Árvores em flor: espatódea

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Muito comum nas cidades brasileiras – no estado de São Paulo, pelo menos – a espatódea é na verdade nativa da África. Daí outro nome popular, tulipeiro-da-áfrica. Florescem com generosidade, por muitos meses do ano. Agora, por exemplo, mas varia conforme o lugar.

É uma árvore de porte médio, chega até cerca de 25 metros, da família das bignoniáceas (a mesma do ipê e do jacarandá-mimoso). Os frutos são as vagens pontudas junto às flores, que quando maduros se abrem e soltam sementes aladas que se espalham ao sabor do vento.

Insetos e aves costumam fazer a festa nas grandes flores que suponho
cheias de néctar. Mas alguns estudos indicam que as flores têm substâncias
tóxicas que aumentam a mortalidade pelo menos das abelhas (veja aqui
e aqui). Prestes a me sentir culpada por gostar dessa bela árvore, fiquei aliviada por encontrar uma declaração de que não é verdade que o néctar da espatódea mata aves, apesar de conter um alcaloide alucinógeno (será por isso que já vi periquitos na maior algazarra em cima de uma delas?). Quem assina a nota é Luiz Fernando de Andrade Figueiredo, que suponho ser do Centro de Estudos Ornitológicos.

A foto acima, de acordo com o levantamento feito pelo agrônomo José Hamilton de Aguirre Junior e divulgado no Raio X do Cambuí, é da espécie Spathodea nilotica. Fica em frente à casa onde morei nos últimos 3 anos. Esta é uma despedida e uma inauguração: daqui para a frente, terei outra espatódea para admirar da janela do quarto. Como diz meu concunhado, mudanças são uma boa fonte de novas memórias.

A longa marcha dos grilos canibais

reinach.jpg“Cuidado com a Terra”. É a mensagem que arqueólogos desvendaram nos moais, aquelas gigantescas estátuas de pedra que hoje são os únicos hanigantes da ilha de Páscoa, no meio do oceano Pacífico.

É esse também o mote recorrente em boa parte das crônicas que recheiam A longa marcha dos grilos canibais, recém lançado pela Companhia das Letras. No livro, o biólogo molecular e cronista de ciência Fernando Reinach recupera as origens do homem em túmulos milenares, no DNA e no cérebro das pessoas e até nos genes de piolhos. E mostra que esse bicho humano feito de células e do ambiente em que vive, a começar pelo útero onde inicia seu desenvolvimento, se multiplicou mais do que seria sábio e agora ameaça a própria existência. O autor acusa: depois de destruir a natureza por meio de desmatamento e poluição – causando efeitos desde locais até globais – o homem agora tenta reparar os danos interferindo em processos ecológicos e evolutivos. E, muitas vezes, mete os pés pelas mãos.

A verdade é que, mesmo tendo domesticado centenas de espécies de animais e plantas para uso próprio, estamos longe de controlar a natureza. Ela tem recursos muito mais engenhosos do que podemos imaginar, como a lagarta de borboleta que se faz adotar por formigas e o cão, especialista em explorar o afeto para pôr os companheiros bípedes a seu dispor. Até para o milho cabe perguntar: quem está a serviço de quem?

Das hordas de grilos migradores obrigados a andar depressa para não serem comidos por aves ou até mesmo seus pares a explicações neurológicas para a intuição ou o fetiche por pés; entre uma pessoa que não vê mas enxerga e outra que vê mas não enxerga estão reflexões intrigantes sobre como o conhecimento científico afeta – ou deveria afetar – a vida. Recomendo a (deliciosa) leitura.

Pesquisador de destaque, Fernando Reinach é especialista em biologia molecular e professor no Departamento de Bioquímica da Universidade de São Paulo (USP). Ele foi um dos coordenadores do primeiro projeto genoma brasileiro, que desvendou o material genético da bactéria Xylella fastidiosa, causa importante de doenças em laranjais e outros cítricos de importância econômica. Mais do que achar a cura para a doença, esse trabalho contribuiu para mudar como se faz ciência no Brasil e para que essa ciência ganhasse projeção internacional. Hoje Reinach é diretor executivo da Votorantim Novos Negócios.

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Qualquer semelhança entre o texto acima e o que habita as orelhas do livro não é mera coincidência. Também não é plágio, mas garanto que não ganho direitos autorais – a recomendação é sincera.

Cidadãos do lixo

Chamada de um artigo do Público online de hoje:

“Eram cinco minutos de vídeo. Mostravam como 50 mil cidadãos na Estónia
acabaram com dez mil pequenas lixeiras espalhadas pelo país. Num único
dia, 3 de Maio de 2008, fizeram o que custaria ao Estado três anos de
trabalho e 22 milhões de euros.”

