Céticos versus crentes

Como fazer para que pessoas com crenças não fundamentadas ouçam argumentos científicos e, quem sabe, pensem melhor? Foi esse tema, “discutindo com não-céticos”, que ontem reuniu James Randi (guru de pelo menos uma parte dos céticos de carteirinha), George Hrab, D. J. Grothe e Steve Mirsky (apresentador genial do podcast da Scientific American gringa), com moderação de Julia Galef, na conferência sobre ciência e ceticismo em Nova York. A conversa está disponível, em inglês, aqui e aqui.

É um belo bate-papo, que me fez pensar bastante. Sobretudo sobre o papel dos blogues de ciência. Meu intuito aqui neste blogue é contar coisas interessantes e cientificamente plausíveis. Ou, pelo menos, quando me deixo engambelar por algo não fundamentado, lançar a discussão para que me corrijam e a informação fique mais correta.

Nunca me ocorreu iluminar as pessoas, mudar suas crenças. E por isso mesmo, pensei agora, corro o risco de fazê-lo sem querer. Então vou começar a prestar atenção nisso. Um erro comum em discussões, disseram os céticos, é ter como objetivo fazer com que as pessoas mudem de ideia. O mais produtivo, na verdade, é fazer pensar. E se isso, hoje ou daqui a alguns anos, fizer com que a pessoa mude de ideia, o cético põe uma conversão no currículo. Outro erro é deixar de discutir porque se a pessoa acredita aquilo, só pode ser idiota. Talvez não seja, disseram.

Convém aqui me identificar: já disseram que sou muito questionadora, mas não me considero cética. Ouvindo a discussão, me dei conta das contradições embutidas nisso. Eles disseram que algo interessante numa discussão é perguntar ao não-cético o que o faria parar de acreditar no que quer que esteja em pauta. Mas para isso, alguém falou, é importante que o cético também tenha essa resposta pronta. O que seria necessário para que eu deixe de acreditar que há 1 bilhão de anos não tinha uma pessoa bem parecida comigo andando por aí? Para que deixe de acreditar que não posso corrigir os erros desta vida numa próxima? Para que eu deixe de acreditar que acupuntura não funciona contra uma infecção bacteriana? Por aí vai. O cético pra valer tem que duvidar até das próprias certezas.

É raro. Na verdade, minha impressão é que os associados ao clube dos céticos costumam ser cheios de certezas. E essas certezas excluem as alheias, aquelas incorretas. Não sei se existe alguma entidade superior, não sei se tem um espírito olhando por cima do meu ombro enquanto escrevo, não sei se homeopatia funciona em alguns casos. Por isso teria minha carteirinha negada. Vivo conforme o que acredito: não rezo, não tomo homeopatia.

Escrevo como uma semente de reflexão: quero pensar mais nisso, e enriquecer com opiniões contrastantes, dissonantes, complementares ou até inconciliáveis que passem por aqui. E quero buscar, cada vez mais, trazer perspectivas diversas e interessantes sobre o mundo. Fundamentadas, porque essa é minha crença, por critérios científicos rigorosos. Até onde meu discernimento alcança.

Mar de antidepressivos

Shrimp1.jpgMedicamentos humanos não processados por inteiro pelo organismo podem acabar chegando às águas do mar, causando um tipo de poluição ainda pouco estudado.

E podem ter efeitos sobre organismos marinhos, de acordo com Yasmin Guler e Alex Ford, da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, segundo artigo publicado na Aquatic Toxicology.

Em laboratório, eles expuseram um tipo de camarão (Echinogammarus marinus) à fluoxetina, o princípio ativo de medicamentos contra a depressão como o Prozac.

Descobriram que os camarões medicados nadam em direção à luz, em vez de fugir dela como fazem normalmente. Para eles, buscar a iluminação não é boa ideia: ficam mais expostos a predadores como peixes ou aves. Ao oferecer esse festim, os antidepressivos no mar podem acabar causando grandes alterações na cadeia alimentar.

A foto acima eu recebi do Alex Ford, da Universidade de Portsmouth.

