Quem acredita em acupuntura?


Esta notinha é em homenagem ao meu professor
Marcelo Knobel, que alertou os alunos do Curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor (Unicamp) a desconfiar da pseudociência – conhecimento aparentemente científico, mas não testado conforme manda a ciência.

Pois a tal pseudociência, como a acupuntura, acaba aparecendo até em periódicos sérios. Neste caso, a conceituada revista científica norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences, ou PNAS. Em 1998, uma equipe composta de pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine e de algumas instituições coreanas usou ressonância magnética para enxergar o efeito de estimulação de pontos de acupuntura (acupontos) na atividade do córtex cerebral. Eles demonstraram que havia uma correlação específica, que não havia sido comprovada até então. O artigo completo pode ser encontrado aqui.

Mas agora, oito anos depois, alguns pesquisadores do grupo mudaram de idéia. Fizeram estudos mais aprofundados e concluíram que não há especificidade dos acupontos, pelo menos no que diz respeito a dor e analgesia. A retração do artigo original entrou ontem no site da PNAS. É interessante notar que somente os autores com nomes coreanos (mesmo que radicados nos Estados Unidos) concordam com retirar as conclusões de 1998. O que isso quer dizer, não sei.

Amazônia para crianças

Vai aqui uma sugestão de leitura para quem tem filhos pequenos – ou simplesmente gosta de belos livros. O cipó branco, de Florence Breton, foi publicado pela Companhia das Letrinhas (setor infantil da Companhia das Letras) em abril, mas na época esqueci de pôr um aviso aqui.

O livro conta as aventuras do tamanduá-mirim Neniq, que vive na Amazônia e um dia segue um cipó branco pelas árvores acima. As ilustrações são lindíssimas, um deleite mesmo.

Depois da história, o livro tem uma parte didática. Com os mesmos desenhos deslumbrantes e texto gostoso, Florence Breton leva o leitor num passeio pelas camadas da floresta – desde o chão até a copa das árvores mais altas. No caminho mostra as características de cada estrato e alguns animais que ali vivem.

Para que fosse o mais correto possível em termos biológicos, o livro passou por uma revisão técnica – que foi a minha contribuição.

Prêmios para publicar na Nature

Na edição da Nature desta semana vem uma nota fascinante sobre uma prática em crescimento em alguns países asiáticos: prêmios em dinheiro para quem publica nas revistas mais cotadas, como a Science e a própria Nature.

Segundo o artigo, a partir do fim deste mês pesquisadores sul-coreanos receberão um bônus de 3 mil dólares para cada artigo publicado em periódicos de elite. Na China, esse valor pode chegar a dez vezes mais. No Paquistão pesquisadores podem receber entre mil e 20 mil dólares, de acordo com o fator de impacto acumulado em um ano para suas publicações.

Alguns defendem a iniciativa, que seria uma forma de premiar a excelência acadêmica. Mas de forma geral a Nature apresenta argumentos contrários à prática, que estimula a competitividade acirrada e a busca por publicar a qualquer preço, e deixam a ética científica e acadêmica de lado.

Será que isso pode levar à publicação de ciência de pior qualidade? Com certeza vai exigir ainda mais dos revisores, para impedir que aconteça.

Não posso deixar de lembrar do texto da Suzana aqui neste blogue, no dia 13 de fevereiro deste ano: “Seleção natural no meio acadêmico: que vença o pior?”. É o caso de parar e pensar…

Viajantes pelo Brasil


No ar novo número da ComCiência, este mês com o tema “Cronistas e viajantes”. Coube a mim investigar a viagem de Martius, que até hoje tem enorme influência na botânica brasileira. O resultado está na reportagem “Von Martius: viajante-naturalista-historiador”, em parceria com Mariella Oliveira.
Quem tiver interesse no assunto, recomendo vivamente a leitura do relato de Spix e Martius, Viagem pelo Brasil. As descrições são deliciosas!

