Há mais aves nos centros urbanos hoje?



Você já reparou se há na sua vizinhança uma maior abundância e diversidade de passarinhos e afins? Muita gente tem essa impressão, especialistas inclusive. Veja reportagem minha na revista Ciência e Cultura.

Aproveito para pôr aqui uma foto linda da minha amiga Silvia Cléa, que não pude pôr na revista. Os periquitos fazem a festa na varanda dela!

Meu avô


Tive hoje a emoção de publicar na ComCiência uma notícia sobre meu avô: “IBGE homenageia geógrafo que estabeleceu divisão do país em regiões”.

Aqui, não resisto a ser mais pessoal e mostrar o Fábio de que me lembro – o vô Fábio. Na foto, com a vó Marina.

Saudades.

UE com gripe?

Portugal talvez seja o país menos bem preparado da Europa para enfrentar uma eventual pandemia de gripe das aves, de acordo com o estudo divulgado pela revista britânica The Lancet. Reproduzo abaixo texto da notícia da agência Lusa.

As autoridades de saúde lusitanas alegam que o estudo está desfasado e que estamos preparados. E para a Copa, também!?

Não me admiraria que as duas afirmações fossem verdadeiras, pois o estudo data de Novembro de 2005. Acontece que apenas no Outono de 2005 a gripe das aves se tornou verdadeiramente um assunto europeu, com a deteção do vírus H5N1 em aves da Turquia e Roménia. Desde então, foram registados casos de gripe das aves em quase todos os países europeus com exceção de Espanha e Portugal. Seria natural então que muitos países tivessem tomado medidas preventivas de acordo com a sensação de perigo iminente, que teria sido superior na Europa Central e do Norte. Seria interessante se os Pirenéus continuassem a exercer os seus efeitos de barreira biogeográfica!? Por outro lado, na Ibéria peninsular, Portugal foi sempre o país mais periférico (na verdade, de toda Europa continental), a nível político, geo-estratégico, económico e cultural. Lembremos, a vocação atlântica, os Descobrimentos, a anglofilia… Isto explicaria as diferenças com relação a Espanha, no estudo d’A Lanceta. Existirão porventura explicações mais próximas no tempo, e menos psicanalíticas, como riqueza nacional e qualidade do seu serviço nacional de saúde. Mas não estraguemos a minha diversão!

Consultando o Dossier Gripe das Aves do jornal Público, constato que a percepção de risco em Portugal aumentará gradualmente até ao Outono de 2006, altura do ano em que aves migradoras imigram do Norte da Europa, procurando abrigos de invernação mais meridionais (inteligentemente, esperam que as hordas de turistas regressem para norte…). E as autoridades portuguesas parecem ter acelerado o anúncio de medidas preventivas nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março de 2006. Ainda bem!

É então aceitável, que Portugal estivesse menos bem preparado que outros países europeus em Novembro de 2005? Sim e não! Sim, por causa da tal diferença de percepção do perigo iminente, que tentei justificar acima. Não, porque a condição de país periférico, que no passado se salvou das desvantagens (glaciações do Quaternário, desenvolvimento, guerras mundiais) e das vantagens (glaciações do Quaternário, desenvolvimento, guerras mundiais, ah ah!) do centro da civilização europeia, não nos salvaria da aleatoriedade do acaso, da excepção à regra, de processos evolutivos não determinísticos. Afinal, qual a chance de o vírus H5N1 entrar em Portugal à boleia de uma ave, se hospedar num lusitano legítimo e, finalmente, se propagar entre lusitanos! Talvez ínfima, mas…!? Se acontecesse, seria mais uma criação lusitana para o Mundo.

Tenho uma certa vontade de iniciar uma digressão sobre como este atraso na reação ao perigo iminente da gripe das aves é um epifenómeno de uma certa estratégia empírico-determinista de sobrevivência, usada por organismos que têm de fazer opções. Não o vou fazer, fica para mais tarde.

