A arte sempre foi uma poderosa ferramenta de resistência, especialmente em tempos de crise política e social. Ela desempenha desde sempre um papel crucial na denúncia das injustiças históricas e contemporâneas, tornando-se um meio de mobilização e conscientização popular. Neste texto, defendo que a luta latino-americana é uma luta intrinsecamente ambiental.
Esse cenário se intensificou com o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, em 2025, reacendendo tensões geopolíticas e novos desafios regionais.
Em 17 de março de 2022, Residente, ex-integrante do grupo Calle 13, lançou o videoclipe This is Not America. A obra é um grito de resistência contra as violências sofridas pelos povos latino-americanos e contra o imperialismo estadunidense. O clipe evoca figuras históricas da luta social, como Lolita Lebrón, Víctor Jara e Túpac Amaru. Além disso, a obra dialoga com políticas contemporâneas, pois se refere ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Seu impacto visual e simbólico é intenso, demandando reflexão e preparo emocional.
Esse cenário de tensão política e simbólica se aprofunda em 2025, com o recrudescimento de discursos ultranacionalistas e xenófobos, sobretudo nos Estados Unidos, mobilizando artistas latino-americanos contra políticas de exclusão e exploração. E é nesse contexto que Bad Bunny lança seu álbum Debí tirar más fotos (DtMF) e celebra a cultura latino-americana, em especial do Porto Rico.
Atravessamentos de uma pesquisadora
Fui atravessada por múltiplos afetos ao assistir ao videoclipe de This is not America. A partir desse atravessamento, poderia escrever inúmeras análises sobre o videoclipe. Opto, porém, por uma imagem específica: um homem branco à mesa, com bandeiras do Brasil e uma criança indígena observando. Uma alusão direta ao governo Bolsonaro e às políticas de destruição ambiental.
Na mesma direção, DtMF, de Bad Bunny, celebra suas raízes, e o impacto de seu trabalho em mim fortalece a minha luta contra os colonialismos na minha própria prática científica. DtMF é uma ode à cultura latina, um grito de EXISTÊNCIA em uma máquina de governo que quer nos eliminar, até não termos mais voz.
Não à toa é tão revolucionário e importante que justamente esse álbum tenha ganhado o Grammy Awards de melhor álbum do ano em 2026, em meio às ondas de ataques aos imigrantes nos Estados Unidos.
Permanência e memória
“Aquí estamos, siempre estamos. No nos fuimos, no nos vamos.”
A frase acima, da música This is not America, remete à afirmação que abre o documentário A Última Floresta, de Davi Kopenawa Yanomami e Luiz Bolognesi:
“500 anos do primeiro homem branco chegar os Yanomami já estavam aqui.”
A partir dessas análises, podemos ver que ambas as obras denunciam a invasão e o saque dos territórios latino-americanos, não apenas de suas riquezas naturais, mas também de suas culturas e identidades. Enquanto Residente critica a apropriação do nome “América” pelos Estados Unidos, apagando o restante do continente, Kopenawa busca sensibilizar os brancos sobre a realidade Yanomami, despertando afetos que mobilizem a defesa de seus direitos.
Essa relação leva a uma conclusão essencial: a luta pelo reconhecimento latino-americano é, necessariamente, uma luta ambientalista.
A destruição de florestas, rios e comunidades é também a destruição de histórias, culturas e modos de vida.
Lo que le pasó a Hawai
Essa conexão se reflete nos versos de Lo que le pasó a Hawai:
“En el verde monte adentro, no se puede respirar
Las nubes están más cerca, con Dios se puede hablar
Se oye al jíbaro llorando, otro más que se marchó
No quería irse pa’ Orlando, pero el corrupto lo echó
Y no se sabe hasta cuándo
Quieren quitarme el río y también la playa
Quieren el barrio mío y que abuelita se vaya
No, no suelte’ la bandera ni olvide’ el lelolai
Que no quiero que hagan contigo lo que le pasó a Hawái.”
