Concurso de fotografias silvestres

Mais uma vez atendo à convocação do Carlos Hotta e escolho as minhas fotos favoritas do Wildlife Photographer of the Year. As do ano passado estão aqui. Cada pessoa pode publicar cinco fotos sem ferir os direitos do concurso. E não é nada fácil escolher só cinco!!! Estou aqui lutando para não pescar do lixo as que descartei. Vamos então às que ficaram. [Atualização: veja as fotos escolhidas pela Lucia Malla, a verdadeira lançadora dessa moda de escolher cinco fotos e mostrar pra todo mundo]

reflections.jpg

“Sem o jogo de luz, seria um retrato sem-graça de passarinho”, reflete o jovem fotógrafo finlandês Ilkka Räsänen. A foto é linda, mas a categoria em que foi premiada me impressionou ainda mais: fotógrafos com menos de 10 anos. Se agora ele tem a paciência e a sensibilidade necessárias para fazer uma foto dessas, espero continuar vendo o trabalho dele nos (muitos) próximos anos.

leopard descending.jpgMais uma foto de reflexos, desta vez reflexos rápidos. Ajit Huilgol estava fotografando a leoparda no alto duma árvore no sul da Índia, quando um barulho de carro assustou a felina. Mas não o fotógrafo, que não deixou de registrar como ela desafia a gravidade correndo na vertical. E para baixo, sempre ouvi dizer que gatos só podiam subir, e não descer, por causa da curvatura das garras. Quem sabe voar não precisa de garras.

sardine round up atlantic sailfish.jpg
O agulhão-vela-do-Atlântico (Istiophorus) é um peixe esplêndido e pode nadar a mais de 100 quilômetros por hora. Ainda por cima é um craque na pesca, como mostra Paul Nicklen nessa foto tirada em mares mexicanos. Ele cerca cardumes, aqui de sardinhas, até elas se condensarem numa bola viva de peixes. Aí basta abocanhar. Me lembrou um vídeo lindo da National Geographic de uma dessas massas de peixes servindo de festim para atuns e outros predadores. Veja aqui.

baboon bonding.jpgA foto é um truque, com resultado quase inacreditável. Não foi tirada na escuridão quase total. No South Luangwa National Park, no Zâmbia, Patrick Bentley fotografou esses babuínos contra a luz, para ressaltar os pelos do contorno, e subexpôs a foto. O resultado me transmite paz, como se esses dois macacos ocupados em catar pulgas um do outro não estivessem em meio a um bando de 30.

sun touched tulip.jpgDe despedida, uma tulipa (Tulipa sylvestris) que Serge Tollari encontrou caminhando pelo sul da França. Uma das minhas flores favoritas (tulipas em geral, essa espécie nunca vi) num dos meus lugares favoritos. Ambos têm uma simplicidade que é beleza pura.

Brasil e a COP-15: afinal, qual é a estratégia?

A economia brasileira é pouco competitiva relativamente às de outros
países emergentes num cenário de transição para uma economia de baixa
emissão de carbono, de acordo com um relatório divulgado no mês passado
(14/9) pelas organizações não governamentais E3G e The Climate
Institute. O relatório, centrado apenas nos países do G20, entra no rol
de documentos que alimentarão a 15a Conferência das Partes sobre
Mudanças Climáticas (COP-15), a realizar em Dezembro em Copenhague. No
Brasil, a competitividade é também a preocupação de grupos de empresas
que assumem um padrão de desenvolvimento futuro baseado em economias de
baixo carbono. Enquanto isso, o Plano de Mudanças Climáticas do Brasil
é enfraquecido pela ausência de relatórios detalhados de emissões de
gases com efeito de estufa.

Continue lendo…

Árvores em flor: jacarandá-mimoso

margem do lago.jpg

São Paulo (Campinas também) anda cheia de espetaculares manchas roxas. São os jacarandás-mimosos, que na foto dão um toque de cor às margens do lago do Ibirapuera (aquele mesmo onde há dez dias os peixes não conseguiam respirar).

Nativo da Mata Atlântica Bolívia e da Argentina (correção do Pedro), o jacarandá-mimoso (Jacaranda mimosaefolia) perde as folhas no inverno e na primavera se veste de flores arroxeadas em forma de sino. São flores parecidas com as do ipê-amarelo, que andou florido há cerca de um mês – são árvores da mesma família, as bignoniáceas.