Politicamente mais preocupante, para a União Europeia, é a constatação de que poucos países incluíram nos planos a necessidade de colaboração com outros países, apesar de este ser um “imperativo” na luta contra a doença. Mas então para que queremos a UE senão para promover a colaboração dos povos para lá da economia de escala e da geo-estratégica global? Espero que desde Novembro de 2005, também esta realidade se tenha alterado. A bem de um projeto europeu ainda mais integrativo, em que acredito apesar da (e sobretudo pela…) minha identidade nacional periférica.


Gripe das aves: Portugal é o país menos bem preparado da Europa
Lusa, Agência de Notícias de Portugal S.A.


Portugal é o país menos bem preparado para enfrentar uma eventual pandemia de gripe das aves entre os 21 países europeus com planos nacionais de prevenção, segundo um estudo publicado hoje pela revista científica The Lancet. O documento, intitulado “De que forma está preparada a Europa para uma pandemia de gripe? – Análise dos planos nacionais”, foi realizado pelos cientistas Sandra Mounier-Jack e Richard J. Coker, do departamento de Saúde Pública da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, com base nos dados disponíveis em Novembro de 2005, com base nos planos nacionais de luta contra uma possível pandemia.

Em declarações ao jornal Público, a 14 de Abril, a propósito deste estudo, a sub-directora-geral da Saúde Graça Freitas afirmou que os investigadores analisaram apenas o plano estratégico publicado, que inclui orientações genéricas . “O estudo está desfasado. Garanto que estamos preparados”, afiançou a responsável, citada pelo jornal.

Na classificação da preparação dos países para a eventual chegada da doença entre os humanos, Portugal ocupa o último lugar do grupo dos menos preparados, seguido da Polónia, Roménia, Lituânia, Letónia, Itália e República Checa, que obtiveram uma classificação de cerca de 38 por cento, menos 20 pontos percentuais que a média. O grupo dos mais bem preparados, com uma classificação de 70 por cento, é liderado pela França, seguida da Alemanha, Irlanda, Holanda, Suécia, Suíça e Reino Unido. O grupo intermédio das três categorias de países é constituído, por ordem decrescente, pela Áustria, Dinamarca, Estónia, Grécia, Noruega, Eslováquia e Espanha e obteve uma classificação de 53 por cento.

Nos vários critérios analisados, Portugal ocupa o último lugar no que respeita ao planeamento e coordenação, intervenção da saúde pública, na resposta dos serviços de saúde e nos serviços essenciais necessários e o penúltimo na vigilância
e na capacidade de colocar o plano em acção, ficando em todos abaixo dos cerca de 41 por cento. Melhor classificação foi obtida na comunicação – cerca de 60 por cento -, a única área temática que coloca o país no grupo intermédio.

O estudo, publicado na versão “on-line” da revista britânica, realça também o facto de 20 dos 21 países analisados terem desenvolvido uma estratégia anti-viral (com diferentes níveis de detalhes), bem como uma estratégia de imunização para uma vacina, sendo que Portugal foi o único país a deixar o desenvolvimento de uma estratégia nestes campos para “uma fase posterior”. E constata que 13 países elaboraram guias para o uso de drogas anti-virais e 14 pretendem imunizar toda a sua população se o “stock” de vacinas for suficiente.

Em termos gerais, o estudo conclui que, embora a preparação em termos de vigilância, planeamento, coordenação e comunicação seja “boa”, a manutenção dos serviços essenciais, a capacidade de pôr os planos em acção e as intervenções da saúde pública são “provavelmente inadequadas”. Segundo os cientistas, poucos países incluíram nos planos a necessidade de colaboração com outros países, apesar de este ser um “imperativo” na luta contra a doença. Nas conclusões, referem que “o compromisso dos governos na maioria dos países europeus é forte e o nível de preparação é em geral bom”. No entanto, “as lacunas na prevenção mantêm-se e existem variações substanciais entre os países, com implicações importante para os mesmos”. Por isso, aconselham uma melhoria na cooperação entre os países, através da partilha de experiência, de forma a “assegurar a coerência” dos planos.

