O tabaco e a crise dos alimentos

Cuba006.jpg“A plantação de tabaco ocupa cerca de 4 milhões de hectares, área equivalente a todas plantações de laranja e banana existentes no mundo”, disse Luiz Fernando Correia na CBN (e escreveu em seu blogue).

A gente vê por aí muita discussão sobre a invasão das terras pela cana-de-açúcar, que corre o risco (ou não, depende de quem fala) de tomar o lugar de lavouras alimentares. Eu mesma me preocupo com isso.

Mas nunca tinha visto discussão sobre a área ocupada pelas plantações de tabaco. Por mais que eu sonhe com o fim dos combustíveis, ainda acho cana-de-açúcar mais útil do que tabaco.

Aproveito para indicar a matéria sobre os efeitos nocivos do cigarro que saiu na Pesquisa do mês passado. Quem escreveu foi o Carlos Fioravanti, mas eu conversei com os pesquisadores antes, para propor a pauta, e fiquei estarrecida. Se dependesse de mim, teria sido capa – sobretudo agora que a nova lei que proíbe fumar em locais fechados leva fumantes ferrenhos a proclamarem a falta de provas contra o fumo passivo. 

A fumaça do cigarro – tanto aspirada de maneira ativa como passiva – causa alterações no músculo cardíaco, causando problemas muito mais profundos do que hipertensão e entupimento de artérias; impede as células do epitélio nasal de formar os cílios que filtram o ar que entra, transformando as narinas em pórticos abertos para alérgenos e partículas tóxicas. E mais.

Fiquei com a certeza de que é crucial proteger crianças da fumaça de cigarro. Os efeitos podem ser para a vida toda.

 

Foto: Kotoviski/Wikimedia Commons

Discussão - 8 comentários

  1. Claudia Chow disse:

    Fantástico, Maria, nunca tinha pensado nisso! Se preocupar se vai faltar alimento por causa dos biocombustiveis todo mundo fala, mas que o tabaco ocupa lugar de muita comida ninguem nem se lembra! Fiquei até com vontade de escrever sobre o assunto! 😉

  2. maria disse:

    escreve sim, claudia! eu joguei a ideia sem pesquisar melhor o assunto, que merece ser melhor tratado.

  3. glenn disse:

    não sei de onde vem esse papo todo de segurança alimentar, mas acredito que seja muita coisa de países desenvolvidos como eua e europa. nesses países não há avanço de fronteiras agrícolas, a prática é a agricultura de precisão e os desperdícios são praticamente nulos.
    a idéia de que a produção de energia afeta a segurança alimentar vem dos países que produzem combustíveis a partir de produtos alimentícios, como o milho nos eua.
    (pelo menos foi isso que apreendi duma série de palestras apresentadas num evento do fórum internacional de universidades públicas, em que o tema foi agroenergia e desenvolvimento sustentável, na esalq.)
    nem vou entrar no mérito de concepções totalmente deturpadas de sustentabilidade, mas no brasil, a produção bioenergética provem basicamente da cana.
    as culturas que nos fornecem alimento, muitas delas têm uma mecanização considerável na agricultura, mas plantio direto e coisas do tipo ainda geram muito desperdício.
    não sei quais são os dados atuais, mas há 10 anos atrás, a colheita do milho desperdiçava cerca de 40-45% da produção, no médio paranapanema/sp, o que é um absurdo!
    não fumo cigarro, e quanto ao tabaco, sou a favor também de que acabem com ele, pelo menos na escala em que é praticada. mas me incomoda muito ouvir a propaganda populista do careca do serra dizer que agora podemos respirar um ar mais saudável em são paulo ao mesmo tempo em que o canteiro central da marginal tietê está sendo substituída por mais pistas!!

  4. Maria Guimarães disse:

    glenn, concordo que precisa MUITO mais esforço para que são paulo tenha um ar mais limpo. continuo achando que é possível, se chegarem ao poder pessoas com vontade que chegue.
    acho que o aspecto da segurança alimentar que você frisou é um lado. mas há outro, que é substituir lavouras de alimentos por cana-de-açúcar. ou derrubar florestas para isso. acontece bastante, não só no estado de são paulo. mas não sei os números.

  5. glenn disse:

    mudar sempre é possível. basta, como v. disse, de “vontade política”… as vezes acho mesmo que o brasil adora o título de eterno país do futuro, onde profissões como a de biólogo serão eternamente a profissão do futuro. ou se não, outra “alternativa” seria uma lei que “pegasse” e que determinasse a melhora, o que é praticamente utópico…
    derrubada de mata em são paulo acho que não tem mais, o que rola é mudança do uso da terra, geralmente de pasto para culturas(inclusive de cana). aliás o problema não é desmatar, mas desmatar e colocar essas coisas lá.
    se não me engano a área florestada até aumentou (irrisoriamente) nos últimos ano dentro do estado… mas desconheço os detalhes disso.
    eu tinha um dado de que resta apenas 3% da vegetação original no estado, mas não consegui confirmar esse dado. o máximo que consegui outro dia foi um levantamento de quanto de mata atlântica ainda resta. era uma iniciativa conjunta do inpe com o sos mata atlântica. foi publicada esse ano com dados de 2005-2008.
    v. acredita que o problema do alimento no brasil seja uma produção que não dá conta? eu acho que não.
    acho que o problema tá na colheita, no transporte, na distribuição, na estocagem. se perde muuuita coisa com isso. práticas ineficientes e inadequadas desperdiçam muito alimento. é falta de grana por parte de produtores que não tem como investir em tecnologia para melhorar, assim como tem toda essa coisa do latinfundiário que acaba com o sistema de agricultura familiar…
    num país megadiverso não apenas biológico, mas cultural, político, social e economico, o aspecto de sustentabilidade social é muito delicado mesmo, e infelizmente o mais negligenciado.
    o buraco, obviamente, é muito mais embaixo.

  6. Maria Guimarães disse:

    glenn,
    acho que tem é muitos buracos. os problemas na produção de alimentos são os que você apontou, e outros.
    quanto à vegetação que sobrou em são paulo, talvez esse dado esteja numa matéria que saiu na revista Pesquisa em 2007: http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=3384&bd=1&pg=1&lg=
    não reli agora a matéria para ver se tem o número que você busca – mas no mapa que veio encartado na revista (tem um linque pro pdf no site) diz que matas nativas cobrem 13,9% do território paulista.

  7. glenn disse:

    valeu a dica maria!
    vou lê-lo agora mesmo.

  8. Clodomir disse:

    De que adianta o BRASIL se orgulhar de ser o maior exportador de tabaco do mundo , se em nossas cidades morrem pessoas com fome . E também não entendo por que o MST invade fazendas produtivas e que desenvolvem Pesquisas sobre alimentos , combustíveis e melhoramento genético de plantas e nunca invadiram as ” Fazendas que plantam tabaco “.

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