A música expressa o sofrimento do povo porto-riquenho diante da perda de seu território e da constante ameaça à sua permanência. A especulação imobiliária, impulsionada pelo turismo e pelo interesse estadunidense, não é apenas uma questão econômica. O deslocamento forçado gera um esvaziamento populacional e cultural, enquanto influências externas avançam sobre a ilha, ameaçando suas raízes.
Uma frase que merece destaque é: “Las nubes están más cerca, con Dios se puede hablar”. Longe de representar apenas uma imagem espiritualizada da natureza, o verso sugere um mundo em colapso, no qual o céu se aproxima porque a terra já não sustenta a vida. A impossibilidade de respirar, mencionada no início da canção, indica que essa proximidade com o divino não é fruto de transcendência, mas da destruição do território.
Essa mesma ideia atravessa A Queda do Céu, de Davi Kopenawa e Bruce Alberts, quando o autor afirma que nenhuma mercadoria é capaz de restituir o valor de uma floresta doente ou devolver aos espíritos seus mortos.
“Nada é forte o bastante para poder restituir o valor da floresta doente. Nenhuma mercadoria poderá comprar todos os Yanomami devorados pelas fumaças de epidemia. Nenhum dinheiro poderá devolver aos espíritos o valor de seus pais mortos.” (KOPENAWA, ALBERTS, 2015, p. 355).
Em ambas as obras, a devastação ambiental não aparece como um problema técnico ou econômico, mas como uma ruptura profunda das relações que sustentam o mundo.
Quando o território é destruído, não é apenas o chão que desaparece é o próprio céu que ameaça cair. Ambos denunciam uma mesma lógica colonial: aquela que transforma a terra em mercadoria e ignora que a vida depende de vínculos entre humanos, natureza, memória e espiritualidade.
No álbum, Bad Bunny reforça um sentimento crucial: os porto-riquenhos não querem deixar seu território, mas são impelidos a isso.
A conexão com o território não é apenas geográfica; ela molda práticas, memórias e afetos.
Criar raízes é um ato de resistência.
Em Pertencimento: uma cultura do lugar, bell hooks faz uma poderosa reflexão sobre a importância da conexão com o território, seja através do trabalho, do cotidiano, das histórias e da memória.
“Regozijar-se com a abundância e o belo da natureza tem sido uma das formas encontradas por pessoas pobres esclarecidas ao redor do mundo para manter contato com sua bondade intrínseca mesmo quando forças do mal, através do capitalismo corrupto e do consumismo hedonista, tentam todos os dias romper com seus laços com a natureza.” bell hooks, 2022, p. 162
A defesa do meio ambiente deve ser, antes de tudo, a defesa dos que sempre estiveram aqui.
Por isso, qualquer proposta de educação ambiental que ignore a luta dos povos originários, quilombolas e ribeirinhos está fadada a reforçar um discurso vazio e ineficaz.
Trumpismo e a Força dos Artistas Latino-americanos
Já em 2025, com o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA sob o lema “América Primeiro”, assistimos a novas ondas de xenofobia, deportações em massa e sanções econômicas contra países da América Latina. Nesse primeiro ano do segundo governo Trump, o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) ganhou força, espaço, e poder de prender cidadãos latinos, sem mandado, com armas e violência.
Em janeiro de 2026, essas forças estão cada vez mais recrudescidas.
Donald Trump declarou guerra aos latinos.
Uma das ações mais cruéis e amplamente noticiada do ICE foi o aprisionamento de um menino de 5 anos que voltava da escola. Diante desse cenário, torna-se inevitável questionar: a investida estatal se dirige, de fato, à imigração ilegal ou configura uma política de perseguição racial e étnica que transforma pessoas latinas em alvos permanentes de controle, violência e exclusão?
É neste contexto que artistas latino-americanos emergem como vozes fundamentais de resistência.
Esse movimento artístico fortalece uma narrativa que liga as mudanças climáticas às injustiças históricas do colonialismo. Ao resgatar histórias e identidades, essas canções se tornam instrumentos de mobilização social. Músicas como as de Residente e Bad Bunny resgatam a história da resistência latino-americana, denunciam desigualdades e inspiram movimentos populares. A arte, nesse contexto, é uma ferramenta essencial na luta por justiça climática e pelo reconhecimento de culturas que foram sempre marginalizadas.