Ouvi essa notícia pela primeira vez nos Naked Scientists.

O pecado da escravidão

moore.jpgO engajamento de Charles Darwin pela abolição da escravatura teria sido, segundo os biógrafos Adrian Desmond e James Moore, um fator importante por trás da elaboração da teoria da seleção natural.

Já falei disso aqui, na entrevista que fiz com Moore. Na época fiz também uma resenha do livro A causa sagrada de Darwin, que foi publicada na revista Ciência e Cultura. Eu tinha esquecido, na verdade nem vi a revista. Mas a resenha está disponível em pdf, aqui.

Descobri também que James Moore estará de volta a São Paulo para falar desse assunto. Será no Encontro de História e Filosofia da Biologia, que acontecerá no Instituto de Biociências da USP entre 11 e 13 de agosto.

Moore dará a palestra de abertura, cujo título plagiei para batizar esta postagem: “Darwin and the ‘sin’ of slavery”, no dia 11 às 9:30.

Quem está em Salvador também tem sorte. Ele vai apresentar a mesma palestra no Instituto de Biologia da Ufba no dia 16 de agosto às 13:00.

Árvores em flor: ipê-branco


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Parece um tufo de algodão gigante, impávido em seu brancor enquanto os carros passam. É o ipê-branco (Tabebuia roseoalba), que infelizmente não se vê muito por aí. Não sei por quê, alguém me conta?

Vi esta hoje, de passagem pelo bairro onde morava em Campinas, o Cambuí (cambuí, aliás, é uma árvore que nem lá eu vi – só uma, que plantaram na praça mas morreu em seguida – então não entrou aqui nesta galeria). Pena que meu celular não tem boa resolução…

Fui procurar sobre ela e na wikipedia tem um verbete bastante bom, até com etimologia. Em vez de plagiar, fica aqui a indicação.

É nativa do Cerrado e do Pantanal, segundo esse site.

Saúde, pública?

Aconteceu na semana passada, num posto de saúde da zona sul de São Paulo.
Depois de chegar 10 minutos atrasada para a consulta das 15h, a moça é admitida no consultório às 17:30.

Você chegou atrasada, diz o médico
– Eu sei, tive dificuldades em me liberar do trabalho.
Eu não devia te atender, na próxima vez não atendo.
– Estou com uma dúvida aqui sobre a forma de tomar o anticoncepcional.
– [olhando a receita que a moça estendeu] Quem te passou isso?? Quem mandou você tomar assim???
– O doutor fulano, aqui neste mesmo posto.
Ah, então está certo. É isso mesmo.
– Mas justamente eu estava estranhando a forma como ele me passou, o senhor não poderia me esclarecer?
– Se ele passou assim, é porque é pra você tomar assim. O seu papanicolaou está cinco meses atrasado!
– Eu sei. É porque marquei em janeiro, mas só consegui horário para hoje.
– Você sabe pra que serve esse exame?
– Sei. É para prevenção, para detectar doenças, miomas…
– Não! É pra detectar câncer.
– Pois é, câncer não é doença? [já trêmula de raiva, provavelmente]
Vamos então colher, deita aí.
O espéculo não entra, você tem algum problema? Você por acaso tem formação?
[decidindo mentir um pouquinho] Sou psicóloga, trabalho com gente.
Pois você precisa de um psicólogo, está toda dura e não consigo fazer o exame.

Fez o exame. A cólica e o sangramento no dia seguinte não correspondiam ao ciclo menstrual.

Essa história, que uma amiga me contou, me levou a pensar muito sobre o atendimento médico a que a população tem acesso. A raiz do problema, me parece claro, é a falta de investimento. São postos de saúde mal construídos, onde as pessoas passam horas em salas de espera inóspitas e apinhadas e os médicos não têm recursos materiais e cronológicos para atender direito. Ganham mal. E, pelo visto, acabam descontando em quem está vulnerável. E que médico bom aceita trabalhar nessas condições?

Tem saída? Na utopia tem, eu sei. Mas e na realidade nossa mesmo? O que precisa? Alguém sabe?

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