org
Hall, B. K. (ed). 2007. Fins into Limbs: Evolution, Development, and Transformation. Chicago: University of Chicago Press, 433 pp.

Vídeo – ARKive

Discussão - 2 comentários

  1. Clarissa disse:

    Ah, que leitura interessante!

  2. Vamos proteger as toupeiras que são animais fascinantes,e muito úteis `natureza.

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