Marina Silva contribuiu para a área ambiental ser vista como obstáculo ao progresso… mas elevará o debate, opina José Goldemberg

Nesta segunda parte da entrevista, José Goldemberg opina sobre o que apelida de “romantismo”ambiental, a bioprospecção na Amazônia, a opção nuclear e, sobre a eventual candidatura de Marina Silva à Presidência da República.

sobre mudar os padrões de consumo
“essas ideias são completamente românticas”

sobre bioprospecção

“não acredito que ainda se vá
descobrir alguma pedra filosofal na Amazônia”

sobre energia nuclear
“é completamente inapropriada para resolver
problemas do Brasil”


É possível conciliar as posições divergentes de ambientalistas e
céticos ambientais, que se degladiam sobre se e como a crise deve
ser encarada? Desenvolvimento sustentável e inovação tecnológica são compatíveis?

A introdução da legislação ambiental, a partir de meados do
século XX, sofreu muita resistência do setor industrial. Por exemplo,
colegas economistas importantes, argumentaram que se o Clean Air Act
fosse implementado arruinaria a indústria americana. O problema de
certos economistas é que não entendem que as pessoas também querem um
ar limpo, que não seja um problema de saúde. Mas existem no sistema
xiitas dos dois lados: ecologistas que amam a natureza e têm uma
visão extremamente elitista, não prestando atenção para o
fato de que pelo menos metade da população mundial não tem condições de
vida adequadas. Eles tiveram muito sucesso com a legislação ambiental,
como a brasileira que é extremamente elitista. Por exemplo,
frequentemente a construção de hidroelétricas aqui no Brasil, que
beneficiam milhões de pessoas, é atrasada ou impedida porque tem 3500
ribeirinhos que vivem às margens de um rio que sofreria modificações
importantes. É verdade esses grupos são afetados, mas grupos muito
maiores, longe desses lugares, são beneficiados. Essa é uma decisão que
não tem nada que ver com tecnologia, é uma decisão social e política.

Como cientista e membro de governo em 1992, acompanhou de perto o processo da Conferência do Rio. Quais foram os principais
avanços desde então na frente de luta ambiental, tanto no mundo como no
Brasil?

A reunião teve a contribuição muito importante de reforçar o movimento
ambientalista, dando-lhe respeitabilidade. Compareceram mais de 100
chefes de estado, que adotaram a grande parte da retórica do movimento
ambientalista. Mas as posições dos governos mais importantes eram de
extrema prudência. De modo que o que aconteceu depois não me
surpreendeu muito. Por exemplo, em 1992 tive sérios atritos como
ministro com o Ministério das Relações Exteriores porque eu achava que
era preciso em 1992 adotar metas para as emissões, e que sem a adoção
de metas os países não cumpririam as promessas que haviam feito, e que
é precisamente o que ocorreu. No caso da Convenção do Clima, o
protocolo de Quioto tentou corrigir isso, mas não foi suficiente. Outra
prova de que tinha razão é a Convenção da Biodiversidade, até hoje uma
convenção de papel sem resultados exceto retórica. A grande discussão
em 92 era de que remédios se originam do conhecimento de indígenas e de
populações tradicionais, o que do ponto de vista científico é altamente
discutível. Não vivemos mais no século XV, hoje sintetizamos moléculas.
No momento em que você entende o que um remédio faz, você desenha a
molécula que você precisa. Mas sempre terá alguém dizendo que a
natureza é muito sábia e que os índios descobriram que o suco de tal
planta tem propriedade de corrigir alta pressão. Isso é verdade, mas
transformar essa planta num remédio que você vende nas farmácias custa
centenas de milhões de dólares, e as pessoas querem ser remuneradas por
isso. Então, uma Convenção da Biodiversidade que protege a
biodiversidade sem levar em conta que ela, como tal, só resolve o
problema das populações indígenas fora da civilização moderna, é irrealista.

É então um cético do aproveitamento da biodiversidade da Amazônia para desenvolver novos medicamentos?
Sim, e isso se liga a experiências que vivi. Numa ocasião, eu visitei o
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, onde havia pessoas
recolhendo insumos que os índios e outras populações tradicionais
usavam. Havia uma enorme coletânea dessas susbtâncias, mas que não
tinham sido convertidas em algo útil. Não acredito que ainda se vá
descobrir alguma pedra filosofal na Amazônia, procurando um pouco mais.

Acha que a resolução dos problemas energéticos atuais através de novas
tecnologias permitiria à população mundial, estimada em 9 bilhões em
2050, manter os níveis de consumo das sociedades mais
desenvolvidas?

Têm sido feitas estimativas de que sim porque existe uma quantidade
imensa de energia solar que atinge a terra. Converter essa energia
solar na energia que nós usamos hoje não é trivial, mas tem havido
grandes progressos. As estimativas dizem que por volta do ano 2050,
altura em que a população mundial já estará estabilizando, 50% das
necessidades energéticas poderão ser supridas com fontes de energia que
vêm direta ou indiretamente do Sol, como energia eólica ou da biomassa.
Naturalmente, estão surgindo pregadores evangelistas, que acham que a
solução seria mudar os padrões de consumo. Eu acho essas ideias
completamente românticas, mas elas alimentam uma parte do setor
ambientalista que acabou sendo caracterizado, sobretudo aqui no Brasil,
como se opondo ao progresso. Eu acho que essas experiências recentes
que tivemos aqui no Brasil, com Marina Silva, com Carlos Minc agora,
pessoas do movimento ambientalista que dirigiram a política ambiental,
têm feito um certo dano à causa ambiental, por terem sido
caracterizadas como obstáculos ao progresso. As preocupações ambientais
não necessariamente são um obstáculo ao progresso, mas as soluções são
sofisticadas.

Relativamente à energia nuclear, alguns ambientalistas têm-se revelado
menos críticos desta opção por não ter impactos climáticos. Qual a sua
opinião sobre a necessidade de expansão do sistema de energia nuclear?

Os problemas da energia nuclear são distintos daqueles causados por
outros tipos de poluição, sob certo ponto de vista eles são mais
mortíferos. E têm uma componente não relacionada com ciência ou meio
ambiente. Com a poluição tradicional, os riscos são mais controlados.
Com a energia nuclear, você perde completamente esse controle. Esse é um argumento de natureza filosófica e
política. É verdade que a energia nuclear resolveu os problemas de
certos países, mas ela é completamente inapropriada para resolver
problemas do Brasil, que produz a maior parte da sua eletricidade a
partir de hidroelétricas, e poderia produzir mais. Na
França, o potencial hidroelétrico foi exaurido e foi tomada uma opção
pela energia nuclear. É uma decisão que líderes franceses tomaram, não
sei se a população francesa, mas outros países organizaram plebiscitos
em que a energia nuclear foi recusada. Não há uma resposta clara no
caso da energia nuclear, tem a ver com os riscos que você quer correr.
Por outro lado, a história tem mostrado que a energia nuclear é uma
grande fonte de prejuizo. Numa região do Japão, um terremoto provocou
recentemente a desativação de quatro reatores nucleares durante um ano,
provocando bilhões de dólares de prejuizo.

Finalmente, qual a sua opinião e expectativas sobre uma eventual candidatura da senadora Marina Silva à Presidência da República?
Ela terá uma contribuição positiva em elevar o nível do debate,
forçando outros candidatos a se manifestar com seriedade sobre as
questões ambientais, o que até agora não foi feito por nenhum deles. No
entanto, o desempenho dela como ministra do meio ambiente não foi muito
satisfatório, por encorajar e ser tolerante com o que eu chamo de
xiitas ambientais. Ela contribuiu para a área ambiental ser vista como
obstáculo ao progresso.

Discussão - 2 comentários

  1. “Por outro lado, a história tem mostrado que a energia nuclear é uma grande fonte de prejuizo. Numa região do Japão, um terremoto provocou recentemente a desativação de quatro reatores nucleares durante um ano, provocando bilhões de dólares de prejuizo.”
    Esse exemplo não é lá muito bom para mostrar que energia nuclear não seja uma opção viável para o Brasil. Aqui não se tem tantos terremotos na escala como se tem no Japão.
    “Naturalmente, estão surgindo pregadores evangelistas, que acham que a solução seria mudar os padrões de consumo. Eu acho essas ideias completamente românticas […]”
    Podemos lembrar os esforços recentes de racionamento. A população respondeu bem à necessidade de corte em 20% do consumo de energia elétrica.
    Também é estranho o exemplo de elitimos da legislação ambiental que ele dá. Os 3.500 ribeirinhos com certeza não são parte da elite…
    []s,
    Roberto Takata

  2. Luiz bento disse:

    “Finalmente, qual a sua opinião e expectativas sobre uma eventual candidatura da senadora Marina Silva à Presidência da República?
    Ela terá uma contribuição positiva em elevar o nível do debate, forçando outros candidatos a se manifestar com seriedade sobre as questões ambientais, o que até agora não foi feito por nenhum deles. No entanto, o desempenho dela como ministra do meio ambiente não foi muito satisfatório, por encorajar e ser tolerante com o que eu chamo de xiitas ambientais. Ela contribuiu para a área ambiental ser vista como obstáculo ao progresso.”
    #Fato
    Isso somado a uma utopia ambientalista da classe média que acha que vai salvar o planeta apagando a luz da varanda resulta em um discurso ambiental vazio, pouco prático e inatingível.

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