Muitos credos, uma só busca

A discussão de fevereiro no Roda de ciência mostrou que quando o assunto é ciência e religião, há uma tendência forte de se polarizar e escolher campos. Mas não precisa ser assim. Acabo de ler The Creation, de Edward O. Wilson, onde ele defende justamente que religiosos e não religiosos podem ter muitas diferenças, mas as semelhanças são muito mais importantes.

Há quem acredite que Deus – ou alguma divindade – fez o mundo; há quem defenda que a ciência já conseguiu explicar muito do processo evolutivo e não resta dúvida: o mundo não foi criado como ele é hoje. Ao contrário, quem vê o mundo com olhos científicos não tem dúvidas de que ele passou por milhões de anos de evolução em que formas de vida mais e mais complexas foram surgindo conforme pressões do meio ambiente.

O grito de Wilson em The Creation é simples: não importa como o mundo surgiu. O que importa é para onde ele vai. E do jeito que vamos, vai para o brejo (metafórico, porque os brejos naturais também caminham para o cadafalso). E se não concordamos sobre quem fez o mundo, restam poucas dúvidas (5%, segundo o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) sobre quem é responsável por sua destruição: nós mesmos – e isto não é metáfora, eu e você estamos incluídos nesse “nós”, por mais consciência ecológica que tenhamos. E se não é ainda, nosso objetivo deve ser um só: preservar este planeta.

The Creation é uma carta para um pastor batista – o ramo da fé que fez parte da infância do próprio Wilson. Seu texto é sucinto, poético e envolvente. E convincente. Através de exemplos e explicações sobre a natureza, o autor deixa claro para qualquer leigo que o funcionamento da natureza é complexo e depende de interações tão inúmeras que não há como assumirmos o controle. E mais: afirma que espécies que consideramos insignificantes, como bactérias ou insetos, podem cumprir papéis tão essenciais que sua extinção causa desequilíbrios fatais ao ecossistema no qual vivem. Mas se o ser humano se extinguisse, os ecossistemas naturais não sofreriam nada com isso. Muito pelo contrário.

Para ajudar a salvar um mundo natural que sequer conhecemos (ele estima que 80% das espécies ainda estejam por descobrir, mas se não fizermos nada metade dos seres vivos terrestres estarão extintos até o fim deste século), Wilson invoca o fascínio natural que temos pela natureza. Segundo ele toda criança é um explorador, um naturalista, um selvagem no bom sentido. Se estimularmos isso em nossas crianças, elas podem tornar-se advogados, médicos ou engenheiros. Mas serão naturalistas, e isso é o que importa.

E ao endereçar seu texto a um pastor, prega uma união que transcenda credos: “…nossas diferenças metafísicas têm efeito mínimo sobre a conduta de nossas vidas. Meu palpite é que eu e você somos mais ou menos igualmente éticos, patrióticos e altruístas. Somos produtos de uma civilização que surgiu tanto da religião como do Iluminismo baseado em ciência. Não teríamos problemas em participar do mesmo júri, lutar as mesmas guerras, santificar a vida humana com a mesma intensidade. E com certeza também repartimos um amor pela Criação”.

Quando, ainda menino, se apaixonou pela natureza, Wilson enveredou pelo estudo da evolução e deixou a religião para trás. Tornou-se um biólogo de grande renome e dedica sua vida a entender e proteger a natureza. Através do convite ao pastor, ele inclui nesse caminho aqueles que não acreditam na teoria da evolução. E é um convite que pode render frutos. Na semana passada saiu no Estadão (ver aqui no Jornal da Ciência on-line) uma entrevista com Paulo Barreto, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em que afirma que o discurso religioso tem mais impacto do que o científico, quando se trata de defender o meio ambiente.

Demo-nos as mãos. Somos todos irmãos neste mundo.

A foto acima, do cerrado no Parque Nacional de Emas, é de Frans Lanting, que ilustra também a capa de The Creation. Suas fotos são absolutamente deslumbrantes, vale visitar seu site.

Este texto é parte da discussão de fevereiro no Roda de ciência. Comentários aqui, por favor.

P.S. Depois de escrever este texto descobri que o livro de Wilson será publicado no Brasil pela Companhia das Letras, mas a data é ainda incerta.

