Termelétricas e pré-sal são anacrônicos, diz José Goldemberg

Goldemberg2.jpegO governo equivoca-se ao optar pelo petróleo do pré-sal e pela termeletricidade, descurando incentivos a energias alternativas, opina José Goldemberg, uma autoridade em energia e ambiente, no Brasil e no mundo. Nesta entrevista, o físico da USP analisa as opções energéticas do Brasil no contexto da transição para uma economia de baixo rastro de carbono, tema certo da próxima 15a  Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP-15), que se realizará em dezembro em Copenhague.


Professor Goldemberg, o que fazer quando  se verifica hoje que os
ganhos ambientais do século XX, por exemplo redução da poluição nas
cidades, foram conseguidos à custa de tecnologia que aumentou o consumo
global de energia, com efeitos negativos no clima?

É preciso eliminar os combustíveis fósseis, tão simples quanto isso.
Primeiro porque são uma herança do passado que vai acabar se exaurindo.
Segundo, porque estão distribuídos de maneira errática em torno do
mundo, gerando problemas complicados de segurança e de abastecimento.
Veja que a grande maioria das reservas remanescentes de petróleo estão
no Oriente Médio, que é uma área instável. Terceiro, devido ao novo
problema do aquecimento global, que não existia no século passado. Os
combustíveis fósseis estão condenados mas vai levar uma geração ou duas
para que a tecnologia dê uma resposta a esse problema, encontrando
soluções novas.

A crise atual é essencialmente energética?
A raiz dos problemas é a forma de produção e uso de energia. Da toda a
energia que a humanidade consome, 80% provém de combustíveis fósseis:
carvão, petróleo e gás natural. Essa é a raiz do problema, embora
existam outras contribuições como a produção de metano pelo gado e uso
do solo, e o desmatamento, que são mais fáceis de corrigir. A redução
do desmatamento não necessita novas tecnologias, e sim decisão
política, pura e simples. Não é comparável à substituição eficaz do
petróleo.

O Plano Nacional de Mudanças Climáticas do Brasil prevê reduzir o
desmatamento em 80% até 2020. Isso permitiria ao Brasil aumentar as
emissões resultantes da matriz energética, tal como previsto no Plano
Decenal de Energia?

Esse argumento é odioso, vai na contramão da história. Se a população
brasileira se tornar mais dependente de combustíveis fósseis do que é
hoje, ainda mais agora com o pré-sal, reduzir o desmatamento da
Amazônia não vai ajudar muito. A contribuição do Brasil para as
emissões mundiais de gases com  efeito de estufa é de 4%, 3% com origem
no desmatamento da Amazônia e na agropecuária, e 1% no sistema
industrial. Se o Brasil cumprir o plano de redução do desmatamento,  a
contribuição do uso do solo para as emissões diminui para 2%. Em
compensação, se o sistema industrial dobrar a sua contribuição
ficaríamos mais ou menos na mesma.

Os Ministérios do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia entraram
recentemente em polêmica sobre a produção de relatórios atuais de
emissões de gases com efeito de estufa -o último é de 1994. Por que
parece ser tão difícil e moroso produzir esses dados?

É um problema técnico, da competência necessária. O inventário oficial
de emissões que o Brasil tem é de 1994. Só isso já coloca o Brasil numa
posição ridícula. Os outros países atualizam os seus relatórios, você
pode consultar relatórios de 2005 e 2006 na internet. Eles são difíceis
de fazer, há um trabalho técnico grande, mas considero inteiramente
indesculpável a morosidade do Ministério de Ciência e Tecnologia de não
ter completado até agora o relatório, pelo menos até 2004. E o
Ministério de Meio Ambiente não está de fato tão aparelhado para
produzir esse relatório, mas acabou por fazê-lo mesmo assim. Agora,
ainda não compreendo por que não foi feito pelo MCT, se por falta de
motivaçao ou de competência.

Sir Nicholas Stern afirmou recentemente que aqueles países que não
aproveitarem as novas oportunidades da economia de baixo carbono,
ficarão irremediavelmente atrasados. A hidreletricidade e os
biocombustíveis colocam o Brasil na linha da frente desse mercado?

Colocam pela seguinte razão: alguns países, especificamente os EUA e a
França, estão adotando leis que permitirão a introdução de taxas
adicionais aos países que exportarem produtos com rastro elevado de
carbono. Por exemplo, suponhamos que exista uma empresa na China que
exporte bonecas competindo com uma empresa brasileira do mesmo ramo. As
bonecas produzidas no Brasil terão uma vantagem competitiva porque o
rastro de carbono é baixo, uma vez que as máquinas que produzem as
bonecas usam hidreletricidade. Então é do interesse do Brasil manter-se
como economia de baixo carbono. Essa tendência do governo introduzir
termelétricas na matriz energética brasileira é completamente
anacrônica e acabará prejudicando o Brasil.

O que pensa das manifestações públicas de empresas que vieram cobrar
mais iniciativa do governo para promover a liderança do Brasil na
redução de emissões de gases com efeito de estufa e nos incentivos às
energias renováveis?

Os meus colegas da Faculdade de Economia me disseram que o setor
industrial brasileiro é caracterizado por líderes que representam
aproximadamente 20% da economia brasileira; empresas como a Vale. Elas
têm acesso a economistas e técnicos de alto nível, que já entenderam os
riscos de uma economia de alto carbono e as oportunidades de uma
economia de baixo carbono. Portanto, elas lideram e estão impacientes
com o fato de que o governo brasileiro ainda não tomou decisões claras.

O investimento gigantesco que está destinado para o pré-sal deveria
ser direcionado por exemplo para o PROINFA-Programa de Incentivo às
Fontes de Energia Alternativa?

Sim, claro! É inexplicável que o programa não tenha prosperado desde
2003. Existem já alguns investimentos em empreendimentos eólicos, vai
decorrer um leilão de energia eólica em novembro, mas realmente o
programa não decolou em todo o governo atual.

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