Evolution in Four Dimensions

Novas descobertas da biologia molecular desafiam a visão genicêntrica da teoria neo-Darwiniana segundo a qual a adaptação ocorre apenas através da seleção natural de variação aleatória do DNA.

Você tem consciência de que o pensamento sobre a hereditariedade pode passar atualmente por uma mudança revolucionária? Não? Pois então deveria ler o livro de Eva Jablonka e Marion Lamb Evolution in Four Dimensions (The MIT Press, 2005)! Se já tiver lido com prazer The Century of the Gene de Evelyn Fox Keller (Harvard University Press, 2000), não se arrependerá! Veja o breve comentário que Keller inscreveu na quarta capa do livro:

With courage and verve, and in a style accessible to general readers, Jablonka and Lamb lay out some of the exciting new pathways of Darwinian evolution that have been uncovered by contemporary research.”

Desenho da quarta capa do livro, de Anna Zelogowski.

Lamarck, Darwin e neo-darwinismo
A princípio, Jablonka & Lamb situam o leitor na batalha travada entre biólogos da evolução na primeira metade do séc. XX para construir a Síntese Evolutiva. Para compreender a Síntese Evolutiva, as autoras precisam de nos levar a Lamarck, a Darwin e às discussões do seu tempo (séc. XIX). Recapitulam-se aqui as teorias da hereditariedade até chegarmos à Origem das espécies. Depois surgem, entre outras, as leis da hereditariedade de Mendel e finalmente a grande revolução com a descoberta da molécula de DNA como veículo de informação hereditária.

Com a Nova Síntese, as disciplinas da Embriologia e Desenvolvimento perdem sua importância no estudo da Evolução. Os biólogos da escola americana tinham ganho a batalha aos biólogos da escola russa. Uma premonição do que se viria a passar meio séulo mais tarde, com o fim da Guerra Fria?

As quatro dimensões
Em Evolution in Four Dimensions, Jablonka & Lamb defendem que a hereditariedade não é apenas o produto da trasmissão de informação genética contida em sequências de DNA. As autoras apresentam quatro dimensões evolutivas — quatro sistemas hereditários que desempenham uma função em Evolução: genética, epigenética (ou transmissão de informação não contida no DNA, mas na célula), comportamental, e simbólica (transmissão pela linguagem a outras formas de comunicação simbólica). Estes sistemas originariam então a variação sobre a qual a seleção natural poderia atuar. Evolution in Four Dimensions oferece uma perspectiva mais rica e complexa da Evolução que a visão unidimensional e genicentrada preferida e alardeada actualmente. A nova síntese que Jablonka e Lamb nos anunciam deixa claro que alterações induzidas e adquiridas também desempenham um papel em Evolução. O advento do neo-lamarckismo?

Após discutirem cada um dos quatro sistemas hereditários em detalhe, Jablonka & Lamb reconstroem “Humpty Dumpty” (o sistema complexo) mostrando como todos estes sistemas interagem. Consideram como cada um se pode ter originado e guiado a história evolutiva, e discutem as implicações sociais e filosóficas da visão tetra-dimensional da evolução. Implicações essas que poderão ser especialmente relevantes para a evolução humana! Mas Jablonka & Lamb não se aventuram demais nesse tema, compreensivelmente.

Cada capítulo termina com um diálogo em que as autoras respondem às contrariedades de uma personagem ficcional e céptica, Ifcha Mistabra (I.M.) — “a conjectura oposta” em aramaico — refinando os seus argumentos contra a vigorosa contra-argumentação de I.M. No mínimo, terrivelmente original! Genial!

Estilo literário
É espantosa a combinação de um texto cientificamente complexo, simplicidade e acessibilidade de compreensão dada a a complexidade dos assuntos abordados e, acima de tudo, de uma escrita cuidada e cativante. Para isto muito contribuem os diálogos no final de cada capítulo. O texto lúcido e acessível é acompanhado pelo traço delicioso das ilustrações de Anna Zeligowski (ver figura acima) que ilustram com humor e de forma efetiva o desenrolar da argumentação das autoras. É pois uma obra acessível para todos os amantes da Evolução, sejam especialistas ou leigos. À atenção de alguma editora interessada pois o livro não está ainda traduzido para o português!?

