Termelétricas e pré-sal são anacrônicos, diz José Goldemberg

Goldemberg2.jpegO governo equivoca-se ao optar pelo petróleo do pré-sal e pela termeletricidade, descurando incentivos a energias alternativas, opina José Goldemberg, uma autoridade em energia e ambiente, no Brasil e no mundo. Nesta entrevista, o físico da USP analisa as opções energéticas do Brasil no contexto da transição para uma economia de baixo rastro de carbono, tema certo da próxima 15a  Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP-15), que se realizará em dezembro em Copenhague.

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Marina Silva contribuiu para a área ambiental ser vista como obstáculo ao progresso… mas elevará o debate, opina José Goldemberg

Nesta segunda parte da entrevista, José Goldemberg opina sobre o que apelida de “romantismo”ambiental, a bioprospecção na Amazônia, a opção nuclear e, sobre a eventual candidatura de Marina Silva à Presidência da República.

sobre mudar os padrões de consumo
“essas ideias são completamente românticas”

sobre bioprospecção

“não acredito que ainda se vá
descobrir alguma pedra filosofal na Amazônia”

sobre energia nuclear
“é completamente inapropriada para resolver
problemas do Brasil”

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O narrador jornalista

Um repórter entalado numa passagem estreita de uma caverna, lutando contra o pânico e a claustrofobia para afinal conseguir cavar até um salão onde nenhum humano (moderno, pelo menos) estivera antes. Me deleitei com “Deep South“, de Mark Jenkins, publicado na National Geographic. O repórter está em ação e leva o leitor a reboque. Fiquei sem fôlego, angustiada, extasiada, fascinada com as revelações dos espeleólogos. Funciona, em grande parte, porque Jenkins usa um recurso proibido no jornalismo brasileiro: a primeira pessoa.

O repórter está na caverna e narra, ele conversa com os pesquisadores e os descreve. Assim o texto reúne emoção, aventura e ciência. O leitor quase conversa também com o espeleólogo. Na minha imaginação eu vi as figuras, suas casas, o entusiasmo com a pesquisa a que dedicam a vida. Meu sonho é um dia escrever uma reportagem assim. Em português. E publicar num veículo oficial, não no blogue onde quem manda sou eu. Não custa sonhar.

Claro que a primeira pessoa não deve ser regra. Não teria lugar na maior parte dos textos que escrevo, e há sempre o risco de quem escreve esquecer que não é o protagonista da história. Mas às vezes é imprescindível, como no caso das cavernas do Jenkins, que me fez lembrar de uma reportagem na Folha de S.Paulo de 1º de novembro (aqui, para assinantes) que me chamou atenção justamente pela falta da primeira pessoa.

Como o Irã tem restringido a entrada de jornalistas, Samy Adghirni aproveitou um convite do governo iraniano para a 16ª Feira Internacional de Mídia de Teerã para andar pelas ruas e falar com as pessoas, em busca de avaliar como as coisas andam por lá passados uns meses da tensão política que seguiu a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad em junho. Copio aqui algumas frases da reportagem da Folha:
“…a
Folha contornou o rígido cerco
imposto pelo governo aos visitantes e circulou por vários setores de Teerã, conversando
com iranianos de todas as tendências políticas.”
“A Folha ouviu relatos de
amizades rompidas e famílias
dilaceradas pela política.”
“A Folha também flagrou no
meio da multidão policiais à
paisana usando telefones celulares para tirar fotos dos rostos
dos militantes pró-Karoubi.”

Ao ler, fiquei pensando como a reportagem seria mais forte e mais convincente se o repórter tivesse se posto em campo também no texto. Se narrasse, se descrevesse as pessoas com quem falou, se as trouxesse à vida para o leitor. Me senti distante e continuo sem saber como andam os ânimos em Teerã.