O estudo abrangeu os países da União Europeia, os candidatos Bulgária e Roménia e a Suíça e Noruega, tendo eleito 21 planos nacionais para avaliação de acordo com os critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS), representando 93 por cento da população. Todos os planos foram elaborados numa estimativa de mortes devido à gripe das aves entre 230 e 465 pessoas por 100 mil habitantes.

O vírus da gripe das aves infectou 196 pessoas desde 2003, tendo matado 110.

Política com ciência

Reproduzo abaixo um texto do historiador português José Pacheco Pereira, no jornal Público. Um estudioso do comunismo, ex-deputado social democrata, ex-vice-presidente do Parlamento Europeu, autor do blog Abrupto (que está no top 100 da Technorati). Fala da política em Portugal, mas reparem que o seu pensamento é de relevância geral, com exceção de alguma especificidade lusitana (ex: os poucos sujeitos nomeados).

Alguma semelhança com políticos que encenam peça tragicómica, num teatro perto de si?

Público
Quinta-feira, 6 de Abril de 2006

Artigo de opinião por Pacheco Pereira, historiador

Como o “politiquês” é um código árido de comunicação entre políticos de segunda, tende a ser muito conservador e a manter fórmulas que remetem para uma concepção do país que já tem pouco que ver com a realidade. O “politiquês” é uma corruptela de um Portugal “conhecido” apenas dos artigos de jornais, de reuniões partidárias e jantares-comícios, de graçolas e bocas de conversa de café e de corredor, por gente que não lê e não estuda. A única coisa que actualiza os praticantes do “politiquês é verem o professor Marcelo todas as semanas, que lhes dá uma certa lubrificação discursiva e argumentativa, que sozinhos nunca teriam.

Contrariamente ao que pensam os próceres da direita do dr. Portas e da esquerda do dr. Louçã, a questão não é ideológica, ou pelo menos, não é essencialmente ideológica, nem sequer de “centrão” versus dicotomia esquerda/direita. O mundo puro das ideologias soçobrou quando a sociedade moldada pela Revolução Francesa e pela Revolução Industrial, que lhes tinha dado origem, se defrontou com pequenos problemas como a revolução da informação, a bomba termonuclear, o terrorismo apocalíptico, a crise do Estado-providência, a mediatização do espaço público, a “cultura de massas”, o consumismo, etc. Hoje, ideologias globais, que ofereçam interpretações globais e coerentes para todos os problemas, leituras sistémicas baseadas em tradições do passado (como é a esquerda e a direita), não servem a não ser para os órfãos identitários, uma forma típica de conservadorismo.

O problema é para já regressar a formas de piecemeal reformism, no sentido popperiano, de uma política mais modesta, mais experimental, menos de engenharia social e mais de pequenas intervenções numa realidade que tem outras leis e outras regras que é suposto conhecer a fundo. Ora uma condição fundamental para fazer este tipo de políticas é estudar, discutir, confrontar e produzir orientações, linhas de acção que se avaliem pela prática e não pela obsessão pela abstracção. E, durante ou depois, medir essas políticas com os interesses, as ideias, as “partes” que dividem numa democracia as pessoas.

Os partidos portugueses dão pouca importância ao estudo da realidade, e à formulação de orientações conhecidas, escritas, programáticas, porque isso contraria o tacticismo pragmático. Os partidos precisam de fazer uma considerável reconversão de recursos internos, abandonando ou reduzindo as tarefas partidárias de aparelho antigas, sobrevivências do tempo em que os partidos faziam o seu próprio marketing, publicidade, previsões eleitorais, etc., para outro tipo de organização mais voltada para a criação de think tanks, produção de documentos de orientação, todo um esforço de estudo, análise e produção de política que a complexidade dos problemas exige.