O fruto é uma cápsula achatada, como dois discos de madeira que acabam por separar-se e liberar montes de sementes bem pequenas, que saem voando com ajuda de uma fina membrana que funciona como asa-delta.

É uma árvore de porte moderado, chega a cerca de 15 metros, e suas raízes não destroem calçadas. É por isso uma boa escolha para arborização urbana, a ponto de ser exportada para outros países onde ela não é nativa, como a África do Sul. Sorte de quem vive nas cidades onde uma vez por ano se pode esperar essa festa colorida.

O cérebro e o mundo

RTEmagicC_654px-Bjorn_Borg_Hollow_Face_01.jpg.jpgAo ver uma máscara côncava, 99% das pessoas saudáveis a enxergam como
convexa. Já os esquizofrênicos não se deixam enganar: veem um rosto oco. A diferença está nos filtros que temos para ver o mundo: a expectativa, baseada em memórias e experiências, na verdade cria ilusões nas pessoas “normais”.

Quando pessoas saudáveis veem essa imagem, aumentam as conexões entre o córtex parietal e as regiões do cérebro mais ligadas à visão. Nos esquizofrênicos (e depois de fumar um baseado) isso não acontece, segundo pesquisa na Neuroimage.

Para os pesquisadores, essa má conectividade entre regiões cerebrais dos esquizofrênicos também faz com que eles tenham dificuldade em diferenciar, por exemplo, as vozes que ouvem dentro da cabeça daquelas que vêm de fora.

Ouvi essa história em abril nos Naked Scientists (a foto é de lá também), e tinha esquecido dela nos meus rascunhos. Por acaso encontrei, bem quando já estou atrasada para mencionar uma matéria que fiz para a edição de setembro da revista Pesquisa. Trata-se do trabalho de Daniel Martins-de-Souza, que durante o doutorado na Unicamp (em colaboração com o Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP) investigou proteínas com produção anômala em esquizofrênicos.

Descobriu que pessoas com esquizofrenia têm deficiências importantes na produção de energia pelas células cerebrais. Daniel detectou também que as alterações no metabolismo da glicose (que produz energia) também produzem mais moléculas oxidativas que por sua vez danificam as células do cérebro. Tem mais, como alterações na bainha de mielina que reveste os neurônios – e sem ela os impulsos nervosos se dissipam como a eletricidade num fio desencapado. Mas não vou tentar resumir tudo aqui. Se quiser saber mais, veja aqui e ouça a entrevista com Emmanuel Dias-Neto, orientador de Daniel na USP, no programa “Pesquisa Brasil” de 3 de outubro.

Daniel espera contribuir para melhorar a vida de quem sofre dessa doença neuropsiquiátrica tão debilitante – definindo um perfil proteico que poderia ajudar a identificar a doença ainda no início, quando os sintomas não se manifestaram por inteiro, ou ajudando a entender como ela age no cérebro para, quem sabe, buscar terapias. Terapias para acompanhar o paciente vida afora – o psiquiatra Helio Elkis, da USP, me disse que a esquizofrenia é uma doença crônica como o diabetes: só é controlada com tratamento constante, não há cura.

Caso queira mergulhar nas proteínas:
ResearchBlogging.org
Martins-de-Souza, D., Gattaz, W., Schmitt, A., Maccarrone, G., Hunyadi-Gulyás, E., Eberlin, M., Souza, G., Marangoni, S., Novello, J., & Turck, C. (2009). Proteomic analysis of dorsolateral prefrontal cortex indicates the involvement of cytoskeleton, oligodendrocyte, energy metabolism and new potential markers in schizophrenia Journal of Psychiatric Research, 43 (11), 978-986 DOI: 10.1016/j.jpsychires.2008.11.006


Martins-de-Souza, D., Gattaz, W., Schmitt, A., Novello, J., Marangoni, S., Turck, C., & Dias-Neto, E. (2009). Proteome analysis of schizophrenia patients Wernicke’s area reveals an energy metabolism dysregulation BMC Psychiatry, 9 (1) DOI: 10.1186/1471-244X-9-17

Martins-de-Souza, D., Gattaz, W., Schmitt, A., Rewerts, C., Maccarrone, G., Dias-Neto, E., & Turck, C. (2009). Prefrontal cortex shotgun proteome analysis reveals altered calcium homeostasis and immune system imbalance in schizophrenia European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, 259 (3), 151-163 DOI: 10.1007/s00406-008-0847-2