Em busca da memória

Kandel-1.jpg

Vi hoje na livraria Cultura que saiu o livro Em busca da memória, por Eric Kandel – Prêmio Nobel de 2000. A simpática ilustração ao lado é de Joseph Adolphe e está na Columbia Magazine, da universidade onde Kandel está.

Em busca da memória é mais do que uma busca pela memória. Kandel dedicou a carreira a entender as bases biológicas de como a mente armazena experiências e reage a elas – trabalho que além de solucionar um mistério científico pode ser o ponto de partida para novos tratamentos psiquiátricos.

Mas o livro também reúne as memórias do menino que mal teve tempo de brincar com o carrinho de controle remoto que ganhou ao fazer 9 anos porque a família precisou fugir do Holocausto. Apesar de doloroso, esse caminho levou ao homem que em 2000 ganhou o Prêmio Nobel por ajudar a fundar a nova ciência da mente. “Há agora um consenso na comunidade científica de que a biologia da mente será para o século XXI o que a biologia do gene foi para o século XX”, diz o autor.

Nos anos 1950, Kandel era um jovem apaixonado por psicanálise. Em vez de clinicar, descobriu uma paixão pela pesquisa científica. Uma paixão que não o afastou do interesse pelos meandros da mente. Na aplísia, um caramujo marinho, ele descobriu que as experiências vividas fisicamente mudam o cérebro.

E também desvendou como o ambiente interage com os genes e os neurônios para provocar aprendizados e comportamentos. Com isso, ele ajudou a desvendar a biologia molecular dos processos mentais mais simples. “Se você lembrar alguma coisa deste livro, será porque seu cérebro terá mudado um pouco quando você terminar de lê-lo”.

Recomendo! A Suzana Herculano-Houzel recentemente festejou cruzar com o Kandel no corredor. O livro é outra forma de encontrá-lo. E de aprender um monte sobre como a mente funciona.

Oi… te conheço de algum lugar?

Latrodectus hasselti (3).jpgO jogo da sedução é cruel. Pode ser poético como nos cavalos-marinhos ou letal como na aranha ao lado, mas de maneira geral não costuma ser fácil.

Se o macho da aranha australiana Latrodectus hasselti, da família das viúvas-negras, não se esforçar o suficiente, ele é morto pela fêmea que tentava conquistar. Jeffrey Stoltz e Maydianne Andrade, da Universidade de Toronto Scarborough no Canadá, mostraram que a donzela exige pelo menos 100 minutos de exibição (vi a notícia aqui). Se o pretendente falha, quem sai ganhando é o rival. E tem mais: no artigo que publicaram em outubro na Proceedings of the Royal Society B, os pesquisadores mostram também que um macho competente deixa a aranha tão siderada, que fica fácil um espertinho que não fez esforço algum copular com ela sem que ninguém note. Malandragens do mundo silvestre.

perus.jpgMenos digno do dia das bruxas, mas não mais fácil, é a dança dos perus selvagens comuns nos Estados Unidos, da espécie Meleagris gallopavo.

Na foto ao lado, que peguei no flickr (johndykstraphotography), dá para ver um pouco da provação. Na época da corte, os machos eriçam as penas, abrem a cauda em leque, alteram a respiração de maneira que a cabeça fica azul, sem sangue, e alguns apêndices da cabeça ficam vermelhos e inflados de sangue. Eles seguram essa postura por um tempo enquanto dão umas corridinhas para a frente e gritam o proverbial “glu-glu-glu” que se ouve de longe, vindo do outro lado dos morros. Fazem isso por horas a fio, ao longo de semanas a fio.

Quando eu estava no doutorado, tinha desses bichos em Hastings, a estação de pesquisa do Museu de Zoologia de Vertebrados da Universidade da Califórnia em Berkeley, onde fiz parte do trabalho. Meu colega de laboratório Alan Krakauer estudava os perus e tive o privilégio de ajudá-lo algumas vezes. Mas mais do que ajudar, eu ficava era siderada com o desfile dos perus. Nada como as peruas, que catavam o chão com ar blasê. Tirei muitas fotos, inclusive, mas não pude usar nenhuma delas aqui porque estão em eslaide. O Alan estava tentando desvendar um mistério: esse trabalho todo para conquistar uma perua. Os machos se exibem em pares, como na foto. Será que ambos saem ganhando? Será que competem?

