Sobre “Terras indígenas vs. parques desabitados” (Marcelo Leite, Folha de S. Paulo, 27/01/2006)

Encontrei neste artigo de jornalismo científico (ver também em http://cienciaemdia.zip.net/) deficiências comuns a muitos outros textos de jornalismo científico: leveza no tratamento da informação e parcialidade na exploração do contraditório.

O título parece-me inadequado. A comparação feita é entre quatro tipos de áreas e não apenas entre “terras indígenas vs. parques desabitados” A mensagem que transmite é dicotómica, i.e. contrapondo proteção da floresta e das comunidades indígenas. Seguindo esta linha, o autor do artigo jornalístico deixa entender que segue os autores do artigo científico ao concluir que a primeira opção seria preferível à segunda.

Mas, e apesar da conclusão ser baseada em “provas numéricas”, “aparentemente” os parques protegem 8,2 vezes mais contra desmatamento do que as terras indígenas! As terras indígenas parecem proteger “quase 2 vezes mais” do que os parques contra pontos de fogo! Mas a relevância de medir os pontos de fogo teria de ser aqui subsidiária em relação ao desmatamento pois o fogo é causa do desmatamento que já foi medido, não podendo ser analisado estatisticamente de forma independente. Qual então a relevância para o desmatamento de 2 vezes mais pontos de fogo? A questão fica em suspenso, a mensagem passada ao leitor é que o fogo é igual a desmatamento, o que é rigorosamente uma inverdade. Só que o leitor comum não sabe disso.

É apresentada então a explicação para as terras indígenas apresentarem um grau de proteção menor contra desmatamento, que reside na maior pressão exercida sobre terras indígenas situadas perto de zonas urbanas ou de rodovías. Aqui, o artigo teve o efeito positivo de me fazer pensar sobre quão diferente é a cultura indígena dos indios da Amazónia da cultura, predominantemente ocidental, que invade seus territórios. Como defende o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, os povos indígenas da Amazónia consideram-se parte integrante do seu habitat natural, não adotando uma dicotomia homem/meio natural. Talvez aí resida a explicação para as terras indígenas apresentarem um bom grau de preservação da floresta. Porque razão havia o índio de se auto-destruir?

Na minha opinião, relevante para preservação da Amazónia, é antever qual o resultado do nosso desejo de não destruir uma civilização em perigo por oposição à nossa incapacidade de não interagir com ela, necessariamente interferindo e alterando a cultura indígena. É sabido que a história da humanidade é também a de fenómenos de invasão e colonização cultural, levados a cabo por povos de civilizações tecnologicamente superiores sobre outros de poder tecnológico inferior. É perfeitamente natural que queiramos impedir o desaparecimento da diversidade civilizacional humana que ainda resta nestes tempos globalizantes! Mas será isto possível, a partir do momento em que os povos indígenas contatam com a nossa civilização? São imprevisíveis os efeitos deste contato, mas temo que os índios não resistam às comodidades que a nossa civilização tem para oferecer (cuidados básicos de saúde, por exemplo), o que vai necessariamento modificar a forma como as populações indígenas se perspectivam em relação ao seu mundo. E aí, talvez não mais seja possível às populações indígenas fazerem parte da floresta, pelo que destruí-la um pouco se tornaria possível!

Qual será o grau de aculturação dos povos indígenas e os seus efeitos sobre a floresta, nas terras indígenas localizadas perto das rodovias e de áreas urbanas na Amazónia? Desconheço o assunto, mas parece-me relevante perguntar se tendem a existir terras indígenas mais perto de rodovias do que seria de esperar tendo em conta a distribuição geográfica de todas as terras de populações indígenas da Amazónia, e se existe entre si alguma relação de causalidade.

Por tudo isto que é incerto, me parece que uma conclusão mais equilibrada a ser divulgada seria que talvez as terras indígenas sejam excelentes zonas tampão entre áreas sem algum grau de proteção e zonas completamente desabitadas, pelo que a expansão dos dois tipos de áreas devia ser fomentada.

Comentei o texto do artigo acima referido, não tendo lido o artigo científico original, apenas porque suscitou algum debate em roda de amigos, tendo notado que a incongruência da informação nem sempre é notada pelo leitor, por falta de tempo e disponibilidade mental. Parece-me que tal facto responsabiliza ainda mais o jornalista como autor-tradutor de informação científica. Cumpriria ao jornalista ser mais crítico sobre o que lê, ouve, pensa e escreve. Quando tal não acontece, resta-me esperar, como leitor, que seja o acaso, a falta de tempo, a obrigatoriedade de síntese, e não alguma batalha ideológica desinteressada, a causa da falta de qualidade de alguma da informação científica que circula na imprensa.