Martins-de-Souza, D., Gattaz, W., Schmitt, A., Rewerts, C., Marangoni, S., Novello, J., Maccarrone, G., Turck, C., & Dias-Neto, E. (2008). Alterations in oligodendrocyte proteins, calcium homeostasis and new potential markers in schizophrenia anterior temporal lobe are revealed by shotgun proteome analysis Journal of Neural Transmission, 116 (3), 275-289 DOI: 10.1007/s00702-008-0156-y

Pornô educativo

squid.jpg
A série “Green porno“, da Isabella Rossellini, está de volta com a terceira temporada. Com ainda mais ciência, mostrando como a pesca predatória atinge lulas, anchovas, camarões e elefantes-marinhos.

Já escrevi sobre esses fantásticos filminhos aqui, e agora soube que havia novidades pelo blogue da Suzana Herculano-Houzel.

Os três primeiros filmes da terceira temporada começam com a Isabella Rossellini na cozinha preparando lulas fritas, pizza com anchovas, risoto de camarão. Até que pensa: “e se eu fosse…?”, e perde o apetite. Corta para as semi-animações no fundo do mar, com a atriz fantasiada e desenhos lindos, mostrando a vida desses animais e como eles são pescados. Em seguida vira um documentário, com o biólogo Claudio Campagna falando de problemas e soluções em relação à pesca. O último, dos elefantes-marinhos, não começa na cozinha. E nem tem a Isabella fantasiada. Mas de maneira geral é o mesmo esquema.

Para quem quer mais ciência, no site tem a seção “Ask Claudio“, com textinhos mais explicativos. Cada um deles tem poucos minutos, vale a pena! Aqui vai o comercial da temporada mais recente. E não deixe de ver as outras também, que são deslumbrantes!

 

O lago do Ibirapuera não está para peixe

lago.jpgOs peixes do lago do Ibirapuera, em São Paulo, não conseguem respirar. Suponho que pela ausência dos chafarizes que aparecem em fotos no site do parque. Não sei desde quando as águas andam paradas, mas uma amiga me disse que há muito os peixes têm que pôr a cabeça para fora em busca de ar.

Tirei as fotos ontem de manhã, quando fui caminhar e me intrigou ver a superfície da água cheia de calombos. De perto, vi. Peixes e mais peixes amontoados na superfície, como se buscassem maneira de voar. Peixes grandes, de vários tipos que não sei listar.

A água está suja e, dizem os peixes, sem oxigênio. Será por economia que os chafarizes foram estancados? Muitos criticavam o espetáculo de som e luzes que acompanhavam a dança das águas em certos horários. Podia ser de gosto discutível, mas eu me emocionei uma vez ao ver, num domingo à noitinha, gente endomingada que parecia ter viajado da periferia para se encantar com som, luzes e água.

Se não é pelo encantamento, por um motivo os chafarizes não podem faltar: um lago precisa de oxigênio se quiser ter vida. E o que será do Ibirapuera sem peixes – e sem garças, sem cisnes, sem biguás, sem patos nem gansos?

 

peixes.jpg

Mais sobre o EWCLiPo

Thumbnail image for Ewclipo_2009_cartazete.jpgBlogar sobre um encontro de blogueiros é uma tarefa inglória. A avalanche de textos publicados sobre o II EWCLiPo, no fim de semana passado, é assustadora. Tem até gravações, no semciência. Mesmo assim, ponho aqui o resto das minhas anotações e, quem sabe, alguma ligeira reflexão.

Um destaque foi saber que o Takata, o comentador campeão da blogosfera (devidamente premiado pelo ABC), existe em carne e osso.

Continuando o que pus aqui, em seguida falou o físico Leandro Tessler, do blogue Cultura científica. No conforto de quem não ficaria para as discussões do dia seguinte, ele criticou a anti-ciência que chega à mídia – em boa parte por falta de competência dos jornalistas. Ele advoga algum controle de qualidade na blogosfera, mas não sugeriu como. A plateia não pareceu muito convencida de que seria possível ou mesmo desejável.

