Elos perdidos entre Darwin e o Brasil

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Há tempos venho querendo escrever algo sobre Fritz Müller, o alemão radicado em Santa Catarina que foi pioneiro em estudos evolutivos. Soube dele por meio de Luiz Roberto Fontes, que já publicou uma série de textos sobre o personagem (e o cita em artigo sobre o médico Miranda Azevedo na Scientific American brasileira de julho). Recomendo também o texto sobre Fritz Müller publicado em 2004 por Neldson Marcolin na Pesquisa Fapesp.

 

Antes que eu conseguisse pôr mãos à obra, o biólogo Klaus Hartfelder, da Faculdade de Medicina do campus de Ribeirão Preto da USP, me mandou um texto que permitiu que eu o publicasse aqui. Leia a seguir.

 

 


Mais de apenas um elo perdido entre Darwin e Brasil

 

Por Klaus Hartfelder

 

Neste ano do bicentenário do nascimento de Charles Darwin e os 150 anos da sua primeira obra prima The Origin of Species (continuando com o subtítulo By Means of Natural Selection or the Preservation of Favored Races in the Strugggle for Life), a releitura de Darwin no contexto sociológico é muito bem vinda. Esta releitura, guiada pela visão humanística de Darwin e o seu profundo desprezo por sociedades baseadas em princípios econômico-sociais escravistas, gerou uma bela análise da recepção de idéias chamadas darwinianas no Brasil.


O trabalho dos pesquisadores relatado no texto de autoria de Carlos Haag na edição de maio da revista Pesquisa Fapesp aponta corretamente que essas idéias continham  na verdade pouco Darwin e mais “darwinianismo social” de Herbert Spencer e idéias do chamado pai da “lei da biogenética”, Ernst Haeckel . Este último um cientista muito influente na Alemanha, grande morfologista, ilustrador e brilhante orador (o que levou o apelido de “pitbull de Darwin”) – e ademais, que criou a vertente de uma filosofia religiosa-natural conhecida como monismo.


É interessante notar que tanto Ernst Haeckel quanto também o próprio Charles Darwin foram muito influenciados por um naturalista alemão naturalizado brasileiro, Johann Friedrich Theodor Müller, melhor conhecido como simplesmente Fritz Müller ou Fritz Müller de Desterro (lembrando que o antigo nome de Florianópolis era Nossa Senhora de Desterro).


A meu ver, este é, pelo menos para a Biologia, o mais importante dos elos perdidos.

Quem se atreve a perguntar aos estudantes de cursos de ciências biológicas no Brasil se conhecem Fritz Müller e a sua relação com Charles Darwin, sai frustrado. Mas a culpa é de quem, dos alunos? Veio na hora certa, portanto, o artigo “Parceiro de Charles Darwin” publicado no fascículo de maio de 2009 Scentific American Brasil, da autoria de Margherita Anna Barracco e Cezar Zillig, e que espera-se vá ajudar a restabelecer o lugar desse naturalista no panteão dos grandes cientistas brasileiros.


Provavelmente foi em 1861 que Fritz Müller recebeu uma cópia da primeira edição traduzida para o alemão da Origem das Espécies e imediatamente reconheceu a  importância da obra. Notavelmente, manteve uma vívida correspondência com Charles Darwin por 17 anos. Darwin o considerou o “príncipe entre os observadores”  e,  nas edições seguintes da Origem das Espécies, Fritz Müller se tornou o cientista mais citado.


Duas das suas observações ganharam notoriedade: a primeira é a do mimetismo entre espécies não-palatáveis de borboletas, a seguir chamada de mimetismo Mülleriano, e a segunda é a noção de que relações filogenéticas entre grupos de organismos podem ser reveladas através do estudo das suas fases larvais, sendo esta o resultado da observação de crustáceos do litoral de Santa Catarina. O próprio Darwin incorporou esse conceito na sua monografia sobre cracas, um grupo de crustáceos com plano de corpo na fase adulta bastante alterada, mas com fases larvais típicas das crustáceas.


Ernst Haeckel também se apropriou desta noção, que conheceu através das suas correspondências com Darwin e Müller e, juntando esta a noções previamente formalizadas por Karl Ernst von Baer, o descobridor do óvulo dos mamíferos, a petrificou na “lei da biogenética”, ou “a ontogenia recapitula a filogenia”. Em sua forma Haeckeliana, a “lei da biogenética” tem justamente recebido muitas críticas, inclusive de Stephen Jay Gould, mas como regra geral continua guiando pesquisas na área de evo-devo (evolução e desenvolvimento) da Biologia moderna.


Portanto, estamos lidando na realidade com dois elos perdidos do darwinismo no Brasil. O primeiro elo, que é principalmente relacionado com a primeira obra prima de Darwin, a Origem das Espécies, é com o verdadeiro darwinista Fritz Müller, que era  professor de História Natural no Liceu Provincial de Florianópolis. Já o outro elo é o com as Conferências Populares da Glória, foco das pesquisas da  historiadora social Karolina Carula e de outros pesquisadores apresentadas no texto de Carlos Haag.


Esse elo é com o Darwin antiescravista e as tendências republicanas e abolicionistas, e certamente está muito mais ligado ao segundo livro de Darwin The Descent of Man (continuando com o subtítulo And  Selection in Relation to Sex). O livro se dividide em três partes, do qual somente a primeira pode ser vista como resultado das posições abolicionistas de Darwin. Já a segunda é de grande interesse para a Biologia Evolutiva, pois desenvolve o conceito da seleção sexual, que complementa a noção do processo evolutivo das espécies através da seleção natural, tema central do primeiro livro de Darwin.     

 

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