À custa de muito seguir os bichos, pôr armadilhas imensas, marcá-los, observá-los e fazer análises genéticas, ele descobriu que os perus selvagens são um caso típico de sedução cooperativa. Só um dos machos, sempre o mesmo, vai para o mato com a perua. O outro ajuda, com o balé coordenado, mas fica a ver navios. A genética compensa, segundo Alan: os parceiros são parentes, então de maneira indireta o macho secundário acaba passando seus genes adiante. É a seleção de parentesco (kin selection), ou regra de Hamilton (William D. Hamilton foi quem descreveu matematicamente a teoria). O trabalho com os perus rendeu artigo na Nature, em 2005.

manakin.jpgMas nem sempre a ajuda na conquista vem de solidariedade familiar. Outra parceira de doutorado, Emily DuVal (que agora é professora na Universidade Estadual da Flórida, a foto é do site do laboratório dela), estuda o simpático tangará Chiroxiphia lanceolata, no Panamá. Lá, um par de machos pousa num galho horizontal e salta voando um por cima do outro, como uma roda-gigante. Até convencer a fêmea. No caso deles, os parceiros de dança não são parentes. O que parece é que o macho subalterno ganha experiência enquanto está na função, e quem sabe um dia chega lá.

E Mercival Francisco, da Universidade Federal de São Carlos em Sorocaba, defende que o tangará-dançarino Chiroxiphia caudata, típico da Mata Atlântica, segue outro sistema. Em artigo publicado este ano na The Auk, ele mostra que grupos de machos dançarinos (aí são vários, não um par) podem ser ou não parentes. Como ele me disse quando fiz a matéria sobre o trabalho dele para a Pesquisa, que mencionei também aqui, eles tendem a ficar onde nasceram. Por acaso, podem acabar dançando com parentes.

Quando contei dos tangarás, minha prima Laura lamentou que os machos das aves sejam tão enfeitados e os nossos não. “Os homens têm ferraris”, brinquei. Ia passando um cara, não numa ferrari, mas com som alto e de olho nas mulheres que porventura o observassem. Nunca vi mulher fazer isso.

Imagem0216.jpgRecentemente, chegando a São Paulo, o trânsito apertou por causa de congestionamento na marginal. O cara da ferrari ficou tão entalado quanto eu, só que muito mais aflito. Não pude deixar de pensar que os machos do resto do mundo animal enfrentam custos altíssimos para impressionar as fêmeas. Os nossos não são mesmo muito diferentes. Não imagino que seja confortável, muito menos economicamente viável, ter um carro desses numa cidade de ruas esburacadas onde não se pode apertar muito o acelerador.

Darwin reservou um espaço especial para a seleção sexual em suas teorias, foi uma das maiores discordâncias que teve com Alfred Russel Wallace, codescobridor da seleção natural. Voltarei a isso em breve.

Stoltz JA, & Andrade MC (2009). Female’s courtship threshold allows intruding males to mate with reduced effort. Proceedings. Biological sciences / The Royal Society PMID: 19864292

Krakauer, A. (2005). Kin selection and cooperative courtship in wild turkeys Nature, 434 (7029), 69-72 DOI: 10.1038/nature03325

DuVal EH (2007). Adaptive advantages of cooperative courtship for subordinate male lance-tailed manakins. The American naturalist, 169 (4), 423-32 PMID: 17427119

Francisco, M., Gibbs, H., & Galetti, P. (2009). Patterns of Individual Relatedness at Blue Manakin Leks
The Auk, 126 (1), 47-53 DOI: 10.1525/auk.2009.08030

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