O Bernardo Esteves, editor da Ciência Hoje on-line, mostrou que não dorme em serviço. Prometeu, pelo menos. A CH on-line está em meio a uma reformulação total e pretende mostrar vídeos, fotos, integrar o conteúdo com blogues, abrir o site para comentários (e debates, de preferência) e o que mais der na telha. Em princípio a partir de meados deste mês. Enfim, uma publicação de divulgação de ciência na internete que se põe à frente das outras em usar melhor os recursos à mão. Ele falou também sobre o espaço dos blogues na divulgação de ciência, e mostrou que jornalistas e blogueiros têm muito a aprender uns com os outros. Um encontro que promete!

Domingo de manhã, o show de animação continuou com a neurocientista de plantão Suzana Herculano-Houzel. Ela enumerou uma série de motivos por que os cientistas devem tomar a iniciativa de divulgar ciência. Ela mesma seguiu uma trajetória pouco comum em ciência: foi contratada na UFRJ como divulgadora de ciência e depois conseguiu voltar à pesquisa científica. Hoje faz as duas coisas ao mesmo tempo e mostra que livros sobre ciência vendem sim (sobretudo quando se travestem de auto-ajuda). Eu completo: cérebro atrai a atenção das pessoas. Se ela estudasse o sistema digestivo de minhocas, talvez não fosse tão bem situada nas listas de mais vendidos. Alguns dos motivos que seus colegas cientistas deveriam ter em mente, a seu ver: para prestar contas à sociedade do que fazem com recursos públicos, para aumentar as chances de serem reconhecidos até mesmo entre pares e financiadores, para ajudar os pares a acompanhar os avanços em sua pesquisa, para descobrir novos aspectos da própria ciência. E ajuda nas festas, além do mais, quando alguém pergunta “o que você faz?”. Ter uma resposta pronta ajuda a escapar do rótulo de cientista inatingível antissocial e maluco. Ela comemora também conseguir, na comunicação por meio de blogue, derrubar a hierarquia entre cientista e público.

A Alessandra Carvalho, do Karapanã, não deixou dúvidas: a parceria entre pesquisadores e jornalistas rende ótimos resultados e todos têm seu lugar na divulgação da ciência. Refletiu o tom do EWCLiPo: o que vale são os encontros, não as disputas. Pena que o Leandro Tessler já não estava lá para ver.

A Lacy Barca (que, depois descobri, conhece parte da minha família) nos mostrou um belo passeio pela divulgação de ciência na televisão. Os números são assustadores, entre religião esporte e bobagens, sobra umas frestinhas para a ciência. Mas todos se deliciaram com os exemplos que ela mostrou. É possível, devia ter mais.

O último a se apresentar foi o Fábio Almeida, do Ciencine, que mostrou que um biólogo inventou o cinema – Étienne-Jules Marey (obrigada, Takata!). Antes que a imagem em movimento pudesse ser reproduzida numa tela, o movimento de cavalos e animais fotogafado quadro a quadro era projetado como um filme. Lindo! (Como se chamava esse inventor do cinema??? Não anotei e me deu branco, alguém me socorre)

Um pouquinho também sobre minha própria fala: o Mauro tinha pedido que eu usasse minhas duas vidas (bióloga pesquisadora durante o doutorado e, agora, jornalista de ciência) para comparar como o cientista escolhe o que pesquisar e como o jornalista escolhe o que divulgar. Em uma palavra, paixão. Mas tem mais. Tem acaso, tem predisposição ao interesse por certos temas. Usei o exemplo da Jane Goodall, que dedica sua vida ao estudo e à defesa dos chimpanzés – desde pequena, ela andava abraçada a um boneco de chimpanzé. Mas foi um tanto por acaso que ela acabou mandada para a Tanzânia onde descobriu o que ninguém sabia sobre nossos primos mais próximos. Precisa paixão pra se dedicar à ciência, precisa paixão pra escrever loucamente – e passar as horas vagas escrevendo num blogue. E muito acaso participa em determinar o que chega às páginas de uma revista e o que não chega. Uma boa colaboração entre pesquisadores e jornalistas ajuda.

Saí de lá pensando na provocação do Fábio Almeida. Usamos blogues como mídia impressa. Eu uso. Precisa achar jeitos de usar as possibilidades mais por inteiro, algo como o que a CH on-line pretende fazer. Não sei como fazer isso sendo blogueira por lazer, mas vou ficar atenta a possibilidades. E de maneira mais geral, encontrar tanta gente entusiasmada e ativa em diversas frentes, parece certo: mundo, prepare-se para se encantar. Ninguém segura a divulgação de ciência.

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM