O presente e o futuro da ciência em blogues


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Num fim de semana a poucos metros do mar mas sem pôr os pés na água, aprendi que há muito a explorar no mundo da divulgação de ciência por meio de blogues. Por um lado, porque tem muita gente fazendo coisa legal que eu não conhecia. E por outro, porque a maior parte de nós ainda usa de maneira tímida as ferramentas que tem ao alcance.

Estivemos em Arraial do Cabo, no Rio, para o segundo Encontro de Weblogs Científicos em Língua Portuguesa (EWCLiPo). O Mauro Rebelo organizou lindamente o encontro e conseguiu manter um monte de gente numa sala gélida a dez metros da praia. E valeu a pena. Seguem algumas anotações, nada sistemáticas, do que vi, ouvi e aprendi.

A Sonia Rodrigues deixou claro que a comunicação pela internete transcende o virtual. Os projetos “sei mais física” e “almanaque na rede” usam a internete como uma ferramenta dinâmica e estimulante para ensinar física e escrita a jovens.

Com o Cardoso (também aqui), aprendi que é possível viver de blogue. Com muito trabalho.

O Carlos Hotta contou de como surgiu o condomínio Science Blogs Brasil, mas isso eu já sabia, e falou um pouco sobre aonde chegamos. A conversa serviu, em parte, para começarmos a pensar o que podemos fazer melhor. Cada vez mais. O Atila mostrou uma  forma de se ganhar mais credibilidade para divulgar ciência – o Research Blogging, que identifica textos baseados em pesquisa científica publicada.

O Osame, especialistas em redes complexas e que por isso se embrenhou na blogosfera como atividade também profissional, falou um pouco sobre essa rede e de como ele interfere em seu funcionamento com o Anel de Blogs Científicos – que, aliás, à noite concedeu prêmios a blogues eleitos como melhores.

Este relatório vai ter que ser em capítulos, depois continuo. Não perca, tem muito mais.

HIV resistente a medicamento, etanol e mais

Esta semana participei do programa “Pesquisa Brasil”, parceria entre a revista Pesquisa e a rádio Eldorado, que vai ao ar amanhã. Entrevistamos o infectologista Marcelo Soares, da UFRJ, que contou sobre um levantamento que mostrou que são mais frequentes em São Paulo cepas do HIV resistentes a medicamentos usados contra a Aids. Falamos também com Rubens Maciel Filho, da Unicamp, sobre o esforço para produzir etanol a partir de bagaço de cana. E com Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, que estava na Inglaterra para assinar um convênio com os Conselhos de Pesquisa do Reino Unido.

Também dei dicas de livros e o programa traz alguns destaques da edição de setembro de Pesquisa. Vai ao ar às 11 da manhã de sábado, com reprise às 8h de domingo pela Eldorado AM (700 kHz ou pelo site). A partir do início da semana, dá também para ouvir ou baixar no site da revista.

Cores contra dogmas

 

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Uma estrela das notícias hoje é o macaco-de-cheiro Dalton, que mostrou que o que todo mundo sabe não é necessariamente verdade. Ele é naturalmente daltônico, mas a equipe de Jay Neitz, da Universidade de Washington, resolveu dar mais cores à sua vida. As fotos acima foram produzidas pelo laboratório de Neitz – a da esquerda procura reconstruir como Dalton via suas refeições até agora.

O que mais gostei do estudo, publicado na Nature de hoje, foi que ele desafiou dogmas vigentes. “Quando percebemos que seria um experimento que poderíamos fazer, fui falar com meus amigos neuroscientistas e perguntei: ‘você acha que eles verão cores?’. Todas as pessoas com quem falei responderam ‘não, de jeito nenhum, porque todo mundo sabe que há um período crítico para o desenvolvimento do sistema visual, e se você acrescenta alguma coisa depois que esses períodos críticos terminam, nada acontece’. Eu entendia isso, mas tinha que tentar”, disse jay Neitz no podcast da Nature de hoje.

Ele tinha que tentar, e mostrou que ao injetar genes humanos para fotopigmentos nas células fotorreceptoras na retina desses macacos, eles passam a distinguir vermelho de verde (nesses primatas da espécie Saimiri sciureus, típica da Amazônia, algumas fêmeas têm visão tricromática mas os machos nunca). Ou seja, é possível acrescentar habilidades sensoriais a um primata adulto, o que abre perspectivas para um dia tratar daltônicos humanos. Para Neitz, pode ser precioso, por exemplo, para quem sonha em ser piloto mas é impedido pela incapacidade de distinguir certas cores. Mas para isso, ainda falta muito. Se for possível.

Limites do crescimento

O debate sobre o desenvolvimento sustentável tem sido polarizado por duas culturas que não falam a mesma língua: uma usa “evidências” científicas provindas de modelos complexos; outra argumentos simplificadores carregados de vieses de ordem moral e social. A guerra será eterna se o combate não for travado numa arena comum: a da política.

A economia é uma ciência de sistemas dinâmicos complexos. Lida com modelos matemáticos que têm dificuldade de descrever o todo mas conseguem lidar com as suas muitas partes. Como por exemplo a medicina, a história e a biologia evolutiva, ciências que também abordam sistemas complexos aceitando a incerteza estatística. De forma provocativa, afirmo que a economia é a rainha das ciências pois na natureza tudo pode ser descrito como um sistema de trocas e de balanços em permanente evolução, sujeito a processos de regulação: desde uma simples reação química em uma rede metabólica até à biosfera. É nesse contexto que o problema do desenvolvimento sustentável é um problema económico de dinâmica de sistemas complexos, e é aí que interessa colocar a discussão sobre os limites do crescimento. Foi aí certamente que ele foi colocado há um pouco mais de 30 anos, por um grupo de cientistas do Massachusetts Institute of Technology. No entanto, os ecos do debate ficaram perdidos durante anos, afogados pelo paradigma social dominante, amortecidos pelos anos de crescimento da economia mundial. O debate volta agora com novas roupagens, as do aquecimento global, mas os princípios não se alteraram, nada se alterou e muito pouco se fez para mudar algo. É fácil concluir que o cerne do debate não está na ciência mas nos pressupostos sociais e morais que precedem qualquer ação baseada em evidências. E aí, parecem existir claramente duas culturas que se opõem e se dispõem a lutar ad eternum. É um problema vasto e complexo demais para ser coberto pelo texto que escrevi com o Felipe Souza. Mas aqui vai.

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Saúde nas coxas

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Fotos daqui

Você (homem) se anima com um bom par de longas pernas finas? Você (mulher) lamenta a injustiça do destino que lhe deu coxas grossas? Talvez seja melhor rever seus conceitos estéticos: pesquisadores dinamarqueses acabam de detectar uma associação entre coxas finas e um maior risco de morte prematura por doenças cardiovasculares. Os resultados saíram na semana passada na BMJ.

O grupo mediu a altura, o peso, a circunferência da coxa, dos quadris e da cintura, além da composição do corpo de 1436 homens e 1380 mulheres. Depois acompanhou a incidência de doenças cardiovasculares nessas pessoas ao longo de dez anos e registrou quem morreu nos 12 anos e meio depois das medidas iniciais. Conclusão: as pessoas com coxas mais finas do que 60 centímetros correm riscos bem maiores, independente de obesidade, estilo de vida e pressão arterial.

O número mágico, nesse estudo, é em torno de 60 centímetros (entre 56 e 68, dependendo do sexo e, suponho, do tamanho da pessoa) – acima disso, coxas mais e mais grossas não tornam a pessoa cada vez mais superpoderosa. Os autores sugerem que pouca massa muscular nas coxas é um indicador de fragilidade cardiovascular (mas o estudo só mediu associações estatísticas – não explica por que seria assim), e que uma fita métrica pode ser uma boa ferramenta para ajudar a definir grupos de risco.

