{"id":1094,"date":"2010-03-03T20:38:27","date_gmt":"2010-03-03T23:38:27","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cienciaaonatural\/2010\/03\/o_chapeleiro_louco_e_as_aves_d\/"},"modified":"2021-03-04T05:19:04","modified_gmt":"2021-03-04T08:19:04","slug":"o_chapeleiro_louco_e_as_aves_d","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/2010\/03\/03\/o_chapeleiro_louco_e_as_aves_d\/","title":{"rendered":"O Chapeleiro Louco e as Aves Desafinadas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cienciaaonatural\/assets_c\/2010\/03\/P04043_9-42012.php\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/wp-content\/uploads\/sites\/230\/2011\/08\/P04043_9-thumb-300x403-420121.jpg\" alt=\"P04043_9.jpg\" width=\"300\" height=\"403\" \/><\/a><em> &#8211; Naquela direc\u00e7\u00e3o &#8211; disse o Gato, levantando a pata direita &#8211; vive um Chapeleiro, e naquela, agitando a outra pata, mora uma Lebre de Mar\u00e7o. Visita o que quiseres, ambos s\u00e3o loucos.<br \/>&#8211; Mas eu n\u00e3o quero estar ao p\u00e9 de gente louca &#8211; respondeu Alice.<br \/>&#8211; Oh, n\u00e3o podes evit\u00e1-lo &#8211; disse o Gato. &#8211; Aqui todos s\u00e3o loucos. Eu sou louco. Tu \u00e9s louca.<\/em><\/p>\n<p><strong>Que t\u00eam em comum o Chapeleiro Louco e o canto das aves?<\/strong><br \/>A resposta tortuosa pode ser&#8230;o merc\u00fario.<br \/>N\u00e3o Merc\u00fario, o deus dos comerciantes, da eloqu\u00eancia e dos ladr\u00f5es, mas antes o elemento qu\u00edmico.<br \/>Vamos ver se consigo resumir.<br \/>H\u00e1 centenas de anos que tecidos de origem animal s\u00e3o utilizados na manufactura de chap\u00e9us. No s\u00e9culo XIX, a pele mais apetec\u00edvel para o fabrico de chap\u00e9us era a do castor, mas a ca\u00e7a a este animal implicou a sua escassez, o que levou \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de peles de coelho.<br \/>As peles necessitam de um amaciamento pr\u00e9vio, sendo utilizados produtos qu\u00edmicos, normalmente compostos de merc\u00fario, como o nitrato de merc\u00fario (2; p.52).<br \/>N\u00e3o irei descrever os processos da manufactura de chap\u00e9us, apenas refiro que o car\u00e1cter rudimentar da tecnologia qu\u00edmica e das normas de seguran\u00e7a laboral envolvidas, colocava os chapeleiros em s\u00e9rios riscos de contamina\u00e7\u00e3o por merc\u00fario, originando o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Intoxica%C3%A7%C3%A3o_por_merc%C3%BArio\">hidrargirismo <\/a>(nome da contamina\u00e7\u00e3o).<br \/><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cienciaaonatural\/assets_c\/2010\/03\/309goya-42009.php\"><img decoding=\"async\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/wp-content\/uploads\/sites\/230\/2011\/08\/309goya-thumb-300x408-42009.jpg\" alt=\"309goya.jpg\" width=\"300\" height=\"408\" \/><\/a>Tremores f\u00edsicos caracter\u00edsticos, bem como v\u00e1rias patologias neurol\u00f3gicas designadas colectivamente de eretismo, s\u00e3o algumas das altera\u00e7\u00f5es provocadas pela intoxica\u00e7\u00e3o cr\u00f3nica por merc\u00fario. Timidez e irritabilidade extremas, alucina\u00e7\u00f5es e incapacidade de pensar correctamente, s\u00e3o tamb\u00e9m comportamentos t\u00edpicos destas intoxica\u00e7\u00f5es.<br \/>Este quadro cl\u00ednico, muito comum no s\u00e9culo passado entre os chapeleiros, contribuiu para a g\u00e9nese da express\u00e3o &#8220;Mad as a hatter&#8221; (louco como um chapeleiro).<br \/><strong>As altera\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas por merc\u00fario poder\u00e3o igualmente ter despertado o esp\u00edrito criativo de <a href=\"http:\/\/www.educ.fc.ul.pt\/docentes\/opombo\/seminario\/alice\/lewis_carroll.htm\">Lewis Carroll<\/a> na cria\u00e7\u00e3o da personagem do Chapeleiro Louco, presente no intemporal &#8220;Alice No Pa\u00eds das Maravilhas&#8221; (3).<\/strong><br \/><strong>A literatura, desta vez, n\u00e3o parece ter sido maior que a Vida, antes se tendo inspirado num quotidiano t\u00e3o pouco po\u00e9tico.<\/strong><\/p>\n<p><em>O Chapeleiro foi o primeiro a quebrar o sil\u00eancio.<br \/>&#8211; Em que dia do m\u00eas estamos? &#8211; perguntou, voltando-se para Alice.<br \/>Tirara o rel\u00f3gio e olhava-o, inquieto, abanando-o de vez em quando e levando-o ao ouvido.<br \/>Alice pensou e depois respondeu:<br \/>&#8211; A quatro.<br \/>&#8211; Dois dias atrasado! &#8211; disse o Chapeleiro com um suspiro.<br \/>&#8211; Bem te disse que a manteiga n\u00e3o lhe faria bem! &#8211; acrescentou, lan\u00e7ando \u00e0 Lebre de Mar\u00e7o um olhar furibundo.<br \/>&#8211; Mas era manteiga da melhor qualidade! &#8211; respondeu a Lebre de Mar\u00e7o com brandura.<br \/>&#8211; Sim, mas tamb\u00e9m devem ter entrado migalhas de p\u00e3o l\u00e1 para dentro &#8211; resmungou o Chapeleiro. &#8211; N\u00e3o devias ter usado a faca do p\u00e3o.<br \/><\/em><\/p>\n<p><strong>Aves Desafinadas<\/strong><br \/><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-2670 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/wp-content\/uploads\/sites\/230\/2010\/03\/Carolina_Wren_7318066894-300x214.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"228\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/wp-content\/uploads\/sites\/230\/2010\/03\/Carolina_Wren_7318066894-300x214.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/wp-content\/uploads\/sites\/230\/2010\/03\/Carolina_Wren_7318066894-1024x731.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/wp-content\/uploads\/sites\/230\/2010\/03\/Carolina_Wren_7318066894-768x548.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/wp-content\/uploads\/sites\/230\/2010\/03\/Carolina_Wren_7318066894-620x443.jpg 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/wp-content\/uploads\/sites\/230\/2010\/03\/Carolina_Wren_7318066894-200x143.jpg 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/wp-content\/uploads\/sites\/230\/2010\/03\/Carolina_Wren_7318066894.jpg 1516w\" sizes=\"(max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/>As contamina\u00e7\u00f5es ambientais podem influenciar directa ou indirectamente muitas fun\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas dos seres vivos. Entre as consequ\u00eancias temos, por exemplo, altera\u00e7\u00f5es dos ciclos reprodutivos, desenvolvimento de tumores ou at\u00e9 o canto de algumas aves.<br \/>Investigadores americanos avaliaram o chilrear de tr\u00eas esp\u00e9cies de aves, a carri\u00e7a da Carolina (<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Carolina_wren\"><em>Thryothorus ludovicianus<\/em><\/a>), da curru\u00edra (<em>Troglodytes aedon<\/em>) e do pardal-cantor (<em>Melospiza melodia<\/em>), numa \u00e1rea contaminada por merc\u00fario &#8211; South River, na Virg\u00ednia.<\/p>\n<p>Esta \u00e1rea industrial foi contaminada durante mais de 30 anos, sendo os n\u00edveis de merc\u00fario no sangue e nas penas das aves desta regi\u00e3o muito superiores ao das aves de \u00e1reas circundantes.<br \/>Este grupo de p\u00e1ssaros adquire as suas capacidades sonoras de &#8220;ouvido&#8221;, ou seja por interm\u00e9dio da audi\u00e7\u00e3o de outras aves. Este facto exclui que diferentes performances sonoras possam ser de origem gen\u00e9tica, sendo antes um reflexo de aprendizagens distintas. Desta forma, podem ser avaliadas as implica\u00e7\u00f5es ambientais nas altera\u00e7\u00f5es dos trinados das aves.<br \/>Apesar dos resultados estarem condicionados pela diminuta amostra (veja-se, por exemplo a recta de regress\u00e3o), este trabalho indicia que as aves em terrenos contaminados por merc\u00fario apresentam uma menor diversidade de sons emitidos do que as mesmas aves de terrenos n\u00e3o-contaminados.<br \/>O merc\u00fario parece ter assim um papel uniformizante de uma caracter\u00edstica que tanto apreciamos nas aves: o canto.<br \/><strong>Mas porqu\u00ea? Estariam estes p\u00e1ssaros a enlouquecer, como os chapeleiros do s\u00e9culo XIX?<\/strong><br \/><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cienciaaonatural\/assets_c\/2010\/03\/regress\u00e3o-42001.php\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/wp-content\/uploads\/sites\/230\/2011\/08\/regress\u00e3o-thumb-250x249-42001.jpg\" alt=\"regress\u00e3o.jpg\" width=\"250\" height=\"249\" \/><\/a>Os resultados apoiam outros autores que j\u00e1 anteriormente haviam demonstrado que aves vivendo pr\u00f3ximo de siderurgias apresentavam transtornos semelhantes, isto \u00e9, os seus cantos eram menos diversificados do que aves vivendo em \u00e1reas n\u00e3o-contaminadas.<br \/>Poderemos pensar que se viv\u00eassemos perto de uma siderurgia tamb\u00e9m ter\u00edamos pouca vontade de cantar&#8230;.\u00e9 verdade.