Os partidos precisam de virar uma parte importante da sua actividade interna das funções burocráticas, elas próprias tão cheias de funcionários recrutados por protecções e amiguismo, para um novo tipo de voluntariado político, a quem o partido deve dar meios, gastando aí recursos que hoje esbanja mantendo um número de funcionários excessivo, empregues em tarefas quase fictícias.

Não estou a dizer que os partidos devam ser dirigidos por académicos e professores, na sequência de uma tendência nefasta que já existe no sistema político e comunicacional de achar que as opiniões académicas de “peritos”, de “sábios”, estão à margem e acima da política.

Precisamos é de políticas que incorporem a maior quantidade de saber possível, que sejam produzidas por cidadãos que usem os seus conhecimentos a favor de uma ideia de “bem público”, que conheçam melhor o seu país, estudem os problemas e sejam capazes de ouvir e de pensar sem ser com o “politiquês” pavloviano que se usa hoje em Portugal.

Up the mainstream till no stream…

Interessante o aparecimento de agências de notícias de blogs, que servem para alimentar a imprensa mainstream (ver notícia que reproduzo abaixo). Prova de força da blogosfera? Ou mais um exemplo de como movimentos de contra-cultura acabam sendo co-optados para o mainstream? Este processo é interessante e pode ser visto como uma interação caos/cosmos em que elementos de caos vão sendo integrados ao cosmos (mainstream). Será que virar produto de mainstream significa perder liberdade, ser domado? Ou será que todo o movimento de contra-cultura deseja secretamente fazer parte do mainstream? Em relação aos blogs, os dados só agora estão sendo lançados e teremos de aguardar.

No texto jornalístico diz-se “Os jornalistas tradicionais tendem a ver a escrita de autor dos blogues como uma ameaça à imparcialidade, e o conceito de liberdade que impulsionou a grande difusão de blogues poderá ter dificuldade em adaptar-se a restrições editoriais”.

Concordo, e apostaria que muitos blogueiros se iniciaram na blogosfera justamente pela perda de paciência com as parcialidades editoriais da imprensa mainstream e a falta de qualidade de seus textos. É um problema de parcialidades, de ângulos de luz que iluminam objetos.

Por mim, e por ora, prefiro ficar contemplando esse mainstream desde upstream ou mesmo desde no stream at all. Ou estarei a cair no mesmo auto-engano da contra-cultura? Talvez o melhor mesmo, seja fazer parte do mainstream downstream, perto da foz desse rio informacional, no mar, que é vasto e pode dar-me a ilusão de liberdade. Sempre, o mar!

Up the mainstream till no stream,
down the mainstream till all streams, the sea!

