{"id":1183,"date":"2010-11-19T12:52:38","date_gmt":"2010-11-19T15:52:38","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cienciaaonatural\/2010\/11\/escuva_terras_ou_o_drama_de_se\/"},"modified":"2010-11-19T12:52:38","modified_gmt":"2010-11-19T15:52:38","slug":"escuva_terras_ou_o_drama_de_se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/2010\/11\/19\/escuva_terras_ou_o_drama_de_se\/","title":{"rendered":"Escuva terras, ou o drama de se chamar toupeira"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cienciaaonatural\/assets_c\/2010\/11\/toupeira1-58222.php\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/wp-content\/uploads\/sites\/230\/2011\/08\/toupeira1-thumb-350x396-582221.jpg\" width=\"300\" height=\"366\" alt=\"toupeira1.jpg\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" \/><\/a>Na terra do meu pai havia v\u00e1rios montes que sempre me intrigaram. Quando digo na terra, \u00e9 mesmo na terra, essa que se lavra e suja os p\u00e9s.<br \/>\nA outra, o s\u00edtio onde se cresce ou apenas se nasce, n\u00e3o importa para a hist\u00f3ria, apenas que era vizinha da de Aquilino.<br \/>\nOs montes de terra apareciam sem eu perceber como nem porqu\u00ea. Surgiam nos lameiros, terrenos junto a cursos \u00e1gua, bons para erva fresca e sestas olhando vacas pastar.<br \/>\nNos lameiros, aqui e ali, o verde era manchado de castanho, quais pintas em cara sardenta. O caos de cores alterava-me a ordem que tentava p\u00f4r em tudo: o lameiro era verde, ladeado pelo ribeiro, escuro pela sombra das \u00e1rvores que a\u00ed se encostavam e, do outro lado, um outro verde, rasteiro, de um batatal.<br \/>\nE depois os montes castanhos.<br \/>\nEssas constru\u00e7\u00f5es desordenadas, pequenos altos de terra, moeram-me o ju\u00edzo durante os ver\u00f5es que passava nas<a href=\"http:\/\/gamvis.blogspot.com\/2005\/02\/terras-do-demo-e-o-juiz-de-barrelas.html\"> Terras do Demo<\/a>.<br \/>\nUm dos dias de Agosto, em brincadeiras com o Luciano, perguntei-lhe que raio era aquilo feito de terra, no meio dos lameiros.<br \/>\n&#8220;Escuva terras&#8221;, largou-me ele, como se fosse a coisa mais natural do mundo.<br \/>\n&#8220;Ah&#8230;que era terra j\u00e1 eu sabia&#8230;&#8221;, avancei, tentando ver se o outro se explicava melhor.<br \/>\n&#8220;S\u00e3o uns ratos danados, esses bichos. Sempre a fu\u00e7ar, a fu\u00e7ar na terra. Depois d\u00e1 nisto.&#8221;<br \/>\n&#8220;A maneira de dar cabo deles \u00e9 cortar um bocado de pl\u00e1stico, enterr\u00e1-lo nesses montes com o gargalo para cima que o assobio do vento na garrafa d\u00e1 logo cabo deles!&#8221;.<br \/>\nToma e embrulha, faltou-lhe dizer.<br \/>\nToupeiras.<br \/>\nE n\u00e3o deviam gostar que lhes assobiassem nas varandas, pensei eu.<br \/>\nEsta hist\u00f3ria foi assim mesmo, na sua maioria, e j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o mais de 30 anos.<br \/>\nN\u00e3o tenho a certeza se seriam toupeiras europeias (<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/European_Mole\"><em><em>Talpa europaea<\/em><\/em><\/a>) as escuva terras que partilhavam o lameiro do meu pai, mas \u00e9 bem prov\u00e1vel.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cienciaaonatural\/assets_c\/2010\/11\/toupeira-58225.php\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaaonatural\/wp-content\/uploads\/sites\/230\/2011\/08\/toupeira-thumb-300x430-58225.jpg\" width=\"300\" height=\"430\" alt=\"toupeira.jpg\" class=\"mt-image-left\" style=\"float: left;margin: 0 20px 20px 0\" \/><\/a><br \/>\nAs toupeiras s\u00e3o mam\u00edferos que pertencem \u00e0 ordem <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Talpidae\">Talpidae <\/a>sendo mais facilmente observ\u00e1veis as suas constru\u00e7\u00f5es do que elas pr\u00f3prias. Vivem a maioria da sua vida debaixo do solo, escavando e construindo t\u00faneis de forma solit\u00e1ria, e defendendo agressivamente o seu territ\u00f3rio \u00e0 excep\u00e7\u00e3o da \u00e9poca de acasalamento. Nessa altura, os machos tentam literalmente interceptar os t\u00faneis constru\u00eddos pelas f\u00eameas, iniciando-se ent\u00e3o o acasalamento.<br \/>\nAs patas anteriores, com grandes garras, permitem-lhes o seu modo de vida subterr\u00e2neo, alimentando-se sobretudo de insectos ou minhocas, o seu manjar predilecto.<br \/>\nA anatomia especial deste animal, nomeadamente a capacidade de articula\u00e7\u00e3o do \u00famero e o grande desenvolvimento muscular nesta zona, associado \u00e0s enormes garras e um osso semelhante a um polegar, colocam este animal entre os grandes construtores zool\u00f3gicos. A maioria da for\u00e7a das patas anteriores \u00e9 exercida a partir do antebra\u00e7o, r\u00e1dio e c\u00fabito, sendo tamb\u00e9m necess\u00e1ria a colabora\u00e7\u00e3o das patas posteriores para empurrarem a terra que vai sendo escavada.<br \/>\nAs constru\u00e7\u00f5es das toupeiras garantem-lhes alguma inimizade por parte dos agricultores que se esquecem que os t\u00faneis constru\u00eddos pelas toupeiras aumentam n\u00e3o s\u00f3 o arejamento dos terrenos, como contribuem para uma melhor fertiliza\u00e7\u00e3o dos mesmos.<br \/>\nA capacidade f\u00edsica destes animais \u00e9 extraordin\u00e1ria, tendo sido observado uma toupeira, com cerca de 80 gramas, construir quatro montes de terra com cerca de 15 quilos em apenas 90 minutos. Se fiz\u00e9ssemos a compara\u00e7\u00e3o para a nossa esp\u00e9cie, seria o equivalente a um ser humano de 70 quilos escavar 10000 quilos numa hora.<br \/>\nN\u00e3o consigo deixar de imaginar estas bichezas a trabalharem para o Metro de Lisboa&#8230;<br \/>\nImagens:<br \/>\nARKive &#8211; http:\/\/www.arkive.org<br \/>\nHall, B. K. (ed). 2007. Fins into Limbs: Evolution, Development, and Transformation. Chicago: University of Chicago Press, 433 pp.<\/p>\n<p>V\u00eddeo &#8211; <a href=\"http:\/\/www.arkive.org\/mole\/talpa-europaea\/video-00.html\">ARKive<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na terra do meu pai havia v\u00e1rios montes que sempre me intrigaram. Quando digo na terra, \u00e9 mesmo na terra, essa que se lavra e suja os p\u00e9s. A outra, o s\u00edtio onde se cresce ou apenas se nasce, n\u00e3o importa para a hist\u00f3ria, apenas que era vizinha da de Aquilino. 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