<br \/>Mas o <em>click <\/em>para este problema musical est\u00e1 no facto de que as contamina\u00e7\u00f5es por metais, como por exemplo o merc\u00fario, alteram a capacidade auditiva das aves juvenis, impedindo-as de escutar na plenitude as &#8220;li\u00e7\u00f5es&#8221; musicais do seus pais.<br \/>Dito de outra forma: a cantoria das aves de South River tornou-se minimalista, menos diversificada, tanto no n\u00edvel de intensidade, como na variedade de tons emitidos, devido \u00e0s aves juvenis ouvirem mal os seus pais &#8211; os pais de adolescentes sabem do que estou a falar&#8230;<br \/><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><br \/><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span><br \/><strong>1 <\/strong>&#8211; <span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=The+Auk&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1525%2Fauk.2009.09058&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Birdsong+Differs+between+Mercury-polluted+and+Reference+Sites&amp;rft.issn=0004-8038&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=127&amp;rft.issue=1&amp;rft.spage=156&amp;rft.epage=161&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fcaliber.ucpress.net%2Fdoi%2Fabs%2F10.1525%2Fauk.2009.09058&amp;rft.au=Hallinger%2C+K.&amp;rft.au=Zabransky%2C+D.&amp;rft.au=Kazmer%2C+K.&amp;rft.au=Cristol%2C+D.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEvolutionary+Biology%2C+Zoology%2C+Anatomy\">Hallinger, K., Zabransky, D., Kazmer, K., &amp; Cristol, D. (2010). Birdsong Differs between Mercury-polluted and Reference Sites <span style=\"font-style: italic\">The Auk, 127<\/span> (1), 156-161 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1525\/auk.2009.09058\" rev=\"review\">10.1525\/auk.2009.09058<\/a><\/span><br \/><strong>2<\/strong> &#8211; <span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Angewandte+Chemie+International+Edition&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1002%2Fanie.200585343&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=The+Elements+of+Murder.+A+History+of+Poison.+Von+John+Emsley.&amp;rft.issn=1433-7851&amp;rft.date=2005&amp;rft.volume=44&amp;rft.issue=45&amp;rft.spage=7332&amp;rft.epage=7332&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fdoi.wiley.com%2F10.1002%2Fanie.200585343&amp;rft.au=Jacob%2C+V.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEvolutionary+Biology%2C+Zoology%2C+Anatomy\">Jacob, V. (2005). The Elements of Murder. A History of Poison. Von John Emsley. <span style=\"font-style: italic\">Angewandte Chemie International Edition, 44<\/span> (45), 7332-7332 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1002\/anie.200585343\" rev=\"review\">10.1002\/anie.200585343<\/a><\/span><br \/><strong>3<\/strong> &#8211; <span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=British+medical+journal+%28Clinical+research+ed.%29&amp;rft_id=info%3Apmid%2F6418283&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Did+the+Mad+Hatter+have+mercury+poisoning%3F&amp;rft.issn=0267-0623&amp;rft.date=1983&amp;rft.volume=287&amp;rft.issue=6409&amp;rft.spage=1961&amp;rft.epage=&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Waldron+HA&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEvolutionary+Biology%2C+Zoology%2C+Anatomy\">Waldron HA (1983). Did the Mad Hatter have mercury poisoning? <span style=\"font-style: italic\">British medical journal (Clinical research ed.), 287<\/span> (6409) PMID: <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/6418283\" rev=\"review\">6418283<\/a><\/span><br \/><strong>4<\/strong> &#8211; excertos de &#8220;Alice no Pa\u00eds das Maravilhas&#8221;<br \/><strong>Imagens:<\/strong><br \/><a href=\"http:\/\/www.tate.org.uk\/servlet\/ViewWork?cgroupid=999999961&amp;workid=1016&amp;searchid=9926&amp;tabview=image\">Peter Blake `For instance now, now there&#8217;s the King&#8217;s messenger&#8217; , 1970<\/a><br \/>Francisco de Goya Y Lucientes, The Yard of a Madhouse, 1794 &#8211; <a href=\"http:\/\/www.franciscodegoya.net\/The-Yard-Of-A-Madhouse.html\">daqui<\/a><br \/><em>Thryothorus ludovicianus<\/em>: <a href=\"http:\/\/www.fatbirder.com\/links_geo\/america_united_states\/south_carolina.html\">daqui<\/a><br \/>Gr\u00e1fico &#8211; de 1.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; Naquela direc\u00e7\u00e3o &#8211; disse o Gato, levantando a pata direita &#8211; vive um Chapeleiro, e naquela, agitando a outra pata, mora uma Lebre de Mar\u00e7o. 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