PÚBLICO, 11.04.2006
Catarina Homem Marques

BlogBurst: criada agência de blogues para fornecer conteúdos para jornais

Um blogue “é um registro publicado na Internet relativo a algum assunto organizado cronologicamente”. É assim que a Wikipédia introduz o termo. Mas mesmo a simples definição que aparece na enciclopédia online se vai desdobrando para descobrir mais à frente uma realidade mais complexa: “Alguns sites têm inovado e usado o blogue como um tipo de media no qual jornalistas colocam notícias e comentários da sua área.” O responsável por esta entrada da Wilkipédia não terá tido de recorrer a capacidades paranormais para antever a importância crescente desta comunidade virtual na cobertura noticiosa. Se não bastassem as bem sucedidas experiências de interactividade entre os sites de conhecidos jornais de todo o mundo e a blogosfera, surge esta semana o BlogBurst, um novo serviço de agência que se compromete a gerir as relações entre cerca de 600 blogues e os media “mainstream”. O serviço vai funcionar assim: os blogues inscrevem-se na agência e sujeitam-se a uma avaliação prévia que vai definir quais têm qualidade para pertencer ao serviço; depois, a lista dos domínios aprovados vai ser fornecida aos jornais, que só têm de escolher aqueles que querem utilizar e por que período de tempo; por fim, o conteúdo dos blogues escolhidos vai aparecer no site do jornal, adaptado ao grafismo e exigências da publicação em questão. O conceito é inovador e vai funcionar assente numa lógica de complementaridade. Os sites dos jornais conseguem uma cobertura mais alargada, junto de um público jovem e especialmente interessado na Internet, e os bloguistas vão beneficiar de uma maior exposição mediática e de maior prestígio. Além disso, os jornais encontram uma forma de cobrir assuntos para os quais podem não ter uma equipa destacada, como temas relacionados com moda, viagens ou gastronomia. “Existem grandes bloguistas e muitas vezes abordam assuntos em que o site do jornal pode não ser tão especializado”, disse Jim Brady, o editor executivo do washingtonpost.com, uma das publicações que já estabeleceu parceria com o BlogBurst.” A fronteira entre os media mainstream e o resto do mundo começa a esbater-se, não porque as pessoas começam a aderir aos media, mas pelo efeito contrário: os media mainstream estão a chegar até às pessoas”, disse Jeff Jarvis, crítico de media, à Reuters, apesar de duvidar do sucesso de uma agência de blogues.A relação entre as duas partes parece estar cada vez mais consolidada, mas nem por isso deixam de ficar no ar algumas dúvidas quanto ao pacifismo desta proximidade. Os jornalistas tradicionais tendem a ver a escrita de autor dos blogues como uma ameaça à imparcialidade, e o conceito de liberdade que impulsionou a grande difusão de blogues poderá ter dificuldade em adaptar-se a restrições editoriais. Ou, então, o futuro passa mesmo pela reunião das duas tendências.

ComCiência sobre Relações internacionais


No ar novo número da ComCiência.
Contribuí com uma
reportagem:
“Aos 60 anos, a ONU resiste a reformas”.
Na foto, o Conselho de Segurança (foto do site do CS).

Next stop Iran?

Seria total ausência de CONsCIÊNCIA, os EUA não só atacarem o Irão mas fazerem-no com armas nucleares! Weapons of Mass Destruction, lembram-se!

Deixo abaixo um breve trecho de uma reportagem da revista americana New Yorker, que está a assustar o Mundo. Leiam toda a reportagem aqui.

Last month, in a paper given at a conference on Middle East security in Berlin, Colonel Sam Gardiner, a military analyst who taught at the National War College before retiring from the Air Force, in 1987, provided an estimate of what would be needed to destroy Iran’s nuclear program. Working from satellite photographs of the known facilities, Gardiner estimated that at least four hundred targets would have to be hit. He added:

I don’t think a U.S. military planner would want to stop there. Iran probably has two chemical-production plants. We would hit those. We would want to hit the medium-range ballistic missiles that have just recently been moved closer to Iraq. There are fourteen airfields with sheltered aircraft. . . . We’d want to get rid of that threat. We would want to hit the assets that could be used to threaten Gulf shipping. That means targeting the cruise-missile sites and the Iranian diesel submarines. . . . Some of the facilities may be too difficult to target even with penetrating weapons. The U.S. will have to use Special Operations units.

One of the military’s initial option plans, as presented to the White House by the Pentagon this winter, calls for the use of a bunker-buster tactical nuclear weapon, such as the B61-11, against underground nuclear sites. One target is Iran’s main centrifuge plant, at Natanz, nearly two hundred miles south of Tehran. Natanz, which is no longer under I.A.E.A. safeguards, reportedly has underground floor space to hold fifty thousand centrifuges, and laboratories and workspaces buried approximately seventy-five feet beneath the surface.