Revolução?
Em uma obra pré-revolucionária, talvez fundadora, não se poderia esperar apenas a mera aglomeração de fatos científicos comprovados para refutar paradigmas existentes. A grande obra científica pré-revolucionária é aquela que combina conhecimento teórico e empírico sedimentado com a estruturação racional da imaginação intuitiva para (re)criar um corpo conceptual novo. Tal aconteceu com Charles Darwin com a sua Origem das Espécies, quando C.D. não conhecia ainda os mecanismos da hereditariedade mas se baseou no conhecimento da época e nas suas observações para intuir sobre eles.

Também Jablonka & Lamb especulam agora sobre como alguns dos mecanismos hereditários propostos seriam importantes num contexto evolutivo. Especulam? Pois é, haverá muitos céticos relativamente a esta obra e a sua avaliação será feita, como sempre, dentro de algumas décadas. Mas, no mínimo, penso que Evolution in Four Dimensions ficará como uma obra inspirada e inspiradora, que guiará sonhos e avenidas de pesquisa de muitos em anos próximos. Podem crer que sonho com evolução a quatro dimensões há algum tempo. E que mais dimensões haverá…!

Sonhem! Não se fiquem pelo óbvio nem pelo adquirido, na pesquisa e na Vida!

Biodiversidade brasileira acessível à pesquisa

Acaba de ser aprovada uma proposta pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (Cgen) para reduzir a carga burocrática que torna inviável o trabalho de muitos pesquisadores.

Não vou repetir o que já está sendo dito por aí, mas como o assunto me interessa (ver aqui e links no texto), não posso deixar de pôr uma notinha comemorativa. Veja notícias do Instituto Socioambiental, do Estado de São Paulo que foi publicada no Jornal da Ciência e comentário do João Carlos no Chi vó, non pó.

Carros versus ônibus?

O João Carlos, do Chi vó, non pó, escreveu um texto rebatendo o que escrevi aí em baixo, sobre transportes urbanos. Escrevi longa resposta lá nos comentários. Quem tiver interesse em acompanhar o debate – e contribuir para ele! – passe lá.

Manifesto por cidades humanas


Que tal ir trabalhar a pé ou de bicicleta, mesmo que demore um tanto mais? Você deixaria de poluir o ar, economizaria tempo e dinheiro com academia e ficaria mais saudável.

Eu adoraria, pena que nem sempre é possível. Mas fui à conferência sobre transporte sustentável que aconteceu esta semana em São Paulo, e fiquei animada. Quem sabe não seja possível termos ar mais limpo para respirar nessas caminhadas, além de mais segurança para não morrermos atropelados?

A experiência de Enrique Peñalosa em Bogotá é inspiradora, veja aqui. A foto acima é de lá, peguei emprestada na wikipedia.

E leia na ComCiência a notícia que escrevi (em princípio a última lá, está chegando ao fim meu período de bolsista no Labjor).

Abaixo, a versão sem cortes nem edição, um pouco mais longa.

“Declaração de São Paulo” define metas para melhorar a qualidade do ar e dos transportes urbanos na América Latina

Boa parte da poluição do ar é causada por carros particulares. As conseqüências são sérias e vão desde mudanças climáticas globais até mortes e internações. “Existem os conhecimentos, existem opções. É preciso ações conjuntas”, disse Sérgio Sánchez, da Iniciativa do Ar Limpo para as Cidades da América Latina (IAL-CAL) a respeito de melhorar a qualidade do ar e atingir sustentabilidade no transporte. Foi em busca disso que pesquisadores, políticos e técnicos de vários países se reuniram em São Paulo esta semana na conferência “Ar Limpo para a América Latina 2006”.

A poluição traz problemas ao nível local — a poluição do ar; e global — o impacto do homem na atmosfera. “A atmosfera em relação ao mundo é como a casca de uma maçã, uma camada muito frágil”, explicou Mário Molina, mexicano que ganhou o prêmio Nobel de Química em 1995 por descobertas quanto a gases que atacam a camada de ozônio. Como conseqüência das atividades humanas o clima está mudando, o nível do mar está subindo, as chuvas estão diferentes. O impacto que isso causa afeta as florestas, a agricultura, a saúde, os recursos hídricos, entre outros. Segundo ele, restringir as emissões pode ter um efeito importante.

Grande parte da poluição do ar se deve ao crescimento da frota de veículos. Diversos estudos acusam efeitos muito graves da poluição na saúde, como mostrou Bob O’Keefe, do Health Effects Institute, instituição norte-americana que pesquisa efeitos da poluição na saúde. Esses danos incluem problemas cardiopulmonares, ataques cardíacos e inflamações pulmonares, que reduzem de forma importante a duração e a qualidade da vida. Segundo o pesquisador os conhecimentos epidemiológicos nessa área são grandes, e permitem determinar restrições mais rígidas, como tem acontecido nos Estados Unidos.

É preciso limpar os veículos
Os problemas que existem hoje não surgiram por acaso, disse Lee Schipper, da Embarq, instituto sediado nos Estados Unidos que presta consultorias para encontrar soluções de transporte urbano. Eles foram permitidos e até mesmo encorajados, devido a interesses comerciais e políticos, além de maus parâmetros ambientais. A proliferação de pequenos coletivos como as peruas são um problema sério, pois acabam por dividir o trânsito (e a emissão de poluentes) em veículos menores e mais “sujos”. A primeira medida, portanto, é limpar os veículos — tanto em termos de regulagem e tecnologia como do combustível utilizado.

Na maior parte dos Estados Unidos reina o transporte individual. Por isso, a visão norte-americana para melhorar os efeitos deletérios da poluição por veículos reside na tecnologia, no uso de combustíveis não derivados do petróleo e no estabelecimento de normas restritivas a emissões. Foi esse o teor da fala de Alan Lloyd, da Agência de Proteção ao Meio Ambiente da Califórnia. Idéias de desenvolver transporte coletivo existem, mas com menos ênfase.

Luis Cifuentes, da Pontifícia Universidad Católica do Chile, mostrou a experiência chilena em Santiago, onde a renovação da frota de ônibus e táxis teve grande impacto em reduzir as emissões de gases tóxicos. Mas ônibus movidos a combustíveis mais limpos, como gás natural ou biodiesel, não resolvem o problema de poluição se estão presos no trânsito, afirma Schipper. “A mobilidade sustentável é o que resolve o problema”. Segundo ele, a ênfase em combustíveis limpos traz o problema de aumentar sua demanda. A solução é reduzir a necessidade de combustível, explicou. Ruy de Góes, do Ministério do Meio Ambiente, argumentou que a longo prazo é importante reformular o transporte público. Mas a curtíssimo prazo é urgente atender à questão de saúde pública. Para isto, alternativas mais limpas como gás natural e biocombustíveis são necessárias.

Prioridade ao transporte público
Mas combustíveis limpos são uma pequena parte do pacote total, afirmou Lloyd Wright, da Fundação Viva, em Quito (Equador). “A sustentabilidade completa está longe de ser encontrada em um laboratório ou veículo ‘flex’”, alertou. Ele acredita que vias para pedestres, ciclovias e transporte público são soluções muito mais efetivas do que depender de um tipo de combustível. Mas ele avisa que essas soluções só serão adotadas pelo público se oferecerem velocidade, comodidade e segurança.

Em termos de transporte público, metrô pode ser preferível mas inviável. Experiências de sucesso, como Curitiba, Bogotá e Cidade do México, mostram que corredores rápidos de ônibus podem ser soluções eficientes e muito mais baratas do que o metrô. Um projeto em análise em Curitiba é o metrô cutting cover, explicou o Diretor de Negócios da Urbanização de Curitiba S.A. (Urbs) Clodualdo Pinheiro Júnior. É uma tecnologia mais barata do que o metrô convencional, porque as escavações se limitam a 7 metros de profundidade. Em cima dessa vala é posta uma tampa, sobre a qual se propõe a instalação de jardins e ciclovias.

