Conhecimento de si no espaço/tempo

Reflectindo sobre genes no espaço e no tempo e após curto-circuito cerebral… aí vai então o produto não polido da massa cinzenta esfumaçante.

O conhecimento assenta na relação espaço/tempo. Ele emana da apreensão da diferença que se desenvolve naquele domínio. A diferença é definida como classificação ao longo de escalas observacionais, que podem ser combinadas para definir objectos.

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Complexidades…

A propósito de complexidades, reproduzo aqui o prefácio do livro de Stuart A. Kauffman (1995) At Home in the Universe: The Search for the Laws of Self-Organization and Complexity (Oxford University Press). Boas leituras.

“We live in a world of stunning biological complexity. Molecules of all varieties join in a metabolic dance to make cells. Cells interact with cells to form organisms; organisms interact with organisms to form ecosystems, economies, societies. Where did this grand architecture come from? For more than a century, the only theory that science has offered to explain how this order arose is natural selection. As Darwin taught us, the order of the biological world evolves as natural selection sifts among random mutations for the rare, useful forms. In this view of the history of life, organisms are cobbled-together contraptions wrought by selection, the silent and opportunistic tinkerer. Science has left us unaccountably improbable accidents against the cold, immense backdrop of space and time.

Thirty years of research have convinced me that this dominant view of biology is incomplete. As I will argue in this book, natural selection is important, but it has not labored alone to craft the fine architecutres of the biosphere, from cell to organism to ecosystem. Another source—self-organization—is the root source of order. The order of the biological world, I have come to believe, is not merely tinkered, but arises naturally and spontaneously because of these principles of self-organization—laws of complexity that we are just beginning to uncover and understand.

The past three centuries of science have been predominantly reductionist, attempting to break complex systems into simple parts, and those parts, in turn, into simpler parts. The reductionist program has been spectacularly successful, and will continue to be so. But it has often left a vacuum: How do we use the information gleaned about the parts to build up a theory of the whole? The deep difficulty here lies in the fact that the complex whole may exhibit properties that are not readily explained by understanding the parts. The complex whole, in a completely nonmystical sense, can often exhibit collective properties, “emergent” features that are lawful in their own right.

This book describes my own search for laws of complexity that govern how life arose naturally from a soup of molecules, evolving into the biosphere we see today. Whether we are talking about molecules cooperating to form cells or organisms cooperating to form ecosystems or buyers and sellers cooperating to form markets and economies, we will find grounds to believe that Darwinism is not enough, that natural selection cannot be the sole source of the order we see in the world. In crafting the living world, seletion has always acted on systems that exhibit spontaneous order. If I am right, this underlying order, further honed by selection, augurs a new place for us, expected, rather than vastly improbable, at home in the universe in a newly understood way.”

Determinismos…

A discussão sobre determinismo, genético ou outro, é falaciosa.

É verdade que tanto cientistas como “homens das letras”, jornalistas e “homens de poder” contribuiram muito para a sedimentação daquela discussão, típica do meio académico, na opinião pública. As repercussões da aceitação de um determinismo genético foram devastadoras na primeira metade do séc. XX, com as leis eugenistas nos EUA ou o holocausto nazi. O debate seguiu extremado, a sua ideologização reflectida também no discurso da ciência. Um exemplo foi a crítica da Sociobiologia, de E. O. Wilson, por cientistas radicais marxistas como S. J. Gould. O debate explícito sobre determinismo genético tem vindo a ressurgir ultimamente devido aos receios do impacto da biotecnologia ligada à genómica no conhecimento da vida e do ser humano, e nos usos que daí poderão advir no melhoramento genético humano. Neste contexto, são fontes recentes interessantes alguns textos jornalísticos do último número da revista ComCiência ou uma discussão recente no blog do jornalista científico Marcelo Leite (Pílulas anti-deterministas do Dr. Leite – X). Alguns textos (ex: Do Holocausto nazi à nova eugenia do séc. XXI, de Andrea Guerra) parecem imbuídos de grande parcialidade, originada quiçá em posições morais ou ideológicas, levando à difusão (manipuladora?) de mensagens codificadas, sejam as das metáforas dos cientistas, sejam as traduções sintéticas daquelas metáforas por parte dos jornalistas.

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Revista ComCiência, sobre genética humana

Está no ar novo número da revista ComCiência.
De meu,
reportagem “Genes e a compreensão de ser humano”, com Germana Barata.

O mundo condena o aborto seletivo na Índia. Às cegas.

Em janeiro deste ano um artigo publicado no periódico médico The Lancet demonstrou a ocorrência na Índia de aborto seletivo de meninas, após constatação do sexo por ultrassom. O artigo teve repercussão na mídia brasileira (ver exemplo da Agência Fapesp), mas não li nenhum artigo que apresentasse uma discussão mais aprofundada.

Faço aqui a ressalva de que escrevo este texto de forma um tanto quanto inconseqüente, pois não li o artigo original (que tem acesso restrito na internet), não fiz uma busca completa do que saiu na imprensa e não fiz uma pesquisa sobre a situação atual na Índia. Baseio minhas reflexões no que ouvi e li na Índia há cerca de dez anos.

Prabhat Jha, da Universidade de Toronto (Canadá), e colegas calculam que nas últimas duas décadas deixaram de nascer cerca de 10 milhões de meninas na Índia. O período estudado é relevante pois corresponde à generalização do uso do ultrassom. A notícia da Agência Fapesp cita um médico de Mumbai, que diz que meninas não são valorizadas naquele país. Algo meio vago, machismo mesmo, para arrepiar mesmo os levemente feministas. E o artigo científico acrescenta que não há aí influência religiosa.

O que falta discutir são os motivos por trás dessa desvalorização das mulheres. A tradição indiana dita que uma mulher, quando se casa, leva um dote. Ficar solteira é desgraça, desonra. O dote varia, em regiões rurais pode ser pago em cabras ou o que for, mas é sempre uma quantia importante em relação à economia familiar. Aquela moça não só custa para casar-se, mas ainda por cima depois disso está perdida para a família. Passa a ser propriedade da família do marido, muitas vezes uma criada da sogra e das cunhadas. Ou seja, um filho homem traz bens, uma mulher e filhos, todos os quais contribuirão para o sustento da família. Uma filha é um investimento perdido, para o qual muitas famílias simplesmente não têm os meios. Por isso, em muitas áreas da Índia é ainda comum (ou era há dez anos) o infanticídio seletivo. Pelo menos até que nasça um menino, que garantirá a “aposentadoria” dos pais.

Os resultados de Jha podem levar a crer que o melhor é não dar a opção de aborto seletivo — não oferecer ultrassom ou esconder a informação sobre o sexo do nenê. Mas como obrigar uma família a manter uma criança que virá a ser um escoadouro de recursos (que a família nem possui)? Impossível. Muitos discordarão, mas a meu ver aborto é preferível a infanticídio.

O que fazer? Mudar a cultura indiana? Quem determina que a nossa é melhor do que a deles? Há de fato uma elite globalizada na Índia que adota costumes mais ocidentais. Mas nem eles podem determinar que tradições devem seguir seus milhões e milhões de compatriotas. O que o mundo “desenvolvido” pode fazer, e quem sabe o benefício atinja as menininhas, é ajudar a reduzir o nível de pobreza nas regiões menos privilegiadas.

Retorno a “2046″ (Filme de Kar Wai Wong, 2004)

Sublime!, melhor ainda que o filme anterior “Amor à flor da pele” (2000). Fica a primeira impressão que o filme gravou em mim:

2046, segredo de amor
que se enterra,
sem retorno.
memória que se busca,
de onde não se retorna?
não se volta de tentar recordar,
o que não se entende.
que o amor tem uma hora certa,
uma hora errada,
que nada é se não for o momento de ser.
após enterrar segredos,
no sopé de uma montanha?
o segredo fica,
sem retorno,
adquire vida própria,
vira número de processo.
esperando que se acumulem,
e um dia seja hora.

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