O vídeo, do YouTube:

Dois anos depois…a notícia do Público online:

Mais de cem mil portugueses vão limpar Portugal amanhã

As mobilizações de mais de 3% dos estonianos e de cerca de 1% dos portugueses são exemplos do poder da cidadania para empreender ações consensuais, que dificilmente seriam resolvidas na esfera dos poderes públicos formais. Afinal, quem discordaria que é mais agradável viver em “cidades” limpas? Mas quem iria pescar a primeira camisinha do Tietê? Para lusófonos de outras paragens, camisinha é preservativo, Tietê é rio que banha a cidade de São Paulo. Preservativo é igual em qualquer lugar do planeta, o Tietê… nunca vi igual. Por vezes, o esgoto mistura-se com a lixeira do plástico num cenário que, de tão surreal, não é desinteressante. É horrendamente belo.

Fui criança e adolescente no Portugal dos anos 80 e posso afirmar que os portugueses percorreram um longo caminho em direção a uma cidadania mais limpa. O nome da trilha: 36 anos de democracia. O Brasil já totaliza 22, espero apanhar camisinha do Tietê em algum dos próximos 14 anos. Mesmo não sendo ainda brasileiro.

O biocombustível, o gado e a floresta

amazonia.jpgBiocombustíveis têm sido vistos como uma opção sustentável para reduzir os danos à atmosfera. E não é não só por serem menos poluentes, mas porque, assim como as florestas, as plantações de soja e de cana-de-açúcar – as lavouras mais usadas como fonte de energia – também consomem gás carbônico (CO2) do ar, cujo excesso é um dos responsáveis pelas mudanças que vêm afetando o clima da Terra.

Mas essa conta precisa ser feita com cuidado, mostra um estudo coordenado pelo ecólogo brasileiro David Lapola, agora na Universidade de Kassel, na Alemanha, publicado na revista PNAS. O estudo simulou o que acontecerá caso a produção de etanol e biodiesel aumente como previsto até 2020 e mostrou que ela pode ter efeitos indiretos nocivos na Amazônia e Cerrado.

As plantações de soja e cana tendem a substituir pastos, o que por si só não seria mau. Mas o que acontece é que muitas vezes o processo causa mais desmatamento quando o pasto invade a zona de floresta, e nesse caso os danos ultrapassam a economia de carbono que os biocombustíveis propiciam. O processo criaria uma dívida de carbono que levaria 250 anos para ser ressarcida com a substituição de combustíveis fósseis por biocombustíveis. Para ele, a intensificação da pecuária poderia evitar tais mudanças indiretas de uso da terra.

Além dos canaviais, o estudo indica plantações de dendê como boa fonte de biocombustível com menor impacto ecológico.

A foto acima é de Eric Stoner. Encontrei no flickr e reproduzo com a devida autorização do autor. São 4 mil hectares de floresta amazônica cercada por pasto e soja em Querência, no Mato Grosso.

ResearchBlogging.org
Lapola, D., Schaldach, R., Alcamo, J., Bondeau, A., Koch, J., Koelking, C., & Priess, J. (2010). Indirect land-use changes can overcome carbon savings from biofuels in Brazil Proceedings of the National Academy of Sciences, 107 (8), 3388-3393 DOI: 10.1073/pnas.0907318107

Salvar vidas é fácil

E (quase) não dói! Virei doadora de medula óssea, única possibilidade de tratamento para doenças como leucemia, em que a produção de células do sangue (glóbulos vermelhos e brancos) e de plaquetas precisa ser substituída.

Em conversas com amigos, vi que a desinformação gera um medo desse tipo de doação, por isso resolvi contar aqui. É bem simples.

Basta ir a um hemocentro (veja lista aqui), fazer o cadastro e deixar uma amostra de sangue, um tubinho de 10 ml. Essa amostra vai ser analisada em termos de marcadores imunológicos, os HLA. É isso que vai determinar a compatibilidade entre doador e receptor.

Essa compatibilidade é um grande empecilho, mesmo dentro da própria família a estatística não ajuda: entre irmãos a chance é de 25% e na família estendida, 7-10%. Se o paciente não consegue na família, o jeito é procurar nos bancos de doadores, que precisam ser muito extensos para que haja chances de se encontrar uma combinação viável. Meus dados estarão no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome), instalado no Instituto Nacional de Câncer (ligado ao Ministério da Saúde).

Caso algum dia eu seja selecionada (antes de completar 55 anos, depois não se pode mais doar), me convocarão para retirar um pouco de medula de dentro do meu fêmur. O procedimento é feito com internação de 24 horas e anestesia geral. Depois pode haver um desconforto por uns dias, mas quem vai ligar pra isso se acabou de potencialmente salvar uma vida?

Vou confessar que descobri tudo isso faz uns 4 anos e enrolei até agora só porque tenho um medo danado de agulha. Finalmente consegui superar a barreira, e espero que o exemplo sirva para que alguém mais dê um pulo num hemocentro. Mais informações para doadores aqui.

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