O lixo nosso de cada dia

Quase todos os dias nos deparamos com informações e discussões sobre como a humanidade está acabando com este mundo onde vivemos. Quem é que não fica indignado com aqueles países que usam energia e poluem como ninguém, e cujos governos se recusam a tomar medidas de sustentabilidade? Ou com o desmatamento de nossas florestas, que estão virando imensos campos de soja ou simplesmente servem como doadoras involuntárias de árvores que virarão papel, móveis, palitos de dente etc. e tal?

Bom, tem muita gente que não gasta sua irritação com isso, afinal pra quê? Mas aposto que se declarariam revoltadas se alguém fosse perguntar. Parece que há duas opções. Uma é entrar para o Greenpeace ou coisa que o valha, deitar-se na frente dos tratores para impedir a derrubada das belas e centenárias árvores que abrigam em si uma fauna e flora insubstituíveis. Muito bonito, mas quanta gente está disposta a tal engajamento? Eu não, confesso. A outra opção é lamentar os acontecimentos e tocar em frente, afinal o que é que se pode fazer?

Até certo ponto é verdade. Mas é verdade também que no nosso dia-a-dia contribuímos para um imenso desperdício. São coisinhas que nem notamos porque são desimportantes, mas que vão contribuir para a poluição global, para expandir áreas de lixões, para a derrubada de árvores, quem sabe mais o quê. Proponho um exercício: por uma semana (ou pelo menos um dia), guarde tudo o que você jogaria no lixo porque não precisa. Vão ser copinhos de plástico, colherinhas descartáveis, sacolas diversas, folhetos de propaganda… As úteis não precisa guardar, só aquelas que a gente nem olha. Ou que usa só porque estão ali. Canudos, por exemplo (tá, é uma implicância minha, que acho infantilizante sugar o que a gente bebe): eles já vêm no copo, quem não tem minha mania acaba usando (inclusive para a caipirinha, e aí fica bêbado bem mais depressa, dizem). Mas e se estiver ali no balcão, para quem quiser? Aposto como só uma fração das pessoas usaria. Enfim, voltemos ao exercício. Ao fim da semana, o volume será imenso. Isto é uma semana numa vida, uma pessoa em bilhões. Dá o que pensar para quem acha que “eu não faço diferença nenhuma”.

Eu proponho que a gente não pegue folhetos nos sinais a não ser que esteja procurando casa (tá, coitado daquele pessoal que ganha pra isso, mas a coisa saiu de controle). Que a gente tenha um copo não-descartável no trabalho para não precisar usar os de plástico (pra quem tem preguiça de lavar copo, digo: não precisa lavar todo dia!). Que usemos guardanapos de pano em casa, também não precisa lavar todo dia. Que jogue o lixo reciclável em lugar apropriado, ou entregue pro pessoal que recolhe essas coisas em vez de obrigá-los a triar o lixo todo. Que as lanchonetes e afins tenham os canudos e colherinhas à disposição, mas que não os imponha. Pra que pegar saquinhos nas lojas se a gente vai usar o que comprou em seguida, ou pôr na bolsa? E por aí vai. O que sua imaginação sugerir vale, mas abaixo o desperdício! Vai ver é só para limpar a consciência, mas eu acho que faz diferença sim. E não custa.

“A marcha dos pinguins” (Luc Jacquet, 2005): impressões sumárias

O trailer antevia uma fotografia e música impactantes. Ao longo do filme a musica infantilizada foi-se tornando entediante, assim como a narração humanizada. Tudo compensado por imagens épicas e envolventes (a estética do acasalamento pinguim é belíssima!!!), embora sem a qualidade puramente gráfica que um programa da BBC consegue actualmente oferecer.

Estava também curioso sobre como o filme justificaria a sua utilização por grupos conservadores norte-americanos para a sua argumentação puritana e falsamente naturalista. Essa utilização parece-me agora completamente despropositada. Duas observações apenas, estimulando a reflexão:

1. qual seria a vantagem de um pinguim ter mais de um parceiro de acasalamento, tendo em conta o esforço e perseverança necessários à sobrevivência de apenas uma cria? O comportamento do pinguim, e também a sua “ética”, derivam da combinação das suas limitações biológicas com as circunstancias ecológicas em que sobrevive.

2. como é admirável o grau relativo de desadaptação (reparem-se nas dificuldades motoras dos pinguins ao tranferir a guarda de um ovo precioso!) do pinguim ao seu habitat natural, apenas compensado pelo seu comportamento abnegado! Porque teria tido o eventual deus criador tanta dificuldade em dotar os pinguins de melhores capacidades motoras? A beleza do pinguim está nisso mesmo, nessa imperfeição, nessa realidade complexa, mas parcialmente redutível, ao contrário do que apregoam os defensores do “design inteligente”. É resultado de evolução biológica, dos seus limites e caminhos moldados pela ecologia do possível, num jogo de determinismos aleatórios.

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