A propaganda contra o Irão vem aumentando regularmente. Semelhante à propaganda das WMD que conduziu à invasão do Iraque em 2002. Eu estava nos EUA, assisti a como se construía na cabeça dos americanos a falácia da inevitabilidade da invasão do Iraque. Então, poucos meios de imprensa escaparam à propaganda, ninguém conseguia negar as provas apresentadas. Pessoalmente, tenho de confessar que aceitei a invasão do Iraque, apesar de suspeitar das verdadeiras motivações dos EUA de George W. Bush.

Agora, qualquer capital de confiança que o governo dos EUA pudesse ainda ter em 2002, associado a um eventual direito de retaliação após o 11 de Setembro, está esgotado! Passou o prazo de validade da administração Bush , a confiança dos americanos no seu governo é a mais baixa da legislatura (na ordem dos 30%). Depois de 6 anos (para mim, o prazo de validade média de um governo democrático!), penso que seria altura para novas eleições nos EUA. As razões para um impeachment são hoje bem maiores do que no caso anedótico do Clinton.

Suzana, qual é a reação a esta reportagem da New Yorker, aí em NY? Ecos da NYr em NY?

Uma reflexão que terá de se fazer, algum dia, é sobre como o resto do mundo é também responsável pela máquina de guerra dos EUA, financiando as grandes dívidas económicas, interna e externa, da única superpotência mundial. A pergunta é a seguinte: seria possível ou desejável deixar cair o império em declínio? Voltarei a este assunto no futuro, com ciência.

Que o povo americano saiba proteger a sua democracia!

Fragmentos desordenados para um manifesto político

Inauguro hoje uma seção Manifesto no nosso blog. O que é e por que a necessidade de um Manifesto? Bom, primeiro, porque presunção e água benta cada um toma a que quer!

Mais seriamente, por que sou um indivíduo altamente politizado, mas sem partido. O que fazer então, quando um cidadão conclui que todos à sua volta e ele próprio parecem clamar por uma outra POLÍTICA, mas que todos se encontram paralizados, num estado de dormência consentida. TODOS parecemos conhecer as razões do mal-estar do nosso mundo, mas NINGUÉM parece ter ou querer ter a capacidade de pensar/construir um novo sistema. Complexo, muito complexo!

Leia mais aqui.

Mulheres na ciência, homens blogando !

Como Feminismo já era !?

Será que o anúncio da FAPESP é um anacronismo ?
Se Alison Wolf estiver certa, a resposta é sim !
Quem concorda com sistemas de quotas ?

Pela Ação Afirmativa !?

Programa distribui bolsas de US$ 20 mil

Agência FAPESP – 07/04/2006

Jovens cientistas de talento têm até o dia 15 de maio para se inscrever no programa de apoio patrocinado pela L’Oréal do Brasil em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Serão selecionadas cinco doutoras que receberão bolsas de auxílio a pesquisa com valor equivalente a US$ 20 mil em reais.

Para terem suas candidaturas validadas, as pesquisadoras devem ter obtido título de doutorado entre 1º de setembro de 2002 e 1º de setembro de 2006. Os prêmios serão atribuídos nas áreas de ciências físicas, biomédicas, biológicas e da saúde. Os resultados serão divulgados no dia 1º de agosto.

Segundo os organizadores do programa, as candidaturas válidas serão analisadas por um júri composto por seis pesquisadores indicados pela ABC, um representante da L’Oréal e um representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), outra organizadora do programa. As decisões serão tomadas por consenso.

Além dos critérios cronológicos e de áreas de trabalho, todas as pesquisas, para serem julgadas, terão que ser feitas em laboratórios brasileiros. O responsável da instituição onde a candidata irá trabalhar deverá dar o aval para o estudo.

O formulário para inscrição e a lista de documentos a ser entregues ao programa podem ser consultados no endereço www.abc.org.br/loreal .

O feminismo já era!


Confesso, correndo o risco de receber comentários-bomba de minhas congêneres: nunca entendi bem esse papo de feminismo. Afinal, passados montes de anos de vida e quase o mesmo tanto de anos de estudo, continuo me achando bem diferente da média masculina. E não “evoluí” além da minha percepção infantil: ufa, ainda bem que nasci mulher! (É bem verdade que era meio frustrante ter que jogar sempre no gol, mas minhas aspirações futebolísticas nunca foram suficientes para me fazer invejar o sexo forte.)

Passei a vida estudando, tirei as notas que fiz por merecer, entrei em universidades repetidas vezes, tive bolsas (de estudo, além das a tiracolo), não tenho dificuldade em conseguir trabalho, fiz caratê, capoeira… minha vida não foi limitada por ter nascido (e permanecido) mulher (a não ser no futebol, em que acabei espectadora). Então de forma geral nunca me interessei por questões feministas.

Mas cá estou eu pensando no assunto. É que a Folha de São Paulo publicou no cderno Mais! do último domingo uma entrevista interessantíssima com a filósofa inglesa Alison Wolf, que me fez entender por que acho feminismo um saco: porque posso, e porque hoje em dia o feminismo cerceia mais do que uma suposta sociedade machista.

Explico, com idéias que me chamaram a atenção tanto na entrevista como no artigo recente de Wolf na revista britânica Prospect.

  • Eu posso achar questões feministas desinteressantes porque nasci em 1973, o que significa que a geração anterior à minha já tinha conquistado uma igualdade que torna possível que eu faça o que quero da minha vida. E que eu queira coisas diferentes de ser professora ou enfermeira, fazer balé e tocar piano.
  • Wolf diz que a sociedade preconizada pelos ideais feministas na verdade corresponde às aspirações uma minoria de elite. São mulheres que priorizam estudo e carreira. Segundo a filósofa, a percepção de que as mulheres ainda têm menos acesso ao ápice profissional e recebem salários menores tem duas explicações. Uma é resquício da geração pré-feminista: os cargos mais altos são ocupados por profissionais mais experientes, portanto mais velhos. Por isso, a igualdade aí é questão de tempo. Por outro lado, muitas mulheres ainda optam por ter emprego em vez de carreira, de forma a conciliar ganha-pão com maternidade. Estas são responsáveis pela desigualdade de salário e prestígio entre os sexos (ou tem que dizer gêneros?).
  • Cria-se um ciclo vicioso, em que as mulheres ficam prisioneiras dessas conquistas. Há a pressão da sociedade, por um lado. E por outro, criar um filho para ter sucesso profissional é cada vez mais caro. Meus pais investiram muito na minha formação, e se eu quero que meu filho (ainda hipotético) tenha pelo menos as mesmas oportunidades que tenho, melhor mergulhar no trabalho (em vez de escrever de graça como estou fazendo). E pronto, onde é que vou arranjar tempo para criar o tal filho? Se eu tivesse estudado menos, meu ponto de referência seria outro e a educação da minha prole seria bem mais barata.
  • As famílias pós-feministas têm menos filhos, se têm, e as mulheres estão menos disponíveis para prestar serviços à sociedade, na forma de trabalho voluntário, atenção à família etc. E cada vez menos querem ser enfermeiras ou professoras. Pode ser libertador para as mulheres, mas Wolf conclui seu artigo alertando para as conseqüências sociais dessa mudança.

Com certeza me lembrarei de outros pontos essenciais depois, mas fico por aqui. Quem quiser mais, deixo que a Alison Wolf fale por si. De minha parte, pela primeira vez posso dizer que aprecio os frutos do feminismo. Mas continuarei também dizendo, agora com respaldo acadêmico, que ele causa danos à sociedade. Quero que mulheres possam ser femininas e não acreditem, como é comum nos Estados Unidos, que é preciso parecer homem para ser bem-sucedidas. E quero poder optar por organizar minha vida profissional de forma a abrir espaço para filhos, sem que isso seja mal-visto na sociedade. Parece que a luta das mulheres da minha geração deve ser pelo direito de ser mulher, dentro da igualdade de direitos.

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