Ode a Damásio e o conceito de DEUS


O corpo e a mente na origem da consciência coletiva de…DEUS

Noto a seguinte citação do filósofo francês do séc. XVII Mallebranche, no livro do neurocientista português António Damásio “Feeling of what happens: body and emotion in the making of consciousness” (Harcourt Brace, 1999), publicado no Brasil com o título “O mistério da Consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si” (Companhia das Letras, 2000):

É através da luz e de uma ideia clara que a mente vê a essência das coisas, números, e extensões. É através de uma ideia vaga ou através do sentimento que a mente julga a existência de criaturas e que conhece a sua própria existência.

Lendo e ouvindo o conhecimento da ciência nascente de Damásio, refinando empiricamente o pensamento de filósofos como Aristóteles, Demócrito e Descartes, entre outros, tomo consciência mais profunda do que era uma verdade intuitiva. Não existe separação entre corpo e mente, entre corpo e a alma das emoções e dos sentimentos. Um é produto do outro e vice-versa, num processo de conhecimento integrado do indivíduo, e de homeóstase do seu meio interior, e deste feito indivíduo para conhecer o meio exterior.

Milhões de enervações energizadas levam constantemente informações de todo o corpo a centros de processamento que aferem o estado do corpo. Esse estado do corpo é reproduzido sob a forma de uma consciência básica do indivíduo, a consciência de si próprio. São alterações neste estado que provocam estados de EMOÇÃO, reações básicas e inatas, que têm papel fundamental na sobrevivência do indivíduo. Estas EMOÇÕES podem parecer conscientes ou inconscientes para o indivíduo, ser processadas, memorizadas e usadas a qualquer momento, sob a forma de SENTIMENTO, existindo este já independentemente do estímulo original. Exemplo: quando sofremos uma queimadura, produz-se uma EMOÇÃO que nos leva a reagir instintivamente; essa EMOÇÃO será armazenada sob uma forma de consciência estendida, o SENTIMENTO, que poderá ser ativado sempre que pensarmos em queimadura. Esse SENTIMENTO poderá futuramente ser ativado de forma voluntária ou involuntária. Damásio mostra-nos como essas consciência básica e estendida são o fundamento de uma estrutura de consciência superior, que compreende a razão, inteligência e criatividade. Que sendo fundamental à consciencia de si, essa EMOÇÃO e SENTIMENTO estão sempre presentes nas manifestações da consciência superior.

Mallebranche, como outros antes e depois dele, parecia já intuir que embora o ser humano tome consciência superior do mundo através de sistemas de armazenamento e organização de informação e do seu processamento criativo e racional, a consciência, a razão e a criatividade são co-adjuvadas e guiadas pela emoção, como forma primeira de percepção, e pelo sentimento como forma mais avançada de processamento, mimético ou criativo, da memória das emoções. Onde isto me leva? A estabelecer uma analogia que me conduz ao conceito de DEUS, e à conclusão da sua existência.


O conceito de DEUS

DEUS existe? Estendendo livremente o pensamento de Mallebranche e a ciência de Damásio, DEUS existe como produto daquela visão mais esfumada da realidade, do seu processamento e transformação criativa. Como a ciência procura ser o produto mais representativo da consciência superior, razão e criatividade, DEUS e o seu sub-produto civilizacional, a religião, resultam da produção de um sentimento criativo de DEUS, talvez processamento da emoção com funções homeostáticas que Damásio tão bem descreve, transportadas para um contexto coletivo de construção civilizacional. Qual a sua origem? Por complexo que seja desvendar a história, algumas pistas podem ser buscadas no processo de construção de coletivos humanos gradualmente mais alargados. Deixo Damásio e procuro agora inspiração em Jared Diamond (de “Germs, guns and Steel” – Norton & Co. 1999; no Brasil, “Armas, germes e aço” – Record 2001).