Arte e Educação Ambiental
Educação Ambiental como espaço de passagem
A arte tem o poder de despertar afetos e mobilizar consciências, tornando-se uma aliada fundamental na construção de uma educação ambiental crítica e transformadora. Mais do que ensinar práticas comportamentais isoladas, como separar o lixo ou cultivar hortas, a educação ambiental precisa criar sentidos, provocar reflexões e engajar emocional e politicamente aqueles que dela participam. É necessário criar uma força coletiva frente às investidas contra o meio ambiente.
Nesse contexto mais amplo, as questões ambientais estão intrinsecamente ligadas a processos históricos, sociais e culturais. Além disso, a degradação dos ecossistemas não pode ser dissociada das relações de poder, do colonialismo e da desigualdade social. Diante desse cenário, a arte se torna uma ferramenta potente para aproximar as pessoas dessas realidades, criando pontes entre vivências individuais e lutas coletivas.
Nesse sentido, Larrosa (2002) afirma que, em espanhol, “experiência” é “o que nos passa”. A partir dessa compreensão, pode-se pensar a educação ambiental como um espaço de passagem, no qual os eventos nos atravessam e nos transformam. Nesse caso, a arte torna-se essencial para que essa experiência ocorra. Dessa forma, uma canção, um filme, uma pintura ou uma performance podem provocar conexões sensíveis com temas ambientais que, de outro modo, pareceriam abstratos ou distantes.
Narrativas de resistência
Além disso, a arte permite dar voz a narrativas frequentemente marginalizadas. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outros grupos tradicionais têm utilizado a linguagem cinematográfica, e musical, para relatar sua relação com a terra, denunciar ameaças aos seus territórios e afirmar suas identidades (quero indicar aqui o documentário A última floresta de Davi Kopenawa e Luiz Bolognese). Canções como as de Residente e Bad Bunny, ao resgatarem a história da resistência latino-americana, retomam a arte como um meio de reivindicação política e de fortalecimento de identidades.
Diante da urgência da crise climática, não basta apenas informar; é preciso sensibilizar e engajar. A arte, ao despertar afetos e criar experiências significativas, têm o potencial de transformar percepções e impulsionar ações concretas em defesa do meio ambiente.
Conclusão
As mudanças climáticas não são apenas uma questão ambiental, mas também social e política, pois envolvem relações históricas de poder e desigualdade. A repressão impulsionada por governos como o de Trump se intensifica por causa de projetos ultranacionalistas e excludentes. Contudo, a arte se apresenta como um meio poderoso de denúncia e transformação ao conectar memória, identidade e luta por justiça. Em suma, a resistência ambiental latino-americana depende também da força simbólica e política da arte.
Se queremos um futuro sustentável, não podemos dissociar a preservação ambiental da luta contra colonialismos e desigualdades. A terra é mais do que um recurso: é um espaço de vida, de memória e de pertencimento. E é na arte que encontramos um dos mais potentes instrumentos para reivindicar nosso direito de existir e resistir.
E você, quais outras produções artísticas acredita que podem nos ajudar a pensar a questão ambiental?
Para saber mais:
Livros
HOOKS, bell. Pertencimento: uma cultura do lugar. Tradução de Jamille Pinheiro Dias. São Paulo: Elefante, 2022.
KOPENAWA, Davi; ALBERTS, Bruce. A Queda do Céu: Palavras de um xamã yanomami. Companhia das Letras, São Paulo, 2015.
LARROSA, Jorge Bondia (2020). Notas sobre a experiência e o saber de experiência, Rev Bras Educ, Rio de Janeiro, n19, p20-28.
Músicas
This is Not America, Residente (2024). https://www.youtube.com/watch?v=GK87AKIPyZY.
Lo que le pasó a Hawai, Bad Bunny (2025). https://www.youtube.com/watch?v=_Gvac5Y4UCI,
Notícias
Trump reforça postura de “América Primeiro” durante discurso em Davos (2025)
‘The beaches belong to the people’: inside Puerto Rico’s anti-gentrification protests (2022)



