{"id":327,"date":"2018-05-14T11:02:31","date_gmt":"2018-05-14T14:02:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/?p=327"},"modified":"2018-05-25T14:44:38","modified_gmt":"2018-05-25T17:44:38","slug":"caramujo-africano-alimento-a-tormento-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/2018\/05\/14\/caramujo-africano-alimento-a-tormento-1\/","title":{"rendered":"Caramujo gigante africano &#8211; De alimento a tormento #1"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\">\u201cComo um bichinho t\u00e3o lento, molenga e de apar\u00eancia fr\u00e1gil pode dominar um lugar t\u00e3o r\u00e1pido assim?!\u201d Foi isso que pensei quando me deparei, em um quintal que frequento, com uma infesta\u00e7\u00e3o do caramujo-gigante africano (<i>Achatina fulica<\/i>). Fiquei abismado com o fato de, em quest\u00e3o de uma semana para outra, o n\u00famero de animaizinhos ter aumentado tanto.<\/p>\n<p class=\"western\">Mas quem \u00e9 esse caramujo e por que ele virou uma praga (que s\u00f3 quem conhece sabe o impacto e a dificuldade de eliminar)? Ele \u00e9 o convidado (ou, melhor, penetra) para estrear a s\u00e9rie de posts \u201c<strong>De alimento a tormento<\/strong>\u201d, onde iremos tratar de casos de animais, plantas, etc que, trazidas para nosso pa\u00eds para serem criados\/cultivados como alimento, tornaram-se &#8211; por algo ter dado muito errado \u2013 pragas agr\u00edcolas, vetores de doen\u00e7as, amea\u00e7as ecol\u00f3gicas (ou tudo isso junto).<\/p>\n<h3 class=\"western\">Ao &#8220;caramujo&#8221;<\/h3>\n<p class=\"western\">Apesar do nome popular, o caramujo-africano \u00e9, mais precisamente, um caracol (por ser pulmonado e viver fora d&#8217;\u00e1gua). Para evitar confus\u00e3o, no entanto, vamos continuar chamando-o pelo nome mais amplamente utilizado (mesmo em publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas). O caramujo\u00a0<i>A. fulica<\/i> veio para o <a href=\"https:\/\/motherboard.vice.com\/pt_br\/article\/d7dndq\/o-homem-debaixo-dos-caracois\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Brasil<\/a>\u00a0 na d\u00e9cada de 80, para ser criado como <em>Escargot<\/em> &#8211; caracol comest\u00edvel utilizado na culin\u00e1ria francesa e que tem alto valor nos restaurantes. Por ser mais resistente e ter reprodu\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida que as esp\u00e9cies tradicionalmente utilizadas como escargot (<i>Helix aspersa, <\/i>por exemplo), a esp\u00e9cie africana foi introduzida por produtores brasileiros do Paran\u00e1 e de S\u00e3o Paulo, nas d\u00e9cadas de 80 e 90. Em virtude do decl\u00ednio na demanda pelo produto, muitos produtores acabaram tendo que abandonar o neg\u00f3cio e os caramujos (adivinhe s\u00f3) foram liberados no ambiente sem nenhum cuidado (como explica este <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1676-06032010000300038\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo<\/a>). Da\u00ed, at\u00e9 chegar a 24 estados brasileiros e ao Distrito Federal, foi \u201cum pulo\u201d.<\/p>\n<p class=\"western\">Mas n\u00e3o precisamos ficar orgulhosos de nossa hospitalidade; essa esp\u00e9cie n\u00e3o \u00e9 f\u00e3 s\u00f3 das terras brasileiras, n\u00e3o. Segundo uma <a href=\"http:\/\/www.iucngisd.org\/gisd\/speciesname\/Achatina+fulica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">base de dados<\/a>\u00a0criada por um grupo internacional que estuda esp\u00e9cies invasoras, o <em>A. fulica<\/em> est\u00e1 presente em todos os continentes (com exce\u00e7\u00e3o da Ant\u00e1rtica) e \u00e9 considerado uma das 100 piores esp\u00e9cies invasoras do mundo!<\/p>\n<p>Mas, afinal, como ele consegue?<\/p>\n<p class=\"western\">O <em>A. fulica<\/em> \u00e9 origin\u00e1rio do continente africano e, por isso, muito adaptado a condi\u00e7\u00f5es r\u00fasticas de sobreviv\u00eancia, como acesso limitado a alimento e pouca chuva. Quando alcan\u00e7a ambientes com mais alimento e umidade, se adapta facilmente (\u00e9 o que chamamos esp\u00e9cie generalista). A esp\u00e9cie, como mostra o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1984-46702009000300001\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">trabalho<\/a> de uma pesquisadora paranaense, adquiriu muitas estrat\u00e9gias evolutivas eficientes, como enterrar-se completamente em per\u00edodos de seca ou entrar em um estado de estiva\u00e7\u00e3o, no qual diminui seu <strong>metabolismo<\/strong> drasticamente em \u00e9pocas de pouca oferta de alimentos, por exemplo. Mas n\u00e3o para por a\u00ed: a esp\u00e9cie \u00e9 capaz de produzir uma estrutura de sobreviv\u00eancia chamada epifragma, um tipo de membrana que impede que o indiv\u00edduo perca umidade e se desidrate em per\u00edodos quentes. Somando-se a isso sua incr\u00edvel taxa reprodutiva de at\u00e9 400 ovos por indiv\u00edduo hermafrodita (ap\u00f3s a c\u00f3pula, ambos &#8220;engravidam&#8221;) e a aus\u00eancia de predadores nas \u00e1reas urbanas do nosso pa\u00eds, o Brasil se tornou um para\u00edso para a esp\u00e9cie.<\/p>\n<h3 class=\"western\">E qual o problema?<\/h3>\n<p class=\"western\">Apesar de eles serem, para muitas pessoas, feios e repugnantes (veja a foto e decida por voc\u00ea), n\u00e3o \u00e9 o aspecto est\u00e9tico o principal problema destes bichos. Estes s\u00e3o de ordem agr\u00edcola\/econ\u00f4mica, ambiental e de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-331 alignright\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-content\/uploads\/sites\/95\/2018\/05\/27058349224_ea769eb4df_z-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"341\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-content\/uploads\/sites\/95\/2018\/05\/27058349224_ea769eb4df_z-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-content\/uploads\/sites\/95\/2018\/05\/27058349224_ea769eb4df_z.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 341px) 100vw, 341px\" \/><\/p>\n<h4 class=\"western\">Impacto ambiental<\/h4>\n<p class=\"western\">Muitos estudos t\u00eam sido feitos para avaliar a presen\u00e7a destes moluscos em \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o ambiental brasileira e os impactos decorrentes. Infelizmente, eles est\u00e3o sendo cada vez mais encontrados (veja <a href=\"http:\/\/www.aultimaarcadenoe.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/Achatina-fulica-invasora-de-UC-AS-e-outros.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/%0D\/bn\/v6n2\/v6n2a28.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>). Sua presen\u00e7a tem v\u00e1rios <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/zool\/v26n4\/v26n4a12\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">impactos<\/a>: diminui\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es de moluscos nativos, com as quais disputa alimentos; elimina\u00e7\u00e3o de brotos de esp\u00e9cies vegetais nativas, atrapalhando sua dispers\u00e3o; ingest\u00e3o por animais silvestres (como o <b>mico-le\u00e3o-dourado<\/b>), com consequ\u00eancias potencialmente negativas sobre sua sa\u00fade.<\/p>\n<h4 class=\"western\">Impacto agr\u00edcola<\/h4>\n<p class=\"western\">Nas grandes planta\u00e7\u00f5es no meio rural, o <em>A. fulica<\/em> pode causar estragos e preju\u00edzos. Entretanto, estudos indicam haver uma maior prefer\u00eancia da peste agr\u00edcola pelas unidades produtivas de menor tamanho, em \u00e1rea urbanas. A dificuldade maior est\u00e1 em como controlar a esp\u00e9cie, que consome de forma voraz principalmente folhosas.<\/p>\n<h4 class=\"western\">Impacto \u00e0 sa\u00fade humana<\/h4>\n<p class=\"western\">Muitos estudos v\u00eam relacionando o <em>A. fulica<\/em> como hospedeiro de parasitas que podem trazer graves problemas de sa\u00fade para seres humanos e animais dom\u00e9sticos (confira nestes links: <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0074-02762010000700019&amp;lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[1]<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0044-59672012000200010&amp;lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[2]<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0036-46652010000400009&amp;lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[3]<\/a>). Este \u00e9 o motivo pelo qual n\u00e3o devemos consumir e devemos mesmo evitar tocar nos caramujos africanos (caso isso aconte\u00e7a, o ideal \u00e9 higienizar muito bem as m\u00e3os com \u00e1gua e sab\u00e3o e, se poss\u00edvel, \u00e1lcool).<\/p>\n<h3 class=\"western\">Como control\u00e1-lo?<\/h3>\n<p class=\"western\">Se voc\u00ea, como eu, teve esse problema em seu quintal, hortinha, etc, existem algumas medidas de controle de pequena escala que podem ter certa efic\u00e1cia (deixo este\u00a0<a href=\"https:\/\/revistagloborural.globo.com\/Noticias\/Agricultura\/noticia\/2014\/08\/8-dicas-para-combater-o-caramujo-gigante-que-causa-meningite-e-prejuizos-na-lavoura.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">link<\/a>, onde elas s\u00e3o melhor explicadas). Est\u00e3o dispon\u00edveis, tamb\u00e9m, moluscicidas que podem resolver o problema, mas que possuem certa toxicidade. H\u00e1, de outro lado, <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1808-16572016000100212&amp;lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pesquisas<\/a> com extratos naturais e \u00f3leos essenciais que s\u00e3o bastante promissores e podem vir a substituir os produtos sint\u00e9ticos existentes, sendo aplic\u00e1veis na agricultura org\u00e2nica, por exemplo.<\/p>\n<p class=\"western\">Se o controle do caramujo n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil em \u00e1rea agr\u00edcola, imagine em \u00e1rea de mata nativa, onde qualquer interven\u00e7\u00e3o mal feita pode afetar uma dezena de outras esp\u00e9cies. Por isso, os cientistas ainda est\u00e3o quebrando a cabe\u00e7a para resolver o <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1984-46702009000300001&amp;lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">problema<\/a> nestas \u00e1reas.<\/p>\n<p class=\"western\">Observa\u00e7\u00e3o: nem todo caramujo ou caracol que encontramos no Brasil \u00e9 uma praga ou causador de doen\u00e7as; existem muitas esp\u00e9cies nativas que possuem fun\u00e7\u00e3o importante no ecossistema. Por isso, antes de matar os caramujos de seu quintal, certifique-se de que se trata mesmo do <em>A. fulica<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>\u201cComo um bichinho t\u00e3o lento, molenga e de apar\u00eancia fr\u00e1gil pode dominar um lugar t\u00e3o r\u00e1pido assim?!\u201d Foi isso que pensei quando me deparei, em <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/2018\/05\/14\/caramujo-africano-alimento-a-tormento-1\/\" title=\"Caramujo gigante africano &#8211; De alimento a tormento #1\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":130,"featured_media":330,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[2,39],"tags":[8,64,23,65],"class_list":["post-327","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alimentos","category-ecologia","tag-alimentos","tag-caramujo-africano","tag-ecologia","tag-invasoras"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-content\/uploads\/sites\/95\/2018\/05\/35756008744_0a8bc84af8_z.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/327","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/130"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=327"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/327\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":337,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/327\/revisions\/337"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-json\/wp\/v2\/media\/330"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=327"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=327"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaemsi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=327"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}