No dia 10 de novembro de 2025, iniciou-se a COP 30 no Brasil. COP é a sigla para Conferência das Partes (Conference of the Parties). Existem três COP principais: uma sobre biodiversidade, uma sobre desertificação e uma sobre mudança do clima. É esta última que trato neste texto e que teve grande repercussão jornalística no último ano.
O órgão que organiza as reuniões sobre mudança do clima é a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Como sugere a própria denominação “COP 30”, o evento já teve até o momento 30 edições, desde 1995, quando ocorreu pela primeira vez em Berlim.
A importância da conferência
As COP são importantes porque é nelas que os países negociam metas, responsabilidades e recursos frente à crise climática. Desde compromissos de redução de emissões, até financiamento para adaptação, perdas e danos e cooperação internacional. Mas elas são importantes também por algo menos mensurável e igualmente decisivo: pelo que produzem simbolicamente. Durante alguns dias, a crise climática deixa de ser apenas um problema técnico, distante ou abstrato e ocupa o centro da cena política global. Chefes de Estado, diplomatas, cientistas, organizações da sociedade civil, povos indígenas, ativistas e jornalistas se deslocam para um mesmo lugar, física e simbolicamente, reconhecendo (ainda que de forma desigual e por vezes contraditória) a existência de um problema comum que exige resposta coletiva.
Esse movimento não resolve a crise, não garante justiça climática nem assegura o cumprimento das promessas. Mas torna visível um campo de disputas em torno do clima, no qual diferentes projetos de mundo, interesses econômicos, saberes científicos, reivindicações políticas e formas de vida entram em confronto.
A COP é, assim, ao mesmo tempo um espaço de negociação concreta e um ritual político global. Nela se encena a ideia de que a humanidade é capaz (ou ao menos tenta se convencer disso) de agir conjuntamente diante de uma ameaça que ultrapassa fronteiras nacionais, gerações e territórios.
Apesar disso tudo, só fui conhecer esse evento há cerca de três anos, mesmo sendo formada em Ciências Biológicas pela UNICAMP. Imagino, portanto, que pessoas de fora da área pouco ou quase nada tenham ouvido falar dessas reuniões. Ainda assim, no último ano houve um grande movimento de discussão em torno da COP que ocorreu no Brasil, tanto pelas altas taxas de diárias em Belém durante o período da conferência quanto pelas contradições do cenário político interno brasileiro e pela presença internacional que o evento mobiliza.
Uma bióloga na COP 30
No ano passado, tive a oportunidade de participar da COP 30 em Belém como representante do Blogs de Ciência da Unicamp. Realizei a cobertura do evento em tempo real. Entrei no site da UNFCCC e me inscrevi como imprensa para cobrir o evento. Minha inscrição foi aceita nos “45 do segundo tempo”. Com medo, surpresa e as passagens compradas há semanas, num ato de confiança, fui até esse grande evento. Os vídeos, as fotos e os relatos produzidos podem ser encontrados na página do Instagram do Blogs .
A COP 30 teve grande repercussão na mídia brasileira. Os corredores da zona azul da conferência estavam repletos de pessoas com câmeras, microfones e gravadores. Elas realizavam entrevistas, produziam relatos e se comunicavam com a imprensa do mundo todo. Assim, o intuito aqui não é trazer nenhum furo de reportagem, nenhuma informação nova ou ultrassecreta (ainda mais quase dois meses depois do evento). É, sim, compartilhar reflexões e estudos de uma bióloga que ama escrever e que se aventurou, pela primeira vez, em um evento desse porte como jornalista científica.
Um olhar situado
É importante ressaltar que, para realizar a cobertura jornalística para o blog, me inspirei em ferramentas da etnografia. Ou seja, busquei nos estudos metodológicos da antropologia, a organização para um exercício de observação atenta, registro e reflexão situada sobre práticas, discursos e interações.
Uma prática de campo que articulou meus conhecimentos como bióloga que está atuando no campo da comunicação científica e é pesquisadora de doutorado.
Nas próximas semanas trarei reflexões que se esparramam no meu caderno de campo (o qual escrevi com voracidade). Mas também de conversas, entrevistas, registros fotográficos e vídeos produzidos ao longo dos dias intensos na COP. Todos esses registros partem da minha bagagem pessoal e formativa… Como mulher, filha de paraguaios, artista, bióloga, mestre, doutoranda e, agora, jornalista científica.
Este texto focará na experiência em si, nas observações feitas nos corredores e no espiar das conversas e interações.
Além disso, ao escrever agora estes textos, o olhar analítico que os orienta está maturado (e também saturado) pela sequência de eventos que ocorreram após a COP 30 no cenário da política brasileira e internacional. Para compreender melhor meus pontos de vista, convido quem lê a acessar também os seguintes textos já publicados neste blog: Meio Ambiente é conceito! e Do palco internacional ao Congresso nacional: o desafio da política ambiental brasileira.
A experiência
Neste momento quero falar da experiência da participação da COP 30. Não apenas como um experimento, ou fonte de informação. Mas, sim, uma relação, um momento de atravessamento de afetos. Segundo Larrosa (2002),
A palavra experiência tem o ex de exterior, de estrangeiro,de exílio, de estranho e também o ex de existência. A experiência é a passagem da existência, a passagem de um ser que não tem essência ou razão ou fundamento, mas que simplesmente “ex-iste” de uma forma sempre singular, finita, imanente, contingente. Em alemão, experiência é Erfahrung, que contém o fahren de viajar. E do antigo alto-alemão fara também deriva Gefahr, perigo, e gefährden, pôr em perigo. Tanto nas línguas germânicas como nas latinas, a palavra experiência contém inseparavelmente a dimensão de travessia e perigo. (Larrosa, 2002, p.25)
É interessante pois em muitos momentos me senti ali como uma estrangeira, uma bióloga se aventurando como jornalista de campo pela primeira vez. As primeiras vezes carregam significativamente a ideia de experiência, o padecer a algo desconhecido.