Saparia


A diversidade de sapos e afins na Mata Atlântica é imensa e cheia de surpresas. Veja reportagem minha na revista Pesquisa Fapesp.
A primeira foto, de Hypsiboas bischoffi, saiu com crédito errado – é do João Alexandrino.

Revisão por pares via blogue!?!


A prestigiosa revista Nature acaba de apresentar uma forma inovadora de avaliar os artigos submetidos para publicação: expô-los a escrutínio público num blogue oficial.

A revisão por pares é a forma disseminada através da qual periódicos científicos avaliam os trabalhos submetidos para publicação. O artigo é enviado para dois ou três pesquisadores da área, com competência para avaliar sua qualidade. Em busca de isenção, procura-se cientistas que não tenham envolvimento direto com a pesquisa, nem inimizades notórias com o grupo postulante a publicação.

Mesmo assim, a validade do processo é muito discutida. Será mesmo possível alguma imparcialidade? Será melhor (ou possível) preservar o anonimato em ambos os sentidos (os avaliados não sabem quem são os avaliadores e vice-versa)? Ana Cláudia Lessinger recentemente comentou a questão em seu Via Gene. Há também um artigo interessante na PLoS Biology. As sugestões em geral não conseguem fugir muito do sistema já vigente. Como disse um amigo, o sistema de revisão por pares é péssimo, mas não inventaram nada melhor.

Até agora (?). Em seu número publicado hoje (vol. 441, n. 7094, p. 668), a revista Nature apresenta uma sugestão interessante. Autores que aceitarem participar do teste terão seus artigos expostos num site aberto no qual qualquer um poderá opinar, desde que assine seu comentário. Ao mesmo tempo, o trabalho será submetido ao processo normal de revisão por pares. Quando os revisores selecionados terminarem sua avaliação, os comentários obtidos no formato aberto serão levados em conta por editores e autores. O teste tem duração prevista de três meses, durante os quais a revista manterá um espaço para discussão online. A intenção não é substituir a revisão por pares, que a revista considera um bom sistema, mas acrescentar a ele.

Os artigos que participem do teste estarão abertos ao público, inclusive jornalistas, durante o processo de avaliação. Poderão portanto ser divulgados, mas o editorial alerta para os riscos de se divulgar resultados que ainda não foram validados por revisão.

Promete ser um exercício interessante, vale a pena ficar de olho.

Arca de Noé anfíbia


Uma nota rapidinha, li uma matéria no New York Times que não resisto a comentar.

O fungo quitrídio, ou Batrachochytrium dendrobatidis, vem causando rebuliço na comunidade sapófila (escrevi uma notícia sobre o assunto para a ComCiência em fevereiro, veja aqui). O fungo causa a quitridiomicose, que ataca regiões queratinizadas. Em adultos se aloja na pele, em girinos destrói os dentículos, que são estruturas de queratina.

Estudos na América Central mostram um cenário aterrador, as descrições parecem filme de terror. O quitrídio avança ao longo da cadeia montanhosa centroamericana, deixando atrás de si um tapete de sapos mortos. Espécies endêmicas, ou únicas daquela região, parecem correr sérios riscos de serem varridas da face da Terra.

Agora pesquisadores norte-americanos resolveram agir, e é o que conta a matéria do New York Times de hoje. Encheram suas malas de sapos, e embarcaram para os Estados Unidos. A reportagem descreve uma ação de resgate de emergência, sem grandes discussões de como esses bichos serão mantidos e qual o futuro que lhes aguarda. Vão construir um Panamá em miniatura em algum zoológico, e daqui a décadas compraremos passagens para Atlanta quando quisermos ver o paraíso tropical panamenho?

A questão é polêmica, vou deixá-la para especialistas.

P.S. O quitrídio já foi detectado em vários pontos do Brasil, mas até agora não há sombra da letalidade que causa em outros lugares.

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