Diamond apresenta-nos a ideia de como a religião organizada (diferente da espiritualidade típica de indivíduos ou de pequenos grupos, que precede a religião) acompanhou o crescimento e estruturação das sociedades humanas, desde o bando, tribo, ‘régulados’ até às grandes civilizações-estado. O título do capítulo onde o tema é abordado é interessante e revelador: “From egalitarianism to kleptocracy”. A hipótese discutida é a de que o poder secular de reis e o divino dos sacerdotes foram no início formas de transferência de poder do indivíduo, integrado em pequenos grupos aparentados (bando, tribo), para entidades representativas do interesse coletivo (?) para resolução de disputas em grupos grandes de indivíduos largamente não-aparentados e desconhecidos (‘régulados’ e estados). E isto porque no início da nossa existência como espécie, não éramos socialmente muito diferentes de chimpanzés, vivendo em pequenos grupos cujos indivíduos não hesitavam em matar qualquer indivíduo estranho ao grupo. Diamond discute evidências (baseadas em populações da Nova Guiné) de que, no início da formação de sociedades mais abrangentes, seria comum encontrar indivíduos desconhecidos tentando encontrar laços de parentesco entre si, mesmo que afastados. Poderiam demorar horas, até decidirem se deviam matar-se ou não! Conseguem imaginar? Bárbaro, mas delicioso! Bom, resumindo, existe uma tendência apoiada por fatos históricos de que quanto maior a organização política e religiosa de uma sociedade, levando a uma maior identificação do indivíduo com o coletivo, maior o sucesso dessas sociedades ao longo da história da humanidade. Daí se poder pôr a hipótese de as tendências à religião ou outras formas de poder organizado terem resultado de um processo seletivo. Faz sentido embora, como qualquer outro fato histórico, seja difícil de provar de forma completamente científica.

Onde entraria Damásio nesta história? A ciência e religião como corpos de conhecimento humano têm necessariamente uma génese comum, mas talvez com objetivos distintos, num contexto evolutivo. São transposições para uma esfera coletiva de algo que já se manifesta no indivíduo. O conceito de DEUS seria análogo
à emoção, que desempenha um papel homeostático, que nem sequer precisa ser notado conscientemente pelo indivíduo. A religião representaria então a transposição do SENTIMENTO de DEUS, advindo da EMOÇÃO, para a esfera coletiva de organização associada à ordem social. Para isso teria sido necessário inscrever o conceito de DEUS na cultura, representando-o na linguagem simbólica, dando-lhe forma, doutrina, corpo e espírito. Nesse sentido, DEUS e a religião tornaram-se omnipresentes na maior parte das civilizações humanas, de forma que até quem rejeita o conceito e as suas manifestações reais não se liberta da sua influência. A cultura como forma de memorização coletiva, um cérebro que complementa o indivíduo, e o enforma, de forma a que ele se crie sob a memória da história das civilizações. É desta forma eficiente que nos podemos transformar e evoluir mais rápido que qualquer outra forma de vida no planeta. Mesmo que as bactérias, se tivermos em conta a evolução cultural.

DEUS existe como o AMOR e o MEDO, as ESPÉCIES e sua origem pela EVOLUÇÃO ou a RELATIVIDADE. Isto é, como conceito, como forma de compreender e produzir o mundo em que vivemos. Tal como a emoção e o sentimento são essenciais para e evolução da inteligência superior, evoluida apenas nos humanos, DEUS e a religião têm acompanhado a ciência na evolução construída das civilizações humanas. Podemos argumentar sobre as diversas origens materiais deste conceitos, mas seria ilusório apoiar a imaterialidade de apenas alguns deles. Como Damásio nos ensina, não há como fugir da materialidade na produção de CONSCIÊNCIA.

DEUS existe para além da nossa consciência coletiva histórica? Não sei, como o Freud do texto do Rogério Silva, não penso nisso. Decidi que a minha consciência, seja básica, estendida ou superior, não pode debruçar-se seriamente sobre o assunto. No entanto, tenho aprendido a respeitar, e até admirar, aquelas consciências iluminadas (no sentido de Mallebranche) que o conseguem. Desde que todos tenhamos plena consciência de que a humanidade ultrapassou, em alguns lugares mais que noutros, um certo ponto da sua ainda jovem história. Assim, devemos aceitar e aprofundar a pluralidade de formas de consciência humana, entender os seus mecanismos e contextos de funcionamento, compreender que embora indissociáveis na construção da natureza humana, não devem ser confundidas. Penso que esta visão leva ao pluralismo de Isaiah Berlin, mantendo a clareza tantos dos conceitos como do entendimento da sua função.

