O narrador jornalista

Um repórter entalado numa passagem estreita de uma caverna, lutando contra o pânico e a claustrofobia para afinal conseguir cavar até um salão onde nenhum humano (moderno, pelo menos) estivera antes. Me deleitei com “Deep South“, de Mark Jenkins, publicado na National Geographic. O repórter está em ação e leva o leitor a reboque. Fiquei sem fôlego, angustiada, extasiada, fascinada com as revelações dos espeleólogos. Funciona, em grande parte, porque Jenkins usa um recurso proibido no jornalismo brasileiro: a primeira pessoa.

O repórter está na caverna e narra, ele conversa com os pesquisadores e os descreve. Assim o texto reúne emoção, aventura e ciência. O leitor quase conversa também com o espeleólogo. Na minha imaginação eu vi as figuras, suas casas, o entusiasmo com a pesquisa a que dedicam a vida. Meu sonho é um dia escrever uma reportagem assim. Em português. E publicar num veículo oficial, não no blogue onde quem manda sou eu. Não custa sonhar.

Claro que a primeira pessoa não deve ser regra. Não teria lugar na maior parte dos textos que escrevo, e há sempre o risco de quem escreve esquecer que não é o protagonista da história. Mas às vezes é imprescindível, como no caso das cavernas do Jenkins, que me fez lembrar de uma reportagem na Folha de S.Paulo de 1º de novembro (aqui, para assinantes) que me chamou atenção justamente pela falta da primeira pessoa.

Como o Irã tem restringido a entrada de jornalistas, Samy Adghirni aproveitou um convite do governo iraniano para a 16ª Feira Internacional de Mídia de Teerã para andar pelas ruas e falar com as pessoas, em busca de avaliar como as coisas andam por lá passados uns meses da tensão política que seguiu a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad em junho. Copio aqui algumas frases da reportagem da Folha:
“…a
Folha contornou o rígido cerco
imposto pelo governo aos visitantes e circulou por vários setores de Teerã, conversando
com iranianos de todas as tendências políticas.”
“A Folha ouviu relatos de
amizades rompidas e famílias
dilaceradas pela política.”
“A Folha também flagrou no
meio da multidão policiais à
paisana usando telefones celulares para tirar fotos dos rostos
dos militantes pró-Karoubi.”

Ao ler, fiquei pensando como a reportagem seria mais forte e mais convincente se o repórter tivesse se posto em campo também no texto. Se narrasse, se descrevesse as pessoas com quem falou, se as trouxesse à vida para o leitor. Me senti distante e continuo sem saber como andam os ânimos em Teerã.

Discussão - 7 comentários

  1. Tati Nahas disse:

    Bela reflexão, Maria!
    Concordo contigo, às vezes um pouco de sabor em primeira pessoa confere mais veracidade ao relato e aproxima mais o leitor do que está sendo narrado.
    Beijão!

  2. Joey Salgado disse:

    Olá Maria,
    Como sempre a National Geographic aliando belas imagens com ótimos textos. Mas será que se o mundo inteiro escrevesse em primeira pessoa não sentiríamos falta da “impessoalidade” jornalística, muitas vezes necessária, de simplesmente reportar o que foi visto, sem interpretações?
    Obrigado pela dica de leitura, com o link!
    Inté!

  3. Belo post, Maria. Concordo com você: o uso da primeira pessoa deveria ser menos tabu no Brasil.
    Sou fã da Wired, acho que eles fazem isso muito bem. Um exemplo bom é esse (looongo) artigo sobre colágeno de T. rex (acho que citei esse exemplo na Ewclipo): http://www.wired.com/medtech/genetics/magazine/17-07/ff_originofspecies?currentPage=all
    Ainda assim, acho que é um recurso que deveria ser usado com parcimônia, só por quem está muito seguro de si, pois o risco de o texto desandar é grande!

  4. Maria Guimarães disse:

    joey e bernardo, estou de acordo com vocês. precisa ter cuidado, usar quando convém. por isso apontei dois exemplos muito específicos, de maneira alguma pretendi generalizar.
    uma coisa sim, generalizo: tabus são muito empobrecedores.
    bernardo, obrigada pela dica!

  5. Igor Z disse:

    “Criative nonfiction” é a palavra-chave, Maria!
    Usar a primeira pessoa funciona, mas além dela tb há outros recursos da literatura que a gente deveria ter licença pra usar no jornalismo.
    O que mais me espanta é que nas escolas de jornalismo o pessoal parou no tempo. Só se fala de Truman Capote, Tom wolfe, Gay Talese. Só dinossauros ativos antes de 1970.
    Ninguém conhece John McPhee, Douglas Preston, Annie Dillard e muitos outros.

  6. michele disse:

    Como você vê, como cientista, essa “impessoalidade” na pesquisa – e publicação – científica? Você acha que é também demasiada?

  7. Maria Guimarães disse:

    oi michele, fiquei aqui pensando. no fim acho sim, acho demasiada. claro que é cada vez mais raro ter um artigo em que o autor possa dizer “eu fiz”, porque as coisas são feitas em equipe.
    mas dizer “nós fizemos” quer dizer exatamente a mesma coisa do que dizer “foi feito”, só que pôr no discurso direto passa (para mim) uma ideia de que os pesquisadores assumem a responsabilidade pelo trabalho. bem diferente do acusação recente de plágio envolvendo a reitora da USP Suely Vilella, em que ninguém parece ser responsável pelo artigo.
    fiz uma discilplina de estatística nos Estados Unidos em que o professor dava muita importância a como escrever os trabalhos do curso, em forma de artigo. ele sustentava que a gente devia sempre escrever “eu fiz” ou “nós fizemos”, em vez de “foi feito”. porque passa ação, e não passividade. claro que não é generalizado, mas em artigos científicos americanos se lê bastante “we”. talvez até aí estejamos ficando arcaicos.
    fico curiosa para saber o que acham os pesquisadores que passam por aqui.
    abraço e obrigada pela visita e pelo comentário.

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