Mas para realmente solucionar o problema, é preciso ousar. Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, contou sobre as mudanças feitas na capital colombiana. Segundo ele, a questão do transporte transcende questões científicas e técnicas. “As cidades têm que refletir que os seres humanos são sagrados”, diz. Elas têm que ser planejadas para promover igualdade social e bem-estar. Até agora foi dada prioridade à mobilidade dos carros mais do que à felicidade das crianças. E segundo ele, para sermos felizes precisamos caminhar. De outra forma sobrevivemos, como um passarinho sobrevive numa gaiola.

Peñalosa chega a considerações mais filosóficas do que políticas. Segundo ele, precisamos rever nossos ideais de felicidade. Talvez ter um carro possante e andar a 200 Km/h numa auto-estrada não traga tanta felicidade quanto passear numa bicicleta velha por uma ciclovia às margens de um rio. Acima de tudo, ele defende que as cidades devem contribuir para a igualdade de qualidade de vida entre as pessoas. Para o ex-prefeito, é impossível tomar decisões sobre transporte sem definir que tipo de cidade se quer. Sua proposta é construir cidades para as pessoas, que privilegiem o espaço público para pedestres.

É esse o rumo que ele tomou durante sua gestão de Bogotá: tornar a cidade mais agradável para pessoas do que para carros. Por isso, vagas para estacionamento perderam espaço para calçadas alargadas. Se os recursos são escassos, a prioridade vai para calçamento de vias para pedestres e bicicletas; se falta espaço, o que não cabe são os carros. É esta a visão de Peñalosa. E andar de bicicleta, não porque seja simpático ou divertido. Mas porque é um direito do cidadão deslocar-se de forma barata sem correr risco de vida.

Tais decisões exigem não só vontade, mas punho político. Porque as medidas para estimular o uso de transporte público não são necessariamente populares — como foi o caso do rodízio de carros na cidade de São Paulo, como lembrou o autor da medida Fábio Feldmann, atualmente Secretário Executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas. Peñalosa explica que em cidades onde os cidadãos utilizam transportes públicos, eles não o fazem por amor ao meio ambiente — mas porque há restrições sérias ao uso de veículos particulares.

Esforço conjunto
A conjunção de diversos setores propiciou uma possibilidade de estabelecer colaborações reais. Sigfried Rupprecht, da Iniciativa Civitas da Europa, se declarou aberto para troca internacional de lições práticas. Tanto a Europa como a América Latina têm experiências de sucesso que podem ser bem utilizadas em outros continent
es.

O grande problema em São Paulo, segundo o Secretário Municipal de Transportes, é a fiscalização. “Planos temos, mas a realidade nos passa por cima”, lamentou.Vontade política foi a necessidade mais invocada pelos palestrantes da conferência. John Gummer, Secretário do Meio Ambiente do governo de Londres, afirmou: “É possível mudar a vida de uma cidade. Muitas pessoas devem suas vidas a políticas de qualidade do ar. Demos ouvidos por tempo demais àqueles que pensavam que seria difícil demais fazer algo. Poderíamos ter salvo muito mais vidas”.


Na sessão de encerramento, foi lida e discutida a “Declaração de São Paulo”, que estará disponível para sugestões no site da IAL nos próximos dez dias. Após esse período será redigida a versão final do documento, que segundo Sérgio Sánchez será o marco estratégico que constituirá o principal objeto de trabalho da Iniciativa. Eduardo Jorge conclamou as cidades latino-americanas a se filiarem para participar do processo de construção coletiva de políticas.

Evolução e declínio do império neo-darwiniano

Alguns de nós (pres)sentimos a revolução emergente nos paradigmas da teoria da Evolução (e precisa?), mais empurrada pela evidência empírica do que pela genialidade das ideias. Esta parece que talvez tenha mesmo ficado aprisionada lá pelos fins do séc. XIX.

Do paradigma darwiniano restou a lei da Seleção Natural co-optada pelos obreiros da Nova Síntese neo-darwiniana em meados do séc. XX. O seu reducionismo genético extirpou da teoria da evolução um outro mecanismo, polémico é certo. O da transmissão de características adquiridas à descendência, que era o cerne da teoria da Evolução de Jean-Baptiste Lamarck.

O geneticista Sérgio Pena devota a sua última coluna mensal na Ciência Hoje online (Deriva Genética) à descrição de alguns casos em que aquela transmissão epigenética (i.e. além dos genes) de características pode ocorrer. Aqui está o parágrafo inicial do seu artigo Viva Lamarck (!?):

“Coitado do Jean-Baptiste de Lamarck! O naturalista francês (1744-1829) é lembrado principalmente pela idéia, hoje meio ridicularizada, de que as características adquiridas são transmitidas à próxima geração. Isto sempre me traz à mente a visão de uma girafa esticando o pescoço para alcançar os brotos mais altos nas árvores e depois dando à luz girafinhas com pescoços igualmente espichados. Mas pouca gente sabe que foi Lamarck, e não Darwin, quem primeiro falou em evolução. A descoberta fundamental de Darwin foi o mecanismo correto da evolução, a seleção natural. Pois bem, pasmem vocês, parece que em algumas situações muito especiais pode ocorrer a herança de caracteres adquiridos! Quero deixar claro não se trata de nada que possa ameaçar de maneira alguma o cânone darwiniano. Mas talvez seja suficiente para fazer aflorar em Lamarck, dentro de sua cova, um sorriso nos lábios.”

Curioso o trecho “Quero deixar claro não se trata de nada que possa ameaçar de maneira alguma o cânone darwiniano”. Mas lendo o parágrafo conclusivo da Origem das espécies de Charles Darwin, aqui na minha postagem anterior, facilmente se conclui que também Darwin aceitava que a variabilidade transmitida a gerações posteriores resultava de “ação indireta e direta das condições externas da vida, e pelo uso e desuso”, o que equivaleria hoje a aceitar a hereditariedade epigenética. De facto, a hipótese pangenética da hereditariedade de Darwin era compatível com a transmissão da caracteres adquiridos. Então como a “herança de caracteres adquiridos” poderia ameaçar o “cânone darwiniano”?

Talvez eu tenha entendido mal o uso da expressão e desde já apelo a Sérgio Pena para esclarecer a minha dúvida. Mas, mesmo antes do esclarecimento prestado, vou ser provocativo e sugerir que Sérgio Pena se referia de facto ao cânone darwiniano que resultou do recondicionamento conceptual brilhantemente realizado pelos artífices da Nova Síntese neo-darwiniana. Esta não resultou de unanimidade no universo do pensamento biológico, mas sim da vitória de uma escola de pensamento, a dos teóricos da genética populacional do mundo anglo-saxónico do pós-guerra. Parte importante do conhecimento em biologia, como a biologia do desenvolvimento embrionário, simplesmente não foi integrada na Nova Síntese, sendo que a discussão de como a informação hereditária é organizada para formar o organismo era, e ainda é, a grande questão central da biologia. Terá resultado desse recondicionamento o cânone darwiniano que é transmitido hoje aos garotos na escola e ao público leigo.

Evelyn Fox Keller, contou essa história da centralização do cânone darwiniano no gene de forma brilhante no seu “The Century of the Gene”, no final do séc. XX (2000). Mas Keller acredita que as boas ideias perduram e que sempre existirão cientistas em busca de desafios:

“No entanto, acredito que ainda muito há para ser dito. Darwin ensinou-nos a importância do acaso na evolução por seleção natural, mas também nos ensinou a importância do desafío. Com um espírito semelhante, sugiro que o desafío cria uma poderosa força diretora, também para a evolução do nosso entendimento dos processos da evolução biológica. Conseguimos já vislumbrar sinais dessa evolução no esforço dos teóricos evolutivos para fazer sentido dos mecanismos de estabilidade genética, evolutibilidade, e robustez do processo de desenvolvimento que análises moleculares começaram a revelar. Assim, prefiro terminar [o livro] com a previsão de que muito mais está por vir, talvez até um outro período Cambriano, só que desta vez não no âmbito do aparecimento de novas formas de vida mas de novas formas de pensamento biológico.”

Do original de Evelyn Fox Keller The Century of the Gene (2000).
Tradução de João Alexandrino.

Pois escrevo estas linhas simplesmente para celebrar o acerto da previsão de Keller, revelado não só em diversos artigos científicos recentes (últimos 5-10 anos) mas especialmente no livro iluminado de Eva Jablonka e Marion Lamb com o título Evolution in Four Dimensions (2005). Um livro fundador de uma ideia mais abrangente de Evolução, um outro cânone, que finalmente parece fazer justiça à genialidade de Charles Darwin. A literatura científica maravilhosa de Jablonka e de Lamb, as belas ilustrações de Anna Zeligowski e os diálogos com Ifcha Mistabra estarão comigo nas próximas semanas, talvez meses, aqui neste blog. Fiquem por perto e estejam atentos aos prenúncios de queda do império neo-darwiniano. Viva Darwin!

Manguezais em perigo


Manguezais de ilhas no Pacífico estão seriamente ameaçados devido a mudanças climáticas. É o que diz o relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

Os bosques de mangue são ecossistemas costeiros típicos de locais de águas salobras, como estuários. Sua importância é imensa, pois têm características biológicas únicas e um valor ecológico e econômico inestimável, pois são essenciais para a reprodução de boa parte dos organismos marinhos, inclusive aqueles com grande valor econômico.

Sua localização costeira torna os manguezais intrinsecamente vulneráveis a variações no nível do mar. As ilhas do Pacífico, porém, estão em situação ainda mais delicada do que a média. É o que mostra o documento, divulgado esta semana (18 de julho), que apresenta um quadro completo incluindo propostas de planejamento ambiental para a região.

Leia também notícia divulgada pelo portal da ONU (em espanhol).

O paradigma darwiniano

Aí está, numa tradução minha para o português e na sua forma original, em todo o seu esplendor poético, o parágrafo conclusivo da obra fundadora do pensamento darwiniano. Quase 150 anos volvidos, é importante pensar na evolução das imagens mentais que dele têm sido transmitidas. Talvez para concluir que quando alguém se refere hoje ao paradigma darwiniano, sempre deixa de fora uma das leis formadoras da vida segundo Charles Darwin. Qual e por que motivo? Quem souber terá a minha admiração.

Coitados de nós! Volvidos 150 anos, finalmente os porcos parecem querer juntar outra vez as pérolas lançadas pelo venerável CD.

“É interessante contemplar a margem densa, vestida com muitas plantas de muitos tipos, aves cantando nos arbustos, insetos diversos borboleteando, e vermes rastejando na terra húmida, e refletir que estas formas de construção elaborada, tão diferentes umas das outras, e dependentes entre si de forma complexa, foram todas produzidas pela ação de leis que nos rodeiam. Estas leis, no seu sentido mais lato, sendo: Crescimento com Reprodução; hereditariedade que está quase implícita na reprodução; Variabilidade originada pela ação indireta e direta das condições externas da vida, e pelo uso e desuso; uma Taxa de Aumento [populacional] tão elevada que leva a uma Luta pela Vida, e como consequência desta à Seleção Natural, originando a Divergência de Caracteres e a Extinção das formas menos aptas. Assim, da guerra da natureza, da fome e da morte, surge o objeto mais admirável que somos capazes de conceber, nomeadamente, a produção dos animais superiores. Existe grandeza nesta visão da vida, com os seus vários poderes, tendo sido originalmente insuflada em algumas poucas formas ou em uma só; e que, enquanto este planeta seguiu os seus ciclos de acordo com as leis fixas da gravidade, desse início tão simples, inúmeras formas mais belas e mais maravilhosas foram geradas, e ainda são, através da evolução.”

Parágrafo final de “The Origin of Species” de Charles Darwin (1859).
Tradução de João Alexandrino.

“It is interesting to contemplate an entangled bank, clothed with many plants of many kinds, with birds singing on the bushes, with various insects flitting about, and with worms crawling through the damp earth, and to reflect that these elaborately constructed forms, so different from each other, and dependent on each other in so complex a manner, have all been produced by laws acting around us. These laws, taken in the largest sense, being Growth with Reproduction; inheritance which is almost implied by reproduction; Variability from the indirect and direct action of the external conditions of life, and from use and disuse; a Ratio of Increase so high as to lead to a Struggle for Life, and as a consequence to Natural Selection, entailing Divergence of Character and the Extinction of less-improved forms. Thus, from the war of nature, from famine and death, the most exalted object which we are capable of conceiving, namely, the production of the higher animals, directly follows. There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved.”

The concluding paragraph of Darwin’s Origin of Species, First Edition (1859).

Rio Solimões sem óleo

A última edição da Ciência e Cultura traz um dossiê sobre a Amazônia. Eu tive a oportunidade de aprender sobre o projeto Piatam. É uma iniciativa da Petrobras, que em associação com a Universidade Federal do Amazonas realiza levantamentos ecológicos ao longo do rio Solimões, num trecho com trânsito de embarcações transportadoras de óleo. O resultado é um mapeamento ambiental que que está sendo utilizado para mais do que traçar estratégias de resposta a possíveis derramamentos.
O mapa acima mostra comunidades ribeirinhas com as quais o Piatam está desenvolvendo projetos diversos.
Leia mais na reportagem.

Só… um milhão de anos!?

Um novo oceano poderá formar-se, separando o nordeste da Etiópia e Eritreia do resto de África. É só esperar um milhão de anos para ter a certeza! A notícia que transcrevo é da Agência Lusa, com base num artigo publicado na Nature.

Será que não dá para acelerar um pouquinho o processo, que tal alguns metros por ano? Talvez os norte-coreanos pudessem testar seus mísseis no deserto de Afar, o epicentro de toda essa atividade tectónica. A comunidade internacional, liderada pelos radicais Bushiitas, com certeza não desdenharia da oportunidade de explorar futuros recursos que viessem a ser encontrados neste Golfo da Eritreia. E o Brasil não pode ficar de fora! Afinal, com o aumento do tráfego aéreo de 15% ao ano (e a Varig lá se aguentou!), não há auto-suficiência petrolífera que resista. A Petrobras não pode ficar para trás!

Veja-se na foto ao lado, a fenda de uns míseros oito metros. Assim não dá!
Eu, por mim, não quero esperar 1MA para navegar nesse novo oceano. Quem sabe dá para plantar umas ilhotas paradisíacas lá pelo meio?

Agência Lusa – 21.07.2006
Fractura na crosta terrestre pode formar novo oceano
No deserto africano de Afar

Uma recente fractura da crosta terrestre no deserto africano de Afar, perto do Mar Vermelho, poderá separar a Etiópia e a Eritreia de África e formar um novo oceano, de acordo com um estudo publicado hoje a revista “Nature”.

Com base em imagens de satélite captadas antes e depois do aparecimento da fractura, em Setembro de 2005, cientistas britânicos, norte-americanos e etíopes concluíram que atingiu oito metros de profundidade em apenas três semanas, ao longo dos seus 60 quilómetros, sendo lentamente preenchida com magma (rocha fundida).

Foram as imagens do satélite Envisat da Agência Espacial Europeia (ESA) que permitiram aos cientistas analisar em primeira mão a evolução deste fenómeno geológico e constatar a sua rapidez.

As observações levaram também os cientistas confirmar que as duas enormes placas tectónicas que formam a África e a Arábia estão a separar-se devido à injecção de magma.

“É claro que a subida de rocha em fusão está a separar a África da Arábia”, afirmou o principal autor do estudo, Tim Wright, da Universidade de Leeds.

O processo começou há cerca de 30 milhões de anos, quando uma massa de lava se elevou por debaixo da crosta terrestre e separou a península arábica de África, criando o Mar Vermelho, e levará outros milhões até ficar concluído.

Segundo os cientistas, trata-se de uma das poucas zonas do mundo onde um continente está a ser activamente separado por movimentos em curso nas placas tectónicas, num processo considerado semelhante ao que deu origem ao oceano Atlântico.

O estudo refere que a velocidade de separação das placas tectónicas africana e arábica é semelhante à do crescimento das unhas dos dedos (alguns centímetros por ano).

Como resultado dessa separação de longo prazo, o nordeste da Etiópia e da Eritreia irá destacar-se do resto da África, formando eventualmente um novo oceano.

“Não sabemos ao certo se irá aparecer um novo oceano no local, mas as perspectivas são boas”, ironizou Wright. “Bastará deixar passar um milhão de anos”.

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