As religiões têm capacidade de evoluir, acompanhando a ciência na sua busca de falsificação/corroboração da matéria. Isso tem-se verificado em alguns casos, como a aceitação da teoria da Evolução por parte da Igreja de Roma. Esse processo é lento porque existe uma inércia inata na evolução dos paradigmas, que também é comum à ciência. A religião deveria voltar às suas origens, buscando aquilo que ainda não pode ser abordado pela ciência da matéria, e aí procurar e satisfazer a necessidade do conceito de DEUS.


Apophenia


Vejo luz. Um caminho com atalhos e desvios que desemboca num outro que ladeia um vale apertado, onde se acoita um rio estrondoso. À luz da lua plena, noto pequenas criaturas deslizando pelas bermas dos caminhos em direção às margens húmidas dos riachos e do rio. Umas de um lado, outras do outro, daquele rio, assim separadas, se juntam aquelas e aqueloutras em orgias nupciais, apartadas. O tempo passa, as paisagens ligeiramente alteradas, pelos climas mudantes, às vezes aquelas se juntam àqueloutras em um grande bacanal. Enevoada, a visão daquele espectáculo assombroso de caudas entrelaçadas em extase não me deixa perceber exatamente por onde atravessam umas e outras, nem onde se encontram. Apenas vejo que o rio corre mais estrondosamente sobre aquele vale, às vezes. Vejo a luz, mas não consigo ver nitidamente o passado, entender a sucessão dos tempos na vida daquelas criaturas de assombração.

A luz esvai-se. Estou num quarto escuro, talvez da próxima vez dure mais tempo e consiga ver algo mais. Não desisto… A minha pesquisa encontra-se num momento chave, um monte de indícios permitem-me pintar um cenário provável, mas uma questão ainda me incomoda. Temo que dependa daquelas visões de sonho para encontrar uma solução. Sei que as emoções resultantes são uma forma de concentrar e expelir tensão acumulada, reforçando a minha paixão e perseverança no tema. Metafísica, uma certa religiosidade incidindo na forma como um dia (e até hoje!) transmitirei a minha percepção daquele mundo, real e imaginário, ao meu semelhante. Isso não transparecerá nunca nos artigos científicos que publiquei desde então. O equilíbrio, sanidade e discernimento mantêm-se intatos…


As vozes ecoam no auditório. Gospel, cânticos em Brooklyn, Nova Iorque. Algo de simples mas revelador se passa ali. Não sei a que propósito, penso que a Ciência como corpo de percepção e organização de conhecimento não é capaz de produzir aquele tipo de significados, de sentido, de reunião e pacificação das almas. Histórias religiosas são ali partilhadas, mas isso não me incomoda como nalgumas celebrações católicas me incomodara desde a infância.
“Yeah baby, Alleluiah!” Toco na sua mão, entrelaçando-a na minha. É negra, enrugada pela idade, bela e reconfortante, produz um efeito em mim como só a beleza africana é capaz. Ecos da marimbada de negros indivíduos em êxtase que presenciei aos três anos de idade. Existem ali mãos de todas as cores que se entrelaçam, mas aquela foi, por uns instantes, só minha!


Os batuques de Adnan e Stuart, ressoam na noite de Berkeley, California.
Não há nenhum negro ali, exceto eu. Sem necessitar de aditivos químicos, entro em transe, imitando o que ficou gravado no corpo-mente dos meus três anos de idade. As endorfinas produzidas pelos limites físicos da exaustão fazem ver que posso ser ou sentir qualquer coisa, sempre que quiser. É só voltar às minhas origens africanas.