E foi justamente nesse lugar que minhas reflexões se tornaram significativas… Não por sua grande importância em si, mas por carregarem os sentidos próprios de uma primeira vez. Não por trazerem mais informações do que outros canais de mídia, nem por apresentarem mais conhecimentos (não tenho essa ilusão), mas pela própria posição e pelo olhar de uma pesquisadora que observa tudo com curiosidade, e não apenas no automático.
Um olhar que se deixa afetar, que se deixa deslocar, e que, por isso mesmo, talvez consiga ver coisas que passam despercebidas quando tudo já se tornou rotina.
Será que todos vão pelo clima?
No dia 17 de novembro de 2025, já na segunda semana da COP 30, comecei a me perguntar quem, afinal, estava participando daquele evento e se todos estavam ali pelo clima e pelo meio ambiente. Essa reflexão surgiu a partir do que havia acontecido alguns dias antes, em 14 de novembro, quando indígenas Munduruku realizaram uma manifestação nos portões da Zona Azul da conferência.
A manifestação teve como objetivo reivindicar a presença dos povos indígenas nos espaços onde as decisões sobre o clima são tomadas. Também buscava abrir um canal direto de diálogo com o presidente Lula, que naquele momento não estava presente em Belém. O protesto foi coletivo, articulado com outros povos e apoiadores, e aconteceu de forma pacífica: cerca de 90 pessoas formaram um cordão humano que impediu temporariamente a entrada na Zona Azul (espaço onde ocorriam as negociações oficiais da conferência). Ainda assim, o gesto carregava uma crítica forte: a de que, mesmo sendo diretamente afetados pela crise climática e pelas políticas ambientais, os povos indígenas continuam tendo pouca voz efetiva nos espaços formais de negociação.
Apesar do caráter pacífico do protesto, houve forte reação institucional. Ao chegar ao local, um grande número de militares e viaturas policiais se posicionou diante do cordão humano. A imagem de corpos indígenas bloqueando o acesso à conferência e, diante deles, policiais militares, tornou visível uma assimetria no debate ambiental: quem pode falar, quem pode circular, quem pode decidir e quem precisa interromper o fluxo para ser notado.
Muitas análises poderiam ser feitas a partir desse episódio, como a ausência sistemática de representantes indígenas da Amazônia nas principais mesas de negociação climática. Mas naquele dia uma pergunta me atravessou de modo mais forte: será que todos estavam ali, de fato, pela questão do clima?
Quanto vale um registro ?
Essa dúvida se intensificou ao observar o movimento de fotógrafos em busca do melhor enquadramento, do “registro do dia”, pouco importando em quem esbarravam ou o que precisavam atravessar para conseguir a imagem desejada. Lembrei, por exemplo, da fotografia amplamente divulgada do presidente da COP30 segurando uma criança Munduruku no colo (a foto da COP 30). Mas me perguntei: em que contexto aquela cena foi produzida? O que aconteceu antes e depois do clique? Quem foi deslocado para que aquela imagem pudesse existir?
Estar na COP era como entrar em uma sala que continha o mundo inteiro. Pessoas de todos os lugares, com diferentes roupas, idiomas, gestos, ritmos, objetivos. Às vezes isso produzia uma sensação de integração global. Mas, na prática, o que se via era uma coexistência de interesses muito distintos. Havia quem buscasse o melhor registro, quem buscasse a fala exclusiva de uma autoridade nos corredores, quem negociasse acordos em nome de Estados e empresas, quem tentasse garantir recursos naturais para sua nação e havia também quem simplesmente tentasse existir ali como sujeito político, fazendo-se ouvir por meio de manifestações, cantos e cartazes.
Como discuto no texto “Meio ambiente é conceito!”, o meio ambiente não é apenas uma realidade natural, mas um construto social: uma forma histórica e cultural de nomear, organizar e se relacionar com o mundo. E, em um contexto de vozes cada vez mais plurais (amplificadas também pelas redes sociais) esse conceito entra em disputa. Ele é tensionado, apropriado, redefinido.
COP 30: um campo de colisões
Na COP 30, isso se tornava visível a cada passo. Para alguns, o meio ambiente aparecia como território a ser administrado; para outros, como estoque de recursos a ser garantido. Havia ainda quem o percebesse como condição de existência, como vida, como casa. E, para muitos, também como oportunidade, de visibilidade, de prestígio, de ascensão profissional ou política em torno de um tema que ganhou centralidade global.
Talvez, então, a pergunta não seja apenas se todos estavam ali “pelo clima”, mas pelo quê exatamente cada um entendia quando dizia estar ali por ele. A COP não é um espaço de uma causa única, mas um campo de disputas sobre o sentido do próprio clima, da própria natureza, da própria crise.
Entre negociações, protestos, imagens, discursos e silêncios, a COP se revela menos como um lugar de consenso e mais como um lugar onde diferentes mundos tentam, ao mesmo tempo, caber e muitas vezes colidem. E talvez seja justamente nessa colisão que possamos enxergar com mais clareza não apenas a crise climática em si, mas os modos profundamente desiguais com que tentamos governá-la.
Para saber Mais
Do palco internacional ao Congresso nacional: o desafio da política ambiental brasileira
Em protesto pacífico, indígenas Munduruku cobram participação na COP30
LARROSA, Jorge Bondia (2020). Notas sobre a experiência e o saber de experiência, Rev Bras Educ, Rio de Janeiro, n19, p20-28.



