O biocombustível, o gado e a floresta

amazonia.jpgBiocombustíveis têm sido vistos como uma opção sustentável para reduzir os danos à atmosfera. E não é não só por serem menos poluentes, mas porque, assim como as florestas, as plantações de soja e de cana-de-açúcar – as lavouras mais usadas como fonte de energia – também consomem gás carbônico (CO2) do ar, cujo excesso é um dos responsáveis pelas mudanças que vêm afetando o clima da Terra.

Mas essa conta precisa ser feita com cuidado, mostra um estudo coordenado pelo ecólogo brasileiro David Lapola, agora na Universidade de Kassel, na Alemanha, publicado na revista PNAS. O estudo simulou o que acontecerá caso a produção de etanol e biodiesel aumente como previsto até 2020 e mostrou que ela pode ter efeitos indiretos nocivos na Amazônia e Cerrado.

As plantações de soja e cana tendem a substituir pastos, o que por si só não seria mau. Mas o que acontece é que muitas vezes o processo causa mais desmatamento quando o pasto invade a zona de floresta, e nesse caso os danos ultrapassam a economia de carbono que os biocombustíveis propiciam. O processo criaria uma dívida de carbono que levaria 250 anos para ser ressarcida com a substituição de combustíveis fósseis por biocombustíveis. Para ele, a intensificação da pecuária poderia evitar tais mudanças indiretas de uso da terra.

Além dos canaviais, o estudo indica plantações de dendê como boa fonte de biocombustível com menor impacto ecológico.

A foto acima é de Eric Stoner. Encontrei no flickr e reproduzo com a devida autorização do autor. São 4 mil hectares de floresta amazônica cercada por pasto e soja em Querência, no Mato Grosso.

ResearchBlogging.org
Lapola, D., Schaldach, R., Alcamo, J., Bondeau, A., Koch, J., Koelking, C., & Priess, J. (2010). Indirect land-use changes can overcome carbon savings from biofuels in Brazil Proceedings of the National Academy of Sciences, 107 (8), 3388-3393 DOI: 10.1073/pnas.0907318107

Discussão - 5 comentários

  1. É… nada é simples na área de recursos energéticos. Falta mais textos como esse na internet, sem aquele ranço do “ame” ou “odeie”. Muito bom, Maria

  2. Eric Stoner disse:

    Excelente matéria – e gostei da foto!
    Por coincidência, quando peguei carona de avião até um encontro de produção responsável em Água Boa, Mato Grosso em fevereiro de 2009 (quando tirei esta foto) presenciei um empresário de São Paulo “namorando” os prefeitos da região com proposta de localizar um empreendimento novo de produção de etanol, necessitando compromisso de uma área de 160 mil hectares em bloco para a cultivo de cana! Os números assustam. Primeiro, quem é o prefeito que recusaria investimento assim? Desenvolvimento na véia! Progresso! Mas e o deslocamento dos produtores rurais já instalados neste imenso bloco de terra? A maioria deles pioneiros relativamente recente na região das cabeceiras do Rio Xingu, não estranhos ao processo de “abertura” ou “desbravamento” das terras (quer dizer, desflorestamento). Lapola corretamente convida a gente para ponderar sobre as sequencias e consequencias dos investimentos em larga escala em biocombustíveis. E esta linda floresta de 4 mil hectares na foto, tão cuidadosamente protegido, daqui a dez anos? Não seria melhor ajudar o proprietário proteger, do que simplesmente deixar as coisas (possivelmente ruins) acontecerem?

  3. Luís Brudna disse:

    O ´também consomem gás carbônico (CO2) do ar´
    pode dar a ideia errada de que as plantações estariam retirando o CO2 e que este iria simplesmente sumir.

  4. Livio disse:

    Gostaria de saber, na boa, qual o “grande diferencial” do biodiesel em relação a queima do próprio óleo vegetal como combustível, como acontece no funcionamento dos motores Elko (Elsbett), poupando o dispendioso processo de transesterificação.
    Igualmente renovável, igualmente funcional.

  5. Maria Guimarães disse:

    obrigada, fernanda.
    eric, agradeço o depoimento! volte sempre.
    luís, vou tentar desfazer a ambiguidade: o CO2 nunca vai sumir do ar, nem pode. as próprias plantas precisam desse gás para crescer e viver (para fazer fotossíntese), e é por isso mesmo que o absorvem do ar (não porque nos convém). o problema é o excesso, que contribui para as mudanças do clima. a comparação floresta versus canavial, por exemplo, se aplica porque em ambos casos se trata de plantas fazendo fotossíntese – muito diferente de desmatar e não pôr planta nenhuma no lugar, no que diz respeito ao efeito estufa. mas claro que quando se trata de biodiversidade e processos ecológicos, a conversa é outra.
    livio, não sei a resposta. espero que passe por aqui alguém que possa nos iluminar a esse respeito.
    obrigada a todos pelos comentários.

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