O sol estende o seu ardor sobre montanhas de pedregulhos fumegantes. O Lada do nosso guia e motorista Sacha desloca-se com seus pneus gastos, ao longo da estrada deserta e da canícula. No final da nossa expedição, ainda uma viagem agora aos desertos daquele país estranho e empobrecido pelos filhos de Estaline, mas ainda muito, muito belo. Os monges não nos querem deixar entrar no mosteiro cravado na rocha, daquelas terras desérticas do sul da Geórgia, próximo da fronteira com o Azerbaijão. Entramos depois de alguma insistência dos nossos amigos, e de alguns laris para ajudar a vida simples e austera do mosteiro…. Esculpidos na rocha, mal se notando que o são, os aposentos para os hóspedes em retiro religioso, alguns em isolamento total, remetem-nos para outros tempos pouco representados no meu imaginário. Penso nos primórdios da busca por um sentido para o mundo e para vida, a génese da busca pelo conceito de Deus e, em última análise, do poder da ciência. Estes homens representam-se apenas a eles próprios, com ou sem religião, voluntários numa viagem de busca de si próprios e da natureza humana. Que filosóficas visões resultarão de tão prazerosa jornada, penosa aos olhos do homem comum. Artes de criação, como terão sido um dia as diversas criações humanas de DEUS. Percebo pela primeira vez que, também eu, sou um religioso sem religião.


V. afirmou que acredita em duendes… “V.!!!” – retorqui-lhe eu – “Olha que assim não chegas ao mestrado, pelo menos sob a minha orientação!”. Rimos todos! Por mais firme que seja, e serei[!], com a necessidade de rigor, clareza e concisão, na produção de conhecimento científico, espero que a V. continue a acreditar em duendes ou em qualquer outra entidade que, embora não tão nítida, lhe proporcione uma vida inspirada e um pouco mais iluminada. Sinceramente!


O neurocientista António Damásio mudou-se recentemente da universidade do estado de Iowa para a Califórnia para dirigir o Instituto do Cérebro e da Criatividade da University of Southern Califórnia. Se quiserem podem ouvir uma das suas últimas conferências (Princeton University, 16/10/2006) aqui.


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É carnaval

A foto acima, de Tuca Vieira, eu surrupiei da galeria de musas do UOL

Adoro carnaval.
Adoro o surreal das notícias, discussões sobre o que é afinal a nudez total, volumes de silicone, o drama dos carros alegóricos pifados, a filosofia que encontra voz nos samba-enredos. E os clichês – a alegria, o dia em que a faxineira é rainha, naqueles dias tudo pode etc.
Tendo a ficar caseira, preguiça de enfrentar congestionamentos e coisa e tal. Mas faço planos, desta vez é pra valer: ano que vem vou agitar um programa carnavalesco.
Então fico em casa, vejo desfiles, leio jornal, armo um carnaval particular com um sambinha na vitrola (perdoem a palavra anacrônica, mas tão mais bonita que os equivalentes modernos).
Meu amigo Rafa outro dia me lembrou de uma experiência carnavalesca que tive na Califórnia, se não me engano em 2000. Ele viveu a aventura pela minha descrição e guardou na memória até hoje. Fui procurar meu texto e eis, abaixo.
Ler me deu vontade de pular carnaval, para celebrar ser esta a minha terra.

Carnaval de primeiro mundo

A juventude de Monterey se concentrava numa esquina, em plena celebração de Mardi gras. Moças escassamente vestidas, todos com colares de contas coloridas de plástico. Parecia ser o acontecimento do ano.

A programação incluía eventos diversos: desfiles, danças, música. Chegamos por volta das dez da noite e encontramos os dois bares com música ao vivo lotados, com filas na entrada. A maior parte dos foliões estava simplesmente de pé na rua, jovens pelo visto satisfeitos por estarem apinhados. Como regem as leis locais, não bebiam nem ouviam música. Só estavam ali, compartilhavam animação. Acima das cabeças surgiam filmadoras, tudo era registrado.

Um dos bares — campeão de fila — ficava no segundo andar, com uns janelões-vitrines que davam para a tal esquina. De lá surgiu a grande sensação: moças celebravam a vitória de ter conseguido entrar e na vitrine levantavam camiseta e sutiã. O público na rua delirava com a peitaria e atirava seus colares de contas (pagamento?), que elas tentavam pegar debruçando-se pra fora da janela já com os peitos guardados. As câmeras de vídeo todas acionadas.

A atração durou quem sabe uns vinte minutos. Enquanto todos admiravam o espetáculo, uma tropa de choque esperava, na beira da multidão. Dois carros de polícia um atrás do outro, de cada lado um policial a pé com seu cachorro, ladeados por policiais a cavalo. Atrás, um carro de bombeiros. Posicionados, prontos para impedir maiores manifestações da população desvairada.