Adoro quando a natureza dá razão ao meu gosto estético. Mas falta uma tabela ou gráfico que mostre a coxa ideal conforme a estatura. Dinamarquesas, afinal, tendem a ser mais altos do que brasileiros. Duvido que os números possam ser facilmente extrapolados. Enfim, é como boa parte da ciência: o estudo aponta rumos interessantes, que precisam ser (muito) mais investigados.

ResearchBlogging.org
Heitmann BL, & Frederiksen P (2009). Thigh circumference and risk of heart disease and premature death: prospective cohort study. BMJ (Clinical research ed.), 339 PMID: 19729416

A melhor farmácia é a feira

organicos.JPGQuer saber mais sobre o que são alimentos orgânicos, como reconhecê-los e quais as suas vantagens? Encontrei no blogue da Elisa, “a vida na monstrópolis“, uma cartilha produzida pelo Ministério da Agricultura com ilustrações do Ziraldo.

A Elisa informa que a distribuição do material acabou sendo embargada por uma liminar obtida pela multinacional de transgênicos Monsanto. Sem se dar por vencido, alguém assumiu a distribuição: baixe aqui sua cartilha. Corrijo (obrigada por me chamar a atenção, Cícero): O Gabriel Cunha já investigou e mostrou que a informação de que a Monsanto teria embargado a distribuição da cartilha é uma dessas verdades que surgem não se sabe de onde. A cartilha agora está no site do Ministério da Agricultura.

Descobri que ela também está disponível no site do sítio A Boa Terra, que congrega produtores de alimentos orgânicos e faz entregas a domicílio no estado de São Paulo e em Poços de Caldas (a lista de cidades atendidas está aqui).

É um pouco mais caro do que a feira, mas eu acho que vale a pena pagar um pouco mais para evitar comer hormônios, venenos e medicamentos a mais. E para fomentar uma produção menos danosa à natureza e menos agressiva em relação aos próprios vegetais e animais que viram comida. É possível encomendar uma caixa semanal ou com a frequência que convier. Ou pedir itens avulsos. Tem pães e ovos caipiras ótimos. E umas barras de frutas que me salvam a vida quando dá aquela fome no fim da tarde e não dá para sair da frente do computador. O resto ainda não provei.

(O título é contribuição involuntária do pai da Mayumi, que estimulava as filhas a comerem bem)

Árvores em flor: eritrinas

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São Paulo anda cheia dessas explosões vermelhas que, em conjunto, parecem um céu em miniatura repleto de fogos de artifício. É que as pequenas árvores (3 a 5 metros de altura) conhecidas como mulungu-do-litoral, eritrina-candelabro ou corticeira (Erythrina speciosa), no inverno perdem as grandes folhas em forma de losango e se vestem de flores.

São conjuntos de flores compridas, formato típico de plantas polinizadas por beija-flores – com o bico longo eles conseguem alcançar o néctar lá no fundo da flor, e acabam carregando um pouco de pólen à parada seguinte.

As flores da eritrina-candelabro  também fazem a festa de periquitos. Uma vez eu vi um bando deles pousados numa eritrina, arrancando flor por flor. Imagino que arrancar a flor pela base dê acesso direto ao caldo adocicado que ela abriga. O chão rapidamente ficou revestido de vermelho.

São plantas típicas da Mata Atlântica, da família das leguminosas (Fabaceae).

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A árvore ao lado, eu acho que é uma corticeira-do-seco, Erythrina falcata. Alguém pode confirmar? Esta foto eu tirei do carro em movimento (daí a falta de nivelamento), pelo quilômetro 27 da rodovia Bandeirantes, quase chegando em São Paulo. Atualizo: consultei alguém mais entendido que eu, e o palpite dele é Erythrina poeppigiana. Para saber com certeza, só chegando mais perto da árvore.

Já faz uns meses que ela está florida e parece um milagre da natureza junto à aridez da estrada. Debaixo dela sempre tem um homem, não sei se todos os dias o mesmo. Suponho que seja um chapa, profissão maravilhosamente descrita na revista piauí uns tempos atrás.

Não terei sossego enquanto não souber por certo que árvore é essa!

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