Com certeza influenciadas pela presença da lei, duas moças acharam por bem resolver suas diferenças no tapa. Sobrou bota prum lado, jaqueta pro outro. Formou-se uma roda em volta, igualzinho acontecia na escola. Elas se puxavam os cabelos, trocavam sopapos. Os policiais, finalmente com motivo para ação, intervieram e recolheram as desordeiras. Com os alto-falantes do carro de polícia avisaram para a multidão retirar-se, liberar a rua. A turba ignorou, embevecida ainda com o show da vitrine; grande decepção quando as moças foram substituídas por um policial de costas para a janela, com sua lanterna apoiada no ombro apontando pra dentro.

A tropa da rua então avançou. Com o fim do show erótico, a atração passou a ser a ação policial. O clima ficou tenso e quando começaram a chover garrafas sobre a coluna da ordem, meus amigos decidiram pela retirada.

Eu corria sério risco de ficar ali boquiaberta, até me cair uma garrafa na cabeça ou ser detida como desordeira.

Onde está Monbiot?

Tell people something they know already and they will thank you for it.
Tell them something new and they will hate you for it.

George Monbiot


Tenho verificado ultimamente que as afirmações acima são largamente verdadeiras. Elas servem para introduzir George Monbiot, britânico, activista, ambientalista, jornalista e professor universitário. Venho seguindo a sua coluna semanal do The Guardian, desde que li “Manifesto for a new world order” (The New Press, 2003). Os seus textos são admiráveis pela riqueza e clareza informativas, de fontes diversas, compondo artigos de opinião bem fundamentados que considero exemplos do tipo de jornalismo reflexivo que me interessa ler e ouvir. Podem ser lidos aqui.

Acabo de ler “Heat: how to stop the planet burning”, (Penguin Books, 2006) o mais recente livro de Monbiot sobre o que podemos e devemos fazer para evitar as consequências mais catastróficas do aquecimento global.

Hoje, após anos de dúvida e negação, parece consensual que o aquecimento global por ação humana é um fato real e mensurável. Mesmo alguém muito distraído terá notado a reverberação pela imprensa do último relatório do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC), que pode ser consultado aqui.


Heat
é um manifesto para a mudança baseado numa pesquisa bibliográfica sólida. A pesquisa mais recente sugere que se a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera se mantiver nos níveis atuais, a temperatura global aumentará cerca de 2 graus centígrados (relativamente ao séc.
XIX). Este é o limiar acima do qual se prevê a ruptura do equilíbrio nos grandes ecossistemas: em vez de absorver CO2, a moribunda floresta amazónica começará a libertar milhões de toneladas do composto. Longe dali, à medida que gelos imemoriais começarem a derreter, o solo libertará gases que aumentarão o efeito de estufa. As alterações climáticas terão entrado num processo de retro-alimentaçao positiva que conduzirá ao descontrolo do clima que hoje conhecemos.

Para evitá-lo, Monbiot afirma que devemos evitar que o aquecimento global ultrapasse aquele “limiar crítico”. É possível que já tenhamos ultrapassado o ponto de não retorno. Mas Monbiot escreve-nos “com um espítito otimista”.

E a ameaça é tão óbvia que não vale mais perder tempo combatendo os argumentos dos mais cépticos!

Após dois capítulos introdutórios, Monbiot começa a desenrolar aquele que é o primeiro e único documento, até ao momento, que avança propostas concretas sobre como mudar as nossas vidas para salvar o clima do planeta. Isto, sem esquecer os custos de tamanha tarefa, claro! Só por este motivo, já teria valido a pena ter lido o livro.

O que fazer então?

Necessitamos de uma redução global de 60% nas emissões para evitar atingir o limiar crítico. O que significa que, em média, as nações mais ricas terão de cortar as emissões em 90%. No Reino Unido, será necessário passar de 2.6 toneladas de CO2 emitidas anualmente per capita para 0.33 toneladas. Se à primeira vista parece impossível, Monbiot trata de convencer-nos que uma nação industrial de tamanho médio como o Reino Unido “pode ser descarbonizada e permanecer uma economia moderna “. Como? Primeiro, todos os cidadãos do planeta devem ter o mesmo direito a emitir de gases que produzem efeito de estufa, o que equivale a adotar um racionamento global per capita em conjunto com um mercado de emissões de carbono. Para tornar o sistema de racionamento realizável, os governos precisam investir pesadamente em infraestruturas energéticas alternativas. Isso significa redesenhar sistemas de transporte para nos curar da nossa (tóxico-)dependência do uso individualista do automóvel, promover a transição para sistemas de energia renovável e centrais de gás natural com tecnologias de captura e armazenamento de carbono, e uma nova rede de energia que permita aproveitar a energia produzida por turbinas eólicas instaladas nas plataformas continentais marinhas e energia solar produzida no… Sahara! Monbiot explica-nos como tudo isto será tecnologicamente e economicamente possível, desde que os governos estejam dispostos a fazer a sua parte. Mas não existem governos sem seus eleitores. NÓS!

Além de alterações na matriz energética, é preciso melhorar a eficiência do uso da energia a vários níveis. Uma área com grande espaço para ganhos de eficiência é a da construção de edifícios e habitações. Quem já não ouviu falar de edifícios inteligentes? Pois é necessário investir para os construir e Monbiot faz propostas concretas que mais uma vez se aplicam ao Reino Unido, onde a demanda de energia residencial entre 1990 e 2003 subiu mais do dobro da média nacional. Monbiot apresenta soluções engenhosas para cortar as emissões de carbono, mas preservando, em grande parte, o confortável estilo de vida ocidental. Com a importante excepção de uma extravagância bem carbonada de que tanto gostamos: VOAR! Um vôo Nova Iorque–Londres produz mais gás com efeito de estufa por passageiro que a totalidade da quota anual individual do sistema de racionamento de emissões de carbono. “O crescimento na avi
ação e a necessidade de combater o aquecimento global não são compatíveis.”
Um corte nas emissões de 90% significa o fim das viagens para fazer compras em Nova Iorque ou safaris no Quénia. A alternativa é acreditarmos “que estas atividades se justificam apesar do sacrifício da biosfera e das vidas dos mais pobres”. Sim, porque os primeiros que sofrerão com o aquecimento global (e já sofrem!) são as populações do Bangladesh ou de muitas regiões de África. Será que a fome e a guerra de etíopes e sudaneses valem o sacrifício do nosso confortável desperdício de energia?

O problema é que parece que vivemos num estado de negação da catástrofe que poderá um dia cair-nos em cima. Apesar de toda a informação que circula, quem se preocupa? Onde estão as grandes manifestações de ativistas? Monbiot afirma que a juventude, filha daquela que vivia em manifestações nos anos 70 e 80, vive hoje demasiado…endividada! Apesar disso Monbiot pretende acordar-nos e persuadir-nos de que vale a pena combater o aquecimento global. Ou, pelo menos, que “todos fiquemos de cama, de tão deprimidos, reduzindo assim o consumo de combustíveis fósseis”.

Heat é ao mesmo tempo um “manifesto e um exercício intelectual”. Pela impressionante combinação de detalhes práticos e pensamento criativo, é um documento único e é o único documento do momento que pode servir de guia para a ação. Monbiot conclui que “é possível salvar a biosfera” mas temos de estar preparados para aceitar que limitar a nossa liberdade de poluir significa uma mudança nas nossas vidas.

Mas atenção, a receita de Monbiot não é diretamente transponível para países em desenvolvimento ou emergentes como o Brasil. Esses necessitam de encontrar as suas próprias soluções, com certeza baseadas nos princípios gerais encontrados em Heat. Onde está o Monbiot brasileiro?

Heat: leitura agradável e acessível ao público em geral. Obrigatório neste ano de 2007. Para ler, reflectir e AGIR, com coerência!

Procura-se!

Esta semana descobri um livro lindo, que recomendo a quem queira presentear crianças. Procura-se – Galeria de animais ameaçados de extinção é uma coletânea, produzida pela Companhia das Letrinhas, de textos sobre animais brasileiros em perigo, inicialmente publicados na Ciência Hoje das Crianças.

Cada texto é de um autor diferente, e traz uma ficha técnica sobre o animal e um texto com curiosidades e informações diversas – além de uma foto e uma lindíssima ilustração de Mario Bag.

Bacilo na tribo

Apesar do extenso alcance do Programa Nacional de Imunizações, a tuberculose ainda impera em populações indígenas brasileiras.

Leia matéria na Pesquisa Fapesp.

As moças suruí ao lado foram fotografadas pelo médico Paulo César Basta, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Cada um faz, cada um conta

Respondo aqui à proposta da Lucia Malla, de refletir sobre o que cada um de nós faz para contribuir para que este mundo se sustente – conosco e nossos conterrâneos (no sentido amplo de Terra) animais e vegetais em cima dele.

Aqui vão três manias minhas que, espero, são uma pequena contribuição.

– Evito desperdícios. De comida, de energia, de água… A sociedade consumista infunde nas pessoas um descaso pelo uso de recursos. Deixar a luz do quarto ligada enquanto vê novela na sala, afinal que diferença faz na conta que virá no fim do mês? Tratar objetos como descartáveis. Deixar a água correndo enquanto escova os dentes andando pela casa. Tudo pequenas bobagens, mas que multiplicadas pelos milhões e milhões de pessoas com os quais dividimos o planeta, têm dimensões incomensuráveis. Refleti um pouco sobre isso no
primeiro texto que pus neste blogue, lá se vai mais de um ano.

– Papel, como a gente gasta! Na verdade tem a ver com o item anterior, mas como desperdiçamos muito sem nem pensar, opto por mais destaque. No meu trabalho a impressora imprime dos dois lados do papel, basta a gente “pedir”. Foi a primeira coisa que verifiquei quando cheguei, e imprimo sempre dos dois lados. Para espanto dos colegas, que nunca viram tal coisa – e grande parte reclama que não gosta de ler em papel impresso dos dois lados. Não sou de fazer campanhas e manifestos, então fico na minha. Finalmente, semana passada duas pessoas me pediram que mostrasse como fazer. Uma pequena vitória, mas tão pequena.


– Sempre que possível, uso transporte público. Em algumas situações considero mais fácil, embora tenha seus desconfortos. Claro que não é bom tomar chuva no ponto de ônibus, não ter onde sentar, ter que carregar minhas coisas… mas pelo menos não me preocupo se vão roubar meu carro, nem noto o trânsito, posso ler no caminho… e poluo menos, e gasto menos combustível, e contribuo menos para o caos urbano! Claro que tem horas que não dá, que transporte público causa transtornos incontornáveis em nossas vidas ocupadas. Aí é usar discernimento. Este é mais um tema de que tenho mania e já causou muito debate neste blogue, veja
aqui, aqui e aqui.

Farejadores de perigo

Fã de ratos, Bart Weetjens resolveu ensiná-los farejar minas em Moçambique. Mas não ratos quaisquer: são ratos gigantes do Gâmbia, Cricetomys gambianus. Treiná-los leva de 6 a 8 meses, muito mais rápido e barato que um cachorro. Quando encontram alguma mina, que infestam o solo moçambicano desde a guerra civil, dão uma cavadinha no chão – mas são leves demais para detoná-las. É a vez dos companheiros humanos, que removem o perigo explosivo.

O problema é que falta verbas para remoção de minas moçambicanas, então eles estão sendo treinados para outros farejamentos: são mais eficazes em detectar tuberculose em escarros do que um técnico munido de microscópio. Como a tuberculose causa estragos sérios na África, os ratos prometem. Seus treinadores pretendem levá-los para escolas, prisões e bairros pobres. Segundo Weetjens, com mais um ou dois anos de trabalho os ratos estarão bem escolados para essa nova função.

O site http://www.herorat.org/ traz mais informações, e permite até adotar um rato e financiar sua formação por 5 euros por mês!

Veja este e outros assuntos na seção Laboratório da Pesquisa Fapesp de fevereiro.

Folha fantástica!

Títulos para a posteridade, da Folha de S.Paulo, de quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007:

Comissão em SP reconhece um feto como preso político. (capa)
Reconhecido como vítima de tortura, feto busca reparação. (A10)

Aquecimento global…? Neotenia? Não, não, sossegue, hum… não comece já a imaginar o feto no tribunal, ou buscando seu torturador nas ruas de S.Paulo. Hum…mas leia a explicação aqui.

You might say that – I couldn’t possibly comment.

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